sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre marcas e ônibus

Tenho algumas impressões em mim, mas não sei como poderia expressa-las com o mínimo de exatidão possível. Embora eu tente, e leve minha mente ao limite, não consigo conceber palavras que consigam mergulhar nas profundezas de minha alma, e trazer a superfície as coisas que lá se passam.

Enquanto caminhava de volta pra casa, um pouco incomodado pelo clima abafado que nos últimos dias tem predominado em minha cidade, eu pensava em como algumas pessoas vivem desequilibradamente. E como o desequilíbrio tem feito parte da vida das pessoas, é impressionante! Vivemos agarrados as nossas próprias verdades, concebidas em nossas mentes pequenas e abortamos prontamente toda e qualquer ideia que não seja absolutamente igual aquelas que criamos e consideramos como absolutas. 

E então vivemos cegos por elas, pelos conceitos criados com base em nada, apenas fruto de um exercício de investigação pautado em nossos numerosos preconceitos. Me incomoda ver então como pessoas poderiam estar felizes e realizadas mas então lamentando-se por cruzarem o caminho que elas mesmas escolheram para si. E não há nada que possa fazer para mudar isso, por mais que tente a interferência externa é para essas pessoas apenas um estorvo. Trata-se do famoso "não há como ajudar quem não quer ser ajudado." 

Dando continuidade aos pensamentos quase sem nexo algum eu também me peguei refletindo sobre a transitoriedade das nossas relações humanas. Isso porque vi a foto de uma pessoa que me era querida, e que hoje é praticamente estranha na minha vida. E isso me levou a outra pessoa de história semelhante e bem, aqui estou eu, ouvindo uma Playlist com musicas românticas que atingiram o Top 10 da última década na Tailândia, porque gosto de me torturar e porque é sexta e noite e estou sozinho no meu quarto, sem ninguém com quem sair e nem pra poder beijar. Vida que segue. 

Mas acho que no fim das contas, a moral da vida, se é que tem alguma, é que você se lasca pra aprender, e no fim morre! Bom, ainda preciso trabalhar um pouco mais pra rebuscar isso ai mas em resumo é exatamente assim que acontece. 

No fim a vida não é cheia de belezas, mas repleta de uma pedagogia cruel, dura, que imprime seus ensinamentos na carne dos homens a ferro e fogo, mas que faz desaparecer o mesmo homem ao final de sua existência patética. 

Incrível a quantidade de pensamentos absurdos que podemos ter num banco de ônibus a caminho de casa, mais incrível ainda a quantidade de pessoas que passam em nossa vida, e que deixam suas marcas, mas assim como as da pedagogia da vida, só deixarão de existir quando findar a nossa existência miserável. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Da Empatia

A empatia é algo para mim imensamente importante, assustadora e bela. E consegue como poucas outras coisas no mundo provocar em mim encanto e medo ao mesmo tempo. 

Primeiramente creio ser importante e bela justamente pela falta que tem feito no mundo atual. As pessoas tornaram-se tão fechadas em suas próprias redomas de consciência que já não são mais capazes de saírem de si e irem em direção ao outro. Claro, estou generalizando, pois algumas pessoas ainda o fazem, e são essas que me fazem crer numa possível melhora da humanidade. Infelizmente essas pessoas estão cada vez mais raras no mundo em que vivemos, e tem se tornado cada vez mais difícil encontrar alguém capaz de sair de si mesmo, ou até mesmo de permitir que outro entre. 

Logo as pessoas perderão essa capacidade tão bela de, esvaziando-se a si mesmo, preencherem-se do outro. Da dor ou da alegria do outro. Pois quem disse que empatia é apenas saber compreender a dor? É também partilhar da alegria, do amor. É saber sorrir com a conquista do outro e de coração ficar contente por sua realização. Mas estamos tão ocupados com nossas próprias conquistas e fracassos, e tão magoados por nossas próprias misérias que já não conseguimos mais ir ao encontro do outro, temos medo de sermos novamente machucados ou apenas temos preguiça, de sair do nosso mundinho e caminhar em direção ao outro. 

A falta de empatia a tornou bela, mas não deveria ser assim. Deveria ser natural pensar no outro, deveria ser natural compadecer-se do outro, deveria ser natural alegrar-se pelo outro, mas não é! Quando o outro está feliz o afetamos com nossa inveja, quando está triste queremos saber a causa de sua tristeza mas não estamos realmente interessados em ajudar. 

Muitas vezes o outro não precisa de elaborados conselhos, nem de técnicas de superação, mas apenas de um ombro para chorar, de um abraço apertado, de alguém que segure sua mão num momento de dificuldade. Mas costumamos fazer vista grossa a todos os que nos cercam. Ignoramos sua dor mesmo quando ela transborda de seu coração na forma de lágrimas. Ignorar é mais fácil do que se importar. 

A empatia é também por outro lado assustadora pois quando vamos ao encontro da dor do outro, tomamos sobre ela certa responsabilidade. Não a tiramos das costas do outro, mas compartilhamos do seu peso. Por isso é mais fácil ignorar, já temos nossos próprios pesos, nossas próprias dores, não precisamos então buscar mais. Nos esquecemos então que quando compartilho com o outro de sua dor, e ele com a minha, dividimos por igual, e então ambas as dores passam a pesar menos, pois temos alguém que nos ajuda a carregar. A empatia se torna então essa via de mão dupla, em que entregamos ao outro nossa dor, e a dele recebemos, e juntos então conseguimos caminhar mais longe. Mas assumir responsabilidades é outra coisa que nossa geração não gosta de fazer, e em se tratando da dor do outro é melhor correr. 

Recentemente passei pela experiência de me preocupar genuinamente com a dor de outra pessoa. Me aproximei e aos poucos permiti que ela partilhasse comigo de suas preocupações, pois com a cabeça cheia de pensamentos ela não conseguir dormir. Em poucos minutos de partilha o seu cansaço falou mais alto, mas ela só pode ouvi-lo porque tinha se livrado de parte da carga que lhe impedia de dormir. Eu por outro lado acordei cansado como se não tivesse dormido bem mal, e de fato dormi, pois o peso de sua dor estava agora sobre mim. E por isso a empatia me assustou, pois senti fisicamente o peso da dor que o coração dela sofria. 

Não me sinto bem com isso, como se fosse uma boa pessoa, coisa que sei que não sou, e os textos de dias atrás mostram isso muito bem, mas acredito que em minha limitação tenha feito o meu melhor. Quantos estariam dispostos a perder o precioso tempo de sono para tal? Quantos estariam dispostos a sentir no corpo a dor que ou outro sentia em seu coração? Infelizmente a resposta a essas perguntas me entristecem profundamente o coração, pois quantos mais não sofrem a solidão das noites sem terem ninguém para ajudar a lhes aliviar a dor?

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Talvez devesse tentar

Eu até tentei. 
Tentei ser meigo. 
Tentei ser educado. 
Tentei ser simpático. 
Tentei parecer interessado. 
Tentei mas não foi suficiente. 

Acredito que tenha tentando entrar no lugar errado. 
Nem todos os lugares estão abertos. 
Nem todos estão abertos. 
Nem todos estão disponíveis. 

Alguns grupos são fechados. 
Algumas pessoas são fechadas. 
Em alguns lugares não há espaço. 
Em quase todos os lugares não há espaço.

Talvez não devesse tentar entrar. 
Talvez não devesse tentar ser meigo. 
Talvez não devesse tentar ser educado. 
Talvez não devesse tentar ser simpático. 
Talvez não devesse tentar parecer interessado. 
Talvez não devesse tentar.

Talvez deva me contentar com um sorriso tímido na fila de comunhão. 
Talvez deve tentar não sonhar mais. 
Talvez não deva mais tentar fazer parte de um grupo onde nunca estarei bem comigo mesmo. 
Talvez devesse parar de sonhar. 
Talvez devesse parar. 

Talvez devesse me contentar que alguns lugares não são para mim.
Talvez deva entender que há pessoas que não são para mim.
Talvez deva aceitar que alguns devem viver sozinhos.
Talvez deva aceitar que alguns devem caminhar sozinhos. 

E continuarem sozinhos até mesmo nas noites iluminadas e quentes do verão.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sobre a afeição

Bem, nem de todo ruins são os efeitos do uso das redes sociais. Em meio ao caos do compartilhamento em massa de informações inúteis que passam aos usuários a falsa sensação de que tudo está muito bem, ou pior, que leva aos mesmos a se fecharem em redomas de sofrimento e autopiedade movidos pelos constantes textos e posts tristes e com conteúdo depressivo que lá é postado. As vezes, no entanto, encontramos pérolas dignas de reflexão... 

Foi o que me aconteceu hoje, em meio uma passada rápida pela timeline encontrei um texto de Santo Afonso Maria de Ligório, que coincidentemente se adequou bem ao que tenho vivido atualmente, e por isso resolvi meditar uma pouco mais sobre ele... O texto era um excerto do "Tratado da Castidade" e decidi transcrever aqui:

AFEIÇÃO PERIGOSA - PESSOAS PIEDOSAS 

Não repliques também que não há perigo, porque a pessoa de que se trata é piedosa. São Tomás de Aquino diz (De mod. conf., c. 14): "Quanto mais santas são as pessoas pelas quais sentimos afeição particular, tanto mais devemos nos acautelar, porque o alto apreço que fazemos de sua virtude mais nos estimula ainda a amá-las". O padre Sertório Caputo, da Companhia de Jesus, diz: "O demônio, a princípio, nos inspira amor à virtude daquela pessoa, depois o amor à própria pessoa e, finalmente, nos lança na perdição". O Doutor Angélico faz notar que o demônio sabe perfeitamente esconder um tal perigo: no começo não dispara seta alguma que pareça envenenada, mas só tais que excitem a afeição, ocasionando leves feridas do coração; em seguida, quando o amor já está aceso, essas pessoas já não se tratam mais como anjos, mas como homens de carne e sangue: trocam repetidos olhares e palavras amorosas, desejam estar muitas vezes a sós, juntas e, por fim, a piedade espiritual degenera em amor carnal. 

São Boaventura indica cinco sinais dos quais se pode deduzir se a afeição que a alguém nos prende é impura. Primeiro: se se entretêm conversas inúteis; e inúteis são todas as que levam muito tempo. Segundo: se ocorrem olhares e louvores mútuos. Terceiro: se se desculpam as faltas reciprocamente [evitando correções para não desagradar]. Quarto: se aparecem pequenos ciúmes. Quinto: se a separação causa certa inquietação. Eu ajunto ainda: Se se sente grande prazer e gosto nas maneiras ou gentileza natural da pessoa amada, se deseja que a afeição seja correspondida, e se se não gosta de que outros observem, ouçam ou falem disso. 

(Santo Afonso Maria de Ligório, "Tratado da Castidade".)

Primeiramente me decidi por lê-lo devido ao título, que me recordou os muitos relacionamentos perigosos que vivi e que tenho vivido. Não raramente o meu afeto desregrado pelas pessoas é caso de sofrimento para meu coração, e não obstante, é causa de condenação para  minha alma. 

Recentemente me vi estimulado a apreciar uma pessoa de grande santidade, e maravilhado por suas qualidades cristãs eu me ceguei e fui para ele para mim motivo e causa de pecado. 

Sua postura correta, sua maneira simples e calma de falar com profundidade me deixaram como que cego por sua aparente beleza cristã. Logo me vi apegado a sua conduta, a sua ética, e pouco tempo depois estava convencido de sua santidade de vida, e como disse o santo, o amor que sentia por suas virtudes se tornou amor a própria pessoa e então já era tarde demais. Já não conseguia mais apenas falar sobre coisas espirituais com ele, e as nossas conversas se tornaram cada vez mais longas, e os assuntos espirituais quase já não surgiam. Passamos das reflexões bíblicas e doutrinárias as reflexões sobre amizade e relacionamentos, passamos do amor à carne. 

Percebi que já não éramos mais pessoas buscando a santidade de vida, mas apenas pessoas buscando satisfazer os próprios desejos, sejam eles de conhecimento ou de outros tipos. E então aos poucos eu fui compreendendo que a relação tinha sido envenenada pela afeição. Faltou temperança no trato displicência no conversar. O apego crescente fez com que se perdesse o lado espiritual e que este fosse substituído pura e simplesmente pelo lado da carne, da mente humana que precisava ser aplacada em sua sede por conhecimento, de um lado, e por afeto, de outro. 

Agora analisando ainda mais o texto e a relação que se passou vejo que seguimos os mesmos sinais indicados por São Boaventura. Nos ocupávamos por horas em sorrir de coisas bobas em sua maioria, e os tratados espirituais já quase nem surgiam em nossas conversas. Eu o louvava frequentemente por sua postura ilibida e por seu caráter distinto, enquanto ele sempre me procurava para perguntar algo que dificilmente compreenderia sozinho, fazendo com que me sentisse mais sábio do que de fato sou. Eu buscava ignorar os pequenos defeitos que ele tinha, para não chatear, pois temia que se afastasse de mim. A essa altura o meu apego já era tanto a distância e as outras amizades dele já me incomodavam e o pior de tudo, passei a desejar sempre mais a sua presença. Mudei horários para vê-lo, mudei posturas para agradá-lo e no fim, só depois de um longo tempo, já cego pela névoa do afeto desregrado é que percebi o quanto aquela relação tinha se tornado perigosa para ambos. 

Essa infelizmente se acabou. Talvez eu não fique mais no caminho da santidade que ele certamente alcançará, e eu trilharei um outro caminho, que ainda não sei até onde me levará, apenas sei que ele não estará lá.

Noto porém que tenho novamente caído nas mesmas armadilhas, dessa vez com outra pessoa, acreditando estar agora no ponto de sentir ciúmes, e de me agradar demasiadamente com nossos encontros. Assustado com o aviso do santo eu preciso rever as minhas amizades, preciso rever a forma como trato os outros, e principalmente preciso rever o sentimento que alimento ao me permitir ser afetado pelo próximo em minha vida. Nesse exato momento, por exemplo, meu coração arde de ódio por saber que ele pode estar com outra pessoa, ou sendo feliz sem mim ao seu lado. Um sinal claro de uma luxúria desregrada e de uma completa falta de temperança, além claro de uma patológica necessidade de atenção e afeto.

Como essencialmente carente, todo relacionamento para mim já se inicia com uma forte carga emocional e afetiva. Poucas palavras são necessárias para que eu me apegue, e menos ainda são necessárias para que esse apego cresça, e se transforme em verdadeiras obsessões onde acabo cego por meus próprios sentimentos e sem capacidade de discernir o certo do errado, ou de identificar a linha tênue que divide o normal do exagero no trato com o outro. 

Um outro ponto a ser destacado é o da forma como as pessoas piedosas atraem a nossa atenção. Elas são, ao menos para mim, como rosas de doce perfume e beleza particulares. Nos atraem com o doce perfume da sedução mas escondem em si o perigo do apego que leva ao pecado da carne. Para tal seria melhor que as pessoas se ocupassem umas com as outras apenas no mínimo relacionamento possível, afim de minimizar possíveis perigos para com a santidade do outro e a nossa própria. Não nos deixemos atrais por seus perfumes doces, não botemos em risco nossa salvação e nem a de nosso próximo apenas por relacionamentos aparentemente saudáveis, mas que escondem um grande perigo a salvação das almas.

Percebo que a temperança tem de fazer parte do meu cotidiano. Buscar falar ao outro, ainda que seja pessoa de grande espiritualidade, apenas o indispensável, sem dispensar louvores desnecessários ou sem permitir que suas virtudes me ceguem para o verdadeiro sentido da amizade. Se um dos dois será afastado de Deus por conta da amizade não pode surgir daí nenhum fruto bom, mas pelo contrário, apenas resultará a nós dor e sofrimento, como aconteceu comigo e o homem que antes tinha como meu amigo. 

A aproximação é perigosa, e como o vício do álcool pode ser quase irreversível se não houver temperança e equilíbrio desde o início de toda e qualquer amizade. 

domingo, 13 de agosto de 2017

Seu silêncio

O seu silêncio me assusta
O seu silêncio me entristece
O seu silêncio me faz pensar o que não devo

O seu silêncio me faz crer que logo serei substituído
O seu silêncio me faz crer que não sou bom o suficiente
O seu silêncio me faz pensar que logo serei por ti esquecido

O seu silêncio me faz pensar que só me procurou quando precisava de mim
O seu silêncio me faz pensar que tem outros amigo melhores para você do que eu
O seu silêncio me faz pensar que tem outras pessoas mais importantes em sua vida

O seu silêncio me faz querer chorar
O seu silêncio me faz querer sumir
O seu silêncio me faz querer desistir

Então não fique em silêncio
Não me prive de sua voz
Não me prive do seu sorriso

Não me afaste da sua alma
Não me tire da sua vida
Não me substitua por outras amizades

Não me substitua por outras pessoas
Não esqueça de mim nas alegrias
Não esqueça de quem ficou ao seu lado 

Não me abandone sozinho 
A olhar as flores de cerejeira caindo
Tentando buscar sua imagem do outro lado da estação de trem...

Não me abandone sozinho
Ouvindo apenas o som do seu silêncio
E dos seus passos a se distanciar

sábado, 12 de agosto de 2017

Não é pelo saudosismo

Ano após ano vemos movimentos, grupos e pastorais nascerem e morrerem nas salas de reunião da Igreja Católica. Cada um com sua proposta, sua missão e sua linha de evangelização; É incontestável por exemplo a bela missão que iniciativas como a Pastoral da Criança presta no Nordeste ou a atuação da Pastoral Carcerária, que se ocupa com diligência em recuperar aqueles que vivem à margem da sociedade. 

Mais bonito ainda é ver aqueles grupos que caminham em plena concordância com a Sé de Roma. prestando serviço católico de qualidade, seja por meio de atuação pastoral no âmbito paroquial ou quem sabe até mesmo por meio das redes sociais ou nos meios de comunicação em massa, como a TV e o rádio. Infelizmente tudo que é grande demais acaba resultando em exageros, e é sobre isso que gostaria de versar sobre. 

O fato de muitas missões, por assim dizer, surgirem diariamente já deveria ser em si algo que atraísse a atenção das autoridades eclesiais, mas infelizmente isso não acontece e como resultado vemos grupos completamente despreparados, com visões completamente diminutas e muitas vezes heréticas da Igreja. É o que podemos constatar ao observar muitas das novas comunidades, cujos membros praticamente guiam milhares de fiéis em grupos praticamente protestantes sob a bandeira da Igreja Católica. Basta ir num show qualquer dessas bandas da moda e ouvir as pregações absurdas, repletas de pregações infantis, feitas para mexer com o emocional das pessoas que abaladas por suas palavras belas gastam seu tempo ouvindo suas músicas horríveis, e depois trazendo elas para dentro do seio da Igreja para obrigarem os cristãos de verdade a passarem horas cantando baladas românticas sentimentalóides que dariam diabetes até em compositores essencialmente românticos como Rachmaninoff ou Tchaikovsky. 

Engraçado notar ainda que os mesmos líderes despreparados, praticamente analfabetos teológicos, tenham um poder imenso de mudar a mente dos seus fãs mas não conseguem ensiná-los a amar a Igreja de verdade, apenas um simulacro pentecostal travestido de Igreja milenar. Oxalá se eles conhecessem a Igreja de verdade e levassem seus fãs a isso, mas muito pelo contrário, conseguem ainda incutir neles um ódio pela verdadeira fé católica, já que não a conhecessem, e o homem sabidamente teme e odeia aquilo que não consegue compreender. E não me surpreende então que os jovens tão emocionados com lágrimas aos olhos não consigam enxergar o verdadeiro valor da Eucaristia sem precisar de uma banda repetindo incansavelmente o mesmo refrão meloso até a exaustão numa solene adoração eucarística, onde Jesus, embora no centro do altar é ofuscado por sons gritantes e muitas grotescos, dignos de uma verdadeira roda de samba ou quem sabe de um terreiro de umbanda. 

Vemos então que os jovens que sabem de cor as letras profundamente tocantes dos artistas católicos semi-seculares são os mesmos que sequer conseguem rezar um Pater Noster ou uma Ave Maria em latim e ficariam horrorizados em descobrir que muitas de suas ações durante o sacrifício da Missa são mais do que dignas de reprovação, mas verdadeiramente sacrílegas. 

Temos então em mãos dois problemas iniciais, que são reflexo de um terceiro ainda maior: primeiramente o crescimento desordenado da dita nova evangelização, em que encontros e eventos se multiplicam sem controle e sem preocupação com a verdadeira doutrina e um crescente ódio pela Tradição. 

Claro, importante abrir um parêntese para salientar um crescimento também do movimento contrário, em que jovens buscam com afinco, e caminham com as próprias pernas, para conhecer os tesouros que Mãe da Verdade tem a nos oferecer. Mas infelizmente também é preciso dizer que esse crescimento é um tanto quanto desleal, pois para cada um que busca a verdade outros trinta passam a ignorá-la com afinco dogmático.

Não se tornou raro portanto aqueles que gostam, presam e buscam uma liturgia digna serem tachados como bitolados, retrógrados, tradicionalistas ou qualquer outro adjetivo vazio de significado que as mentes aporcalhadas dos protestantes de rosário na mão possam inventar. Mas ainda não chegamos a base do problema!

Sabemos que o homem é uma criatura sensível, e aquilo que sente através da visão, do tato, do olfato, do paladar e da audição é profundamente marcante em sua vida. Qual o primeiro sinal visível que difere uma igreja construída a dez anos de uma construída a cem? Até o mais leigos dos observadores vai perceber a simplicidade e a pobreza dos nossos templos. Bastam subirem paredes, pintar de branco e colocar uma cruz para as pessoas soltarem um "Ai que igreja linda!" a plenos pulmões. Coitados, não sabem o que é beleza de verdade e tampouco compreendem o quanto isso empobrece sua fé. Faça então o teste: olhe para uma sala vazia e diga o que sente. A resposta vai ser sempre vazia. Nossas igrejas estão vazias de beleza pois os adeptos desse modernismo maldito travestiu a pobreza evangélica de pauperismo liturgico que apenas consegue levar o nada aos corações dos fiéis. E vou além, desviam a atenção dos mesmos para a única coisa que eles realmente se importam em levar aos fiéis: eles mesmos.

Pegue então uma igreja branca, vazia, e coloque em seu centro um padre de casula vermelho sangue, na hora da consagração pegue uma hóstia pequena, da mesma cor das paredes do prédio. Quem vai aparecer mais? Jesus, com certeza né? Pois é. Continuemos então.

Quando queremos destruir algo mais forte do que nós, começamos pelas bases, pois sabemos que se atacar a cabeça ela estará bem protegida. Minando portanto as bases a cabeça se destrói. Ao que podemos perceber que Satanás está sendo muito feliz em sua empreitada de destruir a Igreja, atacando-a por suas bases, os fiéis, que estando em maior número do que os bispos, que deveriam ser as verdadeiras bases da fé apostólica, conseguem facilmente derrubar o conjunto todo. E isso não é de agora, começou justamente quando passaram a acusar a Igreja de ser exceder em suas posses e terras e de sustentar um culto que não mais tocava o coração dos fiéis por um culto que toca os corações dos fiéis com a brasa errada. 

Minaram a nossa fé, tiraram de nós os elementos sensíveis que nos conduziam ao supra sensível, nos deixaram a mercê de palavras, que como disse, penetram nossa mente e nossa alma, mas se as palavras que ouvimos não são a de Deus mas de líderes despreparados que apenas conhecem o seu desconhecimento o que será de nós? Destruíram nossos símbolos sob o pretexto do exagero, mas exageraram em retirar de nós aquilos que nos mantinha fiéis. Substituíram as canções profundas de sentido teológicos por musicas profundas em sentido romântico. Substituíam as orações por gritarias e barulhos que nada mais fazem do que abafar a voz do verdadeiro Espírito Santo em nós. Minaram a nossa fé, destruíram a nossa fé, e nos reduziram a bobocas que adoram repetir as balelas de pregadores que deveriam estar silenciados nos bancos das aulas de catequese, para que assim aprendessem algo de valioso que pudessem ensinar aos outros.

Não é então pelo latim, nem por um saudosismo inexplicável que lutamos por um retorno as tradições, mas por amor ao que foi vivido por tantos santos e santas e pelas coisas que ajudaram esses mesmos santos e santas a se tornarem o que são hoje: homens e mulheres que lutaram por sua fé e que ajudados pela Igreja foram conduzidos a Salvação. 

Não é preciso um esforço muito grande portanto para entender para onde vamos ao sermos conduzidos por pastores no caminho que justamente nos incute o ódio a fé verdadeira da Igreja.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Velhos conselhos

Sempre ouvimos, geralmente de nossos pais e professores, que devemos tomar certa precaução com amizades em que podemos observar uma excessiva frequência afetiva por uma ou ambas as partes envolvidas. Como bons jovens que somos dificilmente, ou nunca, escutamos tão valiosos conselhos, mas nos lembramos com precisão de cada palavra a nós por eles ditas quando, em bom português, quebramos a cara!

A vida então se encarrega de nos ensinar com pedagogia de ferro a verdade inconveniente que nossos mestres tentaram nos ensinar de forma amável: É na necessidade que conhecemos os verdadeiros amigos, e a maioria deles sempre irão te abandonar quando você mais precisar, mesmo que estivessem bem ao seu lado com eles mais precisassem. 

Bom, não é nenhuma novidade isso, aliás uma pesquisa rápida pode indicar ao menos uma centena de textos com esses mesmos ensinamentos. O que mais uma vez nos leva a comparar a pedagogia dos mestres e a da vida. Eu tento ensinar aqui com palavras o que aprendi através do fogo, e as minhas cicatrizes foram meus mestres, mas ninguém aprenderá dessa forma, não, apenas conseguiram compreender essas palavras quando forem elas mesmas marcadas pelo ferro das amizades interesseiras. Dito isto, continuarei o meu monólogo com algumas das impressões que trago em meu peito, do sentimento de traição que vem se apoderando de mim nesse momento. 

Percebi que não me procuram quando querem ir ao cinema, a menos que queiram que eu pague, ou ao teatro, ou ao parque, a menos que seja para uma tarde de pegação. Não me chamam para festas, ou eventos sociais, a menos que precisem de alguém para carona, ou de um maior de idade para comprar bebidas. Não me procuram pois não pensam em mim em momentos de alegria, por assim dizer, mas apenas quando precisam de mim de algum forma. 

Quando alguém vai faltar a missa e precisam de um substituto de última hora as pessoas lembram de mim. Quando precisam fazer aquele serviço simples, mas chato, que requer paciência e organização as pessoas lembram de mim. Quando não sabem o que fazer com a própria vida e precisam desabafar sobre seus problemas familiares ou amorosos as pessoas lembram de mim, ainda que não possa fazer nada além de ouvir. 

Tenho percebido que sou um bom ouvinte, ou as pessoas não viriam com tanta frequência me contar de seus problemas que quase nunca tem alguma relação comigo. E eu escuto sempre, o máximo que consigo, mas nem sempre estou com vontade, nem sempre me sinto bem para isso. Claro que muitas vezes é necessário colocar o outro em primeiro lugar para poder ajudar, acredito que isso seja o mínimo que possa fazer em nome de meus amigos, mas ainda assim, nem sempre me sinto capaz de ouvir, ajudar, e verdade seja dita, nem sempre quero ouvir, ajudar.

Por outro lado isso parece quase nunca acontecer. De fato quando preciso dizer algo a alguém preciso vir aqui e desabafar, pois não encontro ninguém disposto a ouvir com a mesma disposição que eu. Logo, quando começo a dizer algo que sinto, como no momento, em que me sinto triste e sozinho, já sou metralhado por uma saraivada de reclamações em contrapartida como se estivesse numa competição de desgraças. 

Fico feliz por ser procurado quando precisam de algo; Na igreja, por exemplo, me agrada saber que confiam em mim para consertar quando tudo dá errado. Significa que confiam em mim. O mesmo quando algo ruim acontece, se me procuram é porque sabem que escuto... Mas e aí, sempre ouvindo, sempre socorrendo, sempre ajudando, e quando preciso de ajuda? Exatamente! 

Quando quero chorar, quando quero desabafar, eu entro no meu quarto, e fico sozinho no escuro, na companhia das músicas que me fazem bem e tentando encontrar consolo sozinho. Isso deveria ter feito de mim um homem forte, independente, que não precisa dos outros, mas foi exatamente o contrário, me tornei cada vez mais dependente dos outros e hoje me vejo completamente inútil sem alguém ao meu lado.

Minha terapeuta diz que preciso começar a fazer coisas por mim mesmo, sair mais sozinho e ir a lugares que normalmente não iria sozinho, para conquistar essa independência, imagino, mas o problema é justamente que não tenho vontade de fazer muita coisa sozinho, até mesmo quando penso em suicídio eu o faço acompanhado... De qualquer forma acredito que esse seja o único caminho, perseguir uma trilha que me leve a independência, onde não precise viver dependendo de pessoas que não se importam verdadeiramente, porque para ser sincero, ninguém se importa de verdade!

O Rei Eterno II

O Rei eterno, em sua eterna caminhada em busca da própria morte fora condenado a lembrar-se da morte dolorosa de cada um dos seus. Dia após dia ele recorda então daqueles que conhecera, que o cativara e que lutaram ao seu lado, por seus valores e ideais, mas que acabaram inevitavelmente sendo derrotados por um inimigo em comum: a morte!

Sua condenação não fora a própria morte, mas observar a morte levar para si todos aqueles que caminham pelo mundo, ele então, dotado de uma vida eterna, jamais adoeceria, jamais se cortaria, e ainda que se machucasse, seu corpo voltava sempre ao que era antes, ainda mais forte, imune as armas, doenças e todos os males que afligem os homens desde o primeiro pensamento. Fora condenado a estar sempre sozinho, pois em algumas poucas décadas todos os que ele conhecia, morreriam, e ele teria de buscar outras pessoas, que também viriam a morrer décadas depois. 

Caminhando então por essa terra deserta, olhando o vento bater por sobre as dunas impiedosamente, lançando para longe os pequenos grãos de areia ele vê ali o retrato da humanidade, que sem vontade é lançada para todos os lados pelo vento impetuoso do destino. O destino decide então qual duna ficará maior do que outra, e por quanto tempo isso acontecerá. O destino decide qual virá a desaparecer, e qual se tornará um símbolo do deserto. O destino decide. Não as dunas, ou os pequenos grãos de areia, são todos meros fantoches nas mãos de uma eterna criança que nunca se cansa de brincar com as vidas humanas.

O Rei se senta ao chão, e cansado de andar, cansado de ver os seus morrerem, cansado de viver uma vida eterna que ele mesmo desejou, decide por passar o resto de sua eternidade ali. Passa então a observar apenas a mudança da paisagem ao seu redor.

Os ano passam, se tornam em décadas, séculos, e o que era deserto passa a ser habitado. Uma enorme cidade, repleta de prédios surge a sua frente, com construções monumentais e milhares de pessoas a andarem sem destino aparente durante os longos dias. O Rei continua sentado, assistindo. Viu os primeiros estudiosos do ambiente chegarem, fazerem suas medições, enviarem suas máquinas e operários. Surgiram as primeiras construções, e com elas os primeiros moradores. A pequena cidade foi se expandindo, se transformando numa grande metrópole, e logo o que não passava de algumas pequenas casas se mudou numa imensidão de concreto e gente, que fazia barulho a todo momento, buscando mudar o mundo em que viviam para buscar ali uma razão para sua existência efêmera. 

O Rei recordou de seu próprio reino, os prédios lhe recordarem das muralhas que mandou erguer imponentes, dos jardins que mandou regar e ornar com flores de lugares distantes, mas que ainda assim se acabaram nas intempéries dos séculos. Aquela multidão de gente era como seu gigantesco exército, que encontrava sua razão de ser no prazer de ver seu inimigos padecerem sob a lâmina de sua espada.

Mas nenhuma criação humana é eterna, e séculos depois a cidade também se torna deserta, vítima de uma epidemia que dizimou parte da população e que obrigou a restante a mudar-se para longe dali. O Rei continuou sentado, a observar. Observou o cansaço dos trabalhadores, o furor dos investidores, o desespero da multidão, o medo daqueles que perdiam os seus, e recordou-se dos séculos de perdas que vivera. 

Depois que todos se foram ele permaneceu ali, e observando os prédios envelhecerem, as vidraças se partirem e o concreto virar poeira constatou que a essência do homem é a sua existência passageira. A eterna busca pelo eterno que culmina na morte da criatura. O medo da passagem, do fim, do desconhecido, tudo isso é a eterna condenação do homem, mas é também sua maior fonte de sabedoria e de glória.

Sentado ali vendo a cidade tornar-se um amontoado disforme de ruínas o Rei percebeu que os deuses não são vilões, que apenas divertem-se com a vida dos homens, mas que dia após dia usam-se das perdas para ensinar-lhes o valor da vida, vida essa que inevitavelmente acabará na morte. Compreendendo isso ele passou a entender o que os deuses levaram milênios para ensinar-lhe: que não se deve lutar contra a natureza, pois ela sempre se mostrará superior, seja em seu infinito poder ou em sua infinita sabedoria. 

O homem nasceu para morrer. Vive para morrer. O homem nasceu para perceber que está sozinho, e vive para aprender que também viverá sozinho. O homem não pode lutar contra sua verdadeira natureza, e a verdadeira natureza do homem é a efemeridade, a vida que passa, e a sua história que desaparece.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O Rei Eterno

Num campo deserto um homem caminha só, sem saber em que direção está ou aonde irá chegar. Ao olharmos de longe vemos apenas uma mancha em meio a luz escaldante do sol que de tão brilhante torna os homens cegos. O viajante se abriga embaixo de pesadas vestes, e uma capa longa voa ao vento, assim como a areia que rodopia violentamente ao seu redor.

Qualquer um poderia pensar trata-se de um moribundo, um homem sem importância que anda sem direção esperando apenas a hora de sua morte chegar. Caminhando apenas para dar a si mesmo a impressão de continuar lutando até o dia em que sua capa será trocada pelo manto negro da morte. Mas este homem não é um rejeitado da sociedade, mas um rei que, desejando a vida eterna, aprendeu da pior maneira que nossos desejos nem sempre são aquilo que realmente precisamos.

Ele caminhou por anos, em busca de vida eterna, de um corpo perfeito e imortal, e não descansou nem mesmo quando sua alma deixou seu corpo. No inferno ele continuou sua busca incansável até que depois de longos séculos de tortura, conseguiu dos deuses o direito a um corpo imortal, como recompensa por sua longa jornada. O que ele não sabia é que os deuses não tinham intenção de com aquele corpo o presentear, mas apenas castigá-lo por almejar algo negado aos homens. Apenas aos deuses está reservado o direito a um corpo imortal, pois vivem rodeados de todas as riquezas e prazeres do mundo, enquanto usam de seus poderes para governar o mundo, que está sempre a mudar. Mas ao pobre rei não, ele não era um deus, não tinha o que governar, e quando retornou a este mundo, sei reino já havia se acabado, e ele não era mais lembrado, temido e nem reverenciado por ninguém. Seu nome foi esquecido pelos homens pelos quais um dia ele lutou, seu povo aprisionado e suas mulheres vendidas aos reinos vizinhos.

Recuperara seu corpo, e sua vitalidade, e por um século ou dois fora admirado aqui e ali como grande líder e guerreiro, mas ele logo aprendeu que viver para sempre num mundo onde todos morrem significa ser eternamente esquecido por uns, enquanto precisa recordar aos outros o valor de sua existência.

Não acostumou-se a ver os seus morrendo, ano após ano, e ter de superar o luto, ano após ano, em todos os lugares que estivera. Os deuses deram-lhe um corpo perfeito, que nunca apodreceria, mas mantiveram seu coração humano, fraco, que se apega, que ama, e que sofre com a perda.

Não ganhou a vida eterna, uma vida de deleites e prazeres, uma extensão das conquistas que tivera em vida. Ganhou dor, desespero, e a eterna condenação de ver os seus morrendo, dia após dia, até o fim dos tempos e além... Caminha agora sem rumo, sem direção, apenas fugindo em sua loucura do mundo em que vivera por milênios, e que por milênios vira morrer em seus braços, não uma ou duas, mas incontáveis vezes.

Caminha agora sem rumo, tentando encontrar a morte que para sempre lhe foi tirada. Deseja agora fazer parte do grande número de condenados a morte desse mundo, deseja não mais ser o rei dono de todos os tesouros da terra, mas possuir a morte para si. Deseja não ver ninguém morrendo em suas mãos, mas sabe que o mundo há de morrer, enquanto ele viverá eternamente.

Morrendo a cada dia, mas sem nunca conseguir morrer. Vivendo cada dia tendo de encarar a morte, mas sem nunca poder tocá-la, sem nunca poder acompanha-la ao seu reino. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Pensamentos pessimistas

Hoje me veio aleatoriamente o pensamento de como somos duros, em nossas decisões, e de como muitas vezes tomamos o caminho errado em nossa vida apenas por não querer ver o outro, o diferente.

Nos fechamos tanto em nossas certezas que ficamos cegos aos caminhos que surgem e fazemos vista grossa a coisas que poderiam nos dar a tão querida felicidade. Tudo em nome de uma perspectiva fantasiosa e débil que além de dificilmente ser possível de se concretizar ainda se torna causa de dor e sofrimento a nós. 

E o pior é que as pessoas ainda são incentivadas a sonhar coisas impossíveis, com a desculpa de apenas os sonhadores conseguirem realizar seus anseios, mas a verdade é que tal coisa apenas incentiva a decepção, quando as pessoas não conseguem realizar aquilo que tanto sonharam, e quase sempre não conseguem. Alguns poucos que conquistaram as graças da sorte e do destino iludem a todos os outros homens com a falsa esperança de que todos podem ser felizes, realizados, amados... Não podem. 

Nessa vida poucos encontrarão a felicidade, e menos ainda serão felizes e se sentirão realizados, e o número daqueles que encontram o verdadeiro amor, e conseguem vivê-lo é ainda menor. Enfim, a verdade é que poucos serão felizes na vida e esses poucos acabam por dar tristes esperanças aqueles que serão miseravelmente infelizes, pois são incapazes de enxergar as possibilidades de crescimento a sua frente, já que estão cegos pelos sonhos dos outros, que nunca conseguirão alcançar. 

E então, quando não alcançamos o que queremos, nos frustramos e aí vem o ódio. O ódio. Este cujo poder circula por nosso íntimo como o sangue, e como o sangue representa os ímpetos de fúria que nos fazem querer destruir toda a existência.  

Quem diria?

Quem diria que teríamos uma conversa assim?
Quem diria que um dia conseguiria ficar assim perto de você?
Quem diria que conseguiria tratar de certos assuntos sem sofrer?
Quem diria que conseguiria ficar normal depois de tudo o que ouvi me dizer?

A vida é cheia de ironias, 
De surpresas, 
De limites superados 
E barreiras aparentemente sem fraqueza. 

Mas sempre que pensamos compreender algo 
Ou chegar a um ponto final 
A vida se encarrega da mostrar 
Que estamos ainda longe de compreender qualquer coisa. 

E bota longe nisso!
A vida é então cheia de "quem dirias?" 
Quem diria?
Quem poderia imaginar?

Quem diria que um dia eu iria o seu sorriso superar? 
Quem diria que poderia conversar sem surtar?
Quem diria que um dia iria sorrir sem querer chorar?
Quem diria?

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

As fugas

As ideias fugiram de minha mente
E minha mente apenas concebeu horrores

As pessoas fugiram de meus horrores
E meus amantes fugiram de meus braços

Meus parentes fugiram de minhas manias
Meus amigos fugiram de minhas ideias

Meus inimigos fugiram de minha displicência
E minha displicência me levou à ruína 

Meus medos fugiram de minha condescendência 
Meus sonhos fugiram de meus medos

O meu futuro fugiu da minha indolência
E minha indolência me levou a tomar escolhas erradas

Minhas aspirações foram esmagadas sob o peso das minhas escolhas
E meu céu foi aniquilado sob o peso dos meus pecados

O meu anjo fugiu de minhas dores
E a solidão veio fazer companhia para as dores

Essas dores me levaram ao isolamento
E o isolamento me tornou um homem arredio

Esse traço de personalidade me fez inseguro
E minha insegurança fez de mim um covarde

A covardia fez de mim um homem cheio de maldade
E essa maldade em mim fez com que eu odiasse a todos os outros

Odiando então todos os homens e todas as coisas
Eu retorno a infelicidade de na solidão conceber horrores.

Amor é ódio

Dentro de mim nasceu um sentimento que não sabia ser eu capaz de sentir. Dentro de mim nasceu um ódio profundo por alguém que deveria ser contada entre as pessoas que melhor compreendem o meu coração. 

Mas o meu coração não consegue compreender essa pessoa, e meu coração apenas decidiu sentir o que ele gostaria de sentir, e ao invés de se manter imparcial resolveu odiar, com todas as suas forças. É uma situação ruim, pois sinto que esse ódio não faz mal a ninguém senão a mim mesmo, e odiando esse alguém não mato a ninguém senão a mim mesmo. Esse ódio tornou meu sangue em veneno, e esse veneno não será inoculado em um outro alguém, mas apenas continuará a circular dentro de mim, aos poucos me conduzindo a minha própria morte.

Esse meu ódio no entanto não nasceu de algo feito por um inimigo, mas algo que veio de alguém de dentro de meu círculo mais íntimo, de alguém que um dia ousei chamar de amiga. E no entanto também não fui traído para assim odiar com tanta força. Meu coração é que insiste em sentir-se traído, e desse sentimento nasceu o ódio que agora me domina. Não há um dia sequer desde então que não venha a desejar a morte de tal pessoa das maneiras mais violentas possíveis. 

Não consigo mais pensar nela ao lado de pensamentos bons, mas apenas imagens grotescas me vem a mente. Apenas o seu grito lancinante de desespero, o seu medo a me alimentar, o seu arrependimento a encher meu coração de deleite. Como uma lâmina minhas palavras desejam cortar-lhe a gargante, e num golpe certeiro deseja ver sua cabeça rolar pelo chão embebido de seu sangue miserável. 

Tornei-me esse assassino impiedoso, não por ter derramado o sangue de alguém, mas por desejar fazê-lo no íntimo do meu ser. 

Mas nem sempre o sangue que quero derramar é o daquele monstro que despertou minha fúria, na maioria das vezes é meu próprio sangue pois passei a me odiar, passei a odiar o que me tornei e passei a odiar o que posso vir a me tornar. E esse é o padrão que me incomoda...

Ódio, ódio, ódio. 

Donde me vem tanto ódio?

Não quero odiar assim, não quero ser assim, não quero odiar assim...! Mas o que eu posso fazer? De que forma posso abandonar esse veneno que vem nascendo dentro de mim e parar de odiar? Se ao menos não conseguir substituir o ódio pelo amor, gostaria de ao menos não sentir nada. E então vivo agora com esse combate dentro de mim, ódio e amor lutando por espaço, ódio e amor lutando para me dominar. 

Ódio e amor lutam pelo controle de minha vida, e ódio e amor lutam para ver o que será de meu futuro. Ódio e amor lutam, e lutam, e lutam, mas nunca um deles sai verdadeiramente vencedor, Só temo que, quando um deles vencer, alguém de fato possa morrer...