domingo, 30 de outubro de 2016

Vontades e conspirações

Nos últimos dias uma coisa tem me preocupado muito: o fato de tudo estar dando errado mas eu não conseguir delimitar o motivo por detrás disso...

Primeiramente eu acho que nem sequer estou mais vivendo uma farsa. Acontece que cheguei a tal estado de infelicidade que já não consigo mais esconder isso dos outros. É algo que se tornou visível em meu semblante. 

Eu sei que tem algo de muito, muito errado comigo. Sei que nem de perto eu sou como as outras pessoas. Que algo em mim afasta a todos, e no entanto eu não sei dizer o que é.

As possibilidades são tantas... Pode se tratar de minha aparência (afinal, quem iria querer um ogro de 48 kg enquanto pode ter qualquer outro cara desse mundo?), meus dramas constantes, minhas mudanças repentinas de humor, minhas neuras, paranoias (qual a diferença?), meus ciúmes, ou muito provavelmente minha carência exagerada. O que há dentro do meu universo interior que assusta tantos os outros? 

O fato é que pode ser tudo isso, ou algo que eu não esteja entendendo, que ainda não esteja óbvio, mas que aos outros o é, com toda a certeza. Do contrário não seria tão difícil pra mim me aproximar de outras pessoas. 

Talvez eu simplesmente não tenha sido criado para viver com outra pessoa. E isso seja algo que está fora de minhas forças modificar. Talvez eu não devesse tentar lutar tanto contra algo que já foi decidido pelo próprio universo. Talvez as coisas devam ser assim e não importa o que eu faça, nada vai mudar.

As pessoas vão sempre nos decepcionar em algum momento. Nós vamos falhar, com toda certeza, várias e várias vezes ainda. São verdades da vida que devemos aceitar. Não é porque eu amo alguém que essa pessoa me amará. Não é porque minha amizade é sincera que a dos outros também será. Nada acontece de acordo com as nossas vontades. O mundo continua a girar independentemente dessa vontade. 

Vontade

Nossas vontades são apenas ímpetos que nascem dentro de nossos corações e se moldam em desejos. São baseado em hormônios ou sentimentos, mas em qualquer caso sempre são inúteis. Ter vontade de fazer algo ou ter vontade de algo aconteça não necessariamente significa que vá acontecer. Muito pelo contrário, do pouco que conheço da vida diria até que é mais provável que não aconteça. 

Parece até que o universo inteiro conspira para nossa desgraça. Como se nada pudesse dar certo para algumas pessoas. 

Talvez seja necessário um constante equilíbrio no mundo. Nem todos podem ser felizes ao mesmo tempo e por isso alguns devem viver numa constante desgraça enquanto outros são felizes. Tudo bem se as coisas são assim, não poderia mudar uma lei do universo mesmo, mas ainda assim gostaria de respostas. 

Sim, respostas pois a aflição constante já está fazendo com que eu chegue ao meu limite. Eu cheguei ao ponto de desejar acabar com esse sofrimento a qualquer custo. Cheguei a desejar a morte. E admitir isso é algo doloroso também. 

Doloroso pois é admitir que ninguém me entende a ponto de me explicar os motivos por detrás de tudo isso. Todas as pessoas vivem em universos tão distantes do meu que a todos parece que sofro por vontade própria. Ninguém é capaz de entender de verdade o que se passa comigo. Doloroso pois todos os sentimentos que nascem dentro de mim se dispersam no momento exato que saem de mim em direção ao outro. Doloroso pois por mais que eu ame, não consigo me sentir amado por quem gostaria. 

Por isso cheguei ao extremo de desejar deixar de existir. Como o covarde que sou eu desejo fugir, apenas isso. Fugir para deixar de sofrer. Sei que nem de longe é a forma correta de se encarar as dificuldades da vida, mas ainda assim é a única forma que consigo lidar com isso. 

Só cheguei a esse ponto pois já não enxergo outra solução. Não vejo uma forma de conseguir sair dessa situação. A todo instante, onde quer que eu olhe, só vejo o que não quero e fico a sonhar com realidades que nunca existirão... 

Nada é real, e o que é real é apenas a dor... 

Dor. 

Dor e mais dor.

A realidade é apenas dor.

É por isso que eu desejo o fim de toda essa dor.

É covardia não querer mais sofrer? 

Pois mesmo que seja, pode me chamar de covarde. 

Eu não aguento mais essa dor que tem sido viver de amor.

sábado, 29 de outubro de 2016

Se fosse possível...

Admito, já estou a várias horas tentando te escrever essas palavras mas tudo o que eu ainda tenho é uma página em branco na minha frente. Acontece que não tenho ideias para escrever sobre nada pois só tenho uma coisa em mente: 

Você!

Já deve ter percebido que você está sempre em minhas listas de prioridades. Mesmo que eu esteja longe de todo o mundo, me afastando de todos quantos possam me machucar, você nunca está entre eles. Isso porque eu posso até desejar um mundo sem ninguém, mas não consigo conceber nem sequer a ideia de um mundo sem você.

Já notou também que o coloco acima de todos os outros amigos e até de minha família. Você não gosta disso, pois sabe que em minha mente eu alimento um sentimento que não deveria, mas continuo o fazendo assim mesmo. Insiste em me dizer que devo me aproximar mais dos outros também, mas uma coisa você não é capaz de entender: depois que entrou em minha vida, os outros passaram a ser só os outros e nada mais. 

Eu sei o quanto essa é uma atitude perigosa. Sei que eu não devia fazer isso pois, quando você for embora, como todos os outros, eu ficarei sozinho novamente. É apenas uma questão de tempo você se cansar de mim e me deixar pra viver uma vida onde não tenha de me suportar, sendo difícil como sou. 

Sei que isso será a causa do meu sofrimento quando tudo acabar e até nossa amizade se tornar apenas uma sobra vazia e fria do que já fomos um dia. 

Eu temo por esse dia, e rezo para que ele nunca chegue. Rezo para que você nunca saia do meu lado. Mesmo sabendo que isso é só uma questão de tempo, e como nada é para sempre, nós também não seremos. Um dia você vai me deixar, e nesse dia eu vou amaldiçoar mais uma vez meu destino, como se a culpa não fosse minha. Nesse dia eu sentirei em meu peito um vazio do seu tamanho. Nele ficará apenas o buraco de onde você fora arrancado e claro, as marcas de sangue do meu coração que mais uma vez morrerá em nome de suas fantasias. 

Você disse que se sentiria mal se eu deixasse de viver em razão do que sinto. Mas se esqueceu é justamente o contrário, eu estou exatamente vivendo como manda meu coração, em razão de sua existência.

Mas sua ausência me causa feridas tão profundas. 

Ficar tanto tempo sem te ver, sem te tocar, é uma abstinência horrível. É simplesmente como se tirassem todas as estrela do céu e o impedissem de brilhar a noite. Como se tirassem a cor e o perfume das flores, sobrando apenas uma casca vazia, sem nenhuma vida. Assim eu me sinto em sua ausência. 

Quando você está prestes a aparecer eu digo e juro para mim mesmo que irei me controlar, mas não é suficiente. Basta você aparecer pelo batente da porta para todas as minhas barreiras serem jogadas ao chão. Sua presença é suficiente para me derrubar completamente, e para reorientar a minha órbita. 

Quando você está próximo de mim todo o meu mundo passa a girar ao seu redor. Acontece que é apenas um reflexo de como o meu coração está todo o tempo. Não há uma hora sequer do dia que eu fique sem pensar em você. Não há um só dia em que eu não fique a sonhar com seu beijo, e não há um só momento em que eu não deseje ser apenas seu, e ter você comigo. Sei também que não devia ter permitido que as coisas chegassem onde chegaram. Você é como um fruto proibido. Não deveria nem sequer cogitar a possibilidade de ter você comigo. Mas eu ignorei essa proibição.

Isso se tornou o meu tudo. 

Você se tornou o meu tudo. 

Minha razão de ser, existir e viver. 

E por isso tenho sofrido, poise sei que não deveria ser assim. Deveria ser por outra razão. Deveria existir por outra razão e deveria viver por outra razão, mas escolhi você, e essa escolha será a causa da minha desgraça. Quando tudo ruir, e você for embora de vez de minha vida, deixando-me sozinho e me privando não só de seu amor mas também de sua presença, essa decisão vai rir-se da minha cara, pois como um tolo eu caminhei por livre e espontânea vontade ao matadouro. Mas é também por livre e espontânea vontade que te amo. E mesmo sabendo não ser recíproco, continuarei te amando, até que chegue o dia em que eu não poderei mais alimentar tal sentimento.

Mais uma vez eu sei que esse dia chegará. Não se trata de uma questão de pessimismo mas apenas de realidade. Um dia chegaremos ao nosso limite e você vai caminhar por outro caminho, sem que eu possa andar ao seu lado. Até lá, eu só posso me esforçar para fazer dos nossos momentos os melhores tanto quanto for possível. E rezar para que esse dia nunca chegue, ou que ao menos tarde a chegar. 

Eu te amo e espero que nunca precise te dizer que "eu te amei", no passado, mas que eu possa repetir isso todos os dias, no presente, por um futuro indeterminado. Oh, como seria feliz se isso fosse possível!

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Chega de Saudade

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe, numa prece, que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

Mas, se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim

Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim.

(Vinicius de Moraes)

Bomba relógio

Eu sei que eu não deveria estar triste assim. Sei que para qualquer outra pessoa o que estou passando nada mais é do que o fruto da árvore que eu mesmo plantei. Nada mais é que do que a consequência da decisão que tomei. 

A partir do momento em que decidi dentro de mim que permitiria que aquele sentimento tomasse conta de meu coração o meu destino foi traçado. Esse sofrimento era inevitável, e no entanto eu sabia bem disso. 

Sabia mas fingia não saber. 

Como se eu tivesse construído dentro de mim uma bomba relógio. Sim, essa é a melhor comparação. E essa bomba por muito tempo pareceu nem existir, mas quando explodiu, lançou estilhaços por todos os lados e destruiu tudo, absolutamente tudo o que havia dentro de mim. 

Que sofrimento é esse de que tanto falo? É o de não me sentir amado. E note que disse "não me sentir" e não de "não ser amado". Essa é a diferença. Sou amado, e muito. Mas não da forma como gostaria, não da forma concebida pela minha pequena mente distorcida. E essa é a causa de minha dor. 

Sim, é bobagem. Uma grande bobagem. Mas essa é a minha dor. Não é nada se comparada com outras dores, mas ainda assim é ela que tem me impedido de levar uma vida feliz e normal, é tudo culpa dessa dor. É tudo minha culpa.

Mas eu deveria estar feliz. Deveria ser essa uma preocupação a menos, mas parece ser justamente o contrário, quanto mais eu deveria pensar assim, mais eu penso justamente o contrário. Mais eu permito que essa dor tome conta de mim.

Olhando para meu interior agora eu não vejo mais as sete cores do arco-íris, eu só vejo uma matiz cinza. Triste e melancólica. Como manchas que tomam conta de tudo, e que me fazem esquecer o que são as cores. Por isso tudo o que faço é chorar. Por breves momentos parece que as lágrimas são capazes de por para fora as coisas ruins que tem no meu interior. Mas tão logo elas cessam a dor retorna totalmente, ainda mais forte do que antes. Talvez eu não deva deixar de sofrer tão cedo. Talvez o mundo queira que eu sofra mais um pouco. Talvez haja ainda uma lição a ser aprendida. 

E eu continuo a alimentar todas essas coisas. Correndo para atender quando alguém me chama, na esperança de que um milagre possa acontecer. Olhando pelas janelas, esquinas e calçadas, esperando vê-lo em algum lugar, mesmo sabendo que ele não estaria num lugar como esse. E isso me entristece, pois na minha pequena mente incompreensiva meu amor deveria ser capaz de alcançar a todos. Deveria ser capaz de realizar milagres, de fazer todos se sentirem bem perto de mim. Mas é justamente o contrário, esse amor tem agido como uma espécie de fumaça venenosa, matando a mim e a todos ao meu redor. Não tem sido algo bom, ou agregador, apenas destruidor. 

Apenas destruidor.

Uma campainha a menos para atender
Um ovo a menos para fritar
Um homem a menos para cuidar
Eu deveria estar feliz
Mas tudo que eu faço é chorar

Choro, choro, não há mais riso  (Oh, eu deveria estar feliz)
Oh, por que ele partiu?
Eu só sei que desde que ele partiu
Minha vida ficou tão vazia
Mesmo que eu tente esquecer
Eu simplesmente não consigo
Toda vez que a campainha toca, eu ainda corro

Eu não tenho a menor ideia
De como parar de pensar nele (Eu deveria estar feliz)
Porque eu ainda o amo tanto
Eu termino cada dia como comecei (eu começo e termino cada dia chorando)
Chorando com o meu coração

Uma campainha a menos para atender
Um ovo a menos para fritar
Um homem a menos para cuidar
Não há mais riso
Não há mais amor

Desde que ele partiu
Desde que ele partiu

Ooohhh

Uma cadeira ainda é uma cadeira
Mesmo quando não há ninguém sentado lá
Bem, eu não quero viver sozinha
Transforme essa casa em um lar
Quando eu subir as escadas e virar a chave
Ohhh, por favor, esteja lá ....
Ainda apaixonado por mim

Uma campainha a menos para atender
Toda vez que a campainha toca, eu ainda corro
Um homem a menos para cuidar
Sem mais riso
Sem mais amor ...

Desde que ele partiu
Desde que ele partiu

Tudo o que eu faço é chorar.

(Tradução de um medley de One Less Bell To Answer e A House Is Not a Home de Burt Bacharach)

Quando você...

Quando você estiver triste, com o coração cheio
de mágoas, me procure. Se eu não puder ajudar,
prometo que tomarei um bom porre com você
e xingarei todos que te deixaram assim!
Quando você estiver feliz e quiser comemorar,
me procure. Se eu não puder ser aquela banda
que você deseja que toque, posso fazer muito
barulho, assobiando, gritando, cantando
e batendo as tampas da panela!
Quando você estiver pra baixo, me procure.
Posso não conseguir levantar seu astral,
mas prometo fazer de tudo para que
você não caia ainda mais!

Quando você estiver com medo de alguma coisa, 
me procure. Prometo que vou tirar um sarro da
sua cara, vou me virar do avesso de tanto
rir e você vai criar coragem na hora!
Quando você quiser choramingar pelos cantos,
me procure. Prometo contar muitas histórias 
horrorosas, uma pior que a outra e você
vai acabar com essas frescurinhas 
no mesmo instante!
Quando você estiver com uma confusão muito
grande na sua cabeça, me procure. Prometo
explicar minuciosamente o quanto você
não entende nada vezes nada!
Quando você começar a se irritar, por achar que
tudo que faço, é só para te irritar, me procure.
Então, nessa hora, farei você entender que
eu estou simplesmente querendo roubar
um sorriso seu, apenas porque:
Adoro você!

(Autor Desconhecido)

Mais um daqueles textos bonitinhos que eu encontro por ai e resolvo colocara aqui por motivos de que não tenho nada melhor pra fazer...

É assim que eu costumo agir na maior parte  do tempo, tentando agradar quem eu amo. Mas agora, nesse exato momento, tem sido diferente, eu não tenho conseguido sequer falar com a pessoa que amo, com medo de a magoar, e com medo de me magoar.

Acontece que eu sinto que tenho sido incompreensivo demais, e que tenho descontado demais nas pessoas as minhas frustrações pessoais, e por ser ela uma das pessoas mais próximas de mim, é talvez a que mais sofra com minhas loucuras.

Mas quem ama age dessa forma mesmo, seja para o bem ou para o mal da pessoa amada. Não dizendo que alguém que ame possa fazer algum mal proposital a amada, mas que acaba fazendo sem o querer.

É próprio de quem ama cuidar, dar atenção. Fazer rir quando se está triste, acompanhar nas loucuras. É próprio de quem ama zelar pela pessoa amada.

É próprio de quem ama cuidar.

E também as vezes é próprio de quem ama se afastar. Afastar-se para evitar fazer o outro sofrer, afastar também para evitar sofrer.

Não raramente a dor de um amor é tão grande que não cabe apenas no coração e acaba transbordando, Quem nunca ficou "doente de amor"? É assim que o corpo transfere para si a dor que antes somente o coração aguentava. É belo ver o companheirismo do corpo com o coração, mas é também triste ver alguém sofrendo por amor.

Sim pois por mais que o mundo esteja repleto de dor e desgraça como a fome, as doenças e tudo mais, a dor do amor terá sempre lugar especial no hall da dores, isso porque ela é, na maioria das vezes, fruto de nossas próprias escolhas. Por mais que alguém decida nos deixar ou trair, a decisão de amar essa pessoa ou não é nossa. Por ser um sentimento tão poderoso ele só pode ser construído, logo, a decisão de permitir que ele tome nosso coração ou não é nossa.

Mas afastar-se para evitar a dor do amor é também uma atitude contraditória, pois afastamos uma dor com outra, talvez maior, pois quem ama sabe o quanto dói ficar longe da pessoa amada.

Novamente volto a citar Shakespeare, que disse que "Todos conseguem compreender uma dor, exceto quem a sente." Ele aqui diz compreender no sentido de suportar. Ora, de fato todos conseguem falar em suportar o sofrer por amor, exceto que está sofrendo, que na maioria das vezes está definhando por dentro, tentando se mostrar forte por fora. Já aqueles que já demonstram no exterior o que sentem alcançaram o mais alto grau de dor, e estão doentes de amor.

Se alguém nunca sofreu por amor, é porque ainda não amou de verdade. Não que o amor seja o responsável pelo sofrimento, mas porque é próprio de quem ama sentir demais, e consequentemente sofrer demais. 

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A Felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade é uma coisa boa
E tão delicada também
Tem flores e amores
De todas as cores
Tem ninhos de passarinhos
Tudo de bom ela tem
E é por ela ser assim tão delicada
Que eu trato dela sempre muito bem

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor.

(Vinicius de Moraes)


Vinicius foi muito feliz em sua primeira afirmação... As tristezas da vida não tem fim, apenas as alegrias encontram um findar ao término de um percurso...

É comum as pessoas se habituarem as alegrias, e se acomodarem a esse estado. No entanto, quando surgem as adversidades da vida, e as alegrias são destruídas, como um castelinho de areia é derrubado pela maré numa praia revolta, as pessoas caem no desespero. 

Podemos sofrer durante uma vida inteira, ao menor sinal de que o sofrimento se foi, mergulhamos de cabeça nas alegrias e nos esquecemos de tudo o que aprendemos com ele. Na verdade o sofrimento não se vai, apenas se esconde, assume outra forma, adormece, mas ele nunca desaparece completamente. Já a felicidade sim. 

As alegrias são todas breves, efêmeras, como bem disse o autor, voam como plumas ao vento. E assim acontece com tudo de bom que tentamos reter para nós. Principalmente quando falamos de pessoas. Sempre que alguém começa a nos fazer bem, e começamos a nos sentir confortáveis perto dessa pessoa, o destino dá um jeito de a retirar de nós. 

Penso que essa seja uma pedagogia de ferro. Uma forma de nos ensinar a não nos apegar a nada. O sofrimento constante já nos ensina a ter força e a suportar com virilidade as adversidades, e logo não cair de tristeza quando as alegrias voarem com o vento.

Mas dificilmente aprendemos essa lição. Pelo contrário, continuamos insistindo em tentar reter o que nos faz bem, mesmo sabendo que a alegria é livre e não pode ser mantida nos cativeiros de nossos braços. 

E infelizmente a alegria continua sendo assim, fugaz. Superamos todos os sofrimentos, todas as adversidades, aprendemos a conviver com as dores, para aproveitar apenas alguns breves momentos de alegria, momentos que se acabam com a mesma rapidez com que chegam. 

Mas a felicidade, mesmo passageira, tem em si uma beleza que nada no mundo pode igualar. O poeta a compara a delicada beleza de uma flor, e do orvalho que brilha suavemente em sua pétala. Essa é uma forma delicadíssima de dizer que no mundo, não há beleza mais pura que a da felicidade. Para ele, sua felicidade reside em observar sua namorada dormir.

Penso então em minha felicidade...

Minha felicidade tem um sorriso sincero e sagaz. Um sorriso que é capaz de quebrar as barreiras mais fortes que eu possa erguer. Um sorriso que me faz derreter e capaz de transformar o meu dia mais cinza num ensolarado domingo de verão. Um sorriso tão belo quanto aquela gota de orvalho brilhando delicadamente numa pétala de rosa.

Minha felicidade tem um cabelo negro como o ébano, que as vezes cai sensualmente despenteado por sobre a testa. Essa visão é pra mim uma tela pintada pelas mãos da própria deusa da beleza, algo que só ela poderia conceber em perfeição e graça. Uma beleza tão profunda que chegou a despertar até mesmo a inveja de Apolo, aquele que era o simbolo da beleza masculina. Mas a beleza de Apolo nem sequer se aproxima da beleza da minha felicidade.

E por falar em deuses, minha felicidade parece ter algum tipo de parentesco com a deusa da sabedoria, Atena, pois mesmo sendo uma felicidade jovem, se mostra muito mais sábia e madura do que eu jamais serei.

Me atreveria a dizer que minha felicidade foi uma criação dos deuses num momento de embriaguez, em que cada um imprimiu nela o que tinha de melhor. Atena lhe deu sua sabedoria, Afrodite e Apolo sua beleza, Artêmis sua coragem e Zeus sua presença poderosa, que traz a atenção de todo o mundo para si... 

E assim é minha felicidade...

Mas como não poderia deixar de ser, minha felicidade é passageira. E como a pluma ela também vem, flutua a minha frente e logo segue seu caminho, rumo ao infinito. 

Me deixando sozinho... 

Somente a observar o céu para onde ela voou, e imaginando quando ou se um da voltará... 

E assim é minha felicidade!

O Anjo

E parece que finalmente os tentáculos gelados da loucura cruzaram os umbrais de minha residência... Sinto como se os últimos traços de sanidade tivessem fugido de mim, e me abandonado nesse oceano de caos, dor e sofrimento.

Já não tenho mais forças para nada. Seja para estudar, comer ou me relacionar. Cheguei ao meu limite, e no entanto, ainda não morri e nem tampouco consegui me recuperar. 

Milhares de problemas assolam minha cabeça e não sei como resolver nenhum deles. Não consigo dizer a ninguém a totalidade de tudo isso pois por mais que eu tente, nada faz sentido. 

Minhas palavras saem embaralhadas de minha boca, como se tivesse perdido a capacidade de me comunicar verbalmente, e muito embora esteja escrevendo aqui, tenho minhas dúvidas se o que tenho dito faz algum sentido.

Me encontro atribulado por vários e vários sentimentos conflitantes.

Amor. 

Apego. 

Ódio. 

Paixão. 

Tudo se mistura e tudo tenta sair de dentro de mim ao mesmo tempo, e no entanto eu só consigo ouvir os gritos desesperados de meu coração que nãoo consegue mais suportar tanta coisa.

Não consigo mais aguentar a pressão pra conseguir um emprego e adquirir independência. Não consigo amar meu namorado como ele merece. Não consigo deixar de amar quem não merece. Fico pensando em quem se foi, e em quem está indo... E tudo isso aflora junto, gritando, aos berros, me levando a loucura.

Não consigo comer nada já há três dias e mal tenho bebido também. Minha aparência é de alguém que passou o dia chorando, e de fato é só o que tenho feito. 

Alguns dizem que  preciso de terapia, outros que preciso ser internado. Eu já nem sequer tenho forças para saber o que é melhor pra mim. Minha única vontade é de ficar deitado, esperando o tempo passar até que a morte chegue. Não há mais sentido em continuar a viver. Não tenho mais motivos para lutar. 

Estou sozinho num universo desconhecido, que no entanto não é o mundo que construí. Ou talvez seja, depois do Apocalipse. Mas aqui não há nada nem ninguém.

Só o vazio da minha própria alma. 

O homem que amo não sente nada por mim. Não consgio amar como deveria o homem que me ama, embora o ame. Meu amigo me deixou e hoje me trata como um estranho. O mundo tem barulho demais, e eu não consigo pensar em nada, só em como tudo está desmoronando sem que eu possa fazer nada para impedir. 

Mas esse desmoronar não é aquele que eu desejei. Não era para ser assim. Eu desejei voltar ao nada, eu desejei a inexistência. Não desejei um mundo de dor e horror. Esse não é o útero primitivo do qual saímos muito tempo atrás, isso é só sofrimento. É só um mundo feio.

Não era pra ser assim...

Minha voz não alcança ninguém. Por mais que eu grite até que minha garganta sangre ele não me houve. Ninguém me houve. Eu estou sozinho, e a sensação é horrível. 

Não sei quantos dias ainda me restam... não creio que meu corpo irá suportar por muito tempo pois já sinto as fibras de meus músculos se dissolverem. Não tenho conseguido andar direito, tenho ficado cansado com frequência, sentido mais sono do que deveria ser normal. Só consigo imaginar que esteja acometido de alguma enfermidade que me conduzirá a morte.

Será esse o fim de minhas dores e sofrimentos? Será que assim eu conseguirei ver uma solução para a bagunça em que se encontra meu interior? 

Eu não consigo falar sobre isso com meus pais. Sei que deveria, mas não consigo. Não quero os preocupar com mais uma de minhas bobagens. Mas estou enlouquecendo. Sinto que não conseguirei manter a sanidade por muito tempo. Algo dentro de mim quer sair, e essa coisa não pretende fazer bem a ninguém, pelo contrário, quando olho para dentro de mim mesmo eu só vejo maldade, só vejo o caos, e nada de bom pode surgir daí... Vejo algo horrível demais para descrever com palavras, mas é algo que aterrorizaria a todos.

E ao mesmo tempo uma imagem contrasta com a dessa criatura.

Uma imagem jovem, de cabelo negros e pele clara, que vestindo uma roupa resplandecente me acalma e me traz de volta a paz e a tranquilidade. 

Mas essa tranquilidade dura pouco, somente o tempo em que esse anjo permanece comigo. Quando ele se vai o monstro domina meu corpo novamente. E só fico a me lembrar de sua presença amorosa, porém distante...

Eu quero que esse anjo permaneça comigo...

Por favor, fique comigo...

Não me deixe...

Não me abandone...

Não me odeie...

Eu só peço que me ame...

Me ame...

Me abrace...

E nunca se afaste de mim...

Fique comigo, eu imploro...

EU IMPLORO!

Eu te amo...

Não devia, mas amo assim mesmo. Mesmo sabendo que nunca será recíproco, sabendo que não me ama da mesma forma. Ainda assim eu te amo... Te amo como nunca amei ninguém em toda minha vida. E no entanto você ainda é um mistério para mim. Te amo mas sei que não me ama da mesma maneira... E eu só fico a desejar que seu amor se torne parecido com o meu amor. Mesmo sabendo que não deveria. Mesmo sabendo que seu amor já deveria ser suficiente como é. Eu não consigo me contentar com ele. Não consigo.

E esse egoísmo tem me matado por dentro. Eu tenho me matado aos poucos desejando seu amor com todas as minhas forças... E logo não terei sequer mais forças nem mesmo para viver, pois todas foram para amar você... Foi tudo por você, durante todo esse tempo, foi sempre você, meu anjo desconhecido, foi sempre você, o motivo por detrás de minhas lutas.

Mas você voou para longe de mim, e julguei ser capaz de te alcançar. Quanta prepotência a minha... Você nunca esteve ao meu alcance. Eu sempre estive atrás de você. E você nunca será meu... Não importa o quanto eu corra, não importa o quanto eu grite, você nunca me ouvirá e eu nunca conseguirei te alcançar, pois uma cobra que rasteja pelo chão só pode sonhar em voar pelo céu, mas jamais chegará a voar de verdade no céu pra onde ela tanto olha. 

E agora já é tarde demais... 

É tarde demais para evitar sentir o que já sinto. 

É tarde demais...

A morte já espreita ao meu lado... Ela já se preparara para me cobrir com seu manto, e me levar aos seus domínios. Mas não se preocupe. Mesmo lá eu continuarei amando você, e tenho certeza que ao lado de meu túmulo, conseguirei fazer nascer uma rosa, e com letras de sangue, escreverei o quanto eu amo você.

Eu amo você!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Obrigado!

Nos últimos dias alguns de meus amigos tem recebido mensagens minhas que podem tê-los deixados confusos quanto ao seu significado. Provavelmente estejam pensando que eu surtei de vez e comecei a mandar mensagem sem sentido... 

Acontece que aleatoriamente eu tenho agradecido à algumas pessoas por sua amizade. Passando pelos momentos difíceis que tenho passado ultimamente eu só tenho que agradecer aqueles que ficaram ao meu lado e não me abandonaram mesmo tendo muitos motivos pra isso. São poucos, mas foram verdadeiros. 

Me aturaram mesmo quando eu mesmo já não me aturava. Me aconselharam ou simplesmente me fizeram companhia. E isso é bom. 

Bom saber que nem tudo nos homens está perdido. Que eu possa um dia recompensá-los por tudo que me fizeram. Pois me salvaram de mim mesmo. Me impediram que eu cometesse grandes erros e me trouxeram de volta para a luz. Seja com palavras de conforto, de realidade, ou com um simples abraço que, mesmo breve, me transmitiu tanta força e tanta confiança.

Sou grato por não terem me deixado a mercê de meus próprios pensamentos malignos. Sou grato por me fazerem sorrir quando minha única vontade era de chorar e desaparecer. Sou grato. 

E pensando nisso eu comecei a perceber que, na verdade, não agradecemos o quanto deveríamos. Somos ingratos e talvez por isso não tenhamso amigos tão verdadeiros quanto poderíamos. Não agradecemos. Perdemos tanto tempo reclamando de tudo e de todos que acabamos não aproveitando as coisas boas que as amizades nos oferecem. 

Deveríamos agradecer mais, agradecer aqueles que nos apoiam quando estamos para cair, ou aqueles que nos ajudam a levantar quando já estamos no chão. A esses deveríamos agradecer. Como dizem os coreanos, a esses deveríamos tornar-nos seus escravos para o resto da vida, pois nada que fizermos poderá recompensar o grande favor que de graça nos prestaram.

A esses minha gratidão. A esses meu amor.

Sêneca disse que "Quem acolhe um benefício com gratidão, paga a primeira prestação da sua dívida." Pois bem, assim o quero fazer e com gratidão devolver aos meus aquilo que me deram. De fato eu percebi que não poderia viver sozinho, sem ninguém, como cheguei a desejar, muito pelo contrário. Me ensinaram que eu preciso do outro, eu preciso do próximo, e assim como tanto me ajudaram, pode ser que eu também possa ajudá-los num momento de necessidade. Penso que desse forma poderei pagar outra parte dessa dívida. 

Entramos então num ciclo de boas ações. Como seria bom não é mesmo, que as pessoas se entendessem e se ajudassem uns aos outros dessa forma... O mundo seria um lugar melhor, seríamos todos mais felizes. Cada um fazendo o bem aos seus e tornando a vida do outro um pouquinho melhor.

Pois pensemos mais nisso: num mundo com mais gratidão, num mundo onde dizemos com frequência aos nossos amigos: Obrigado por sua amizade!

Nada mudou

Eu jurei para mim mesmo que nunca mais escreveria para você, e eu gostaria de poder manter essa promessa. Assim como disse que nunca mais nos falaríamos, mas parece que o destino se recusa completamente a permitir que eu te esqueça.

E digo esquecer não mais naquele sentido de meses atrás, quando ainda estava apaixonado por você. Digo isso apenas como alguém que tem se obrigado a esquecer um dos maiores e mais importantes amigos que já teve. 

Quando me obrigou a acabar também com nossa amizade, como punição pelo meu desvario, eu pensei que isso tornaria as coisas mais fáceis para mim, e no entanto eu me enganei completamente. Acreditava que isso permitiria que eu matasse qualquer sentimento que tinha por você, e não só aqueles que nos eram indesejáveis. 

Mas eu não poderia estar mais enganado. Não só não se tornou mais fácil em absolutamente nada como ainda recebi em meu peito um golpe com uma arma tragicamente dolorosa: seu olhar de desprezo!

Acho que ter sido abandonado por uns, odiado por outros e ainda perseguido não significou em nada se comparado com o que sinto cada vez que olho para você e vejo que desejava na verdade que eu não estivesse ali. Incrível como um único olhar me transmite tantos sentimentos e como todos eles machucam como as gotas de chuva num dia frio. Como se eu recebesse dezenas de socos poderosos que me tiraram o fôlego e me prostraram ao chão, ofegante, doloroso.

Não sinto que perdi um amor. 

Sinto que perdi um amigo, e por isso dói tanto. 

Sinto que perdi alguém que viu minha alma eu seus momentos mais sinceros e que não gostou dessa visão. 

Agora não vejo mais a minha frente aquele garoto alegre e brincalhão de tempos atrás, vejo alguém que me trata como se fosse um estranho, distante, desconhecido. 

Sei que escrever aqui não vai ajudar em absolutamente nada. Você não vai ler. Sei que nada mudou entre nós. Sei que essa noite foi apenas uma travessura do destino. A cordialidade que usamos foi apenas para que os outros não percebessem que na verdade não nos falamos mais, que na verdade combinamos de nunca mais nos falar. Pois você acreditou ser melhor assim.

Não o culpo. Não me decepcionou, eu apenas via você de uma forma diferente. Também não lamento que não tenha me dado outra chance, muito pelo contrário, sei bem que me deu mais chances do que eu era merecedor, e que provavelmente eu teria estragado também quantas mais eu recebesse.

Pois eu sou um verdadeiro imbecil! Joguei na lama nossa amizade no momento exato em que decidi contar a você o que sentia. Como você mesmo disse, posso sentir, mas não preciso falar. Deveria ter sofrido em silêncio, sufocado tudo o que sentia em nome de nossa amizade. Era o mínimo que deveria ter feito.

Mas o tempo de consertar os erros já se foi. Não há mais amizade a ser resgatada. Não existe mais nada para salvar. O que um dia houve entre nós é agora apenas uma sombra fraca, enevoada pela embriaguez do vinho num passado distante que nunca mais voltará. 

Eu tive de me controlar, mais uma vez, para não me humilhar novamente, e embora tenha agido de forma fria e distante minha única vontade era de me jogar aos seus pés e implorar por perdão. Só isso, mas não poderia fazê-lo...

Seu olhar não me permitiu.

Tudo o que conseguia entender ao te olhar era: "Mantenha distância. Não quero você perto de mim." E foi o que eu fiz.

Nem me aproximei. 

Não tentei contato. 

Espero que não tenha tornado nada mais difícil para você. Algum dia quem sabe eu consiga seu perdão...

Não vou mais implorar. Não mais... Apenas deixar que o tempo faça seu trabalho... 

Mesmo que ele leve você para longe de mim cada vez mais... 

Tão distante...

É você quem espera a resposta do céu...
Eu deveria alcançar e te puxar para baixo, ou o que?
Estarei bem aqui, não muito longe.
Apenas respirando, mesmo perto, eu não posso te amar.

Eu quero esticar meus braços e te abraçar
Me aconchegar em seu ombro, para estar ao seu lado.
Mas por mais que eu te ame...
Por mais que eu te ame...
Não posso te abraçar!*

~

Uma noite inteira já se passou. 

Tive várias horas para organizar o pensamento, e no entanto continuo pensando da mesma forma. A dor que sentia enquanto ainda estava na minha frente não se foi, nem tampouco diminuiu. Eu apenas me acostumei com ela. Como também tenho me acostumado com sua ausência. Embora essa dor também não tenha diminuído em nada. 

Tudo o que essas horas conseguiram fazer foi imprimir ainda mais fundo no meu coração as impressões que tanto fugi para não ter. Só consolidaram o que eu já sabia e fingia não saber: que nada mudou entre nós. Continuaremos como dois estranhos, se encontrando aqui e ali obrigados pelo destino, mas que não aproveitaremos essas oportunidades. E nada vai mudar. 

Preciso aceitar, de uma vez por todas que acabou, acabou e não tem mais volta. Acabou e nada que eu possa fazer vai mudar isso. Uma amizade morreu, e no lugar dela não nasceu mais nada. Apenas murchou como uma rosa ao fogo e suas pétalas voaram com o vento. E nunca mais se ouvirá falar da sua beleza, apenas haverá uma pequena lembrança, de que um dia uma rosa bela ali viveu....

Nada mudou.

E nada vai mudar.

~

Nota: *Trecho da tradução de I Can't Hug You do Toey Sittiwat, parte da OST (Original Soundtrack - Trilha Sonora Original) de Make It Right - The Series. 

sábado, 22 de outubro de 2016

O que me dizem as músicas

Que dádiva de Deus... será que há no mundo algo mais belo, mais poderoso e mais profundo do que a música? 

Como estudante da História da Arte, penso que toda forma de expressão é válida, no entanto, ao meu ver, a música é a mais alta forma das expressões da alma, pois para a música não há limites. Não que esses limites tornem as outras formas de expressão inferiores, mas apenas torna a musica ainda mais especial.

A música é de fato uma arte capaz de se comunicar diretamente com a alma, não só de quem escuta, mas também de quem produz. Ela flui naturalmente de dentro para fora, não é amparada pela consciência, muito pelo contrário, é justamente isso que a diferencia das outras artes, ela é amparada justamente pela falta de consciência, pelos ímpetos do inconsciente, que apenas tomam formas, escritas ou não, de forma consciente. Ou seja, escrever musica é uma atitude consciente, mas fazer não. E que beleza não é? Ter a nossa disposição uma forma tão incrível de expressar aqueles afetos mais profundos da alma através dos sons. 

E tantas são as possibilidades quantas são as pessoas que fazem musica, e cada uma é capaz de tocar diferentes corações. A variedade reflete a riqueza dessa grande maravilha. É de se agradecer a Deus permitir ao homem ter contato com tamanha graça justamente por pensar na música como a mais divina das artes pois ela certamente nasceu também do coração de Deus, e assim foi posta no coração dos homens. Impossível ouvir, por exemplo, a Sinfonia N° 1 do Brahms ou a Coral de Beethoven e não sentir algo de divino nessas obras. O mesmo para as Missas de Palestrina ou os Requiem de Mozart e Verdi. Como ter contato com qualquer uma dessas obras e não se convencer de que o próprio Deus se usou desses meios para se comunicar aos homens?

Quantas coisas não podemos sentir ao ouvir uma música? Incontáveis são as sensações que elas provocam em nós. E não me refiro apenas a música erudita... Como não sentir-se excitado ao som de Beyoncé ou como continuar de mal humor depois de ouvir Hatsune Miku? Impossível também não pensar no amor ouvindo Crystal Kay ou não refletir sobre o passado ouvindo os covers de Hitomi Shimatani... 

A música tem dessas coisas... Consegue nos transportar para milhares de mundos diferentes, e nos faz contemplar infinitas paisagens maravilhosas. Como não pensar no universo e suas infinitas belezas ao ouvir as sinfonias de Mahler ou não se sentir caminhando na praia com Silva

E todos tem tanto a nos dizer... alguns compositores doam-se completamente em suas obras que mesmo séculos depois ainda é possível tocar suas almas apenas ouvindo seu som... A angústia alucinada de Tchaikovsky é tangível em sua Sinfonia Patética, bem como o orgulho pela superação da dor que sentimos no Concerto para Piano N° 2 do Rachmaninoff. Sentimentos que atravessam os séculos através das páginas das partituras.

E a música é ainda uma linguagem universal. Em qualquer lugar do mundo é possível ouvir música e, com a sensibilidade correta, é possível compreender as nuances de um som que mesmo distante do que estamos habituados, é ainda a linguagem única da música. Uma linguagem capaz de aproximar as pessoas, a musica nos ensina isso: igualdade, proximidade.

Digo isso pois entendo bem que nem sempre é preciso entender a letra de uma música para compreender a mensagem que ela contém. Não preciso entender o que dizem os idols ao ouvir Super Junior ou Girls' Generation por exemplo, a linguagem universal faz com que no íntimo do meu coração eu entenda o que eles tenham a me dizer, ainda que estejamos separados pelas barreiras culturais e linguísticas, mas nenhuma delas tem poder algum se comparadas ao poder da música. 

Uma música do BTS pode me dizer tanto quanto uma de Chopin ou Penderecki, pois ambos estão unidos nessa mesma linguagem. Por esse motivo as vezes me entristeço com o preconceito que as pessoas alimentam quanto aos estilos musicais. Por via de regra só é aceitável aquilo que gostamos, todo o resto é ruim, estranho, ridículo. 

Alguém que pensa desse jeito não entende a música. Não compreende que a diferenciação entre esse ou aquele estilo é apenas conceitual, no fim de tudo não há esse ou aquele tipo de música, há apenas música. E no entanto as pessoas continuam fechadas em seus mundinhos pequenos, sem deleitar-se com as maravilhas que o mundo da musica pode nos proporcionar. 

É triste que alguém escute apenas sertanejo ou rap e pense ter alcançado o supra sumo das produções do homem. Não desmerecendo esses estilos, apenas salientando a divisão entre eles. Mas certamente alguém que diz que Luan Santana é perfeito, provavelmente vai ficar sem adjetivos depois de ouvir algo como Vivaldi, Mussorgsky ou Celtic Woman. Não os julgo, mas lamento que percam tanto assim.

E há possibilidades para todos os gostos. Eu que por exemplo adoro sons exóticos, tenho ultimamente me deleitado com a música folclorica tailandesa, é simplesmente sensacional, mas qualquer outra pessoa estranharia esse tipo de som. 

Busco sempre quebrar meu preconceito com qualquer estilo musical, e principalmente aqueles de meu próprio país, pois por muito tempo considerei a musica brasileira imensamente inferior a internacional. Hoje em dia aprendi a respeita-la, ainda que continue ouvindo mais internacional mesmo. No entanto, quem diria que eu um dia teria toda a discografia do Caetano Veloso, o brega da Vingadora e até mesmo alguns Funks em minha playlist? Isso só foi possível devido a essa força universal da música, que nos ensina que na verdade não existem barreiras entre as pessoas, nós é que insistimos em criá-las. 

A musica é universal, fala diretamente aos corações, e flui diretamente dele também. É capaz de melhorar nosso humor, nossa vida, nos acompanha nos estudos, na lavagem de carro, nos momentos de tristeza e luto, nas festa, ou simplesmente quando não temos nada para fazer, ela simplesmente nos acompanha e nos alimenta com sua força universal. 

Por fim, eu apenas posso concordar com aquele que disse que "sem música, a vida não teria sentido!"

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O que me dizem as chuvas

A água é um elemento maravilhoso. É o elemento da vida e ao mesmo tempo o símbolo perfeito da morte. A água que rega as plantações é a mesma usada no preparo dos piores venenos. Assim como a vida, a água será boa ou rum dependendo da forma como a usamos...

Penso portanto que não existam coisas boas ou ruins, existem coisas, mas o uso que fazemos delas é que as diferenciam entre boas e ruins. E digo isso agora observando a chuva cair pela janela bem a minha frente. 

Uma chuva numa época de calor pode ser algo maravilhoso. Refresca o coração, lava o solo, rega as plantações e enche de vida aquilo que tinha secado ao sol. No entanto, uma tempestade, que nada mais é do que uma chuva poderosa, pode ser também algo terrível. Pode destruir casas e separar famílias, e ainda levar medo e caos aos sobreviventes. Nesse caso não depende de nós decidir o que fazer com a chuva, mas é certo que, as coisas ainda assim tem sempre um lado bom e outro ruim. 

As escolhas que fazemos também sofrem com as regras dessa lei. Temos a nossa frente diferentes possibilidades, a escolha que fazemos pode ser boa ou ruim, e as consequências dessas escolhas é que nos ajudarão a perceber se de fato aquela foi uma escolha acertada ou equivocada. Também aprendi isso hoje. 

Aprendi ainda, com uma pessoa que já sofreu com a dor, que devemos tirar dela o aprendizado necessário para lidar com essa dor. Não que eu não soubesse disso, mas ouvir de alguém que bota na prática esse ensinamento me fez perceber o quão imbecil eu tenho sido em minhas decisões. Falávamos sobre escolher sofrer ou não e eu pude perceber que ele tinha total controle de si, coisa que nem de longe eu conseguiria fazer. 

Mais uma vez eu permiti ser dominado pelos meus sentimentos, que me cegaram e me desviaram do sentido do dever. Fiz coisas grandiosas na tentativa de fugir desse sentimento e ao mesmo tempo, mergulhava ainda mais fundo nesse grande mistério. Como uma chuva impetuosa eu me derramei completamente no solo que não carecia de água, e como tal acontece na natureza, aquilo que sobra é despejado. E foi o que se deu também comigo. 

A chuva vem, molha o solo por onde passa, e depois vai embora, e logo nos esquecemos que dia choveu. Aprendi com essa chuva, que veio acompanhada de uma leve brisa a balançar o meu cabelo, que eu preciso aprender a esquecer. Pelo meu próprio bem e pelo bem daqueles que me cercam. 

E no entanto tomar essa decisão me faz sentir a pior das dores. A dor do vazio. A dor de que algo estará para sempre incompleto. Uma dor excruciante, que me faz derramar lágrimas como a chuva que cai torrencialmente a minha frente. 

E eu me misturo com a chuva que cai. 

Por um momento nos tornamos um só. 

O céu a despejar lá de cima e eu me derrabar cá embaixo, formando no mundo um só conjunto de lágrimas. A natureza chora comigo nesta noite pois sente que meu vazio é também um vazio em sua existência pois faço parte dela também.

A chuva de que falo entrou em minha vida como uma garoa, e uma leve brisa, e aos poucos foi se tornando mais forte, até se tornar uma grande tempestade. Mas não é uma tempestade por trazer caos e destruição, e sim por conta da força impetuosa de seus ventos que me arrebataram para o alto e fizeram com que eu me entregasse completamente ao seu poder. 

Aprendi com essa chuva que sentimentos devem ser racionalmente construídos. E eu fiz exatamente o processo inverso. Construí os sentimentos para depois pensar racionalmente, e foi quando tudo deu errado pois eu notei que alimentava um sentimento de mão única, que não era recíproco. Ao menos não na forma de expressar-se, pois a reciproca era verdadeira, a forma de expressão desse sentimento não. Ele me ama, e me disse isso com todas as palavras, coisa que eu nunca consegui fazer, embora tenha deixado claro, mas não da mesma forma que eu o amo. Deveria ter construído um sentimento apenas de forma racional, e não o inverso. Dessa forma, o único sentimento que teria nascido seria então o do amor que se expressa pela amizade. 

E como é bela essa amizade!

Agora tenho em minhas mãos a incumbência de transformar o amor-paixão que tenho em mim em amor-amizade. Uma tarefa deveras árdua, diga-se de passagem, mas que é necessária a minha sobrevivência. Não sobreviveria a outra perda como essa, tenho certeza de que morreria se fosse abandonando mais uma vez por uma das pessoas que mais amo, por uma das pessoas que amo mais do que a mim mesmo. Por quem daria minha vida sem pensar duas vezes. Esse desafio é a única coisa capaz de salvar essa amizade. Está em minhas mãos, e posso sentir isso tão real quanto as gotas da chuva que agora escorrem pelos meus cabelos. A água fria que pinga em minhas costas é um sinal sensível de que isso é uma necessidade real, e eu firmei um compromisso, de não mais confundir os sentimentos dessa forma. E esse compromisso foi feito na presença da própria natureza, que escreveu com as gotas da chuva, as palavras de meu juramento. 

E ao que parece foi uma noite de grandes tempestades. 

Uma outra chuva caiu logo depois da primeira. Essa também apareceu lentamente em minha vida, me molhando superficialmente apenas, e aos poucos se tornou também uma poderosa, porém rápida, tempestade. No entanto sua força diminuiu, e ela passou a cair como uma leve garoa, mas sua presença continua aqui. As gotas delicadas que tocam minha pele não me permitem esquecer de sua presença, e no entanto, cada vez que começo a desejar que suas gotas caiam com mais força, ela cessa completamente, pra voltar a cair delicadamente algum tempo depois. É uma chuva cruel, admito, pois não me molha completamente, mas também não deixa que eu mate a esperança que há dentro de mim por uma chuva mais forte... 

E no entanto suas gotas continuam a cair...

E meu coração continua cheio de angústia.

Uma simples chuva pode nos trazer esses grandes ensinamentos. Ensinamentos profundos que os homens ignoram, e que a natureza dispensa com tanta sabedoria e generosidade. 

Com a chuva aprendi que tudo é passageiro. Seja a chuva boa que nos ajuda a dormir, ou  tempestade que destrói a casa. Nada dura para sempre, nem o sofrimento, nem a dor, e por mais que a tempestade esteja ameaçando durar para sempre, inevitavelmente o sol voltará a brilhar pela manhã, fazendo que aquela que aterrorizou durante toda a noite, não passe de uma lembrança distante, apagada pela luz do sol...

Agradeço a chuva por suas palavras de sabedoria, e agradeço a chuva por ter declarado seu amor por mim. Agradeço a chuva por sua amizade. Agradeço a chuva por ter me ensinado tanto com tão pouco e principalmente, agradeço a chuva por não ter me abandonado. 

Há dias assim...

Há dias em que sinceramente seria bem melhor se nem sequer tivéssemos saído da cama, desligado a internet e passado as próximas 12 horas ouvindo boa musica ou em completo silêncio, simplesmente meditando as desgraças da vida e pensando, no quanto somos pequenos e frágeis. 

Mas não, resolvemos levantar, encarar de frente o mundo lá fora. E o que encontramos logo ao sair da porta do quarto? Um gigantesco exército que acabou de dizimar toda sua família, e que apenas o esperava para dar fim a sua vida da forma mais lenta e dolorosa possível. 

Há dias em que acordamos mal, sem vontade de fazer nada, querendo cancelar todos os compromissos firmados para as próximas horas. Em dias assim, caminhar, conversar, tudo isso exige um esforço imenso, e é necessário uma força sobre-humana para conseguir dar um passo sequer. O corpo reflete então o caos em que se encontra a mente. 

Caos

Aquele velho conhecido dos loucos enamorados surge então com sua força devastadora: um tsunami de pensamentos alucinados que nos lançam impedosamente num oceano de águas frias e impiedosas. Nesse oceano damos voltas e voltas, tentanto não nos afogar, lutando para não morrer. Mas qual o significado dessa luta? 

Ora, lutamos para não morrer, mas a vida tem se mostrado tão difícil que morrer soa como uma doce solução. Não tenho pensado em me matar, que fique bem claro, a questão aqui é outra. A pergunta correta é "Qual o objetivo de toda essa luta pela sobrevivênvia? Estamos lutando para sofrer ainda mais?" 

Sofrer

O homem teme a dor e o sofrimento. No entanto, não há como evoluir em sabedoria sem passar por ambos. Diria que a dor e o sofrimento são os grandes mestres dessa pequena criança sedenta por aprendizado a que chamamos de sabedoria, e tanto mais eles lhe ensinam sobre a vida, mais coisas há para ensinar, e portanto, mais dor e sofrimento a suportar. Entre uma lição e outra, cabe a nós os breves divertimentos que nos provocam os sonhos, os devaneios. Aqueles doces momentos em que a mente se liberta das amarras do mundo e voa livremente a imaginar o que quer que seja. E assim ela [a mente] se entrega a esses sonhos...

Sonhos

Sonhos das lembranças mais românticas, dos momentos mais felizes que nunca aconteceram, sonhos... Sonhos com aquela pessoa... Sim, aquela pessoa! Sonhos com aquela em quem pensamos quando vamos dormir, e sonhos com aquela de quem nos lembramos ao acordar. Sonhos. Mas o sonhos não são a realidade.

Realidade

A realidade pode ser tão bela quanto a dos sonhos? Sim. Sem sombra de dúvidas. No entanto, o conceito de beleza para aquele que controla a realidade é diferente do nosso. Logo, a beleza da realidade é ofuscada pelo brilho da beleza dos sonhos. Mas note que eu disse pelo brilho, e não pela beleza do sonhos. Pois justamente por ser real, a única beleza realmente verdadeira é a da realidade. 

Mas a realidade é complexa demais para se compreender, e por isso naturalmente a evitamos, e preferimos viver no mundo onde tudo é mais fácil, e no entanto, onde nada é real. Aceitar essa verdade é essencial para o crescimento. Quem consegue aceitar isso vive verdadeiramente, quem não o faz, deixa de existir para viver uma realidade imaginária que nunca se tornará real. Volta a inexistência.

Inexistência

O meu grande desejo. Um dos meu anseios mais profundos. Voltar aquele estado primitivo onde sequer havia sido concebido ainda. Dessa forma não precisaria magoar tantos quanto me cercam e nem sequer me machucar também. Seria melhor para todos. Que não precisassem se preocupar com alguém tão descartável, tão trivial quanto eu. Ora, não sou o melhor em nada que faço, qualquer um poderia me subtituir em todas minhas funções. Como filho, professor, cerimoniário, enfim, como pessoa, qualquer um poderia ser melhor do que eu.

E no entanto eu ainda sou obrigado a existir. Não a viver, pois não me atrevo a chamar esse período absorto em pensamentos como vida, apenas existência, e uma existência sem sentido. 

Sentido

Sentido é aquilo que nos guia. O motivo final por detras de todas as nossas ações. Os fins que justificam os meios, parafraseando Maquiável. Mas eu perdi meu sentido, e agora perco também os meus sentidos. Perdi minha estrela guia, e agora, sem mapa nem bússola, me encontro perdido em meio a esse terrível deserto de pensamentos, sendo engolido pela areia das dunas que caem sobre mim. 

Que caem sobre mim

Não suporto um julgo pesado. Não carrego mais responsabilidades que qualquer outra pessoa, pelo contrário, vida é relativamente fácil e simples, e no entanto eu ainda estou em sofrimento. Reconheço que meus problemas não são nada comparados aquelas pobres almas que padecem nos leitos dos hospitais, ou esquecidas dos amigos e parentes nos asilos até o dia de suas mortes, onde por um instante todos se lembram deles, para no dia seguinte voltarem a cair no esquecimento. Como se nunca tivessem existido.

Essas injustiças me incomodam, e ao menos uma vez por dia eu penso em como aqueles que abandonaram tudo em função dos mais pobres e necessitados devem ser mais felizes. Esses sim devem conhecer o que é o sofrimento de verdade e compreender o que de fato é a dor. Não essa minha dor falsa, infantil.

Shakespeare disse que todos conseguem compreender uma dor, menos quem a sente. E penso que isso seja uma afirmativa completamente verdadeira. Assim como os conceitos de belo e feio variam de pessoa para pessoa, o conceito de dor também. Portanto, por mais que seja uma dor tola, infentil, essa É A MINHA DOR, essa é a dor que AFLINGE A MINHA ALMA, e portanto, somente eu que a sinto sei o quanto dói, ainda que aos olhos dos outros ela não passe de um drama exagerado. 

Mas não é possível fugir da dor. Ela aflinge o quanto lhe aprouve aflingir, e cabe a nós apenas aceitar, já que não há como fugir. 

Suportar, por mais que doa. Em alguns momentos se afastar do mundo, suportá-la sozinho num quarto escuro, em posição fetal ao som de musicas que nos ajudem na compreensão da dor. Em outros, dividir também. 

Há dias assim.

Há dias em que queremos ficar a sós. Sem interferência de ninguém, sem contato, e penso que isso seja coisa boa. Momentos de reflexão interior enriquecem a visão que temos de nós mesmos e do mundo.

Há dias quem estamos bem, há dias em que não estamos tão bem assim, e há dias em que só queremos deixar de existir, há dias em que só queremos sumir. Há dias em que as borboletas dançam alegremente no jardim, e há dias em que só existe em nós a lembraça das cores que antes voavam naquele jardim. Há dias assim...

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés

(A Vida é um moinho - Cartola)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Uma pequena metáfora

Ontem um amigo se despediu de mim ao ir dormir com as seguintes palavras: "Realmente o homem é um ser idiota. Passamos a vida correndo atrás de quem não merece, e quando encontramos alguém que gosta da gente, achamos que essa pessoa é boa demais pra gente. O homem é idiota."

E fui dormir com essas palavras ecoando na minha cabeça. De fato, conversávamos sobre como tenho me sentido atualmente, e como ele já se sentiu assim também, e ironicamente chegamos a mesma conclusão, de que o homem simplesmente é um ser idiota que gosta de sofrer, e que vive buscando esse sofrimento incessantemente. Ouvir aquilo me chocou, sim, mas notar o quanto essas palavras descrevem a verdade da minha vida foi um choque ainda maior. 

Por ter uma personalidade naturalmente inclinada para o drama, eu costumo fazer de tudo uma grande tempestade, e penso que isso seja um péssimo hábito pois para mim, até mesmo palavras normais ditas às pressas soam ríspidas e frias. Esse traço de minha personalidade revela uma sensibilidade ímpar que no entanto só provoca sofrimento, não é algo que eu considere bom, somente no tocante ao ser mais aberto a expressões de delicadeza que dificilmente os outros conseguem compreender.

Enfim, antes que me perca em devaneios, é necessário dizer o que acontece quando esses dois traços se cruzam. Quando a sensibilidade aumentada se cruza com a tendência ao drama, o resultado é uma personalidade frágil e altamente tendenciosa que deixa em mim profundas marcas que demoram anos para desaparecer. 

E tem sido com essa contradição que tenho convivido. Sendo amado e no entanto não me sentido merecedor desse amor. Sendo amado mas incapaz de amar verdadeiramente. E como toda contradição, que impede o avanço e se perde num ciclo vicioso, eu também tenho sentido que estou preso num ciclo do qual não consigo escapar. 

Já me alertaram várias vezes: nutrir essa contradição dentro de mim é uma armadilha demasiado perigosa, e no entanto eu continuo a insistir nela. 

Toda as vezes que estou prester a tomar algum tipo de decisão firme sobre o que fazer e como agir, eu sou envolvido por um oceano de devaneios e sonhos que fazem com que eu me perca e que, ao recobrar a consciência, não consigo mais me lembrar do que se tratava. É frustrante. Cada vez que chego perto de uma resposta, ela se esvai. 

Talvez isso signifique que eu esteja procurando no lugar errado. 

E como resultado eu me sinto completamente perdido. Paralisado em todos os campos da vida. E não só no tocante ao sentimento. Acontece que os campos são todos interligados, e o que afeta o fluxo de pensamentos em um, acaba que afetando a todos. Como um rio que, tendo muitos afluentes, parece não depender de nenhum deles em especial, mas que, ao bloquear qualquer um de seus braços, acaba que sofrendo uma baixa considerável, e portanto perdendo parte do seu esplendor. Eu sou esse rio cujos pensamentos bloqueiam a passagem das águas. E um rio que não corre é um rio morto, indigno de ser chamado de rio e contado entre os corpos que são responsáveis justamente por conter e guiar a água. 

Uma pequena metáfora que define a forma como me sinto. Um rio morto, paralisado. Incapaz de levar vida para as vilas próximas, e sendo assim, capaz de levar apenas a morte. Um rio como esse merece ser destruido. Deve dar lugar a plantações que serão regadas com as águas de um rio próximo, esse sim, digno de receber esse nome. 

Assim como esse rio leva seca e desgraça aos homens que vivem a sua margem, eu também sou responsável pelas desgraças na vida dos que me cercam. Acontece que eu sempre envolvo inocentes nas minhas desgraças e isso é algo horrível. Se eu quero me entregar ao sofrimento, tudo bem, mas é imperdoável que eu faça isso aos outros. Eu devia ser cancelado. Devia ser impedido de fazer bobagens, com os outros pelo menos. 

Mas, talvez um dia a barragem se rompa, e as águas voltem a correr... Talvez um dia o rio recupere sua beleza e esplendor, e se isso não acontecer, que ao menos desviem seu fluxo portanto, e esqueçam que ele foi um dia o responsável pelas desgraças de toda um região. Assim espero que seja comigo... anseio pelo dia em que todos se esqueçam que eu um dia os fiz sofrer, e que sofrimento e dor foi tudo o que minha presença lhes proporcionou. 

Talvez um dia eu receba essa graça, de não fazer mais ninguém sofrer... E finalmente possa sofrer sozinho, sem levar ninguém pro abismo comigo. 

Me imagino como um rio a correr solitário e distante, sem que ninguém se dê conta de sua existência. Sozinho, sem levar sofrimento a ninguém com minhas águas sujas de lama e cheias de veneno. Um rio a correr solitário.

Tudo é vazio

E para variar hoje é mais um daqueles dias em que minha criatividade resolveu brincar de esconde esconde comigo e não me dizer coisa com coisa, apenas um emaranhado de pensamentos idiotas e deconexos que insistem em poluir meu entendimento. Na verdade não é um mérito de hoje, já tenho estado assim há alguns dias, e devo dizer que a sensação é péssima. 

O que acontece nesses dias é que eu não consigo simplesmente chegar a noite e pensar "hoje foi um bom dia por x motivos"  e nem tampouco "hoje foi um dia horrível por conta de x motivos". Na verdade eu chego no fim do dia com uma única grande sensação de vazio em meu coração. 

Vazio.

Sim, essa é a palavra que melhor define o que estou passando ultimamente. 

Um grande vazio. 

Como se faltasse a peça mais importante que completasse um quebra-cabeças, e no lugar, ficasse apenas um lugar vazio. Vazio de sentimentos. Não estou feliz mas também não estou triste, só estou vazio, e no entanto esse vazio me deixa triste. E é com essa contradição que eu tenho de conviver diariamente. Uma dicotomia, uma bipolaridade tão grande que, no exato momento em que eu quero explodir de felicidade, eu também quero desaparecer e nunca mais dar notícia.

Desaparecer.

Foi a vontade que mais tive nos últimos dias. Desaparecer. Sumir daqui e recomeçar em algum outro lugar qualquer. Onde não conheça ninguém, onde não precise fingir ser o que não sou, onde eu possa ser uma pessoa completamente diferente. 

Tive vontade de esquecer tudo e todos. Vontade de fazer com que se esquecessem de mim, pois só me procuram quando precisam de algo. Vontade de nunca mais voltar a olhar na cara de ninguém. Vontade de reaparecer em algum lugar qualquer sem nenhum passado para contar, sem ter o que responder quando me perguntarem de onde sou e onde estão os que amo. Vontade de desaparecer.

Se não fosse possível desaparecer daqui, gostaria de desaparecer com minha própria existência. Sim, voltar ao nada. Não morrer, não me refiro a isso. Mas voltar ao nada, ao momento antes de minha existência. E nunca ter existido nesse mundo. Só desaparecer, como se nunca tivesse havido no mundo rastros da minha existência patética e deplorável.

Mas isso não é possível e a esse meu clamor o universo não tem se mostrado calado. Tem me respondido que devo continuar existindo.

Mas eu não quero.

Eu não quero.

Eu não quero continaur existindo, não quero continuar chorando. Eu não posso chorar pois se eu chorar, as pessoa ao meu redor vão ficar tristes comigo. Mas se eu continuar vivendo assim é só o que continuarei fazendo. Continuarei chorando como uma criancinha perdida dos pais. E eu não quero isso.

Eu não quero.

Mas o que eu quero?

O que eu quero?

Eu quero preencher esse vazio. Preencher esse oco. Preencher esse buraco dentro de mim que está repleto de angústias. E que embora repleto, continua vazio. E é nesse vazio que eu me angustio.

Será que fiquei assim por duvidar do amor? Dizem que os homens fogem do amor, e depois que se esvaziam, no vazio se angustiam*. E eu duvidei do amor. Duvidei se poderia voltar a amar um dia.

Amor.

Eu amaldiçoei o amor. Amaldiçoei o meu coração. Amaldiçoei a minha vontade por ter me conduzido a um jardim com tantos espinhos. E mesmo tendo entrado nesse jardim por minha própria vontade, eu não consigo mais sair daqui. Estou preso, hipnotizado pelo veneno doce dessas rosas diabólicas que aos poucos tem me matado. 

Eu jurei que não ia amar. Jurei que nunca mais ia amar. Mas eu já amava. E eu sabia disso, sempre soube, sabia e fingia não saber. E eu me entreguei mesmo sabendo dos riscos, mesmo sabendo que não havia nem sequer a menor possibilidade de ser feliz. E o resultado? como o esperado, fui feito infeliz. Me fiz infeliz. Minha esperança só me trouxe infelicidade, e por conta dessa esperança eu amaldiçoei o amor que hoje eu sinto.
Esperança.

Ela me fez ver amor onde não havia. Ela tem muitas faces, todas elas especialistas em enganar. Mas a esperança desapareceu da minha frente naquele momento em que o manto da morte descobriu o seu rosto. E com esse mesmo manto ela me encobriu. Me envolveu com a morte mas não me deu o prazer de morrer. Não, ela ainda queria ver do que eu era capaz. Me desafiou a amar novamente, ou melhor, a aceitar o amor que já sentia. E eu aceitei, o seu desafio e o meu amor. E no entanto depois disso eu pude notar que a Morte e a Esperança estavam juntas num único plano do Destino. 

Destino.

Essa pequena palavra desperta em mim sentimentos da mais profunda confusão. O destino em mim é o caos. O destino é construido por cada de um nós por nossas escolhas, mas ao mesmo tempo o destino é quem controla nossas escolhas e ações. Não sei portanto definir o que é o destino. Talvez seja o conjunto das decisões que tomamos em nossa vida. Sejam elas as mais acertadas ou as mais imbecis. Ou talvez o Destino seja quem controla nossas vidas nos fazendo pensar que somos nós quem a controlamos quando na verdade estamos apenas correndo em círculos na palma de suas mãos. 
Círculos.

Eu continuo correndo em círculos. Vivendo em ciclos. Vórtices infinitos de dor. E no entanto eu não faço nada para mudar essa realidade. Já dói tanto que a dor me paralisou, e hoje tudo o que consigo fazer é ficar esperando pelo dia em que a esperança e o destino irão parar de brincar com minha vida e me deixar seguir a morte. Enquanto isso, continuo correndo em círculos. 

Continuo, mesmo sofrendo de dor, buscando mais dor. Continuo alimentando o que me traz dor e continuo lendo sobre a dor, e no entanto eu não consigo compreender ainda a dor. A dor que sinto é superficial. Não é dor de fome, não é dor de abandono, mas uma dor imbecil, autoinfliginda. Uma dor infantil, que se desespera com qualquer pequeno arranhão como se fosse a pior das hemorragias. Uma dor superficial.
Superficial.

Olhando por esse ângulo eu vejo como tudo em mim é superficial. Minha moral tem um único e simples critério estético. Tudo é simples, passageiro, efêmero. Tudo é sem significado. 

Tudo é vazio.

O tudo é vazio. 

E no entanto, tudo é vazio. 

A única em mim que não vazia é o recipiente de minhas questões. Ah, esse está sempre cheio, infelizmente com as mesmas perguntas, sempre. 

O que eu devo fazer?

Talvez seja essa a pergunta que eu mais faça a mim mesmo. E por mais que eu repita isso para mim mesmo várias e várias vezes ao dia, eu não consigo chegar a nenhuma conclusão. Não consigo chegar a nenhuma resposta. Toda vez que me retiro em meu próprio pensamento para buscar uma resposta pra essa questão fundamental, tudo o que eu encontro é o vazio. 

Tudo o que eu vejo, sinto, e vivo, é vazio. 

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Nota: *Trecho de "Estou pensando em Deus" do Pe. Zezinho, scj.