quinta-feira, 30 de março de 2017

Distância e perspectiva

Alguns dias distante... Distante do mundo, distante dos amigos, distante dele, distante de mim mesmo...

Algum erudito poderia dizer que estou buscando uma perspectiva exterior, mas isso não é verdade. Não é verdade porque eu não queria perspectiva, só queria distância. 

Não busco mais resposta nenhuma, o silêncio gritante do mundo me ensinou que elas não existem, são apenas uma criação de nossa mente distorcida para que as pessoas tenham um objetivo. Bobagem. É apenas uma ilusão criada para que as pessoas não se desesperem com a perspectiva de um futuro incerto, mas tão incerto, que elas precisam criar objetivos imaginários. Como se na vida alguém tivesse controle sobre alguma coisa, qualquer coisa que seja.

Muitos acreditam ter controle sobre as coisas, que podem se fazer felizes... Não poderiam estar mais enganadas. Não temos controle algum, essa é outra ideia criada pelos homens para não se sentirem tão impotentes como realmente são. 

Dizem então que sou acostumado a fugir, que meu descontrole emocional é fruto da falta de objetivos, da falta de buscar ser feliz. Ridículos. Na verdade eu sou o único a observar o mundo em sua crueldade máxima, e ver que de nada adianta tentar ser feliz ou formular objetivos se na verdade nada disso depende de nós. A felicidade é uma ilusão que o Destino criou para brincar com nossas vidas, nos manipulando como bonecos de corda. Essas pessoas tem então a crença ridícula de que estão perseguindo seus sonhos, quando estão na verdade apenas andando em círculos como ratos na palma da mão de Buda. É tudo uma grandiosa ilusão.

Não existem sonhos. 

Não existem objetivos. 

Não existe a felicidade.  

Pelo menos não da forma como as pessoas acreditam ser, como um estágio obtido depois de muita luta. A felicidade vem para aqueles que simplesmente aceitam suas vidas desgraçadas e medíocres. O Destino é quem decide quem vai ou não ser feliz, sendo que todos, os felizes e os infelizes, estão presos aos seus fios, que a qualquer momento podem ser cortados. Nem disso temos controle.

Por isso me afastei, me assustei com essa perspectiva, mas isso ainda faz de mim mais corajoso do que os covardes que buscam em ilusões as respostas para as suas existências inúteis. Por isso eu desejo agora que conheçam a dor de verdade, a interior, a morte a desesperança. Quero que conheçam o mundo como ele é, seu o véu criado pelo homem para esconder aquilo que o mundo é de verdade: solidão e desgraça. Tudo o que passa disso é ilusão.

Retire então os véus coloridos que recobrem e anuviam a visão. A vida não é bela, não é fofa e muito menos generosa. Alguns poucos são escolhidos pelo Destino para serem felizes, possuírem dinheiro e inteligência, ou qualquer outra coisa imbecil que os homens considerem importante, mas são apenas bonecos também, usados para deixar a nós, os outros, com a sensação de que com esforço conseguiremos ser felizes. A vida não permite a ninguém ser feliz, ela é cruel, cinza e apenas existe para nos dobrar sob seu poder devastador. 

Devastador.

Ela nos subjuga, nos destrói, nos lança ao chão lamacento e para que? Apenas para nos levar a crer que poderemos nos reerguer, lutar vencer. Ilusões. Na verdade ela apenas quer divertir-se, para no fim de tudo, nos levar a morte natural ou ver os pobres desesperados, como eu, tentarem tirar a própria vida, por perceber o quão cruel ela é na verdade.

Eu não buscava percepção, mas foi o que encontrei nesse afastamento. Encontrei a percepção da desilusão. Encontrei desamor, encontrei desesperança, e agora sinto que encontrei a verdade fria e cinza que se escondia por detrás dos véus coloridos que anuviavam meus olhos... 

Por isso vou na contramão do mundo. Não quero sonhos, não quero amor, não quero ser feliz, quero apenas me livrar dessa realidade, fugir das mãos controladoras do destino e os tentáculos gelados que tentam ao poucos se apoderam de minha mente... 

terça-feira, 28 de março de 2017

Eu fui sem você...

Você não estava lá, eu fui sem você... Ouvi aquela musica que em casa tocava pensando em você, e enquanto escutava os acordes daquele concerto eu fechei os olhos. Fechei os olhos e por um instante, enquanto aquela melodia preenchia minha alma e meu coração, eu vi você do meu lado. Senti seu calor, o toque da sua pele, segurei sua mão. Mas no instante seguinte eu abri os olhos, e vi que não havia nada de você ali, exceto as impressões que tinha trago comigo. Você não estava lá, eu fui sem você...

Estava sozinho naquele grande salão, apenas eu e a música, e a sua imagem, como a de um fantasma. Em nenhum momento, nem sequer por uma nota ou um só compasso eu pude parar de pensar em você. Eu o fazia com tamanha intensidade que mais de uma vez pensei ter visto sua silhueta no horizonte do meu campo de visão. Mas você não estava lá, eu fui sem você...

Chovia muito la fora. E como o céu chorava, eu também chovia. Chovia ao sentir a onda apaixonante do Chopin vigoroso nas mãos daquele jovem pianista e chovia ao ver que aquelas notas ecoavam na minha mente e logo tocavam meu coração, fazendo ressoar não o som, mas a sua imagem. Mas você não estava lá, eu fui sem você... Naquela chuva eu imaginei nós dois, sorrindo, correndo, teria sido bonito, como um casal apaixonado. Mas não somos um casal, não somos nada e você não estava lá, eu fui sem você...

Fui sem você... Serei feliz sem você? Poderei caminhar sozinho sem você? Entrar nos campos dourados sem você? 

Quando eu desejei sua presença, você não estava lá. Quando precisei de sua ajudam você não estava lá. Mas você estava lá quando ela te chamou, quando ela precisou. Quando ela te convidou. Mas quando eu o fiz, você não estava lá. Hoje foi só mais um desses dias, em que você me negou com uma desculpa displicente, apenas para não quebrar o protocolo social da boa vizinhança, mas você não tinha a menor intenção de ir comigo. Teria ido se ela tivesse te convidado não teria? E por isso eu fui sozinho. Você não estava lá, eu fui sem você...

Uma pequena lição

"Não mendigue a atenção de ninguém, e muito menos o amor. Não mendigue o amor de quem não tem tempo para você, de quem só pensa em si mesmo. Nunca faça isso. Quem faz você se sentir invisível e insignificante diante de uma indiferença não te merece. Só te merece quem, com atenção, faz você se sentir importante e presente.

O amor deve ser demonstrado, mas nunca, jamais, deve ser mendigado. O fato de haver necessidade de mendigar amor é o mais fiel reflexo de uma injustiça emocional, de um desequilíbrio do sentimento que sustenta a relação.

Merece seu amor aquele que diz menos, mas faz mais. Não te merece quem só te procura quando precisa, mas sim quem está ao seu lado quando você precisa, e não só quando o interesse pessoal permite. Merece seu amor quem, sem esperar nada, leva esse sentimento dentro de si e faz você sentir que é importante.

No fim é simples, a pessoa que te merece é aquela que, tendo a liberdade de escolher, fica perto de você, dedicando seu tempo e seus pensamento.

Não existe falta de tempo, existe falta de interesse.

Dizem que não existe falta de tempo, mas sim falta de interesse porque, quando realmente se quer, a madrugada se transforma em dia, terça-feira se transforma em sábado e um momento se transforma em oportunidade. Também dizem que quem espera muito, se decepciona e sofre. Assim, temos que checar nossas expectativas e colocar na cabeça o ensinamento: “não espere nada de ninguém, espere tudo de você mesmo”.

Porque as esperanças e as expectativas são, muitas vezes, a base dos fracassos emocionais e, portanto, de percepção das atitudes dos outros como falta de interesse.

Quando percebemos o que os outros fazem ou dizem como mentiras, obviamente sentimos dor. Uma dor emocional que a nível cerebral se comporta da mesma forma que uma dor física.

Nesse sentido cabe fazer uma nota importante: devemos dar ao mal-estar psicológico a importância que ele merece. Não nos ocorreria ignorar fortes pontadas no estômago ou uma dor de cabeça forte e constante.

Por que deveríamos ignorar a dor emocional então? Não podemos simplesmente deixar que o tempo cure, temos que trabalhar sobre a dor e extrair dela os ensinamentos cabíveis do mesmo modo que deixaríamos de tomar chocolate quente se descobríssemos que é ele a causa da nossa dor de estômago.

Isso é muito importante porque socialmente há a falsa crença de que o mal-estar psicológico é sinal de fraqueza e que, ao mesmo tempo, o tempo curará as feridas sem necessidade de desinfetá-las, nem de fazer curativos ou cuidados para evitar que sangrem.

Valorize-se, queira bem a si mesmo.

Dedique tempo às pessoas que merecem e que fazem você se sentir bem. Não mendigue atenção, amizade, nem amor de ninguém. Quem quiser estar com você demonstrará sua intenção, cedo ou tarde.

Por isso, se você está vivendo uma situação de injustiça emocional angustiante, lembre-se:

Não procure quem não o procura e não responde aos seus chamados. Não busque quem não sente sua falta. Não sinta a falta de quem não te busca. Não escreva a quem não te escreve, não se submeta ao castigo da indiferença que fica clara diante de mensagens ignoradas ou silêncios infundados.

Não espere quem não te espera, valorize-se e deixe de mendigar e de implorar por amor. Porque, como dissemos, o amor deve ser demonstrado e sentido, mas jamais implorado. Guarde seu carinho para quem te quer e te compreende sem qualquer julgamento.

– E, sobretudo, não se esqueça do valor do seu sorriso diante do espelho, ame a si mesmo e valorize-se por tudo o que você é, e não pelo que alguém que não te merece faz você pensar de si mesmo. Ame-se e compreenda que o fato de que alguém o trata mal não quer dizer que você não deva fazer o impossível para rodear-se de pessoas que te fazem o bem e te querem bem."

domingo, 26 de março de 2017

Vontade de viver

"A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más."
(Friedrich Nietzsche)

Bom, novamente me recordo da afirmação que nos diz que "tem dias que a gente ganha e tem dias que a gente perde" e olha, essa semana eu vim todo trabalhado na derrota. 

Sabe quando a bate a bad? Dessa vez ela me desceu o cacete com força. Acho que me confundiu com algum saco da pancadas por ai... só pode... 

Me veio repentinamente uma necessidade absurda e inexplicável de um certo alguém, e esse certo alguém se fez ausente novamente, pois eu havia me esquecido que todo nosso relacionamento, tudo o que há entre nós é apenas fruto de minha pequena mente distorcida. Resultado: 3 dias sem conseguir comer e quase desmaiando por ai, já que as atividades na igreja e na faculdade estavam em alta.

Consegui voltar a comer um pouco ontem a noite, mas ainda assim sinto o coração apertar contra meu peito, num ardor desagradável que me faz desejar apenas uma coisa: a morte!

Sei do tamanho pecado que é dizer algo assim, mas é apenas a pura verdade, pura e dura. Perdi a vontade de viver, já não tenho mais nenhum motivo para continuar a insistir nessa existência patética. No entanto a minha covardia se faz tão grande que eu sequer consigo pôr fim a essa miserável existência. 

No meu coração não há hoje nem sequer poesias sobre dor e sofrimento, há em mim apenas silêncio, reflexo do vazio que ele deixou em mim. E nesse vazio minha mente se angustia, até o momento em que eu não conseguir suportar mais. 

"O suicídio demonstra que na vida existem males maiores do que a morte."
(Francesco Orestano)

Sei que não há motivo real para tal linha de pensamentos, só que pensar em findar tal fardo se tornou inevitável, e acredito que terei de aprender a conviver com (mais) essa obsessão.

Não é uma vontade de morrer, é apenas covardia, desejo de fugir, por saber que sou fraco demais para resolver isso de forma madura e adulta. É apenas covardia, desejo de inexistência, de sumir, de desaparecer sem nunca deixar nenhum vestígio de minha patética passagem por essa terra. Desejo de ser consumido pelos vermes da terra até que a mesma se torne o meu eu, e que não exista mais um ser tão dispensável ao mundo quanto um sujeito que só consegue sabotar-se e flagelar-se desnecessariamente...

Realmente um homem patético, que sequer merece ser chamado de homem... Patético!

sábado, 25 de março de 2017

Gracejo

Ainda acordado de uma noite difícil, longa, na qual minha mente inundada por um tsunami de pensamentos avassaladores e que me devastaram completamente. Desta noite só me restou uma casca vazia, pois já não sei onde se encontra meu coração. Ou melhor, até sei, mas está fora de meu alcance.

Meu coração está nas mãos daquele que não me ama, e que considera o meu amor uma grande paranoia, o que não deixa de ser, é bem verdade. Mas ele é verdadeiro, e eu não tenho chances para demonstrá-lo como deveria ser. 

Este sentimento me paralisou, me tornou incapaz de qualquer coisa senão de sofrer continuamente pelo amor que não me foi correspondido. 

No meu íntimo eu não consigo parar de desejar, nem de sentir essa vontade esmagadora. No meu íntimo eu não consigo vencer esse medo terrível de te perder. 

Mas eu não posso perder você, pois você não é meu, e não se pode perder aquilo que não se tem.

Por mais que você diga que ninguém perde outra pessoa, eu perdi você, e estou perdendo mais a cada dia, e logo, tudo o que sobrará serão as marcas profundas da sua presença no meu coração, que como uma cicatriz me recorda da ferida de amor que deixou no meu peito. 

Esse sentimento de posse, esse sentimento maldito, só nos traz sofrimentos, e como você disse, me impede de ocupar a cabeça com coisas realmente produtivas, pois fico todo o tempo imerso em paranoias, pensando em te perder.

Só não quero te perder, e mesmo assim sinto que a cada dia eu te perco mais um pouquinho, e a cada dia eu morro também mais um pouquinho.

Morro pois a necessidade que criei de você em mim te tornou necessário a minha existência patética. Mas você não pediu por isso, não pediu pra ser assim, e nunca me pediu e nem me ofereceu nada além de amizade. Portanto eu mereço sofrer isso sozinho, e não compartilhar essa dor com você.

Deveria pôr um fim nisso, acabar com essa história de uma vez só. Mas não consigo sufocar esse sentimento por você, pois ele é mais forte do que eu. E tampouco minha covardia não me permite sufocar minha própria vida, como deveria fazê-lo. Deveria me afastar de você, pois o faço sofrer, e é inadmissível que faça sofrer o homem que mais amo no mundo. Eu deveria sumir, desaparecer, eu deveria morrer. Sim! Não tenho utilidade alguma no mundo, e ninguém sentiria falta, afinal, todos são substituíveis, exceto você no meu coração... Mas seria melhor assim, sem minha existência patética a te atormentar, o mundo seria um lugar melhor para todos. 

Mas como minha covardia não me permite tal gracejo, permaneço a existir nessa forma patética, até quando o destino decidir parar de brincar com minha pessoa, ou até que eu consiga coragem o suficiente para livrar o mundo da minha estirpe.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Lixo

Hoje um senhor bateu a minha porta, conhecido de meus pais, sempre vem nos pedir algum tipo de ajuda. Não consegue trabalho fixo, só alguns "bicos" aqui e ali, e ainda tem filhos pra sustentar. Como se não bastasse, também não consegue se aposentar por conta de várias complicações. Em suma, em sua casa sempre falta tudo, até os alimentos básicos, e quando a situação se torna insuportável, ele nos pede ajuda.

Ele não é o único, pelo menos mais uma meia dúzia de pessoa veem aqui em casa pedindo algum tipo de ajuda, seja um arroz, feijão, ou um leite pras crianças, ou ainda dinheiro pra completar a passagem para aquela consulta na outra cidade.

Sempre me porto de maneira séria nessas situações, e meus pais sempre ajudam, até quando a situação aqui também ta apertada, mas todas as vezes que alguém bate no meu portão com os olhos suplicantes por algum alimento, o meu coração se parte e eu me escondo de vergonha.

Vergonha por ter uma vida ótima, onde nada nunca me faltou, e ainda assim reclamar dela com tanta frequência. Meu maior problema de hoje? Estou com preguiça de lavar os meus tênis. Enquanto me queixo de algo tão banal, o outro passa fome, ou pior, vê o próprio filho passar fome. 

Sinto-me como o pior dos homens, reclamando em meio a abundância. Não sou rico, mas nunca, em nenhum momento de minha vida, me faltou sequer o mínimo de conforto. Nunca fui dormir com fome, nem com frio, e diariamente vejo pessoas a minha frente se estremecerem de frio por não terem um casaco sequer para se aquecer. 

Qual não deve ser o desespero de uma mãe ao se sujeitar a tamanha humilhação de implorar por alimento para seu filho? Pessoa de coragem, de cerviz dura, pessoa batalhadora, enquanto eu, miserável, apenas reclamo do muito que tenho. 

Momentos assim me tornam consciente de minha miserável vida. Eles não tem nada, material, mas em seu coração tem a coragem para não desistir de viver. Eu, tendo tudo, penso a todo momento em colocar fim a essa existência. Seria um favor ao mundo, afinal, alguém sem utilidade alguma não merece caminhar por sobre a terra. 

Problemas como não conseguir namorar, não entender direito essa ou aquela matéria da faculdade não são nada, NADA, em comparação ao frio, a fome, a falta de dignidade.

Admiro meus pais infinitamente por sua caridade. Nunca os vi dizendo 'não' a ninguém, pois eles sabem a dor da fome. Eu não sei, nunca soube e por isso me tornei esse lixo, um ser humano incapaz de sentir uma empatia verdadeira, e incapaz de ajudar o outro. 

Se fosse feita uma lista das piores coisas da humanidade, certamente um homem sem caridade seria a pior de todas elas, e é nessa classe que me encaixo, pois um homem incapaz de ajudar o outro, nem homem é.

Cântigo negro

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

José Régio

Fonte: Releituras

quarta-feira, 22 de março de 2017

Me deixe entrar

Me deixe entrar, me deixe fazer parte da sua vida, me deixe te amar, me deixe te abraçar, me deixar enxugar as suas lágrimas, me deixe te fazer sorrir, me deixe te fazer companhia quando você só quiser ficar em silêncio. Compartilhe comigo seus medos, seu silêncio, seus sonhos. Compartilhe. Me deixe entrar. Me deixe fazer parte, me deixe participar, me deixe ser importante pra você, me deixe te amar, me deixe te mostrar o que é o amor. 

Não permita que eu apenas fique a sua margem, sem poder te ver, sem poder te tocar, sem poder te beijar. Me deixe entrar. Não permita que aqueles que não te amam te conquistem por palavras e ações. Não permita que te ofereçam nada meno do que o amor incondicional que tenho por você. Não permita. Por isso eu te peço: me deixe entrar!

Me deixe ver o que se esconde por debaixo do véu que você diariamente mostra ao mundo como uma máscara. Eu vejo que é uma máscara, mas não consigo ver o que há por trás dela, por isso me deixe ver. Não terei medo do que pode haver ali, pois sei que continuarei a te amar independentemente do que possa existir no seu verdadeiro eu.

Me deixe ver, me deixe tocar, me deixe entrar...

Me deixe entrar...

Me deixe entrar...

ME DEIXE ENTRAR!

POR FAVOR ME DEIXE ENTRAR!

Quase 1h da manhã, eu ainda acordado, mesmo tendo terapia amanhã cedo. Você ainda acordado, mesmo tendo aula amanhã cedo. Os dois online, mas nenhum puxa conversa. Eu tenho medo de ser insistente, chato, mesmo você tendo deixado claro que nunca passaremos de amigos, por isso não o chamo. Temo que se insistir posso acabar perdendo de vez aquele que tanto amo, mas que nunca foi meu de verdade. Você sei que não me chama pois não tem interesse, não há nada em mim que possa lhe interessar, nada que possa lhe agradar, nada que eu possa lhe ofertar. Eu não sou nada, eu não tenho nada, eu não sou ninguém. Não sou nada para você, completamente dispensável, trivial...

Mas mesmo não tendo nada, tudo o que tenho e sou é seu, é para você que eu existo, respiro e continuo vivendo. Não é uma forma saudável de levar a vida, mas as coisas são assim, não pedi para ser assim, as coisas simplesmente aconteceram, e agora cá estou eu, de joelhos ante os seus pés, um inseto nos pés de Buda, implorando lamentavelmente por seu afeto, afeto que nunca será dirigido a alguém tão insignificante quanto eu, mas que será de um outro alguém num futuro não muito distante.

Quando isso acontecer, será o momento da minha total aniquilação. Naquela hora, morrerei completamente, e se algo de mim ainda insistir em existir, certamente será apenas uma casca vazia, o resto do homem que um dia viveu e que morreu, seco, sem o amor de seu amado...

Do outro lado da linha

Estou com medo, muito medo, paralisado de medo. Mas não um medo comum, não medo de escuro, não medo de cobras ou aranhas, mas medo de viver, medo de crescer.

Na tarde de hoje recebi a ligação de um colégio particular aqui da cidade, me chamando para um entrevista amanhã a tarde. Não deveria ser nada demais, afinal eu mesmo deixei meu currículo lá, mas de repente foi como se uma injeção de gelo tivesse sido aplicada na minha coluna, e eu enrijeci completamente. Estou agora no escuro, contemplando a tela do notebook, ouvindo Wagner e com os olhos cheios de lágrimas de medo de ter de pensar no meu futuro.

Não sei o que acontecerá amanhã, mas temo que tudo o que eu conheço, todo o meu mundo, se torne diferente, e eu tenho medo desse mundo desconhecido, tenho medo de que não dê conta de viver nele, tenho medo de fracassar. Tenho medo de contemplar o outro lado da linha, de ver o futuro, de ver quem serei amanhã.

Tenho tanto medo de não ser bom o suficiente, de não corresponder as expectativas dos outros que sinto estar sendo sufocado, apertado, espremido contra uma muralha de gelo, prestes a ser esmagado pelo peso desses medos que me impedem de progredir, de crescer, de seguir em frente. 

Ainda nem sei qual será o resultado da entrevista, posso nem ser aprovado, e continuar dependendo de meus pais pra tudo. Mas já não tenho 15 anos, já devia estar trabalhando há um bom tempo. Mas eu tenho medo, há algo em mim que me paralisa completamente só ao menor pensamento de começar a trabalhar.

Não era tão difícil assim quando estava na papelaria, ate porque eu acho que nunca levei aquele trabalho a sério. Mas agora é diferente, é o mercado de trabalho real, com expectativas reais, com metas reais, com cobranças reais, com consequências reais. 

Bem sei que o fato de ter minha própria renda, e adquirir uma independência ainda maior, deveria ser para mim algo bom, instigante, mas não há nisso absolutamente nenhum mérito, ao meu ver. Acho tudo isso extremamente cansativo, e no fim das contas, tudo não passa de morrer de trabalhar para não morrer de fome. Não é exatamente uma perspectiva atraente para mim, muito pelo contrário, é uma realidade assustadoramente podre de um sistema que vai me consumir até a alma, e me descartar, quando não for mais útil. Nem de perto me parece algo bom, mas nem por isso deixa de ser necessário. 

Necessário pois já disse, não posso depender dos outros pra sempre. Meus pais podem morrer ainda essa noite e aí, o que eu farei da vida? Já devia estar trabalhando há muito tempo. Demorei demais pra tentar ser alguém, e hoje não sou nada, nada, nem ninguém. Só um marmanjo mimado que passa o dia ouvindo musica coreana e estudando filosofia na casa dos pais.

Por isso tenho medo, me tornei um adulto sem perceber, nem notei que estava crescendo, e hoje estou, precisando enfrentar de frente um mundo que não estou preparado para encarar. Tenho medo de falhar como homem, como pessoa, tenho medo de fracassar, de deixar as minhas futuras chances escaparem pelo ralo, como deixei as anteriores. Tenho medo. 

Eu não quero ter medo, não quero me esconder, quer poder lutar, vencer, lutar, superar, lutar. Mas só consigo pensar em fugir, em me esconder, em sumir, em desejar o nada, desejar a inexistência, desejar a desesperança. Tudo isso é fruto do medo, esse demônio gordo que me esmaga o peito e me impede de respirar. Por culpa dele eu não consigo evoluir, não consigo crescer e me tornar um homem melhor...

Mas não há o que fazer. Já é tarde demais para voltara atrás, e sou covarde demais para por um fim nisso como deveria. Só me resta caminhar lentamente para a morte certa que me espera ao fim dessa longa caminhada...

Seu garoto, Hank

"8 de dezembro de 1986

Olá, John:

Obrigado por essa carta de boa qualidade. Eu não acho que foi pesada, às vezes, é necessário para se lembrar de onde você veio. Você sabe dos lugares que eu frequentei. Mesmo as pessoas que tentam escrever sobre isso ou até fazer filmes sobre isso, não conseguem pegar a essência.

Eles chamam isso de “9 as 5”. Nunca é de 9 as 5, não existe um horário de almoço nesses lugares, na verdade, na maioria deles, para poder manter o seu trabalho, você não almoça. Então tem as horas extras e os livros nunca parecem entender as horas extras do jeito certo e se você reclamar sobre isso, existe outro otário para ocupar o seu lugar. Meu velho dizia “A escravidão nunca foi abolida, foi apenas estendida para incluir todas as cores.”

E o que dói é a mesquinharia humana daqueles que lutam para manter empregos que eles não querem, mas têm medo de uma alternativa pior. As pessoas simplesmente estão vazias. Elas são corpos covardes e mentes obedientes. A cor sai dos olhos. A voz se torna feia. E o corpo. O cabelo. As unhas. Os sapatos. Tudo está assim.

Como um jovem, eu poderia não acreditar que as pessoas dariam suas vidas por essas condições. Como um velho, eu ainda não posso acreditar. O que elas fazem em troca? Sexo? TV? Um carro pago em prestações mensais? Ou crianças? Crianças que vão fazer exatamente a mesma coisa que essas pessoas fizeram?

No início, quando eu muito novo e pulava de emprego em emprego, eu era bobo o bastante para, às vezes, falar para os meus colegas de trabalho: “Ei, o patrão pode vir aqui a qualquer momento e demitir todos nós, simples assim, vocês não perceberam isso?”

Eles apenas olhariam para mim. Eu estava colocando na cabeça deles algo que eles não queriam aceitar.

Hoje, nas indústrias, ocorrem muitas demissões (siderúrgicas acabaram, mudanças técnicas em outros fatores do local de trabalho). Eles são demitidos a todo instante e ficam com cara de atordoados:

“Eu perdi 35 anos aqui...”

“Isso não está certo...”

“Eu não sei o que fazer...”

Eles nunca pagam o suficiente aos escravos para que eles possam se libertar, apenas o suficiente para que eles possam permanecer vivos e voltar ao trabalho. Eu podia ver isso. Por que eles não? Eu percebi que os bancos do parque eram tão bons quanto e ser um cachaceiro era tão bom quanto. Por que não chegar lá antes que eles me colocassem ali? Por que esperar?

Eu escrevia com desgosto contra isso tudo, era um alívio tirar toda essa merda do meu sistema. E agora eu estou aqui, um suposto escritor profissional, depois de jogar os primeiros 50 anos fora, eu descobri que existem outros descontentamentos além do sistema.

Eu me lembro uma vez, trabalhando como empacotador numa empresa de iluminação, um dos empacotadores disse de repente: “Eu nunca vou ser livre!”

Um dos patrões estava se aproximando (seu nome era Morrie) e ele deixou escapar uma risada sarcástica, curtindo o fato de que esse companheiro estava fodido na vida.

Então, a sorte foi que eu finalmente consegui me livrar desses lugares, não importa quanto tempo tenha levado, isso me deu uma espécie de alegria, a alegre alegria de um milagre. Eu agora escrevo de uma mente velha e de um corpo velho, muito além do tempo em que a maioria dos homens nunca ao menos pensaria em continuar fazendo tal coisa, mas a partir do momento que eu comecei tão tarde, eu devia a mim mesmo o direito de continuar, e quando as palavras começavam a faltar, eu devo ser ajudado pelas escadarias e não poderia dizer mais nada, nem a um pássaro azul de um clipe de papel, eu continuo sentindo que algo dentro de mim vai lembrar (não importa quanto tempo eu já tenha partido) como eu sobrevivi ao assassinato, à bagunça e ao transtorno, para, pelo menos, poder morrer em paz.

Não ter desperdiçado completamente a vida parece ser uma realização digna, ao menos para mim.

Seu garoto,

Hank"

Charles Bukowski – ou Hank, para os íntimos – é conhecido como um dos melhores escritores americanos, mas você sabia que ele era um operário que tinha um grave problema alcoólico antes de se tornar um escritor famoso?

A vida de um bêbado parasita literário que ele criou é algo que foi experienciado por ele mesmo, em primeira mão, pelos muitos anos que ele gastou realizando trabalhos improvisados (bicos) e trabalhando para o Correio dos Estados Unidos. Ele descreve o trabalho como esmagador de alma, entorpecedor e qualquer outro adjetivo que você possa pensar para descrever um trabalho mundano, repetitivo e que paga apenas um salário mínimo. 

Não é uma surpresa que quando tinha quarente e nove anos, Bukowski tenha ficado muito grato quando o editor da Black Sparrow Press, John Martin, ofereceu a ele $100 por mês para trabalhar como escritor na condição que ele largasse o emprego no Correio e que Bukowski trabalhasse para ele em tempo integral.

Bukowski expressa sua gratidão a Martin numa carta que ele escreveu quinze anos mais tarde. Sua brutalmente honesta – e talvez um pouco exagerada – descrição de sua vida de 9 as 5 ainda é muito relevante, mesmo depois de trinta anos. Leia a carta abaixo na íntegra para entender a perspectiva de Bukowski. Talvez você se pegue reavaliando sua própria vida de trabalhador. 

Fonte: Bukology

terça-feira, 21 de março de 2017

Existencialismo

Somos criaturas questionadoras, curiosas por natureza. O homem em sua essência sempre busca respostas para questionamentos mil que lhe surgem a todo momento. Tão incontáveis quanto as perguntas são os temas acerca das quais as mesmas são feitas.

Buscamos respostas para questões simples do cotidiano, como de que forma podemos preparar este ou aquele alimento, como podemos tocar determinada musica de forma mais profissional e assim vai indo. É a inteligência prática, das pessoas que buscam formas melhores de contribuir praticamente na construção de uma sociedade melhor. Buscam facilidade, eficiência. 

Por outro lado existem aqueles que se ocupam de questões complexas, que muitas vezes requerem um longo período de reflexão e discussão para então proporcionar alguma mudança real no mundo. Tais pessoas não são inúteis ao todo, pois muito embora pareçam ociosos ocupando-se de trabalhos intelectuais, são estes pensadores que tentam melhorar o mundo através de um questionamento basilar: a causalidade da existência humana. 

Essas pessoas se questionam diariamente sobre quem somos, o que somos, e sobre os motivos que existem por detrás de nossa existência. Destes pensadores milhares de teorias foram formuladas, cada uma delas buscando explicar a sua maneira a forma como as coisas foram feitas, pois muitos acreditam que, determinando o início e compreendendo a forma, pode-se compreender também a causa. É uma espécie de desconstrucionismo do mundo. Primeiro o conjunto do todo é observado em sua totalidade, e depois essa totalidade é separada, parte por parte, em pedaços menores na intenção de compreender do que é formado esse todo.

Se pegamos o número quatro e o dividimos por dois, obtemos duas partes que formam o todo. Essas partes por sua vez podem ser divididas em outras duas ainda menores, que formam a divisão da primeira. De igual maneira, o homem é um todo, que faz parte de um todo maior ainda, ao qual chamamos de sociedade, desconstruindo a sociedade obtemos pequenos grupos sociais, descontruindo esses obtemos o homem e desconstruindo o homem obtemos as diversas partes quem compõem o homem.

Essa vertente pode ser encarada de dois prismas distintos, que podem ainda ser mesclados. O primeiro diz respeito a desconstrução do homem físico em sistemas, órgãos, tecidos, células e assim sucessivamente até que cheguemos ao átomo, ou alguma estrutura ainda mais básica, que forme o homem. O segundo prisma, o qual me interessa, diz respeito aos aspectos sociais e pessoais da formação humana, dentre eles os aspectos biológicos do prisma anterior. 

O homem é formado de aptidões e características inatas. Por exemplo, homens nascem com a pele negra, caucasiana, parda, dentre outras, ou olhos castanhos, azuis, verdes, dentre muitas outras cores. Por um outro lado ele também é formado pelas influências externas que pesam sobre ele a todo momento. Essas influências são, por sua vez, fruto de influências aplicadas sobre os outros, que as aplicam sobre nós. Partindo dessa premissa podemos ver que não é possível desconstruir o homem sem levar em consideração o fato de que ele é um ser social.

Somos formados pelos laços e interações para com as pessoas que nos cercam. Ao longo de nossa vida convivemos com diferentes pessoas, de diferentes opiniões, pontos de vista e expressões, e essa convivência é por vezes dolorosa.

Como de costume, retomo uma alegoria de que gosto muito, a do Dilema do Ouriço. Todos somos formados por espinhos, que nos protegem de inimigos e ameaças internas, mas esses espinhos estão presos em nossa pele, e assim como nós, o outro também possui espinhos. Mantendo uma distância segura, podemos viver pacificamente sem nos machucar. No entanto, quando chega o inverno, isto é, quando chegam as adversidades da vida, não podemos manter a distância e precisamos nos aquecer. Mas os espinhos ferem uns aos outros e os ouriços correm o risco de morrerem se tornarem a se afastar.

Podem decidir então se afastar e morrer de frio, ou acostumarem-se com os espinhos, que mesmo machucando, possibilitam a troca de calor necessária a existência. Essa troca de calor é a convivência com o outro. 

O homem pode chegar a várias conclusões sozinho. Se deixado numa floresta pode acabar aprendendo a sobreviver num ambiente hostil, por exemplo, mas dificilmente um homem poderia desde pequeno sobreviver sozinho. Penso que seja impossível, pois desde o primeiro instante de vida o homem necessita do outro para viver, no caso da lactação, por exemplo. Não somos como alguns animais que instintivamente podem aprender a sobreviver. Uma criança nascida a poucas horas não poderia aprender a engatinhar para então se alimentar de insetos se fosse largada na mesma floresta do exemplo anterior. Morreria de fome. Logo, por mais que limitemos a interação entre as pessoas, ela ainda se faz necessária, ainda que minimamente. Portanto penso ser correto afirmar que o homem não pode viver só, dependendo do outro em algum momento de sua vida. 

Essa necessidade se expressa portanto na convivência, que dependendo de nós pode ser dolorosa como a dos ouriços que acabaram de se tocar ou como a dos ouriços que aprenderam a suportar a dor que o outro lhe causa em virtude de um interesse maior.

Se não podemos evitar a necessidade real que temos do outro, não podemos evitar ainda a dor que o outro nos causa. Mas em contrapartida podemos aprender a conviver com ela, e dessa forma não mais nos deixar ferir pelos espinhos que o outro tem.

Esse é, no entanto, um dilema ainda maior, pois a dor que um homem pode causar a outro homem é imensamente maior do que dos espinhos do ouriço. 

Ainda que não possamos evitar que o outro nos machuque, é certo que podemos controlar a intensidade com que o outro nos ferirá. Ora, o ouriço pode decidir se aproximar muito do outro, e em consequência se machucar muito também, ou apenas se aproximar o necessário para não morrer no frio do inverno. Podemos aprender a sofrer. 

As dores que o outro pode nos causar são de uma possibilidade infinita, isso também é certo, mas há ainda as dores que causamos a nós mesmos. Quanto as dores que o outro nos causa, já disse que podemos em certo nível controlá-las, controlando a proximidade que guardamos entre nós e o próximo. Mas as dores que causamos em nós mesmos, essas dificilmente conseguimos controlar.

Não raramente colocamos o outro num pedestal, muito acima das outras pessoas, e muito acima de nós mesmos. Acreditamos que aquela pessoa nunca irá nos decepcionar, que nunca irá nos trair ou abandonar, ou ainda que será sempre atenciosa, sempre carinhosa, e que nunca demonstrará nenhum defeito. Mas esquecemos, ou nos cegamos de tal modo que não podemos mais perceber a verdade, que o outro é na verdade igual a nós. É um animal igualmente cheio de espinhos, que também tenta sobreviver aos espinhos dos seus semelhantes, inclusive os nossos. Quando então em algum momento ela se move abruptamente, cravando fundo um espinho em nossa pela, percebemos que ela não estava num pedestal, e que na verdade ela é como nós. Essa percepção é a decepção, que poderia ter sido evitada por nós se não nos aproximássemos tanto ou se simplesmente não tivéssemos dado a ela tanto crédito, crédito esse que aliás ela nunca pediu, e que portanto nunca poderia corresponder. Uma decepção é portanto culpa de quem se decepcionou e não de quem cometeu o suposto erro.

Mas as decepções são também parte da vida, e voltando a nossa perspectiva desconstrucionista, faz parte dos elementos que compõem o homem, pois forma sua personalidade, que modifica sua forma de viver, transformando por consequência o mundo a nossa volta.

Um líder político devoto de sua esposa pode se enfurecer com a traição da mesma e perder a razão de seus atos, declarando guerra a um país inimigo por perder a paciência durante uma reunião diplomática, pois estava nervoso com sua esposa. Dessa forma, o mundo se transformou, por meio das muitas guerras que foram travadas e das vidas perdidas em consequência da traição da esposa. O homem não soube lidar com os espinhos da esposa e acabou com muitas outras vidas em virtude de sua fúria, o que poderia ter sido evitado se ele desde o começo não tivesse creditado a ela uma índole incorruptível, facilitando seu perdão, não se estressando na reunião e por consequência declarando guerra, apenas por estar no calor do momento.

Me demorei apenas em apenas uma das muitíssimas influências que o mundo impõe sobre nós, imagina discorrer sobre tudo o que pode mudar um homem... Tal trabalho não poderia ser feito por mãos, ou mente, humanas. No entanto aos poucos podemos ir tentando compreender as complexas relações que se colocam em meio a nós, e de pouquinho em pouquinho, ir acrescentando novas informações que possam nos ajudar a compreender melhor como e o que somos. 

Hoje entendi que somos formados, além de incontáveis outros elementos, pelas relações com o outro, relações essas que muitas vezes revelam-se dolorosas, cheias de espinhos, mas que ainda assim se fazem necessárias a nossa sobrevivência. 

O outro, eis um dos elementos que nos formam, que dentre muitos outros nos influencia. Quem sabe compreendendo a cada dia um novo elemento de nossa formação, poderemos compreender também melhor o que somos e como podemos melhorar, se é que está disponível para o homem a possibilidade de evoluir, partindo do pressuposto que a evolução requer um ponto final, um objetivo último onde evoluir não seja mais possível, coisa que discordo, pois penso que a habilidade do homem de mudar e de se renovar seja infindável.

O que mais forma o homem? Já falamos das relações com o outro, que através de seus espinhos endurecem nossa pele e nos tornam mais experientes, mas o que mais nos modifica? O que nos faz seres tão mutáveis, tão imprevisíveis, tão ilimitados? Quais os motivos que existem por detrás das nossas existências? Existimos para realizar algo que ainda não descobrimos do que se trata? Ou apenas não existe motivo e nem razão alguma para nada, sendo que somos apenas ouriços na palma da mão do destino, obrigados a suportar os espinhos uns dos outros para sempre? Será que existe um fim, uma razão real para a nossa existência? Ou será ainda que buscar essa razão seja a razão da nossa existência? 

Do que somos feitos? Apenas de carne e osso? Ou também somos feitos de cores, borboletas, amores e paixões? 

segunda-feira, 20 de março de 2017

Monstro interior

Eu não deveria estar pensando nessas coisas, não devia estar me deixando abalar por alguém que vi pouquíssimas vezes e que já demonstrou ter quase que horror a mim. Mas eu não controlei a besta, a fera que habita dentro de mim escapou uma vez mais, espalhando terror por toda a minha cidadela interior.

Sem que eu percebesse aquele príncipe de armadura dourada entrou nos meus domínios, e não precisou de nada além de sua tímida presença para me chamar a atenção. Tentei fugir, tentei correr e me esconder, mas o brilho que ele emitia o fazia refulgir até no interior da caverna onde me enfiei. E aquele brilho foi para os meus olhos como a luz da lua, fazendo libertar o monstro que há muito dormia dentro de mim. E ele me destruiu, eu que era sua última prisão, e agora ele corre solto, em busca de sua próxima vitima. Seu alvo? O pequeno de armadura dourada que ousou pisar em meus domínios. 

Não há como ele se proteger, e eu temo que a fera o encurrale uma vez mais, causando-lhe pânico e asco de minha forma pavorosa e abominável. Quando eu retornar a razão, verei aquele homem com o pavor estampado em sua face, e com uma espada apontada para o meu coração, e uma vez mais sofrerei por ter deixado tal demônio a solta. 

Sairei então numa caçada, onde o alvo é aquele que nunca deveria ter saído de dentro de mim, uma vez mais lutarei contra meus próprios instintos, contra quem eu sou de verdade, para proteger a inocência daquela que fez a fera acordar. Eu não fui feito para machucar ninguém, e eu não quero machucar ninguém. Eu também não quero mais me esconder, e nem posso me machucar, eu não posso perder, o meu destino é lutar, lutar até que a fera esteja novamente sob controle, novamente sem me dominar, novamente sem matar, sem espalhar o caos e a destruição. 

Eu não quero que ele tenha medo de mim, nem que me despreze, muito menos que tenha nojo do que sou e de como sou. Não me importo se nunca nos tornamos amigos, mas não quero ser causa de raiva e rancor para ninguém, afinal, eu não sou sempre um monstro, muito embora tenha um vivendo dentro de mim.

Se não conseguir lutar, terei de fugir, fugir e me esconder uma vez mais, para não machucar ninguém. Será esse o meu destino? Correr e me esconder, sem nunca poder viver tudo o que dentro de mim pulsa tão fortemente?

domingo, 19 de março de 2017

Conflito de ideias

Noite de sentimentos conflitantes, como se uma guerra sangrenta estivesse sendo travada dentro de mim. Sinto minhas forças serem minadas, pois meu cérebro se consome em tentar encontrar m vencedor dessa injusta disputa. 

Dentro de mim duas ideias opostas lutam pelo domínio da minha mente, do meu coração e das minhas ações, e pelo que posso observar temo que ambas possam me machucar, caso encontrem uma vencedora. De qualquer forma sairei perdendo, pois ambas possuem uma força capaz de me lançar ao chão, como muitas vezes fizeram.

A primeira delas é a ideia que tento nos últimos dias imprimir em meu coração, uma espécie de independência afetiva. Tenho tentado com todas as minhas forças compreender que não preciso do outro para ser feliz. Isso faz parte de um projeto ainda maior de amadurecimento, que tenho levado como objetivo primordial na minha vida. Entender que preciso me amar para ser feliz, e não preciso de ser amado para ser feliz: eis o meu ideal! 

Mas logo nos primeiros dias já tenho me deparado com as primeiras barreiras. Um amante inveterado como eu não conseguiria tal nível de equilíbrio tão facilmente, não mesmo. Muito pelo contrário.

Tenho buscado então controlar os meus instintos mais primitivos, e portanto os mais poderosos: de não me apaixonar por ninguém, nem sequer permitir que abalem as estruturas do meu lado afetivo, ainda tão abalado das últimas experiências, que foram um tanto quanto desgastantes. 

Amores não correspondidos. 

Abandono. 

Amizades que se foram. 

Amizades que podem nunca retornar.

Tudo isso tem pesado demais em minhas ações e como consequência eu desenvolvi essa patológica necessidade de ser completado pelo outro. No entanto pude perceber que o outro não pode me completar, pode apenas acrescentar, mas eu devo ser completo por mim mesmo. Mas tenho entendido que é bem mais fácil escrever isso aqui do que colocar em prática. 

Dizer palavras é muito fácil, e percebi isso quando notei o vazio nas declarações de amor que já ouvi. Nenhuma delas foi verdadeira, pois o amor é incapaz de abandonar.

Esse meu lado deseja autoproteção, é uma barreira necessária a minha existência. Amor próprio, um escudo levantado contra as ciladas da minha própria mente, que acabam por atentar contra a vida de meu próprio coração.

Do outro lado se encontra a fera. Uma besta movida pelos seus instintos que também sabe usar de artifícios perigosos para me seduzis. Eu a vejo como um belo rapaz, de silhueta curvilínea, que todo o tempo me faz notar os homens ao meu redor, me colocando em situações constrangedoras por diversas vezes. 

Como resultados das seduções desse anjo de luxúria, tenho visto os outros se afastarem de mim. Vejo em seus olhos a frieza do desprezo. Esses olhares frios me congelam a alma, como se centenas de laminas perfurassem minha carne, me prendendo a uma parede, sem que eu possa fugir dali. Minha única opção é permanecer e suportar a dor que repetidamente se faz presente na minha carne.

Criei em mim uma necessidade tamanha que ninguém poderá saciar. Me tornei um animal de desejos, mas que por vociferar tanto, acaba por assuntando suas próprias presas, o impedindo de se alimentar de seu sangue. 

Para um observador externo, é bem óbvio o lado para o qual eu deveria levar minhas forças. Mas antes de qualquer julgamento, gostaria de acrescentar ainda a seguinte observação:

Se desde pequena uma pessoa foi acostumada a dormir de tal maneira, ou a comer de tal maneira, não será depois de 20 anos de hábito que ela conseguirá mudar rapidamente. Ela pode até abandonar ais hábitos, mas certamente não sei muita dor e sofrimento, ainda que o objetivo final seja para ela prazeroso.

Não posso mudar rapidamente, não seria possível, e tentar isso seria o mesmo que assinar um tratado de fracasso.

Mas ao mesmo tempo eu preciso ir aos poucos mudando essa forma de levar a vida, pois tornou-se dolorosa demais para mim. 

Não sei ainda qual das duas ideias sairá vitoriosa, só temo não sobreviver para conseguir descobrir. Que tipo de vida seria se a primeira vencesse? E se a segunda vencesse? Será que alguma das duas é capaz de me trazer a verdadeira felicidade? 

sábado, 18 de março de 2017

Bruma

Acordei nessa manhã nublada de sábado. Ainda não saí da cama, mesmo já sendo quase meio dia. Já choveu, parou, os vizinhos ficaram inquietos, se aquietaram de novo, minha mãe e irmã saíram e voltaram algumas horas depois... E eu continuo aqui, deitado no escuro, sem pensar em nada em particular, deixando a mente vagar livremente por aí...

E já passei por tantos lugares que nem consigo me lembrar de todos. Lembrei do dia de ontem, que passei ao lado de amigos da comunidade preparando doces pra um festival da igreja que vai acontecer hoje a noite. Sonhei que viajava para Chiang Mai, na Tailândia, visitando aqueles templos que guardam em si histórias de amor de séculos atrás. Pensei em levantar, inventar alguma receita, ou ver algum filme, mas não consegui sair daqui. Pensei em trocar a terapeuta que me acompanha. Fiquei então sem rumo, me recordando de amores passados, de amizades que se foram, de paixões que querem nascer, mas nada me deixou pesado.

Estou cansado, fisicamente, graças a maratona culinária de ontem, e isso é algo bom, pois estou exausto demais para gastar ainda mais energia com pensamentos desnecessários. Logo tudo veio e se foi com a leveza de uma pluma. E como a bruma da manhã essa camada me impede de ver essas coisas com clareza. Gosto disso. Há tempos não me sentia tranquilo assim. Gosto disso.

Penso agora nas pessoas ao meu redor. Pessoas normais, pessoas com problemas, pessoas felizes, pessoas malucas... Engraçado notar como todas são tão diferentes, tendo apenas em comum o fato de que todas são universos únicos, repletos de belezas e mistérios incontáveis. Desejo agora poder conhecer e me aproximar de pessoas novas, de mundos novos, para então desvendar esses mistérios tão fascinantes.

Mas talvez esses mistérios não devam ser desvendados, pois isso poderia lhes tirar o encanto. Ora, a beleza do rapaz de semblante misterioso é justamente o fato de não saber nada sobre ele, me aproximar seria me privar de seu mistério, seria desanuviar o que foi encoberto pelo véu que garante a exclusividade existencial de cada um de nós. Mesmo que as vezes a profundidade num olhar ou a beleza singular de um sorriso seja um convite difícil de recusar.

Continuarei aqui deitado, sem pensar em nada, e pensando em tudo ao mesmo tempo. Descansarei meu corpo, enquanto minha mente aproveita em si mesma esse breve momento de tranquilidade, essa leve bruma que lhe trouxe paz. Talvez eu prepare um chocolate quente, para me acompanhar nessa jornada, ou pegue um cobertor, para aquecer meu corpo, enquanto a imagem do amor me aquece o coração... Quem sabe não acabo deixando nascer em mim uma nova paixão?

quarta-feira, 15 de março de 2017

Escada

Há em você algum desejo? Algo que você deseje imensamente a ponto de acreditar que assim será feliz? Onde você acredita que estará sua felicidade? 

Já depositei minha felicidade em muitas coisas, coisas mesmo. Acreditava que ela poderia estar entre tecidos de roupas caras e que correspondessem aos meus gostos, ou que estivesse em objetos mil dos quais não havia nenhuma necessidade em tê-los.. Também já depositei minha felicidade em momentos... Como ficar deitado ouvindo uma boa música ou a chuva bater na janela, ou ainda observar a lua enquanto caminhava com a maré a bater nas pernas. Acreditava eu que minha felicidade estava ali.

Mas comprar aquela calça indiana não em fez feliz, nem aquele casaco com modelagem americana tampouco. Mesmo estando feliz ouvindo musica ou a chuva, houve momentos em que esses sons foram abafados pelos gemidos do meu choro, ou pelos gritos do meu coração, então minha felicidade não estava nesses momentos.

Depositei minha felicidade em crenças inúteis, quando acreditei que seria feliz ao terminar a faculdade, ou que seria feliz quando começasse a namorar, ou que seria feliz voltando a ser solteiro. 

Terminei a faculdade e descobri que meus estudos estavam apenas no começo, e que tudo tinha sido fácil demais, e que nem sequer tenho ainda a certeza de que serei feliz seguindo a carreira que escolhi para mim. Nem de perto essa confusão é a felicidade. Comecei a namorar e o que eu acreditava ser felicidade provou ser apenas uma alegria fugaz quando terminamos, passei a acreditar então que seria feliz sozinho, mas descobri que minha carência praticamente me fechou essa porta. 

Estou então longe da felicidade, tão longe que não sei precisar qual seria sua forma ou sua aparência... 

Num esforço de tentar abarcar um conceito desconhecido que só pode ser compreendido se vivenciado, minha mente criou a imagem de um lugar distante...

Eu me vejo então saindo de casa numa noite escura e fria. No céu, nenhuma nuvem, apenas milhões de estrelas que formam um luxuoso conjunto de tapeçarias celestes a enfeitar o universo.  Por detrás da casa havia uma grande escada, que não se destacava muito da vegetação do jardim, exceto por estranhas luzes que a tornavam visível. Essa escada, disfarçada, levava a um grande vale. Quem olhasse por fora acreditava que depois dali não haveria nada além de uma densa vegetação e que, exceto pelo mérito da beleza natural, nada de realmente deslumbrante poderia ser achado. No entanto aquela escada conduzia as almas que buscam a felicidade para o seu lugar de descanso, e ao subir cada degrau, elas se aproximavam cada vez mais da perfeita alegria. 

Ao cruzar o vale, as almas encontram um gigantesco jardim, cuja beleza não pode ser traduzida em nenhuma linguagem humana. Até mesmo os anjos teria dificuldade de dizer o quão aquele lugar é especial. Nele se encontra a eterna beleza divinal, a beatífica visão dos santos do Apocalipse.

Mas aos homens não é dada a possibilidade de conhecer a localização daquela escada antes da hora, portanto eles precisam procurar, e buscando a felicidade em todos os lugares da terra, correm também o risco de acreditarem tê-la achado em locais onde ela não está. 

Não é uma realidade etérea, nem um mundo feito de nuvens, mas também sua realidade não é apenas palpável e tangível, é o local do encontro do tocável com o superior, onde o tangível e o intangível coexistem pacificamente só para a a honra daquele que os criou. Homens e anjos, todos vivendo apenas para o eterno deleite. Ali a felicidade manifestava sua plenitude, como forma, cor e aroma, mas também em força suprema. Existia numa existência impossível de se expressar, pois ao mesmo tempo em que se manifestava fisicamente, era uma presença que transcendia o espiritual, era divinal.

Fui entrando lentamente, e aos poucos iam se revelando ante os meus olhos maravilhas indescritíveis. Ouvi a voz grave do Pater Profundus, um sábio que vivera há muito tempo atrás, e que me explicava ser aquele lugar, o último lugar que um homem iria conhecer. Ele me conduziu por uma via iluminada, que faria as estrelas do céu parecerem opacas de tão brilhante que era. O Pater Profundus ia me explicando tudo, todas as dúvidas que tinha, antes mesmo de eu perguntar.

Chegamos num lugar que parecia ter sido esculpido em pérolas e diamantes, e ainda assim o lugar não parecia nem de perto ser tão brilhante quanto as vestes dos milhares que me cercavam. E mesmo sendo muitos, o lugar parecia confortavelmente grande, como se nunca fosse se encher, mesmo já estando cheio. Fui colocado de pé em frente a fonte de toda aquela beleza, e não me atrevo a tentar descrever aqui como era. A minha volta se encontravam algumas mulheres, de grande sabedoria, e que cantaram, uma após a outra, a história de minha vida, destacando episódios de grande honra e sensatez, bem como de pecados e imundícies. Quando terminaram de cantar, outra voz se vez ecoar por todo o vale, era a mais bela voz que poderia existir, e mesmo tendo dito poucas palavras, todos se curvaram em reverência a ela. Quando a voz terminou de ecoar, eu, que desde que entrei ali me encontrava num, estava agora revestido com a mesma alvura de todos os que ali estavam presentes. 

Ergui o rosto pela primeira vez, e então contemplei aquela visão, e sabia eu, que ali ficaria, até depois do tempo em que o tempo não mais existirá.

terça-feira, 14 de março de 2017

Pequenas vitórias

Quando nos acostumamos a reclamar de tudo o tempo todo, notar os pequenos progressos e as mínimas conquistas da vida se torna um exercício necessário, as vezes de razoável dificuldade, mas de grande auxílio na recuperação de uma mente perturbada.

Fiz o compromisso pessoal de superar alguns conflitos internos que vinham me tirando a paz ultimamente. Isso quer dizer que estou entrando em contato direto com tudo aquilo que eu por muito tempo fugi.

Dentro de mim ainda habitam sentimentos difíceis de superar, e por esse motivo eu fugi de cada um deles, e me escondi por muito tempo. Não poderia ter tomado decisão mais covarde do que essa. Na minha pequena mente distorcida eu acreditava que, por exemplo, se não visse nada, poderia evitar sentir uma dor que sequer existe ainda.

Temia que aquele que eu amo se apaixonasse por outro, mas se eu não visse, não sentiria, e isso para mim seria algo bom. Mas na verdade eu me escondia do mundo, enquanto no meu íntimo, ocupava minha mente justamente em imaginar o que tanto temia. Meu sofrimento não diminuía por isso, pelo contrário, eu retirava das mãos do outro o poder de me ferir, e me feria por conta própria. 

Agora, aos poucos vou entendendo que fugir nunca é a solução. Preciso ser homem e encarar de frente os meus medos. Tenho medo de que ele se apaixone por outro? Que não consiga ser bom o suficiente para fazer com que ele me ame? Preciso pois entender que não preciso de seu amor para ser feliz, e muito menos para viver. Coloquei nele uma importância muito maior do que sua real importância em minha vida. Coloquei em um pedestal alguém que me trata como um lixo, como a escória, e por isso sofria. E sofrendo dessa forma eu perdia as belezas da vida que passavam a minha frente. Minha vida passava enquanto eu me ocupava em sofrer por quem vivia sua própria vida.

Lentamente vou então tentando colocar as pessoas em seu devido lugar dentro da minha mente e do meu coração. Estou limpando a casa, por assim dizer, já que habito em mim mesmo, e ultimamente tenho notado o quanto a casa se encontra bagunçada. Mas isso precisa mudar, eu preciso mudar.

Vou então encarando de frente um a um os medos que me cercam e que me perseguem, tendo apenas como guia, aquela luz que no meu coração ardia, cujo calor aos poucos retorna ao meu âmago, preenchendo de vida o espaço que antes era apenas o vazio da inexistência e do desamor. 

É um jogo complicado, e só agora começo a entender suas regras e a conquistar pequenas vitórias. Sei que a verdadeira batalha ainda está por vir, ou, se já começou, se encontra ainda no começo, então não posso desistir, não agora.

Posso cair de medo e pavor novamente amanhã, ou hoje mesmo, mas ainda que caia, cairei não porque tive medo de lutar, mas porque lutei e precisarei me levantar para lutar de novo!

segunda-feira, 13 de março de 2017

Objetivos

EU NÃO PRECISO DE NINGUÉM PARA SER FELIZ!

Dito isso em caixa alta para que fiquei melhor impresso no meu coração. É uma verdade cujo entendimento se faz urgente em minha existência conturbada.

Se fossem escrever numa folha de papel as relações existentes entre as dificuldades que passo atualmente, ela terminaria num emaranhado de rabiscos de difícil compreensão. É difícil compreender tudo, mas é necessário. E para que as coisas possas ser resolvidas, também se faz necessário que eu comece por algum lugar.

Eu disse que para mim mesmo várias vezes que minha vida tinha se tornando um novelo de lá, extremamente emaranhado. Para que eu comece a costurar a colcha da minha vida, preciso então começar a desenrolar esse novelo, e pra isso, devo puxar uma de suas pontas, para só então ir me alongando pelo resto do novelo. Isso significa dizer que essa ponta é um objetivo a ser criado, um ponto de partida, pois só através dele eu conseguirei chegar até a outra ponta, quando tudo estiver desembaraçado. 

Tracei então, primeiramente, dois objetivos que, para um leito aleatório, dificilmente farão sentido, mas que para mim estão claros como a água: O primeiro deles se refere a reorganização dos sentimentos que, ocupando lugares indevidos, me bloqueiam a evolução e a construção de uma personalidade saudável. Preciso então alocar esses sentimentos em seus devidos lugares. Como farei isso? Imprimindo dentro de mim o real significado de cada um deles.

O homem com quem me envolvi se foi, e não voltará, e esse fato não pode mais me ferir, ficou no passado. Com ele preciso apenas aprender que as coisas e as pessoas vem e vão, e que é inútil me aborrecer com elas. 

O homem que hoje eu amo, me rejeitou, e preciso fazer com que esse sentimento volte a ser algo saudável, sem a necessidade daquela pressão que me diz que morrerei se não o tiver aqui comigo. Ele não me ama, e isso é a realidade. Uma vez que eu consiga entender isso, a amizade que pode daí surgir também não trará consigo nenhuma obrigatoriedade. Apenas existirá. Naturalmente.

A última aresta a ser aparada é provavelmente a mais antiga,e talvez por isso seja a mais difícil, e ao mesmo tempo a mais simples de se resolver. Quanto a ela, preciso primeiramente entender que, a amizade daquele que se foi não é essencial a minha vida. Se o fosse, eu não teria sobrevivido aos últimos meses, e se sobrevivi a eles, posso viver pra sempre também. Ainda que seja de grande importância, essa importância não é vital, eu não vou morrer por conta disso, e se não vou morrer, eu não preciso disso, dele, para ser feliz. Se num futuro remoto, acontecer de voltarmos a sermos amigos ou algo mais, que seja, estarei aberto a isso, mas que seja obra do destino, e não de um empreendimento meu.

Esse primeiro objetivo tem em si um período de três meses para ser alcançado, um para cada uma dessas portas abertas. Período esse em que trabalharei com afinco para imprimir em mim um sinal indelével de eu não preciso de ninguém para ser feliz. A felicidade está dentro de mim, e é dentro de mim que eu devo encontrá-la. 

EU NÃO PRECISO DA APROVAÇÃO DE NINGUÉM!

Eu sou que eu sou. 

Eu sou eu. 

Eu sou formado pelo conjunto das interações das pessoas que me cercam, mas essas interações não ditam quem sou. 

Eu dito quem sou e o que eu quero ser. 

Minha perspectiva de futuro sou eu que faço.

Se as pessoas acham que eu deveria fazer isso ou aquilo, elas acham isso por conta própria. Eu não preciso fazer nada que não acredite que seja o melhor para mim mesmo. Se sou apaixonado por filosofia, é isso que vou fazer. Se fiz História, é porque sou apaixonado por isso. Não posso fazer nada que os outros queiram para mim porque isso não é a garantia da minha felicidade. 

Quanto as minhas escolhas, também não preciso justificá-las para ninguém, elas são minhas, e isso basta!

EU TENHO MEU VALOR!

Preciso ainda descobrir o meu real valor. Por tanto tempo me medi conforme a medida dos outros que esqueci como era olhar para mim mesmo e me reconhecer como alguém importante. Preciso então descobrir esse valor, para então me satisfazer com quem sou, com quem eu posso ser, e então não mais sofrer com expectativas frustradas fundadas apenas no quesito do outro sobre mim.

EU VOU SER FELIZ POR MIM E NÃO PELOS OUTROS!

Eu vou ser feliz, eu quero ser feliz, e eu vou ser feliz! Por mim, porque eu quero, porque eu preciso, e não porque vai me proporcionar isso.

Ninguém vai trabalhar em prol da minha felicidade e realização. Só eu posso fazer isso, só eu posso realizar isso. Sendo assim, eu vou ser feliz do jeito que eu quiser, sendo eu mesmo, amante e sonhador, sem mudar a minha essência, sem estragar a minha essência, em virtude daquilo que os outros consideram como felicidade.

A minha felicidade é só minha, só eu posso vê-la e só eu sei que forma ela tem, portanto não tenho motivos para tentar buscar algo que outros impõe sobre mim. A minha felicidade é só minha, e eu vou conquistá-la sozinho. Serei feliz por mim mesmo, não precisarei de ninguém para me fazer feliz, eu me farei feliz! E isto me bastará.

EU NÃO SOU CARENTE

Retorno ao primeiro ponto: Eu não preciso de ninguém para viver, para me fazer feliz, para me amar. Eu existo, eu posso ser feliz e eu preciso me amar. Então não há, não deve haver, espaço para a necessidade exagerada do outro. 

Amigos são importantes. Amores são importantes. Mas ser importante não significa ser essencial para minha vida, não que eu queira viver sozinho, mas que eu não vou depender de ninguém para ser feliz. Serei feliz com ou sem esse ou aquele amigo. Serei feliz sem esse ou aquele amante. Serei feliz.

Todo esse trabalho exigirá tempo e esforço, disso eu bem sei, e sabendo disso, estipulei um segundo objetivo, o de que ocuparei minha mente, com o intuito de não me perder em devaneios desnecessários, que apenas me trazem desconforto e mais insegurança.

Dei início a uma nova Pós-graduação, minha segunda, dessa vez em Filosofia, o que já ocupará um boa parcela do meu tempo livre, debilitando a minha mente que hoje só se ocupa com paranoias, e isso é bom. Também tenho tentado uma vaga na secretaria de educação, que se conseguir, me ocupará ainda mais, o que é bom. Também tenho me dedicado com maior afinco as minhas obrigações na igreja. Mais ocupação, menos lugar para tempo ocioso, menos tempo para pensamento desnecessários que apenas me trazem infelicidade.

Com isso, encerro então com a minha última afirmação, e a que eu preciso imprimir com letras de fogo no meu coração, para que nunca mais eu me esqueça delas:

Eu serei feliz! Não vou mais me prender aos espinhos nem as ervas daninhas que me cercam, mas vou arrancá-las e cultivar as rosas, as rosas brancas da pureza e da paz, as rosas da tranquilidade de espírito e que, em sua delicada beleza, transmitem a singela beleza da felicidade! 

EU VOU, DEFINITIVAMENTE, SER FELIZ!

sábado, 11 de março de 2017

Onde está você meu amigo?

Poderia me alongar em numerosas páginas para dizer o que agora venho aqui partilhar, mas acredito que, devido aos últimos acontecimentos, eu não poderia me furtar a ser objetivo no que preciso exteriorizar: Eu preciso de você aqui comigo! 

Desculpe-me, eu sei que você não tem nenhuma intenção de voltar a falar comigo algum dia, e talvez tenha sido melhor assim, pois ao menos não mais importuno você com as paranoias que a minha pequena mente distorcida costuma criar, mas ainda assim, acho que não conseguirei dar conta disso sem você ao meu lado.

Quando digo que preciso de você aqui comigo, não mais me refiro aquela forma doentia que eu desejava sua presença antes, agora é diferente. Eu preciso do meu amigo de volta!

Preciso de alguém que se sente pra ouvir as bobagens que tenho a dizer, que sorria do meu humor bobo e controverso, que me deixe deitar no seu colo enquanto brotam do meu coração as lágrimas mais sinceras de tristeza e saudade.

As coisas não tem sido fáceis sem você. Minha cabeça não está num bom estado, e minha estabilidade emocional se encontra presa por um leve fio, prestes a se romper, novamente. Tenho sido acusado de coisas que não fiz. Tenho de lutar lutas demais para alguém com corpo e mente frágeis. Eu sou frágil, pois estou sozinho, estou sem você meu amigo!

Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinicius de Moraes)

Gostaria de poder partilhar essas coisas com você, de também sorrir com você, perguntar como vai sua vida? Gostando de morar em outro estado? Começou a estudar violino? Resolveu fazer acompanhamento vocacional? Coisas bobas, só queria saber se está bem.

Não consigo te pedir perdão, mais uma vez, não por orgulho, me ajoelharia aos seus pés se fosse necessário para que me perdoasse, mas não o faço pois não quero tornar a te incomodar como fazia antes. Você se livrou de mim, e acho que está melhor sem  mim. Não posso afirmar isso com certeza, mas você continua bonito, cada dia mais belo, altivo. E eu não posso acompanhar mudanças menos óbvias senão à distância... Como estão as coisas no colégio? Mudou algumas concepções filosóficas? 
Eu bem que tentei escrever uma carta maior, mas acho que já derramei tudo o que havia em mim hoje aqui. 

É só isso meu caro amigo! Ainda posso chamar-te assim? Queria você aqui comigo, do meu lado, me ajudando a superar toda essa confusão. Me liga ou me manda uma mensagem qualquer dia desses, ou vem me ver, continuo morando no mesmo lugar... Se quiser, é claro. 

Até qualquer dia.

De alguém que te ama muito.

Egoísmo e desapego

Aos poucos, vou tentando reorganizar as minhas prioridades, aprendendo a desconstruir o meu egoísmo e trabalhando cada vez mais o meu desapego, pois ao meu ver, esses são os pontos que mais contribuem para a infelicidade do outro em nossos dias. Observei com cuidado e acredito que esses três pontos sejam os que mais necessitem de atenção nesse meu momento de delicadeza emocional.

Primeiramente em se tratando do egoísmo, ele é sufocante, pois imprime em nossa carne um desejo que nunca poderá ser abatido. Quando somos egoístas, tentamos subjugar as pessoas às nossas vontades e nos frustramos e sofremos quando não conseguimos. Pois se as pessoas são livres, não optariam por viver encarceradas em meus braços. Logo o egoísmo é nada mais que um desejo inútil e animalesco do meu âmago. 

Como princípio pessoal, sempre quis conquistar pelo acréscimo, não pela dominação. Mas isso é um lado nobre que apresento ao mundo. Na verdade esse princípio é o sepulcro caiado que mascara o meu desejo de dominação sobre o outro.

Me pergunto então se isso trata-se de amor verdadeiro, já que uma das premissas do amor é justamente a liberdade. 

Na maioria das vezes, queremos também receber em troca aquilo que doamos. Amar e ser amado, compreender e ser compreendido. Não acho que isso seja errado, mas que é uma receita certa pra infelicidade, disso eu tenho certeza. Por isso São Francisco foi feliz em desejar mais amar do que ser amado. 

No entanto, o outro não tem nenhuma obrigação de suprir a minha necessidade de carinho a atenção. Talvez nem sequer seja capaz de me oferecer algo em troca. Em meu caso mesmo, penso ser quase impossível que alguém em algum lugar ame com a intensidade que eu amo, com tanta intensidade.

De qualquer forma, isso não deveria em momento algum me impedir de amar, afinal outra premissa do amor é que ele não exige nada em troca, é gratuito. Há em mim outra dicotomia muito forte nesse ponto. Por mais que eu lute pra acreditar nesse ideal de amor desinteressado, dentro de mim ainda bate forte um desejo de ser amado, com a mesma intensidade com que amo. Daí tanto sofrimento e tanta incompreensão, pois tendo uma forma única de amar e ver o mundo, não posso exigir do outro os mesmos valores que nem mesmo eu consigo ter em plenitude. 

Para conseguir então amar sem interesse no que o outro tenha para me oferecer, ainda que seja apenas sua presença, eu preciso trabalhar dentro de mim o desapego. Desapego do amor do outro, de sua presença, e desapego dessa minha necessidade do externo. Por isso como o símbolo que com fogo eu gravei no meu peito, eu devo buscar em mim mesmo as forças para subir aos céus, ou seja, para adquirir a sabedoria da vida. 

É um trabalho constante, e muito provavelmente ainda estou distante de conseguir esse ideal. Me vejo muito preso ao amor e aprovação do outro. Preciso mudar, e imprimir em mim que não preciso do amor do outro para amar o outro, Claro que não vou conseguir isso sem muito sacrifício, pois as únicas pessoas que conseguem amar de tal forma são as mães, que tendo um amor incondicional pelos filhos, conseguem amá-los independente de como eles as amam.

Será que eu conseguirei amar de tal forma um dia? Desapegado do amor do outro, sem exigir nada em troca, e sem querer dominar, apenas amando por amar, com todas a minha força? Ou morrerei tentando, sendo esmagado pelo peso do meu próprio amor, enforcado pela necessidade do outro que criei dentro de mim?