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terça-feira, 12 de agosto de 2025

Adagio Lamentoso para um Moribundo Esquecido

Pedi tão pouco à vida
e esse mesmo pouco a vida me negou.
Uma réstia de parte do sol,
um campo,
um bocado de sossego com um bocado de pão,
não me pesar muito o conhecer que existo
e não exigir nada dos outros
nem exigirem eles nada de mim.

Isto mesmo me foi negado,
como quem nega a esmola não por falta de boa alma
mas para não ter que desabotoar o casaco.

(Fernando Pessoa)

Em memória de um abraço sem testemunhas

Estou sensível por conta de uma situação que eu mesmo aceitei entrar e que sabia que podia me machucar. Enfrento pura e simplesmente a consequência do desvelamento de algo que eu já sabia, mas que não queria aceitar, que não queria ver. Essa é a pior cegueira, como o dizem, não é? Aquela que o homem não quer ver. Eu sou assim, sempre vejo, mas não quero ver. É como se eu mesmo conseguisse criar um nevoeiro ao meu redor, louco, alucinado, e vendo conscientemente apenas aquilo que me agrada. 

Mas, se eu mesmo crio a barreira que me impede de ter contato constante com aquilo que machuca, talvez não seja a criação dessa barreira, desse Campo Anti Terror, uma ação também consciente e, no entanto, discreta?

Me recordo então de algumas justaposições à situação que me machucou. Parecem que datam de décadas, e não apenas alguns dias atrás, mas já estes mesmos, os últimos. O abraço naquela noite fria, as palavras de "eu te amo" que, mesmo agindo como se fossem normais, ainda assim reverberaram em mim, esperando, como quem toca um címbalo, que fosse dado outro toque, que a música continuasse, que desse origem a uma valsa, quem sabe.

Mas não. Eu ignorava que esses eram apenas os compassos que eu tocava sozinho com o meu clarinete. A orquestra até seguiu com a melodia, mas ela engoliu o som dantes proclamado como por um velho moribundo e arrependido de suas escolhas, aos convivas que aguardam, com velas em mãos, por sua morte.

Também isso é um engano. Não há ninguém nessa casa solitária. E essa constatação é o despertar de um sonho.

Dirijo o olhar brevemente ao quarto imundo, iluminado apenas pela luz que entra por frestas de uma janela de uma madeira que, ao que parece, se tornará apenas um monte de farelos caso seja tocada por algo mais que um dedo. Não há mais ninguém naquela casa nem em seus arredores. Talvez aquele fosse apenas um casebre antigo, usado como depósito, o que explicaria os sacos de estopa com conteúdo desconhecido empilhados num canto do cômodo ao lado, ou as ferramentas de jardinagem, todas com sinais de envelhecimento avançado, largadas ali, porque já não vale mais a pena consertar ferramentas em tal estado, tão tomadas pela ferrugem que aquele lugar lhes é mais apropriado por isso. Porque ninguém usa ferramentas quebradas.

O velho moribundo já não se levanta. Apenas se mexe para um lado ou outro conforme a luz do dia avança ou diminui. Às vezes vira-se para que o sol não pegue em seu rosto, mas em suas costas. 

Não sente mais fome. 
Não sente mais frio ou calor. 

Tais coisas são próprias das pessoas, e de animais, ele já não é mais isso. É apenas espectro de um passado inexistente. O fedor daqueles panos velhos colados ao seu corpo não incomodam mais. Ele apenas fecha os olhos, que também quase não enxergam, leitosos, desgastados pela dor que viveu, e se deixa entregar mais uma vez a uma visão inexistente, jogando-se no vazio frio de uma alucinação. Dançando uma valsa sem que, na verdade, o seja, parece algo como uma marcha fúnebre, que ninguém tocará quando ele morrer. Ficará ali, e talvez nem mesmo os vermes ou os animais o comam depois de morto, já não tem valor nem mesmo para aquelas criaturas podres que nas carnificinas se banqueteiam. Não se petrificará, perpetuando-se no tempo. Não. Apenas, pouco a pouco, sua pele se tornará mais clara, depois translúcida, até que enfim desapareça por completo, sem que reste naquele ar sequer um último sussurro.

Partirá dessa existência como viveu, se é que se pode chamar essa existência patética, miserável, que esperava dos homens a grandeza, a beleza, o amor recíproco e poderoso de que falam os poetas, os filósofos e os cantadores. Amou, mas os homens nunca o amaram. Negaram-lhe que andasse entre eles como iguais. Vagou pela terra sem par. Levando sempre consigo esse amor, como uma velha mochila às costas cheia de nada, mas um nada pesado, um nada tão sólido quanto a enorme lápide de mármore preta lascada para um defunto desconhecido. Mas não um ilustre desconhecido, como o Príncipe Ignoto que desposou Turandot, não. Este é apenas alguém que jogaram ali por pesar de jogarem em local menos digno a algo que, tendo certa semelhança com gente, não tinha, de fato, aparência humana para receber tratamento melhor que o desprezo.

E, por fim, antes que suas pálpebras se fechem de vez por sobre seus olhos leitosos, ele já não enxerga a parede de barro cozido, mas um sorriso amarelo, antigo e que, não era para ele. Sorriso, corpo, espada e alma, entregues a uma ilustre mentira. 

Fechadas de uma vez para sempre, assim como sua voz que, uma vez calada, nada mais dirá e nem lhe será perguntado, entrega-se então ao último movimento: o adágio lamentoso que o fará retornar ao nada. 

~

Sob a inspiração da Sinfonia N° 6 de Tchaikovsky, Op. 74 "Pathétique"

segunda-feira, 31 de março de 2025

Não Pergunte


E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,

(Carlos Drummond de Andrade)

Foram vários sorrisos, encantadores eu diria, alguns abraços apertados e até um beijo, meio atrapalhado. Por alguns brevíssimos instantes, enquanto isso acontecia, era como se aquela barreira, aquele Campo de Terror Absoluto, fosse desfeito, e então, eu pudesse tocar, ainda que de modo superficial, nesse grandioso e quase infinito, imensurável oceano da consciência do outro. 

Mas era apenas ilusão, um engano de percepção, a rápida euforia me deu essa impressão, movida pela carência, pela sensação do nada, do vazio (não, eu não li o Seminário Crítico XIX de Lacan, onde ele introduz a noção de vazio distinguindo-a da "falta" e do "nada"). Essa carência sempre faz isso, sempre. Faz ver afeto e proximidade onde não há. 

Depois, cada um foi para sua casa, eu não saí para beber como planejara, e as despedidas, pelo menos as minhas, foram rápidas, como se eu não passasse de um conhecido que, por acaso, estava ali, e era exatamente isso. 

É sempre isso. 

E então eu passei o dia seguinte inteiro na cama, não conseguia me mover. 

O dia inteiro

de nada

nada

nada

do mais absoluto 

e completo vazio.

Eu queria assistir, queria sair e tomar uma cerveja com algum amigo, queria ouvir música, em alguns momentos sentia essa vontade, mas eu não conseguia fazer nada disso, ela era engolida novamente pela escuridão, eu sentia como alguém tentando nadar contra a força invencível do oceano. Era apenas um corpo inerte, pesado, e uma mente vagando num deserto de sal, 

frio, sem ninguém, 

no coração de um mundo desabitado.

Quando já era noite eu precisei tomar energético para conseguir ter alguma disposição, por mais artificial que seja. Só então consegui, depois de muito esperando algum resquício de energia, fazer alguma coisa.

Sinto-me num pêndulo, como quem vive e morre várias vezes ao mesmo dia, eterno retorno, um inferno fechado em si, como o ourobouros que trago marcado ao peito. Naquela época eu não imaginava que ele seria tão emblemático.

Se retorno então à experiência daquele dia, e evoco aqueles momentos, felizes, é verdade, porém fugazes e talvez vazios, mais uma vez eu me dou conta daquela verdade. Aquela, de todas as experiências, me parece a mais brutal, a mais presente, ainda que poucos se deem conta. Ou talvez porque realmente eu seja o único condenado. Não por ser especial, pelo contrário, mas por ser diferente, um abortivo. Daí meu retorno a Instrumentalidade, a minha vontade de, por temer a carência, acabar desejando me tornar um com todos. Não pergunte por que, não existe outra maneira de existir. Mas é algo impossível, embora fosse da mais absoluta necessidade. A única realidade possível, ou que se realizou, é essa de que me dei conta mais uma vez:

"Sim. Existe um vazio bem no âmago de nossas almas. Uma imperfeição fundamental que tem assombrado todos os seres desde o primeiro pensamento. Em um nível primitivo, o homem sempre esteve ciente da escuridão que mora no núcleo de sua mente. Temos procurado escapar desse vazio e do temor que ele provoca, e o homem procura preencher esse vazio." (Neon Genesis Evangelion)

sexta-feira, 26 de abril de 2024

A fera que gritou EU no coração do mundo

Acho propício que, no atual estado da minha vida, retome aqueles diálogos dos episódios finais de Neon Genesis Evangelion, onde Shinji tenta descobrir a razão de sua existência ao mesmo tempo que encara a difícil realidade de dor que é a vida mesma. As perguntas são muitas, e ele questiona sua existência, o porquê e o para quem, ele percebe a dor que é estar sozinho mas também a dor que é estar próximo do outro, percebe o vazio fundamental do homem e a tentativa das almas de se unirem no Projeto da Instrumentalidade Humana. Mas, ao fim, ele encontra a resposta: mesmo em meio a dor, encontrar a si e sua natureza. 

Por que você pilota o EVA?

- Porque todo mundo mandou eu pilotar. 

É o único motivo para pilotá-lo?

- Como assim? É pelo bem da humanidade. Isso não é bom o bastante?

Então pilota pelo bem dos outros?

- É claro, tem alguma coisa errada nisso? Eu estou fazendo a coisa certa, e quando eu faço isso os outros apreciam, os outros gostam de mim.

- Você ta mentindo! Você é idiota? Você sabe muito bem que faz isso por você mesmo! Você só ta inventando desculpas como sempre faz!

- Eu faço isso?

 - Fingindo que ta se sacrificando pelo bem dos outros é só outra desculpa. Bancar o mártir te faz se sentir especial. 

- Eu não sei se isso é verdade...

 - Está se sentindo solitário e isolado, só isso!

- Estou?

 - Claro que está! Você vive de compaixão e consegue isso com seu EVA Shinji!

- Isso pode ser verdade...

 - Você adora que os outros dependam de você e isso satisfaz sua pequena mente distorcida!

- Ergh, pode ser... Ah.

 - Se quiser a verdadeira felicidade, vai ter que encontrar ela sozinho! E não ficar esperando que alguém a dê pra você!
 - Mas não é isso que você tem feito?

Ele se equilibra entre Rey, que não se encaixa como humana e nem como imitação, e Kaworu que se encaixa tão perfeitamente que nem precisa de ajustes ao se ligar ao EVA. 

Conexão.

Shinji nunca havia se conectado com ninguém, vivera sozinho e mesmo na série, não entendia as posições de Misato, de Asuka, de Rey e muito menos de seu pai. Ele tentou pilotar para ser aceito, tentou mudar a si enfrentando uma situação difícil e dolorosa, mas para ser aceito, e não porque era a sua missão. Quando ele aceita que a decisão final, aquela que poderia colocar fim as dores do mundo, mas a troco da individualidade, ou manter essa individualidade, acompanhada de todas as dores que vêm com ela, ele entende seu papel e, assumindo como o centro de seu Ser, ele se torna a fera que gritou EU no coração do mundo. Ele aceita a dor de ser quem ele é, fraco, mas, ao mesmo tempo, o único capaz de tomar a decisão por si. E então ele se vê novamente de volta ao seu corpo, dolorido das batalhas, mas seu corpo, agora em harmonia com sua mente, que ainda vê seus medos, mas consegue enfrentá-los e sua alma, sua porção mais elevada, única, parte do todo. 

Ele percebe que deixar de existir não é seu destino, mas aceitar sua existência, encarar a missão de ser ele mesmo, isso é o que o fará ser aceito, não porque ser aceito é seu objetivo, mas porque quando ele não sabia quem era os outros não tinham a quem aceitar, senão que vinham apenas um objeto a ser comandado.

Esse excurso não é uma digressão sem sentido, mas é um caminho que eu já havia visto e entendido como a missão de Shinji, e o caminho do próprio autor, mas não tinha ainda entendido que era também o meu caminho: aceitar ser quem sou. 

Caso 3 - Shinji Ikari

Medo

- Tenho medo de desaparecer.

- Eu posso desaparecer porque não mereço existir.

- Por que acha isso?
- Porque eu sou inútil.

Eu não sou desejado. Eu sou uma criança inútil. E você não se importa mesmo comigo não é?

- Usar isso como desculpa é a mesma coisa que fugir. O que você teme mesmo é falhar. Você tem medo de ser odiado pelos outros. Tem medo de reconhecer essa fraqueza até pra si mesmo. 

Como pode me criticar quando faz a mesma coisa?

 - Você tem razão. No íntimo somos todos iguais. 
- Nossas mentes carecem de algo básico.
- E tememos a carência.
- Nós a tememos.
- É por isso que estamos tentando nos tornar um.
- Nos fundiremos e preencheremos uns aos outros.
- Esse é o Projeto de Instrumentalidade.
- A Humanidade não pode viver sem estar cercada uns pelos outros.
- A Humanidade não pode viver sozinha.
- Embora você mesmo seja único.
Por isso minha vida é difícil.
- Por isso minha vida é triste e vazia.
- Você quer a afeição e a presença física e mental dos outros.
- É por isso que queremos nos tornar unos.
- A alma humana é feita de elementos fracos e frágeis.
- O corpo e a mente também são feitos de componentes frágeis. 
- Então através da Instrumentalidade a Humanidade deve preencher e complementar uns aos outros. Não pergunte porquê, não existe outra maneira de existir.

Verdade?

- Por que você existe?

Eu não sei

- Talvez eu exista pra descobrir porque eu existo.
- Pra quem você existe?
- Pra mim mesma, é claro. 

- Talvez pra mim mesmo.

Isso está bem longe de apenas uma afirmação externa e superficial como fazem tantas pessoas, mas uma aceitação profunda que, por sua vez, tem impacto no externo. 

Me recordo que disse, ontem mesmo, ao meu afilhado, que minhas atitudes negativas eram o motivo de eu afastar as pessoas, e não minha aparência, como suspeitava. Isso porque esse negativismo é fruto do não aceitar quem sou, com minhas qualidades e potencialidades, mas também dos meus limites, do meu respeito a mim mesmo. 

E é nesse ciclo que espero entrar agora, de entender meus limites, de não me forçar mais a estar onde não quero, com quem não quero, de não ficar triste por estar sozinho, de aceitar, aceitar com firmeza e explorar o que posso ser, isto é, continuar a querer aprender e ensinar o que for possível. Acho que esse é o único caminho.  

Encontrar nos meus momentos a sós, começar a sair sozinho, seja nos cafés ou cinemas, parques ou o que for, aprender a me sentir confortável com a solidão e torná-la solitude, só assim posso me preparar para ser não um problema para mim mesmo.

Cada linha que escrevo contém tudo de mim, e ninguém nunca entende nada. 

~

Trechos retirados dos últimos episódios de Neon Genesis Evangelion

segunda-feira, 3 de abril de 2023

Dilema Existencial

Já tratei várias vezes acerca das distâncias entre as pessoas, em como muitas vezes nos tornamos universos incomunicáveis e, mais ainda, o quanto isso impacta e o quão desesperador pode ser viver com a impressão da total solidão e isolamento de todos os outros. 

Mas, tem um aspecto desse fenômeno que só muito recentemente eu observei em Neon Genesis Evangelion, depois de uma aula do Guilherme Freire em que ele comentou essa obra tão fascinante.

No universo de NGE temos um Shinji que sente a dor do confronto com o outro, e como ele prefere fugir a esse confronto para, assim, evitar a dor que ele causa. Em um período já bastante crítico eis que aparece Kaworu, um garoto misterioso que estranhamente se aproxima do protagonista e consegue se tornar próximo dele como nenhum outro personagem, até mais do que as outras protagonistas, que levaram vários e longos capítulos para criarem intimidade e, ainda assim, causavam dor ao pequeno garoto assustado. 

Nesse ponto Kaworu se torna uma doce companhia para Shinji que se vê no meio de uma luta que parece impossível de ser vencida, onde todos estão sem esperança e apenas continuam em frente, mais e mais, e ele já nem tem de onde tirar energia, apenas seguindo. E então eles dão uma pausa, e apenas tomam um banho, conversam antes de dormir, num momento de respiro depois de tantas lutas, e antes da última e mais difícil.

Kaworu se mostra como a possibilidade da negação do conflito, de uma vida onde os opostos de feminino e masculino não colidem, onde esse mundo masculino seria a possibilidade de um mundo em que as pessoas não machucam umas às outras, mesmo separadas e divididas. Shinji sente com força essa possibilidade, percebe pela primeira vez que poderia ser feliz ou, ao menos, levar uma vida mais tranquila. A essa ausência de conflito Kaworu chama de Amor, algo que Shinji não chegou a conhecer, abandonado pelo pai desde pequeno. O conflito é personificado pela Asuka, sempre agressiva, e pela distância com a Ayanami, são duas faces do muro que existe entre as pessoas. 

Essa tentação se manifesta com uma conotação sexual para ele e então se torna essa possibilidade de tranquilidade. No entanto é uma possibilidade carregada de negatividade, tanto pela negação do conflito quanto pela negação da realidade do homem. Esse mundo homossexual que se apresenta ao Shinji é uma promessa de amor mas, ao mesmo tempo, não lhe parece certo. 

Muito embora Shinji esteja num estado de acídia e até mesmo depressão ele consegue vislumbrar um mundo com uma centelha de felicidade, personificada no sorriso doce do amigo que o provoca em alguns momentos criando uma atmosfera descontraída e acolhedora. Eles se deitam ao lado um do outro, como Shinji chegou a dormir com Asuka, mas com uma calma em seu coração que ele não experimentou ao dormir com a amiga, até mesmo sendo assombrado pela tentação sexual de dormir ao lado de uma garota bonita de sua idade. Com o amigo, por outro lado, a tentação sexual é acompanhada pela tranquilidade.

O garoto que olhava para o mundo com pessimismo finalmente vê um pouco de alegria mas parece que algo está errado...

Ele se vê diante da posição de negar a sua realidade mas a realidade que se apresenta em alternativa é justamente fraca em manter aquele fundo de verossimilhança. Em resumo: um mundo sem conflito e sem a necessária dualidade entre o feminino e o masculino é irreal, é incompleto.

Isso porque não é simplesmente a ausência de conflitos que significam uma vida feliz mas, uma vida completa é formada também por conflitos que fazem parte da natureza mesma das coisas. É por isso que apenas fugir e se refugiar num mundo imaginário sempre acaba em desilusão, justamente por isso ao vislumbrar esse mundo nele não há nenhuma felicidade.

A morte de Kaworu significa para Shinji o fim da linha, e ele entra em estado de profunda depressão, só conseguindo reagir muito depois de iniciado o projeto de Instrumentalidade Humana. A pergunta "por que você o matou?" se repete indefinidamente na mente do jovem que tenta a todo custo se livrar da culpa de ter nas mãos o sangue da pessoa que, pela primeira vez, lhe deu a visão da alegria. 

O dilema existencial é então apresentado por meio dessa tensão entre o real, o sonhado e aquilo que podemos equacionar das duas coisa, uma síntese, por assim dizer, do sonho que não se perde da realidade. A representação desse dilema na angústia depressiva é uma boa imagem e reflete com verossimilhança a experiência comum a todas as pessoas. 

Parece-me, uma vez mais, que as pessoas comuns não esperam mais de si mesmas e dos outros nada além de que trabalhem vorazmente e que intercalem longas jornadas com alguns poucos momentos de alegria, muito limitados tanto pelo tempo quanto pelo cansaço, sem esquecer do pouco dinheiro, e que logo se esvai perdido entre os alarmes de uma nova semana que se inicia, e se inicia com extremos dos contatos entre o eu e o outro, causa das dores das incompreensivas relações, da incapacidade de conhecer e tocar o outro, de entender suas dores e alegrias e também pela fuga constante da realidade em recortes muito diminuídos, como ações técnicas e de limitada exigência intelectual.

As pessoas refugiam-se então nesses recortes da realidade. Se perdem em e-mails que ninguém lê e listas de tarefas que, se deixassem de ser feitas, não fariam nenhuma falta. Essas coisas são a falsa promessa de alegria, uma alegria por conta do sentimento de dever cumprido, se esse dever é importante não importa, contanto que sirva para silenciar o coração das angústias, das vozes que repetem "do que tem medo?" e "por que você o matou?" incessantemente. Esse é o mundo sem conflitos que as pessoas buscam e nele vivem, ignorando as dúvidas e as dores reais.

Acho que não preciso me demorar mais a dizer que isso é uma forma muito diminuída de existência.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Isso é tudo

É meio difícil chegar ao último dia do ano e não parar pra fazer um balanço geral dos meses que se passaram, o que significou a mudança das estações, o que reservou a sucessão dos acontecimentos na minha vida. 

Foi, sem sombra de dúvidas, um ano dificílimo: desemprego, crises sucessivas de depressão e pânico que me deixaram prostrado sob o peso dos meus próprios pecados, amigos que me deixaram, amizades que eu decidi encerrar, crise familiar, e tudo isso somado a crise mundial que, de um modo ou de outro impacta em mim, seja na compreensão pessimista do quadro geral ou na íntima constatação de que o universo parece cada vez mais hostil. 

E é partindo dessa expressão que eu começo, a de que o universo soou nesses últimos meses como um ser de hostilidade ímpar, decidido a me destruir. Mesmo eu sabendo que o universo é completamente indiferente a mim, essa foi uma experiência que eu não posso negar que senti a todo momento.

As dificuldades foram tantas que eu tive até mesmo de me afastar da igreja, mais precisamente da pastoral, por não conseguir mais conciliar as minhas obrigações com as minhas crises pessoais. Foi uma decisão dura, mas foi necessária e eu pude sentir uma leve melhora. Agora, eu me sinto menos pressionado do que quando era responsável por todas as celebrações da igreja sozinho. 

Foi o ano que eu me vi completamente dependente de remédios pra tudo, seja os que o psiquiatra passou pra me ajudar a me reerguer ou aqueles que eu uso pra fugir da realidade, sem medo de assumir que é isso que eu faço.

Sempre que tomo remédio para dormir, pouco antes do efeito sonífero começar, eu sou tomado por uma súbita onda de energia, e muitas vezes acabo até fazendo ou falando alguma bobagem no calor do momento, mas eu gosto de me sentir assim. É como se eu finalmente acordasse brevemente, antes de cair no sono profundo e desejado. É um breve piscar de uma chama, logo desaparece num oceano de enevoado dormir, é meu prêmio tão esperado, meu momento, minha supernova. É pra esse momento, e apenas para ele, que eu existo. Para me entregar ao deleitoso não ser, para não sentir, não sonhar, apenas isso, um momento de negação de tudo aquilo que poderia ser, um momento de revigorar o que foi cansado pelos dias, de adormecer lentamente enquanto a música toca ao fundo, como um hino aos mortos, cantado em meu próprio leito ao lado de carpideiras. É uma imagem incerta, admito, mas é uma imagem que me agrada. Eu me assumi um covarde que aprendeu a fugir de tudo e de todos. 

Mas e as coisas boas? Não posso dizer que no meio desse turbilhão de crises emocionais não houve nada de bom. Houveram momentos sim em que eu tive esperança, em que eu me senti bem, em que eu me senti vivo. A quase totalidade deles foi enquanto acompanhava as histórias de amor que, nesse ano, foram as minhas companhias mais fiéis, estando comigo quando eu não queria ou não podia estar com mais ninguém. Quando não estava com elas estava em companhia da solidão, mesmo em meio a multidão. Foram essas histórias as responsáveis por manter acesa a pequenina chama que ainda há dentro de mim, e cada cena, cada personagem, cada beijo ou toque carinhoso, foram pouco a pouco me devolvendo a alegria que me foi roubada. A música não parou de tocar, nem por um momento sequer, e preencheu o vazio que havia em meu coração, abafando os gritos da minha alma inquieta. 

Quantas dúvidas eu tive em meu coração. Não sabia quem sou e nem os motivos de ser, a existência ainda me parece um mistério muito maior do que a minha consciência é capaz de abarcar, e em todos os dias elas me encheram de incertezas, incerteza sobre o amanhã, sobre o que eu posso ser, sobre o que eu devo fazer. Dúvidas que ainda deixam a minha mente sem controle, desesperada, tomada pelo pavor, todas as noites. 

Não estou completamente só, como muitas vezes dei a entender, mas a cada ano o número dos meus amigos se reduz pela metade, e eu sou grato aos que ficaram, preferindo esquecer e ressignificar os que se foram. Tenho hoje, mais do que nunca, a consciência de que somos mundos diferentes que nunca vão se encontrar, não havendo Instrumentalidade capaz de desfazer as barreiras que nos separam uns dos outros. 

Não tenho perspectivas de futuro, isso morreu em mim há muito tempo, e vou vivendo apenas um dia de cada vez, sem esperar nada de ninguém ou, no máximo, esperando o pior de todos, e assim vou, acordando a cada dia com um ceticismo no meu peito e a certeza de que nada vai dar certo, de que as coisas são uma porcaria e isso é tudo. 

terça-feira, 13 de julho de 2021

Solução

E, o aperfeiçoamento do homem via Instrumentalidade tem início. 

O início da Instrumentalidade.

O que as pessoas perderam. 

As mentes que desapareceram, afobando-se para preencher o vazio da mente.

 A complementação. 

A Instrumentalidade que fará todas as coisas se tornarem inexistência, já começou!

Dilemas existenciais, perguntas para as quais eu não sei a solução, sentimentos conflitantes que lutam pelo controle do meu eu, fantasmas, medos, verdades. Eu. O outro. Dois seres distintos que causam dor e sofrimento um ao outro, e apenas isso. Imperfeição fundamental. Um vazio bem no âmago do coração do homem que o assusta desde o primeiro pensamento. O retorno ao nada. A esperança de voltarmos aquele útero primitivo que perdemos há muito tempos atrás, a única forma de sermos felizes. Sem barreiras, sem individualidades conflitantes mas almas e mentes que se afobaram para preencher a totalidade da existência, cada um dando um pouco de si para do um formar o todo, que também é um, apenas um, sem dor e sem sofrimento. Sem medos, sem fantasmas, sem vazios, tudo preenchido, essa é a verdade, a verdade é o todo uno formado pelos uns que se explodiram. Eu não me sentiria só, não me sentiria triste pois a alegria do todo seria a minha e a minha tristeza equilibraria a alegria do todo. Não haveria falta de razão para ser pois, sendo essa a única forma completa de ser estaria dada então a máxima realização da humanidade: o tudo que retorna ao nada, o um formado por todos, sem barreiras e sem choques. Sem necessidade de impressionar, sem necessidade de compensar as frustrações do passado, sem nenhuma necessidade de agir desse ou daquele modo para fugir de um trauma ou provocar uma catarse: a existência perfeita. Sem abandono, sem sujeira, sem defloração, sem relacionamentos revoltantes, todos sendo apenas um. 

A razão da existência. 

A razão que permite a alguém ser.

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Do alto da montanha

Na escuridão segura, pela secreta escada disfarçada eu subi até o jardim secreto, para encontrar a fonte lacrada. Na noite escura eu busco aquele por quem minha alma clama.  Como cervo fugiste, havendo me ferido. Contemplo do alto da montanha o silêncio solitário. Ele não me incomoda, sempre estive só, nada mudou. Idem velle, et idem nolle. As coisas são assim, o mundo é assim. Não há como lutar com um furacão, como não há como lutar contra o destino terrível. Não há. 

 Medo

- Tenho medo de desaparecer.

- Eu posso desaparecer porque não mereço existir.

- Por que acha isso?

- Porque eu sou inútil.

- Eu não sou desejado. Eu sou uma criança inútil. E você não se importa mesmo comigo não é?

- Usar isso como desculpa é a mesma coisa que fugir. O que você teme mesmo é falhar. Você tem medo de ser odiado pelos outros. Tem medo de reconhecer essa fraqueza até pra si mesmo. 

- Como pode me criticar quando faz a mesma coisa?

 - Você tem razão. No íntimo somos todos iguais. 

- Nossas mentes carecem de algo básico.

- E tememos a carência.

- Nós a tememos.

- É por isso que estamos tentando nos tornar um.

- Nos fundiremos e preencheremos uns aos outros.

- Esse é o Projeto de Instrumentalidade.

- A Humanidade não pode viver sem estar cercada uns pelos outros.

- A Humanidade não pode viver sozinha.

- Embora você mesmo seja único.

- Por isso minha vida é difícil.

- Por isso minha vida é triste e vazia.

- Você quer a afeição e a presença física e mental dos outros.

- É por isso que queremos nos tornar unos.

- A alma humana é feita de elementos fracos e frágeis.

- O corpo e a mente também são feitos de componentes frágeis. 

- Então através da Instrumentalidade a Humanidade deve preencher e complementar uns aos outros. Não pergunte porquê, não existe outra maneira de existir.

Na escuridão segura, pela secreta escada disfarçada eu subi até o jardim secreto, para encontrar a fonte lacrada. Na noite escura eu busco aquele por quem minha alma clama.  Como cervo fugiste, havendo me ferido. Contemplo do alto da montanha o silêncio solitário. Ele não me incomoda, sempre estive só, nada mudou. Idem velle, et idem nolle. As coisas são assim, o mundo é assim. Não há como lutar com um furacão, como não há como lutar contra o destino terrível. Não há. Não há mais nada que seja necessário dizer. 

terça-feira, 24 de março de 2020

Um olhar no espelho

Nestes dias de isolamento social é inevitável um olhar mais voltado para dentro de mim mesmo. Fico observando o que os outros fazem durante esses dias. Alguns, como eu, estão se dedicando com mais afinco aos estudos, outros adotaram o Home Office, tem muita gente gravando vídeo de entretenimento, alguns de gosto um tanto duvidoso mas enfim, cada um faz o que pode. 

Além de estudar eu tenho assistido bastante também. Vendo séries e filmes, dos meus já conhecidos atores tailandeses. Mas isso às vezes me deixa um pouco chateado, a despeito do entretenimento num momento de tanta ansiedade, com o confrontamento da realidade que eu vivo aqui e o mundo apresentado lá. 

Uma vez mais eu me vi irado com o fato de desejar um ideal de beleza tão inalcançável e depois me sentir deprimido com algo que eu mesmo busquei. Me é objeto de desejo aquela pele clara, sem manchas e nem defeitos, aquele cabelo perfeito, corpo magro e definido. Me olho no espelho e, mesmo com as modificações feitas com as tatuagens ainda desgosto do que vejo. O cabelo ainda feio, o corpo ainda disforme. 

O espelho é cruel, e aquele que eu vejo refletido em minha frente me olha com olhar de frio julgamento, diz coisas que ninguém deveria ouvir

Pode-se perguntar por qual razão eu não tento mudar mais ainda: poderia entrar numa academia, tentar um tratamento estético mais forte. Mas não importa, nada disso consegue romper a grande muralha de desânimo e nem o ciclo vicioso da baixa autoestima: me olho no espelho e me vejo malcuidado, desanimo e passo a parar de me cuidar, o que só piora quando me olho no espelho de novo. E além disso, não há tratamento no mundo que possa me fazer melhorar, pelo menos não no nível do meu ideal de beleza. 

Alguns podem me dizer que eu deveria só estabelecer isso como meta. Mas como isso pode ser uma meta? Não há como alcançar isso senão de outro jeito que não seja nascendo de novo. É impossível e não há outra coisa a se fazer além de lamentar.

Parece uma preocupação banal, em tempos de coronavírus e tudo e tal, mas o que mais eu posso fazer? Depois de seis horas de aulas de filosofia é o máximo que eu consigo fazer. Parece que meu cérebro pouco a pouco se desfaz quando forçado tanto assim. 

Pensando um pouco mais sobre eu creio que isso ainda é um reflexo daquele ímpeto, daquele desejo ainda mais profundo de agradar alguém, na esperança de encontrar companhia. Vem da crença de que eu sou insuficiente, de que como sou eu nunca serei reconhecido por ninguém. Parece que nunca...

E isso me consome, como uma voz diabólica que sussurra essas coisas no meu ouvido. Toda vez que eu me olho no espelho ou que vejo um homem bonito eu escuto alguém me dizendo que nunca conseguirei ser alguém bom o bastante. Isso deprime, isso me pesa como uma grande mão me empurrando pra baixo, pro fundo do poço, que é de onde eu nunca vou sair. 

Medo

- Tenho medo de desaparecer.

- Eu posso desaparecer porque não mereço existir.

- Por que acha isso?
- Porque eu sou inútil.

Eu não sou desejado. Eu sou uma criança inútil. E você não se importa mesmo comigo não é?

- Usar isso como desculpa é a mesma coisa que fugir. O que você teme mesmo é falhar. Você tem medo de ser odiado pelos outros. Tem medo de reconhecer essa fraqueza até pra si mesmo. 

Como pode me criticar quando faz a mesma coisa?

 - Você tem razão. No íntimo somos todos iguais. 
- Nossas mentes carecem de algo básico.
- E tememos a carência.
- Nós a tememos.
- É por isso que estamos tentando nos tornar um.
- Nos fundiremos e preencheremos uns aos outros.
- Esse é o Projeto de Instrumentalidade.
- A Humanidade não pode viver sem estar cercada uns pelos outros.
- A Humanidade não pode viver sozinha.
- Embora você mesmo seja único.
Por isso minha vida é difícil.
- Por isso minha vida é triste e vazia.
- Você quer a afeição e a presença física e mental dos outros.
- É por isso que queremos nos tornar unos.
- A alma humana é feita de elementos fracos e frágeis.
- O corpo e a mente também são feitos de componentes frágeis. 
- Então através da Instrumentalidade a Humanidade deve preencher e complementar uns aos outros. Não pergunte porquê, não existe outra maneira de existir.

sábado, 13 de julho de 2019

Retorno

Campo de Terror Absoluto

É o fim.
O ponto em que cessa minha existência e tem início a do outro.

A barreira final.
O limite consciencial entre eu e o outro. 

Aquilo que me separa de todos, que nos separa. 
Aquilo que nos torna individualidades concretas. 
Aquilo que faz com que eu seja eu e o outro, apenas o outro.

A definição da minha verdade, que contrasta com a verdade do outro.
O inferno são os outros.

Eu já entendi. Não somos todos condenados ao desentendimento absoluto, não, eu sou o único condenado a estranheza total com o próximo. Costumava pensar que todos fazíamos parte do mesmo rebanho de loucos, vivendo totalmente distantes uns dos outros, quando na verdade apenas eu me encontro num mundo diferente. 

Incapaz de ver o que todos os outros enxergam. 
Incapaz de entender o que dizem, o que fazem, o que entendem. 

O inferno são os outros.

Despersonalização.

Tento deixar de ser eu mesmo para me encaixar de alguma forma nas estruturas sensoriais do outro. Tento penetrar o limite de sua consciência, tocar seu coração. Mas esse é um escudo que não pode ser quebrado. A minha lança se partiu e já são serve mais para penetrar o lado do meu irmão. Minhas mãos apenas arranham o seu escudo, minha voz sequer pode ser ouvida. Ou melhor, é ouvida mas não compreendida. 

Mas isso não é possível de se fazer.

Eu sou aquele condenado pela existência a desejar o retorno. 

O que as pessoas perderam. 

As mentes que desapareceram, afobando-se para preencher o vazio da mente.

A complementação. 

A Instrumentalidade que fará todas as coisas se tornarem inexistência.

O retorno ao nada, o retorno a inexistência. Mas não, isto está errado, não é o retorno a inexistência. É o retorno aquele estado inicial, aquele útero primitivo que perdemos tempos atrás. É o retorno ao estado onde não há barreiras, onde findou o terror absoluto. 

Todas as almas e mentes se tornarão uma, atingindo o eterno equilíbrio. O objetivo final não é nada mais que isso!

Esse é o meu sonho. Utópico demais para sequer ser dito em voz alta. Mas é a única forma que enxergo para ser feliz. 

- Ninguém me entende!

- Qual é, você é idiota? É claro que ninguém te entende, ninguém nunca consegue te entender. O único que pode tomar conta de você e entendê-lo é você! Você mesmo! Portanto você deve se cuidar.

- Mas eu ainda não entendo a mim mesmo. Eu nem mesmo sei o que que faz de mim eu mesmo. Como é que eu posso amar a mim mesmo?

~


Obs.: o texto em negrito foi retirado de Neon Genesis Evangelion, de Hideaki Anno.

sábado, 6 de julho de 2019

Do que tem medo?

Deve sobreviver aquele que tem vontade pra fazer com que isso aconteça! Ele desejou a morte. 
Ele ignorou sua vontade de sobreviver e escolheu morrer por uma falsa esperança. Sobreviver não é um erro!

Já não tenho mais essa vontade. Ela morreu e sinto que também eu devo morrer, desaparecer. Aliás, sinto como se já estivesse morto há tempos. Sinto como se já devesse ter sido enterrado há muito tempo. O que vive é apenas meu corpo e os poucos recessos de minha mente. Minha alma se esvaiu, perdeu-se na imensidão do caos. Meu corpo então deseja essa morte, o fim da existência. O retorno aquele útero primitivo onde não havia dor, nem confusão, apenas a perenidade. Não tenho mais essa vontade, se esvaiu no vento como pó e se perdeu na imensidão de toda desordem. Talvez seja esse o ponto mais baixo da existência, o de renegar o próprio ser. Mas eu continuo sobrevivendo, e pensando que sim, isso é um erro.

No meu caso é. É um erro pois eu não sou mais do que um grande erro. É um erro pois não há razão e nem benevolência em persistir numa existência de dor, sofrimento e confusão. Vivo mergulhado no completo caos, desesperado ao me deparar com cada uma das barreiras que se colocam em eu e os outros. Esse Campo de Terror Absoluto que me separa de cada ser num universo tão diferente e longínquo que nunca conseguirei de fato tocar o coração de ninguém. 

- Do que tem medo?

- De mim mesmo.

- Do que tem medo?

- De me olhar no espelho.

- Do que tem medo?

- Daquele que é perfeito diante de mim.

- Do que tem medo? 

- Da barreira que há entre nós.

- Do que tem medo?

- Da distância que nos separa.

- Do que tem medo?

- De não ser bom o bastante.

- Do que tem medo?

- De falhar. De cair. 

- Do que tem medo?

- De ser eu mesmo e esse ser não ser bom o bastante. Nem para mim e nem para os outros.

Tenho medo de nunca conseguir me destacar, de nunca chegar a conquistar nada, de viver mergulhado tão profundamente na mediocridade que meu fim seja a marginalidade completa, velho e esquecido num casebre sem as mínimas condições de sobrevivência, repleto apenas de pensamentos pessimistas e bebidas. Tão absorto em toda essa mixórdia de pavores que o próprio demiurgo se compadeça de mim e apague esse meu ser de tão desprezível existência. Esse medo me faz lutar com todas as forças, me lançar de cabeça nas dores e nos problemas mais horripilantes, de suportar humilhações e desaforos, apenas pra não se afastarem de mim, apenas para que me amem, apenas para que continuem ao meu lado... Eu não quero ficar sozinho, não quero ser esquecido, não quero ficar sozinho.

- É claro, tem alguma coisa errada nisso? Eu estou fazendo a coisa certa, e quando eu faço isso os outros apreciam, os outros gostam de mim.

- Você ta mentindo! Você é idiota? Você sabe muito bem que faz isso por você mesmo! Você só ta inventando desculpas como sempre faz!

- Eu faço isso?

- Fingindo que ta se sacrificando pelo bem dos outros é só outra desculpa. Bancar o mártir te faz se sentir especial. 

- Eu não sei se isso é verdade...

- Está se sentindo solitário e isolado, só isso!

- Estou?

- Claro que está! Você vive de compaixão e consegue isso com seu EVA Shinji!

- Isso pode ser verdade...

- Você adora que os outros dependam de você e isso satisfaz sua pequena mente distorcida!

- Ergh, pode ser... Ah.

- Se quiser a verdadeira felicidade, vai ter que encontrar ela sozinho! E não ficar esperando que alguém a dê pra você!

- Mas não é isso que você tem feito?

Eu desejo ser bom, ser suficientemente bom. Desejo ser o bastante para mim e para os outros. Por isso eu faço o que os outros querem que eu faça. Por isso eu dou o meu melhor em tudo que me proponho a fazer. Tento ser atencioso, educado, generoso... Mas tudo isso parece em vão quando vejo que, por mais que eu me esforce, nunca é o suficiente. Os outros sempre querem mais, mesmo quando não há mais nada em mim. E então me abandonam, viram o olhar, me deixam falando sozinho... E eu fico só, novamente e mais uma vez sozinho.

Sentindo então que não sou suficiente, necessário, perco o único laço que me liga aos demais. Perco aquilo que me definia como eu mesmo. E começo a, lentamente, desaparecer... Minhas extremidades adormecem, e aos poucos não sinto meus dedos. A letargia anuvia minha mente enquanto a sensação de anestesia começa a percorrer meu sangue, meus ossos até o tutano... Estou desaparecendo, estou sumindo. 

Para estabelecer minha identidade, tenho que me comunicar com as mentes de muitas pessoas. Tenho que examinar isso que está no meu núcleo.

Eu, no entanto, não consigo fazer isto. Existe uma barreira entre eu e as outras pessoas que não pode ser quebrada. Veja se pode. Existe uma barreira entre eu e uma pessoa. Uma barreira de 1,94 m Essa pessoa não se abre comigo de jeito nenhum... Eu posso estar tentando com um empenho de 400%, mas todo esse empenho é fruto da minha iniciativa de me aproximar dele, por mais que ele meso se mantenha distante de mim, sem ultrapassar essa linha. Até o final ele vem mantendo essa distância. Tenho enfrentado dificuldades em perceber que essa linha era o "limite" do seu coração. Só que, do jeito que as coisas estão, eu sou o único a sofrer danos psicológicos (por causa do grande volume de emoções que compartilho abrindo meu coração na tentativa de abri o dele) e percebo que não posso mais continuar assim. 

Quanto mais eu tento remover essa barreira, mas alta ela se ergue. Quanto maior a pressão exercida, maior é a resistência. Preciso ceder e ver o que acontece. Preciso criar um lugar para ele em meu coração e passar a apoiá-lo... Por isso, em meu coração, devo reconhecê-lo como indivíduo independente. Eu e ele somos separados por uma linha imaginária, diferenciando que sou eu de quem ele é. Uma linha que nos distancia como o Sol está distante da Terra.

- Isso é o que você teme? Que você possa se tornar nada? Está com medo de que possa desaparecer da mente dos outros em outra existência. 

- Eu tenho medo, porque isso? 

- Porque seu atual eu jamais teria existido!

Está com medo não é?

- Porque você vai deixar de existir, você vai deixar de existir...

Está com medo não é?

- Não, não estou.  Eu sou feliz.  

- Porque eu quero morrer.  Eu quero desesperança. 
Eu quero voltar ao nada. Mas eu não posso.  Ele não vai me deixar voltar a inexistência. Ainda não. Eu ainda existo porque ele precisa de mim. Mas quando tudo acabar, quando eu não tiver mais utilidade, ele vai me abandonar. Eu rezei pelo dia em que ele ma abandonaria. Mas agora... Agora eu tenho medo

E de novo retomo o ponto de que cheguei no lugar mais baixo da existência, o de renegar o próprio ser e dessa forma, desejar o nada, desejar voltar aquele tempo em que não existia, em que não havia dor e sofrimento, em que não havia esse Campo de Terror Absoluto que me separa de todos os outros provocando a mais absoluta falta de entendimento a qual fomos condenados desde a Torre de Babel. Essa minha imperfeição fundamental, esse vazio no âmago do meu ser que tento complementar com o coração do outro que me é inacessível. Esse desespero de estar há milênios de distância de alguém que senta ao meu lado. 

De novo retorno ao desejo pelo fim, ao apego pela morte, afinal de contas todos morreremos um dia, qual a razão em prolongar uma existência assim, tão patética e tão profundissimamente inconformada consigo mesmo? 

Por isso que quero voltar ao nada, quero que todas as coisas sumam, que o universo desmorone, quero que tudo retorne ao nada. Eu quero morrer, pois já deveria estar morto, minha vida é uma afronta a existência de todos os outros. Eu quero a inexistência, a desesperança. Eu quero o fim. 

E o aperfeiçoamento do homem via Instrumentalidade tem início. 



~



OBS.: O texto em itálico foi retirado de Neon Genesis Evangelion, de Hideaki Anno, as demais partes são as minhas reflexões usando-o como ponto de partido para um pensamento mais elaborado.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sobre a existência ideal

Primeiramente vem de súbito uma onda filosófica quase incompreensível. Depois, quando os ânimos se acalmam e decanta-se as inspirações no fundo da alma, conseguimos dizer algo que verdadeiramente faça algum sentido. 

Nos últimos dias tenho refletido bastante acerca de questões como a personalidade, a limitação da existência, o Eu... Em parte motivado pelas aulas de um curso que tenho e também pela reprise de Neon Genesis Evangelion, que sempre me rende umas boas doses de reflexão, após muita paranoia, claro!

O fato é que mais uma vez eu tenho notado o quanto o limite da consciência é algo prejudicial a nós. 

Esse limite é o que, com base nos nossos processos históricos e predisposições gênicas, ditam quem somos, o que fazemos, como fazemos, do que gostamos ou não... Enfim, tudo o que somos é o que é com base na combinação desses dois fatores, que delimitam a nossa consciência. E essa é justamente a fonte de nossas dores. 

O nosso Eu apenas consegue delimitar-se por comparação com o outro. Essa comparação se dá, principalmente, no convívio social, na troca de experiências, afetos e pensamentos. E é apenas por meio da comparação que o Eu distingue-se do outro.

Andando lado a lado com todos os outros o nosso Eu busca constantemente reafirmar-se, para si e para os outros, sob perigo de cair na despersonalização e assim virtualmente deixar de existir. 

Isso, no entanto, é algo relativamente raro, pois o que geralmente se dá e a contínua reafirmação do Eu por sobre o outro. E aqui retomo o Dilema do Ouriço, descrito por Schopenhauer, e que mostra que o limite do nosso ego é na verdade como espinhos, que causam dor e sofrimento a nós e aos outros. 

Como já descrevi isso longamente em vários outros textos, bem poéticos, diga-se de passagem, vou me limitar apenas a explicar os motivos que estão por trás da negação do Eu.

O desejo por trás da Instrumentalidade Humana, descrita na obra do meste Hideaki Anno, é a personificação da necessidade de recolher os limites da consciência de cada um. Baixando os escudos que cercam a nossa mente, e que delimita quem somos, a dor se torna inexistente, já que a úncia cosia realmente dolorosa no mundo é a relação entre vários egos que estão sempre a competir pela definição do próprio Eu.

Dessa forma, sendo todos um só Eu, não haveria mais dor e nem sofrimento, já que a expansão da consciência de cada um seria usada para preencher o vazio que habita o âmago da existência do homem. 

Sei bem que a despersonalização advinda desse processo pode ser em si algo mais doloroso do que a própria existência real, mas convenhamos, sonhar com um mundo onde todos sejam Um é deveras tentador se você, assim como eu, sofre diariamente com as intempéries do convívio com o outro e que, não sabendo lidar com a dor de ser você mesmo, desejaria ser Um só com o todo. 

Assim não haveriam mais escudos, nem ódio ao outro, nem consciência, nem opiniões dissonantes. Todos seriam um só, e Um só seriam todos... 

Seria essa a existência ideal? Ao menos para mim, sim! Retornar ao útero primitivo, a unidade perdida tempos atrás é para mim, a única forma de existir. Todas as outras resultam em dor e sofrimento...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Eu e o outro

O inferno são os outros (Sartre)

Onde está a possibilidade de abarcar a totalidade da existência? 
Onde está o eu absoluto, que não sofre com os espinhos do meu eu e do outro?

O que são os outros? 
Onde está o limite do meu eu? 
Como lidar com os outros, que não são eu? 

A linha não tão tênue assim, que separa o meu eu dos outros é a causa da dor de todos. O escudo de nossas consciências é a úncia arma realmente capaz de ferir, pois esse mesmo escudo é o o motor de todas as outras armas criadas pelos mesmos homens para se matar. São estas apenas ferramentas da nossa consciência para maltratarmos uns aos outros.

A individualidade é uma guerra constante, que teve início na busca pelo preenchimento daquele vazio que o homem tem em seu âmago desde o primeiro pensamento, e que culminou na descoberta da dor do outro como forma de regozijar o próprio eu no sofrimento. 

Somos todos como ouriços, tentando viver em comunidade, pois a verdade é que somos fracos demais para a solidão, e ruins demais para a viva em unidade. O meio termo entre a unidade e a solidão é a patética existência do homem. Machucando uns aos outros, sangrando uns aos outros, espinhando uns aos outros.

Isso é viver. 
Viver é matar e ser morto constantemente. 
Isso é a individualidade, é seu eu, é ser outro. 
Isso é a dor. 

O limite do meu eu é a dor do outro, e o outro, a existência do outro, é a causa única da minha dor. Onde está então o Projeto de Instrumentalidade Humana, que nos forçará a evoluir, e a viver sem o outro? 

Sendo apenas um com todos a dor deve cessar. 
Sendo apenas um com todos a morte deve findar. 

Onde está a possibilidade de abarcar a totalidade da existência? 
Onde está o eu absoluto, que não sofre com os espinhos do meu eu e do outro?

Isso tudo se deve a dificuldade em lidar com o outro, ser paciente com o outro, tentar não ferir o outro. Mesmo sendo difícil para outro lidar comigo, ser paciente comigo ou tentar não me ferir. 

Tenho ciência de que isso se deve a uma compreensão errada da realidade, e portanto a uma deficiência, e também a uma latente covardia, mais um exemplo da péssima pessoa que sou. Mas ainda assim depois de tudo isso, ainda não consigo ver facilidade em lidar com as crises do outro, sendo esse mesmo outro o principal motivo das minhas crises, sendo esse outro o limite da consciência que mais me causa dor.

Tenho consciência ainda, de que minha paciência atingiu o limite do ego, e que isso significa, que já não tenho mais paciência pra quem não tem paciência comigo.

Onde está a possibilidade de abarcar a totalidade da existência? 
Onde está o eu absoluto, que não sofre com os espinhos do meu eu e do outro?

sábado, 24 de junho de 2017

Nem eu sei o que quis dizer aqui

Não consegui escrever nada ontem, fruto de uma infeliz e curiosa série de acontecimentos que me deixaram o dia todo ocupado e ou entediado demais para isso, e quando enfim chegou a noite eu só queria saber de dormir, já que hoje tinha algumas provas na faculdade logo cedo. Sabe aqueles dias que quando anoitece você só quer tomar um Diazepam e dormir igual uma pedra? Pois bem...

Claro que, além de ter passado metade do dia no banco com meu pai, quase ter mudado todo o nome da minha família devido a uma confusão nesse mesmo banco e nos documentos do meu progenitor, de ter sido obrigado a fazer sala para um primo que nos visitava e ainda ouvir uma aula de quase duas horas sobre a filosofia de Kant e a de Hegel (muito embora eu não tenha entendido direito a segunda) eu ainda estava me sentindo deveras vazio demais para escrever sobre o que quer fosse. 

Afinal de contas o que Hegel fez de tão importante eu ainda não entendi, mas deve ter sido bem legal, já que eu passei a porcaria do semestre inteiro ouvido o nome dele sem encontra eco em absolutamente nada que eu já tivesse estudado, exceto por alguns artigos da Instrumentalidade Humana, que para variar eu também não consegui relacionar com nada me pudesse ser útil nas provas, mas apenas com minha vontade de explodir a cabeça de todas as pessoas do mundo para preencher o vazio da minha existência (me imagine dizendo isso com uma carinha fofinha aqui, grato!)

Obviamente o costume falou mais alto e eu fiquei com peso na consciência por isso, o que resultou numa reflexão sobre os motivos de eu não estar fazendo o que gostaria de estar fazendo, além de preguiça e desmotivação. Devo dizer que não cheguei a nenhuma conclusão pois o Diazepam bateu e eu dormi lindamente acordando super disposto para escrevr 7 folhas nas provas de Didática do Ensino Superior, Filosofia da Educação e Seminários Avançados de Filosofia I. 

Essa última era meu maior medo inclusive, revi boa parte da disciplina na última semana lendo novamente o Caderno de Referência de Conteúdo (Uma apostila mal escrita que traz referências da Wikipédia no próprio Glossário e nem sequer cobre todo o conteúdo da disciplina. Não que eu tenha algo contra a Wikipédia, mas se eu colocar algo dela no meu TCC certamente serei reprovado), alguns artigos e ouvi alguns do Olavo de Carvalho no Youtube, que pra ser sincero, foram muito mais uteis do que o semestre inteiro de estudo. 

Mas por quê estou dizendo tudo isso? Eu sei lá...!? Só sei que enquanto vinha para casa, ouvindo o terceiro álbum do Akeboshi "After The Rain Clouds Go", e lia "O Amor Divino Encarnado -  A Sagrada Eucaristia como Sacramento da Caridade" do Cardeal Raymund Burke a minha mente pululava de mil e uma ideias acerca da Liturgia e do seu papel na vida da Igreja, e me vi isolado nesse mundo, pois senti a falta de um grupo na igreja onde esses assuntos possam ser debatidos. 

Um sonho distante, claro, já que hoje o máximo que posso conseguir é uma pastoral da internet que muitas vezes pouco ou quase nada tem a contribuir com a vida da Igreja em si senão por excessivas reclamações não sem fundamento, mas que já estou farto de conhecer e de nada poder fazer a respeito. Vida que segue. Até o dia em que as comunidades brasileiras acordem para a necessidade de uma discussão acerca desse aspecto tão importante da Igreja eu continuarei em silêncio, a espera, ansioso pelo momento em que Jesus volte a ser devidamente reverenciado em nossos altares, sem ser relegado ao segundo plano de nossas celebrações, ofuscado por sacerdotes estrelas que nada dizem da doutrina ou por heresias e sacrilégios provenientes da criatividade maligna de nosso mal formados sacerdotes e de nossas más intencionadas pastorais.

Dito isto, que em nada se relaciona com o que disse no início dessa breve reflexão sobre sabe-se lá o quê, eu começo a me perguntar se estou em plenas posses de minhas faculdades mentais ou se estou apenas excessivamente agitado graças a quantidade absurda de açúcar que tenho ingerido desde cedo para não ficar com sono e nem irritado durante a prova. Mas admito que tenho pensado no almoço com a mesma preocupação. De qualquer forma, como nada mais tenho a dizer, e como não disse nada realmente, prefiro deitar um pouco, e comemorar de forma solitária o início das férias com uma boa seleção de musicas românticas tailandesas e um comprimido sublingual de Hemitartarato de Zolpidem, o mais novo membro de minha família hipocondríaca, enquanto tento (inutilmente) cultivar um desprezo pelo meu cavaveiro dourado que tanto me decepcionou no fim da semana passada. Vida que segue.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Alerta

Ao contrário de toda inquietação que sentia mais cedo, agora meu corpo experimenta por uma estranha calma. Não me lembro quando foi a última vez em que tive uma madrugada tão tranquila. 

Não estou sendo assolado por dezenas de pensamentos perturbadores, que costumeiramente vão desde teorias malucas sobre a Instrumentalidade Humana até ideias suicidas. Não. Posso apenas curtir a musica baixinha no player e deixar minha mente vagar por planícies claras e dias felizes. Eu gosto disso.

Vejo esse momento no entanto não como um prêmio de consolação sei lá pelo quê, mas sim como aquela calmaria que vem antes de uma grande batalha. E toda vez que tenho essa impressão, a batalha tende a ser dura.

Devo portanto ficar alerta, vigilante, e não permitir que a calmaria destraia meu corpo da verdadeira batalha que há de vir. 


domingo, 5 de março de 2017

Previsão

Prevejo mais uma crise de Instrumentalidade Humana, logo em breve, muito em breve... Sempre que fico assim, pensativo demais em questões existenciais e de relacionamento, termino surtando pensando em coisas como a teoria em questão e as possibilidades que ela nos daria, se fosse possível de realizar, é claro.

O fato é que pelo menos nos últimos 5 dias eu tenho ouvido 'Komm Susser Tod" várias vezes ao dia, e também estou evitando minha crescente vontade de rever Neon Genesis Evangelion, porque sei que se isso acontecer, serão vários e vários dias de surto psicótico e crise existencial. To muito disposto pra isso não. 

Acontece que isso tem, nos últimos meses, se tornado quase um ciclo vicioso, mas um ciclo doloroso, pois as conclusões que me se dão dadas são sempre as mesmas, e as mais complicadas possíveis. Admito que chegar sempre a mesma conclusão de que estou sozinho, de que estamos sozinhos, e que na verdade, de perto, ninguém se importa realmente com a gente, é difícil.

Claro, não seria tão difícil se eu fosse mais maduro, e se isso me fizesse, aceitar com mais facilidade as verdades frias e duras da vida. Acontece que algumas pessoas são mais resistentes, suportam melhor as adversidades da vida, e bravamente superas as dificuldades que se apresentam a ele. 

Eu por outro lado não sou como os outros. Sensível, delicado, praticamente regido e governado pela autopiedade que faz com que eu não consiga avançar em nenhum campo da minha vida, seja afetiva ou até mesmo acadêmica.

Essa minha personalidade delicada, exageradamente delicada, é muito, muito perigosa, e isso é algo que me preocupa, pois ao que me parece, não há sobre a terra ninguém, além de mim mesmo, que possa me ajudar. E não raramente eu sinto como se beirasse os umbrais da morte, quando o pensamento começa a pesar mais do que eu posso suportar.

Também é difícil admitir isso, que penso em tirar minha própria vida, quando meus próprios pensamentos começam a sabotar a minha cabeça. 

Então, como serão meus próximos dias? Será que conseguirei resistir a essa onda mental potencialmente destrutiva?  Espero sobreviver, mas não sair de novo praticamente destruído, tendo de catar os restos do que sobrou de meu próprio coração pelas ruas desse mundo... Espero sobreviver... O que será de mim então, depois disso? Mais uma vez terei de me reerguer do nada? Ou finalmente conseguirei começar a me tornar mais forte, aprendendo com as lutas que sou obrigado a enfrentar?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Mudança (inesperada) de planos

Tanta coisa a ser dita e eu nem sequer sei por onde começar... Mas vamos nessa...

Poucos dias se passaram, mas desde então uma avalanche de acontecimentos inesperados abalaram completamente a minha vida, e essa guinada de 360° não gerou apenas consequências no tangente aos meus relacionamentos pessoais (família, amigos...), mas abalou profundamente o meu interior.

Achava que já estava me recuperando, aos poucos, com a ajuda da terapia e do tratamento com os remédios que tenho feito, do meu estado quase catatônico depois do colapso nervoso que tive no ano passado, e do SMAD¹ que desenvolvi a partir dele, mas ao que parece meu estado mental ainda é de uma instabilidade preocupante, e eu temo que a possibilidade de internação num hospital psiquiátrico esteja cada vez mais próxima, embora eu quisesse evitar isso a todo e qualquer custo. Meus pais falam sobre isso, e não sabem que eu estou ciente disso, mas também me incomodo em dar tanto trabalho para eles. Talvez fosse melhor ser internado ser resistir... Quem sabe.

Bom, como resultado de tudo isso eu me tornei uma pessoa extremamente sensível, afetado por tudo e por todos, ficando devastado por coisas mínimas e excitado com outras tão pequenas quanto. Instável, em constante estado de ebulição, pronto a explodir a qualquer momento como um vulcão adormecido que destruirá toda a civilização que abaixo dele se firmou.

Sei bem dos perigos de se levar tudo ao mais alto nível de sentimentalismo, mas é algo que já se encontra tão intrinsecamente impregnado no meu âmago que afeta meu desespero desde o primeiro pensamento.

Conceitos como futuro, responsabilidade e amadurecimento me assustam, mas quando parece que finalmente conseguirei chegar numa conclusão satisfatória, tudo desaba na minha frente como um castelo de cartas...

Como parte do meu tratamento psicológico eu fui orientado a buscar experiências que pudessem me servir de apoio na construção de uma personalidade mais madura. Um mestrado e um emprego poderiam me proporcionar não só crescimento profissional, mas o contato com pessoas de círculos sociais completamente diferentes e que seria uma excelente oportunidade de sair da minha zona de conforto e me confrontar com novas experiências enriquecedoras me permitindo uma abertura maior no tangente as minhas relações.

Afinal de contas, como destaca o Mestre Hideaki Anno em Neon Genesis Evangelion, as relações humanas formam laços, e esses laços são a ligação entre o eu e o próximo, e são essas ligações quem define quem somos (Instrumentalidade Humana 1° Parte – Você me ama?). Trata-se do confronto da visão que tenho de mim mesmo com a visão que o mundo tem de mim. Essas duas, juntas, unem numa terceira percepção, esta por sua vez sendo de uma complexidade típica da grandiosidade psicológica do homem.

Bom, depois dessa breve (?!) introdução, passarei a relatar os fatos.

Como proposta de mudanças na fuga da área de conforto, foi sugerido que desse entrada num curso de mestrado, ou ao menos que eu começasse a criar contatos lá dentro, no intuito de facilitar minha entrada. No entanto esse nunca foi meu objetivo, até porque academicamente falando não há absolutamente nada na UNB que me agrade, exceto é claro o peso que o nome da instituição tem no mercado de trabalho, peso este que embora infundado, é presente e real.

Por isso decidi optar por uma especialização em Liturgia, o que de longe seria o curso mais apropriado para mim, afinal de contas, quase 80% da minha vida é dedicada a liturgia, e qualquer coisa que eu pudesse fazer para melhorar esse quadro, ou seja, para me tornar um liturgista de maior capacidade e entendimento, seria de grande acréscimo na minha vida. Até porque a liturgia na minha vida não ocupa lugar apenas cultual, religioso, ela faz parte de quem eu sou, define minha existência.

Dito isso, fui aprovado para a Especialização “lato sensu” em Liturgia na Faculdade de Teologia da Arquidiocese de Brasília, em 3° lugar, diga-se de passagem. No entanto, apenas 13 candidatos foram aprovados, e o edital do curso previa o mesmo só aconteceria se ao menos 35 candidatos fossem aprovados. Logo, o curso foi cancelado. Ofereceram-me ainda a possibilidade de entrar na Especialização “lato sensu” em Direito Canônico Familiar. Completamente fora da minha área de atuação e interesse. Fora de cogitação.

Essa notícia me devastou completamente, sério. Desabei em lágrimas por horas até que com muito custo um amigo. espero poder chamá-lo assim, me recordou que:

“Tudo é no tempo de Deus”.  (T.L)

Mas eu estava contente como há muito tempo não estava. Essa era a possibilidade real de contribuir ainda mais para a difusão de uma mentalidade mais santa acerca da Sagrada Liturgia, uma área que hoje em dia é de grande importância na Santa Igreja Católica, mas que infelizmente não desperta interesse de muitos fiéis. Afinal, não há razão para se preocupar com rubricismo quando a igreja precisa alimentar os pobres. Mas enquanto a “igreja” alimenta os pobres, a Igreja padece de fome numa Eucaristia muitas vezes vazia e sem nenhum significado para os ministros e leigos. Na minha concepção, é só através da santificação pela Santíssima Eucaristia é que conseguiremos alimentar de verdade os pobres, como dizem os Padres Jesuítas. Meu objetivo era ter mais condições de mudar, ao menos um pouquinho que fosse, essa mentalidade, e despertar no povo o real amor para com o Santíssimo Sacramento.

Esse era meu plano A, e eu ingenuamente não tracei um plano B. Afinal praticamente abandonei o mestrado por hora, por conta da exigência mental que eu certamente não conseguiria suportar.

Ainda há algumas opções que posso explorar, e muito provavelmente será a que seguirei de agora em diante. Atentei-me para a possibilidade de fazer outra especialização, talvez em Historia Cultural ou em Ensino Religioso, ou ainda em Filosofia, mas isso ainda preciso pensar melhor.

Sem chance nenhuma de tentar um mestrado agora. Surtaria com certeza. E eu não quero surtar. Não quero voltar a ser aquele monstro arisco sedento pela própria morte de meses atrás.

Quero viver, uma vida nova.

Vida nova. 

Nova vida.

Isso nos leva ao segundo ponto que me abalou no dia de hoje:

Como é de conhecimento geral, ou não, porque na verdade ninguém sabe disso, eu estava até bem com meu ex namorado, com quem cruzei sem nenhum problema num encontro da igreja meses atrás. Nada de errado, nada de estranho, nenhum clima chato. Concordamos em conviver como amigos, nos confessamos, comungamos e decidimos manter uma relação de amizade e respeito, buscando uma vida de mortificação e castidade, como ensina o Concílio Vaticano II (Cf. CIC N° 2357 – 2359).

No entanto como num passe de mágica tudo mudou quando ele simplesmente resolveu me excluir do Facebook, me bloquear no WhatssApp e me ignorar na rua. Sinceramente não sei o que pode ter havido.

Será que se chateou mais uma vez com a frequência com qe escrevo aqui sobre aquele que impediu que o amasse completamente durante nosso namoro? Mas eu NUNCA menti sobre nada para ele. Nunca disse um Eu Te Amo que não fosse 100% verdadeiro.

Acontece que as coisas nunca são como esperamos que elas sejam, e no fim das contas, todos nos abandonam em algum momento da vida. Meu primeiro ex me abandonou sabendo que eu tinha abandonado tudo por ele, minha vida como religioso, meu futuro. E agora ele, que jurou ser meu amigo, agora age como se nem sequer me conhecesse.

Esse é o preço que se ganha por confiar demais nas pessoas. Ninguém é confiável. Só em Deus se encontra a verdadeira esperança, afinal “Poderia uma mulher de seu filho se esquecer? Ainda que isso acontecesse, não haveria de te perder” (Is 49, 15). No fim das contas ele é o único que merecesse nossa confiança. Pois “aqueles que esperam no Senhor renovarão suas forças, correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão, e voaram como águias” (Is 40, 31).

Mas em momentos como esse, em que a confusão domina cada pequena parte da mente distorcida pelo medo e pela insegurança eu só consigo clamar “E eu pobre que farei, que patrono invocarei?”²

No fim de tudo, quando chegar o “Dia de ira aquele dia, que volverá o mundo em cinza fria”?² eu perceberei que em ninguém deveria ter confiado, pois todos me abandonaram. O meu grande amor, os meus amigos, o meu leãozinho. Todos se foram... Não há mais ninguém, não mais esperança, não há mais amor!

Agora é tentar acordar amanhã e procurar alguma possibilidade para esse um futuro, algo em que eu não possa ficar parado, algo que me faça pensar, mas sem surtar. Algo que me faça esquecer o que é amar. Talvez outra pós, ou um curso qualquer, apenas para impedir que minha mente retorne aquele estado do qual quase não consegui fugir.

Termino portanto com um grande conselho de Carlos Ruiz Zafón:

“Nunca confie em ninguém, especialmente em relação às pessoas que você admira. 
Serão essas que irão desfechar os piores golpes."

Meio exagerado, eu bem sei disso, mas acredito que reflita em partes uma realidade que me sufoca...

E sufoca... 

E aperta... 

E queima... 

E dói...

~

Notas:

. 1. SMAD refere-se ao Síndrome Msta de Ansiedade e Depressão. "A base para o diagnóstico é a detecção da associação de sintomas depressivos com sintomas de estados ansiosos. O indivíduo passa a apresentar uma angústia intensa, não consegue ficar quieto, caminha de um lado para o outro, desespera-se. Esses são os mais comuns sintomas ansiosos. Associam-se a estes os sintomas orgânicos verificados nos estados ansiosos, tais como tremores, cansaço fácil, sensação de falta de ar ou asfixia, batedeira no peito ou coração acelerado, suor excessivo, mãos frias e suadas, boca seca, tonteira, ânsia de vômitos, diarréia, desconforto abdominal, ondas de calor, calafrios, micção freqüente, dificuldade para engolir, sensação de “bolo na garganta”, dentre outros.

As manifestações depressivas mais freqüentes são a tristeza excessiva, melancolia, choro fácil ou freqüente, apatia e indiferença com as coisas (ex: “tanto faz como tanto fez”), sensação de falta de sentimento, de tédio, aborrecimento crônico, maior irritabilidade especialmente com situações corriqueiras que usualmente não incomodavam a pessoas (ex: ruídos, vozes, pessoas), desespero, desesperança.

Associam-se a estes sintomas depressivos acima diversos outros, como desânimo, redução da vontade, insônia ou sono excessivo, redução ou aumento do apetite, redução do apetite sexual, diminuição da resposta sexual (disfunção erétil, orgasmo retardado ou ausência de orgasmo), incapacidade de obter prazer em várias esferas da vida. Também surge ideação negativa, pessimismo em relação a tudo, idéias de arrependimento e culpa, ruminações com mágoas passadas, idéias de morte, desejo de desaparecer, dormir para sempre. Nota-se prejuízo nas atividades cotidianas, devido principalmente ao déficit de atenção e concentração, redução da capacidade de memória, dificuldade para tomar decisões, sentimento de baixa auto-estima, de insuficiência, incapacidade, vergonha e autodepreciação." (DALGALARRONDO P. Síndromes ansiosas. In: Dalgalarrondo P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000:188 – 189.)

2. Trechos do Dies Irae, hino da Sequentia da Messa per Requiem, atualmente em desuso na forma ordinária do Rito Romano. Acredita-se que tenha sido escrito por Tomás de Celano.