quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Doente de Amor

Gosto de boas surpresas, e quem não gosta? Afinal é ótimo quando você não espera por nada e é surpreendido com uma tonelada de coisas boas não é mesmo? Principalmente em se tratando de histórias, é bom se sentir cativado, sentir que participa de algo, é bom se sentir tão inteiramente absorto em algo que essa coisa passa a ser parte de você. 

Terminei de ver a primeira temporada da série tailandesa cujo nome é obrigatório na lista de qualquer amante de BLs: Lovesick - The Series! Obrigatória pois, mesmo não sendo a primeira do gênero, foi ela que de certa forma abriu as portas paras as séries que vieram depois. 

Lançada em 2014 e renovada no ano seguinte para uma segunda temporada ela inaugurou o que hoje estamos vendo no gênero lakorn BL, e mesmo sendo bem inferior, já adianto, as obras posteriores, o seu posto está mais do que bem conservado como a precursora desse movimento tão lindo. 

Como assisto a maioria das coisas por indicação dos grupos de fãs de BL do Facebook eu a deixei por muito tempo no limbo da lista de espera, mas decidi ver antes de começar outras mais novas que também se encontram por lá, e antes também de acompanhar as atuais, ainda em lançamento.  

E olha, não poderia ser uma surpresa mais agradável. Admito que a expectativa estava bem baixa, justamente pelo fato de ter sido produzida antes de toda a experiência do meio. E essa é justamente a palavra chave da resenha de hoje: Experiência.

O que mais me marcou em Lovesick foi a presença inexperiente dos atores que eu já conheço tão bem de tantas outras produções. Claro, todos ainda crus, em processo de aprendizado, mas ver que de onde vieram os artistas que hoje eu tanto admiro foi uma experiência simplesmente fantástica. Em cada cena a gente se depara com um rosto conhecido dessa ou daquela série, desse ou daquele filme... 

O plot da série é diferente das que se seguiram a ela, não foca em um casal apenas mas numa gama impressionante de personagens. Tem gente pra caramba, e óbvio que nem todo mundo foi bem desenvolvido, coisa que, espero eu, tenha se resolvido na segunda temporada, com 36 episódios. A sinopse não revela nada do enredo, e diz apenas: 

Baseada na BL novel online “Lovesick:A caótica vida dos garotos de shorts azul.”A série acompanha a vida de garotos do ensino médio, e suas paixões e desilusões amorosas na adolescência. Além de rivalidades, pressão familiar e dos colegas, relacionamentos, etc.

A primeira surpresa foi a faixa de abertura, SHAKE do Boy Sompob, que eu já conhecia por ter cantando a Trilha Sonora Original de Waterboyy - The Movie, e que coisa boa ver que ele já fazia parte do meio BL nessa época... 

O foco principal da série é o relacionamento entre Phun e Noh, que por conveniência decidiram fingir um namoro gay. Phun é presidente do Conselho estudantil e filho de um homem rico, que quer obriga-lo a se casar com uma desconhecida. Noh é líder de uma banda que por um erro no orçamento pode vir a ser prejudicada se o presidente do conselho não ajudar, coisa que ele faz em troca de Noh se passar por seu namorado, para que a sua irmã caçula (amante de BLs) o ajude a convencer seu pai a não obriga-lo a se casar. 

Muito embora esse plot tenha sido esquecido ao longo dos 12 episódios da primeira temporada foi por causa dele que os meninos começaram a confundir sua relação. O resto é o que dá o preenchimento da história. Eu gostei do absurdo que isso parece. Imagine, um garoto aceitar se passar por gay para não casar e o outro aceitar para não prejudicar os amigos? É fantástico. 

Mas as coisas boas na vida deles acabam aí, já que eles logo passam a sentir algo mais um pelo outro, e como ambos tem namoradas essa confusão na cabeça deles é garantia de muitas lágrimas, e também risadas, além de momentos românticos, claro. Nesse ponto a série é muito bem equilibrada, nem o drama e nem a comédia tomaram o brilho do outro, foi muito bem balanceado, fazendo os episódios de pouco mais de 40 minutos se tornaram pequenos. Com exceção dos dois primeiros, que de fato são bem difíceis de engolir, dado aos fatores que direi logo adiante.

Os problemas que a série apresenta, completamente compreensíveis, são todos de ordem da direção e roteiro. Ambos meio confusos em toda a série, mas ainda piores nos dois primeiros episódios. Tentaram colocar histórias demais que não relacionavam tanto entre si. Ainda que a maior parte dos personagens se conheça ficamos muitas vezes nos perguntando se era mesmo necessário explorar tantas histórias assim. Algumas bem chatinhas, aliás... Mas fora isso, achei o conjunto muito satisfatório, sem muito a dever das séries que hoje passam nas telas tailandesas.

Eu gostei do desenvolvimento do casal principal, e achei bem fiel no quesito "peso na consciência" que os meninos costumam sentir ao descobrirem sua sexualidade e também na batalha interior entre medo e desejo. Sem exageros nem cômicos e nem dramáticos foram bem felizes nessa parte do roteiro. Eles realmente se sentiram doentes, ao ficarem juntos, mas ao mesmo tempo sabiam que o que sentiam era forte demais para ignorar, estavam "doentes de amor"!

Agora minha parte favorita: o elenco! Claro, nenhum deles tem uma atuação fabulosa, mas eu me empolguei por reconhecer tantos rostos familiares, sinal de que poucos não se mantiveram no meio... 

Começando pelos protagonistas, Phun é interpretado por Phumphothingam Nawat (White) que eu conhecia de Water boyy - The Series, como Fah, foi bom ver como foi seu começo, e embora em Water Boyy seja hétero, ver que também foi o precursor de tantos casais fofos do BL que tanto amamos foi incrível... Ele faz par com o Noh, interpretado pelo Kongyingyong Chonlathorn (Captain) que, mesmo não fazendo meu tipo, é tido como um dos queridinhos das meninas por lá... Ele atuou também em U-Prince, como o White,  e em Love Songs Love.

Minha maior surpresa foi o Luangsodsai Anupart (Ngern), que eu conhecia de Water Boyy – The Movie, o que me marcou como um dos meus filmes favoritos de todos os tempos! Um dos poucos que ainda me faz chorar toda vez que vejo... Aqui ele também faz um personagem gay, e bem mais resolvido que no filme, que no entanto não foi muito explorado, exceto em sugerir um possível triangulo amoroso com o casal principal na próxima temporada.

Outro rosto conhecido é o de Cheewagaroon Harit (Sing), figurinha carimbada de Senior Secret Love: Puppy Honey, Slam Dance e My Dear Loser. Um fofo ele...  Também tem a estréia de Arpornsutinan Chanagun (Gun ou Gunsmile) que fez o Prem de SOTUS e que também participa de My Dear Loser, e já confirmado para retornar em SOTUS S. Mas talvez a carinha mais conhecida seja a do fofíssimo orelhudo Kuariyakul Jirakit (Toptap) que tem uma lista longa de participações em lakorns, BL ou não, sendo a mais marcante em Water Boyy – The Series.


Por fim, Lovesick nos dá uma história excessivamente fragmentada pela quantidade de personagens, mas que soube manter o equilíbrio entre momentos de drama e descontração, faltando só mesmo um pouco mais de romance. Como já disse, simplesmente indispensável na lista dos amantes de BL, tanto pelo valor histórico quanto pela trama. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Lento efeito

Surpreendi-me absorto em devaneios, em sua maioria de ordem existencialista e sentimental, durantes alguns momentos de uma densa aula de filosofia que assisti nesse fim de tarde/início de noite de terça.

Após uma sessão de terapia também reveladora no tocante a algumas compreensões que ainda não estavam claras em minha mente. Percebi que já tinha conseguido sim chegar a algumas conclusões, em si muito importantes, mas que, antes de demarcarem minha vitória numa espécie de competição de maturidade comigo mesmo, me mostram que essa mesma maturidade é em si mesma um caminho, não um objetivo final. Me atreveria a dizer que se trata de uma causa com fim em si mesma, isto é, o objetivo de se atingir a maturidade não é chegar num estágio final, mas aprender a caminhar de tal forma que se diferencie da forma de caminhar os imaturos, aqueles que ainda não conhecem o caminho.

Refletia também acerca do meu estado atual de mente. Percebi que a minha necessidade constante de um estado mais ou menos permanente acabou me cegando para a inconstância que eu mesmo sou. Com efeito, frequentemente classificava os períodos de minha vida com etiquetas que pudessem, ao menos até certo ponto, refletir o que se passava comigo. Minha tendência negativista fez com essas etiquetas fossem todas preenchidas com palavras tão pessimistas que chego a me perguntar sobre minhas tendências quase obsessivas com a dor e a doença.

Por isso era comum ouvir de mim que passava por uma fase “difícil, complicada, dolorosa” que na verdade apenas ofereciam ao ouvinte, que na maior parte das vezes tratava-se de mim mesmo, uma perspectiva pouco pragmática sobre a ordem real das coisas. Minha necessidade de classificar a tudo fez com que eu me irritasse com a incapacidade de fazê-lo, afinal um dado momento de vida não pode ser reduzido a uma mera palavra, ou a uma oração curta, sendo tampouco expressa em longos textos, que foi o que fiz em muitas dessas fases.

Retomo a reflexão de saber em que fase da vida me encontro: não o sei! Ora, se a complexidade da realidade em que me encontro supera de forma abismal a minha capacidade literária de descrever o que vivo, sinto e penso, logo sou completamente incapaz de dizer como tenho vivido, podendo apenas me abster em dizer alguns dos aspectos dessa mesma fase. Fase essa que tem sido marcada por descobertas, conclusões, mas apenas marcada e não exclusivamente definida por tais coisas.

Essa pode ser apenas uma forma longa e demasiado cansativa de dizer que não sei bem o que tem se passado comigo, e isso pode ser bem verdade, já que em dados momentos eu não faço a mínima ideia do que tem acontecido ao meu redor, mas também em outros momentos penso saber exatamente o que se passa ao meu redor.

Não sei, portanto, se meu sofrimento vem do sentimento que não vi crescendo dentro de mim, ainda que eu mesmo o tenha cegamente o alimentado. Ou se vem dos sentimentos passados que ainda não consegui enterrar e que me assustam como fantasmas podres que um dia viveram ao meu lado; talvez venha da minha inconstância, ou da minha constante teimosia em desejar o inalcançável. Não sei ao certo, e por hoje pouco me importa, se no fim das contas poderei deitar minha cabeça sobre o travesseiro e sentir o efeito lento dos benzodiazepínicos tomar conta do meu ser já ficarei bastante grato por nada compreender. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Filha do destino

Depois de uma noite difícil, brutalmente torturado pelo calor lancinante dessa época do ano, fui levado a uma segunda reflexiva, motivada pelas palavras do novo curso de filosofia tomista em que me inscrevi e também pelos acontecimentos das últimas semanas, que aos poucos vem cravando no meu coração os ensinamentos profundos que apenas a experiência com o outro pode nos ofertar.

Com efeito, aprender uma lição na pele é mais valoroso que no intelecto, e por isso continuo a crer que o corpo dobra o intelecto. Repetia continuamente a mim mesmo, que não me deixaria levar pela emoção e pela ilusão de um relacionamento perfeito, sem mágoas ou cicatrizes. E justamente cegado pelo meu discurso de amadurecimento eu me vi fazendo exatamente os mesmos passos que tantos outros "teóricos da decepção" fizeram... 

Mas agora, aos poucos como deve ser todo amadurecimento, eu vou compreendendo que o esperar é o principal gatilho da decepção. Esperamos do outro o melhor, e ele não é capaz de corresponder a essa expectativa. Já me debrucei longamente sobre isso em diversas vezes, mas é diferente quando o coração entende o fato e não a palavra. 

E começo a arranhar a superfície do entendimento de que na verdade não sou bom para estar com alguém, muito embora o deseje tão fervorosamente. Isso porque além da grandiosa imaturidade afetiva há ainda uma anormal mania de perseguição que me rende as mais tenebrosas experiências de abandono, que agora vejo serem justificadas. 

Compreensível a visão que os outros tem de mim, e que agora começo a ver também, que tem se mostrado mais real do que a que costumava ter. Infelizmente me trazem mais conclusão doloridas do que perspectivas de futuro, mas creio que seja um primeiro passo importante. 

Me pergunto agora quais serão os próximos capítulos de minha história. Se conseguirei superar as dificuldade que me tornam tão desprezível aos olhos dos outros, se conseguirei me entregar aos que demonstram interesse por mim e não por aqueles que mal sabem de minha existência. Penso que a primeira medida a ser tomada deva ser a superação dessa veia masoquista que me leva sempre a desejar o que não poderei ter, e que obviamente sempre me leva aos mesmos destinos de dor e tristeza. 

Pois bem, entendo que a palavra me deu certa compreensão, mas apenas a vivência me levou ao primeiro estágio da sabedoria, apenas a dor soube me ensinar o que a palavra gritava em meus ouvidos, e apenas a dor, essa filha do destino, poderá me fazer compreender o que é a vida...

domingo, 15 de outubro de 2017

Sonhando sem parar

Algumas pessoas foram feitas para serem felizes, outras para perderem suas vidas em fábricas e escritórios. Algumas também foram feitas para consumirem-sem em sonhos inalcançáveis e outras para conquistarem o mundo e ainda assim não conseguirem se sentir satisfeitas.

Acontece que algumas pessoas simplesmente podem e serão algo que podem ou não querer ser ou também podem nunca chegarem a ser nada. 

Tenho dificuldade para acreditar em destino, mas também me sinto tentado a crer que as coisas estão já escritas, e que nós caminhamos por um caminho já traçado. Não quer dizer que não tenhamos liberdade, mas que já está dito o que faremos com essa liberdade. Como quando dizemos a alguém "faz o que você quiser" mas a sabedoria e a experiência já sabem o que a pessoa vai fazer, mesmo que tenhamos dado a ela a possibilidade de fazer ou não.

Quero dizer que algumas coisas podem ser, e outras podem não ser, e tentar quebrar uma coisa inquebrável é mais do que burrice, é masoquismo! Por isso alguns foram feitos para sonhar e não para alcançar.

Alguns foram feitos para escrever lindas canções, outros para ouvir, alguns ainda para criticar. Alguns foram feitos para observar, outros para tocar e alguns até para beijar, mas alguns, ah, esses vão para sempre só sonhar... 

Faço parte dos que nasceram para sonhar... Sonho com o mar, com a música de um piano numa sala lotada ou de um violino sozinho na praia. Sonho com uma brisa sob a luz do luar e com uma mão delicada a me tocar. Sonho palavras que nunca vou ouvir e com olhares que nunca vão me olhar... Sonho, sonho sem parar... 

As bodas do Cordeiro

A Liturgia deste 28° Domingo do Tempo Comum é para nós um misterioso convite a conversão e a busca pelo Reino de Deus. Em linhas gerais a temática das Bodas do Cordeiro permeiam as leituras e o salmo e culmina na Parábola dita no Evangelho. Como boa parte das escrituras as literatura bíblica exige sempre ser lida a luz do Divino Espírito Santo para que só assim possa fazer uma mudança profunda em nossas vidas.

Num contato inicial a primeira leitura, retirada do livro do profeta Isaias, pode nos parecer de mais fácil compreensão que o Evangelho, e de fato sendo mais simples ajuda na compreensão deste. Numa visão profética e apocalíptica, mas não no sentido devastador que normalmente atribuímos a palavra 'Apocalipse', Isaías nos oferece a promessa do convívio dos eleitos, e descreve boa parte do que deve ser a visão beatífica daqueles que estão diante de Deus. 

"O Senhor dos exércitos dará neste monte, para todos os povos, um banquete de ricas iguarias, regado com vinho puro, servido de pratos deliciosos e dos mais finos vinhos." (Is 25, 6)

Realmente a promessa das bem aventuranças, do paraíso, é sempre regada de belas visões e paisagens demasiado românticas em nossa mentalidade. Isso se deve ao fato de que estamos sempre em busca de satisfazer nossos desejos e a imagem de um Deus que satisfaça esses desejos é tentadora a nossa consciência. O que deve mover nossa busca não é, no entanto, a banquete do Cordeiro, mas O Próprio Cordeiro que de bom grado nos oferta o banquete. Trata-se então de uma percepção de qual deve ser nosso fim: a convivência com Deus, que nos fez uma promessa de uma vida eterna, ao seu lado, alegria está que só pode ser comparada as maiores delícias do mundo pois o homem é incapaz de compreender as maravilhas de Deus em sua totalidade.

É por isso que em inúmeras passagens bíblicas, e em outros inúmeros escritos de santos, vemos o paraíso retratado como um banquete. Isso porque o banquete é também símbolo de Deus: que nos une, partilha, alegra! O verdadeiro cristão é então movido a converter-se pela promessa do viver com Deus e partilhar de seu amor pela eternidade, delícia suprema. 

A nossa infelicidade terrena muitas vezes se deve pela busca da felicidade aqui nessa vida, daí a justificativa do apóstolo Paulo ter aprendo a viver na miséria e na abundância. Para ele, e para o cristão, não há alegria no possuir aqui, servindo tanto o muito como o pouco, sendo que o essencial Deus não deixa faltar. 

"Irmãos: Sei viver na miséria e sei viver na abundância. Eu aprendi o segredo de viver em toda e qualquer situação, estando farto ou passando fome, tendo de sobra ou sofrendo necessidade." (Fl 4, 12)

Infelizmente nos cegamos com a promessa de felicidade, das delícias do banquete eterno, e passamos a crer que teremos tudo isso aqui, e quando não conquistamos o que queremos muitas vezes nos voltamos contra Deus, dizendo que este não cumpriu sua promessa de felicidade aqueles que o seguirem. Mas ora, se ele prometeu a alegria eterna de sua convivência não deveríamos buscar essa alegria aqui, onde nada é eterno. Por isso a felicidade cristã está na pobreza evangélica de saber viver com o pouco, e não se deixar cegar pelas falsas promessas que se disfarçam de Palavra de Deus. 

Com a compreensão da promessa do Banquete Divino iluminada pela sabedoria de São Paulo entendemos melhor o que a parábola do Evangelho de hoje. Com um final inesperadamente duro por parte de Nosso Senhor nos deparamos com um cenário também apocalíptico: a parábola trata-se da história da salvação! E continua sendo tão atual quanto o era para a comunidade ao qual o Evangelho de Mateus se destinava.

Para um melhor aprofundamento podemos dividir a parábola em duas partes, uma relacionada aos judeus e a outra aos cristãos, sendo ambas atuais. A primeira delas refere-se ao chamado de Deus ao povo eleito, que deus as costas ao Messias que o enviaram de tal forma que preferiram leva-lo a cruz do que ouvir sua boa-nova. 

"Mas os convidados não deram a menor atenção: um foi para o seu campo, outro para os seus negócios." (Mt 22, 5)

Assim também nós não nos ocupamos das coisas de Deus por estarmos demasiado ocupados demais com as nossas próprias coisas. O mundo nos ensina a buscar sempre algo que possa preencher aquele vazio no coração do homem e que o aflige desde o primeiro pensamento. Devemos preenchê-lo com conhecimento, alegrias, prazeres, mas nunca com Deus. E então nos esquecemos de ir ao seu banquete, ignorando que o rei pode lançar seu exército contra nossas cidades, como dito no Evangelho logo em seguida.

Isso porque o homem esqueceu-se do inferno também, além do próprio céu. Até mesmo em nossas Igrejas hoje já não se escuta essa palavra 'inferno', já não se acredita mais nisso e portanto não há necessidade de mudança de vida. Não se fala no inferno, não se fala no céu e não se fala em conversão, mas isso não exclui a existência dos mesmos, antes, nos exclui sim da convivência beatífica. 

"Então o rei disse aos que serviam: ‘Amarrai os pés e as mãos desse homem e jogai-o fora, na escuridão! Aí haverá choro e ranger de dentes’." (Mt 22, 13)

A segunda parte, quando o rei ordena que os servos busquem convidados para seu banquete nos caminhos e encruzilhadas, corresponde ao chamado de Deus aos povos que não faziam parte da aliança do povo de Israel. Somos nós, todos aqueles chamados porque os judeus não ouviram, e todos incorporados ao corpo místico de Cristo por meio de sua Igreja.

Também nós fomos chamados, mas não buscamos dar a resposta mínima que o rei exige: a veste nupcial! 

No Novo Testamento diversas vezes encontramos a expressão da veste, na parábola do filho pródigo, nas palavras de São Paulo e no Apocalipse de São João, e podemos entender que, mais do que uma veste exterior, a veste de que fala Jesus é a da conversão, que motivada por uma expressão exterior, reflete numa expressão interior. 

Não devemos excluir a veste exterior em virtude de uma interior. Isso é antes de tudo uma outra faceta do relaxamento característico de nosso tempo. Coloca-se a atitude exterior em segundo plano em nome de uma interiorização maior. Mas esquecem-se que uma move a outra simultaneamente, e esquecendo-se de uma, logo se esquecerão também da outra. 

O interior não tem então prioridade sobre o exterior, mas os dois devem se enriquecer mutuamente, afim de que o todo encontre a conversão. 

A mensagem central desta liturgia é o chamado a conversão, que por sua vez nos leva a participação no Banquete do Cordeiro, mas que requer de nós uma resposta, uma veste nova, para então ser realizada em nosso interior e refletida em nosso exterior. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Levando flores

"Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução..." (Cartola)

O efeito da paixão é, acredito eu, infinitamente mais poderoso que o da embriaguez. Viver dessa forma é viver perigosamente no limite fino entre a realidade e a obsessão travestida de fantasia. 

Dificilmente consigo perceber quando estou a cruzar os umbrais de uma consciência limítrofe a razão... Mas agora, quando já estou a contemplar os horizontes da antiga existência segura, me vejo a tremer de pânico, com minha alma a arder na noite escura. 

Mas eu sei, e como sei, o quanto é perigoso cruzar esse limite. Pois como bem já vivi a muralha entre o sentimento bom e racional e o sentimento fatalmente desequilibrado é tudo o que impede uma pessoa de cair na completa loucura, movida pelos desejos luxuriosos de sua mente deturpadamente perturbada.

Mas a paixão é como uma chama lúgubre ardendo numa parede escura. Encanta o olhar e o coração atraindo a atenção para sua inebriante e tórrida morte. Ah a paixão... Abalar a alma é um eufemismo demasiado exagerado para explicar a paixão. A paixão é cegueira, é morte traiçoeira, é um amarrar-se sozinho no cadafalso da própria condenação!

Os apaixonados levam flores aos amados, mal percebem eles que levam flores também aos próprios túmulos, depois de tê-los eles mesmos cavados as suas covas, e entregado-se aos braços enamorados dos seus carrascos. 

"Sinto abalada minha calma,
Embriagada minha alma,
Efeitos da tua sedução..." (Cartola)

Da língua

Vivemos tempos difíceis, onde o combate nos aguarda em cada esquina, e em cada passo uma nova luta é travada dentro e fora da pessoa humana. Alguns buscam a vitória nas armas, outros se escondem atrás da religião e alguns ainda colocam outros para lutar em seu lugar. De fato as estratégias são tão diversificadas quanto são as pessoas que as usam, e para ser sincero, diria que a crueldade das pessoas é a única coisa maior que a luta que cada um deve travar.

Dentre as muitas armas que um homem pode portar uma em especial me encanta, ao mesmo tempo em que me aterroriza mais do que qualquer outra. Quando digo 'arma' poderiam pensar na bomba, na guerra ou quem sabe na doença, mas não, a arma de que digo é uma bem menor, mas com um poder devastador infinitamente maior que o de qualquer guerra, aliás, é capaz de controlar qualquer guerra.

Me refiro a língua, a palavra. Uma arma por vezes esquecida mas continuamente usada ainda em larga escala para matar, roubar e destruir, e mesmo sem saber ou perceber continua sendo a especialidade do homem.

A língua mata, e ouso dizer que mata mais do que qualquer doença ou bomba criada pelo homem, e no entanto não foi criada pelo mesmo. A língua é de longe o veneno mais letal e corrosivo que pode vir a correr por entre as veias senis de uma alma. As palavras com frequência ferem com mais profundidade que as balas que carregam as armas. 

Apenas quem já foi ferido por uma língua afiada como aço frio sabe o poder que ela tem, e com frequência a usamos sem nem ao menos perceber o mal que podem fazer. Claro, poderia também falar do bem que ela pode fazer, mas estou confiante em crer que o homem aprende mais com a dor do que com o amor, então um panorama visual do poder destrutivo da língua é mais eficaz do que uma sugestão adocicada de seu poder construtivo.

Um veneno natural pode ser neutralizado com uma amostra do que contém em si, mas uma palavra não, muitas vezes não existe forma no mundo de dizer 'perdão' que possa curar uma ferida provocada por uma língua maldita.

Mas as pessoas não ligam para isso. Assim como usar as armas para colocar sob seus pés os seus inimigos também usam da língua para curvar a si sua mente e seu coração. Por isso diz-se que a língua corrompe, dobra até mesmo o aço, e mata até mesmo a mais bem intencionada consciência.

Também roubamos do outro sua vontade de viver, seus sonhos e esperanças quando nossas palavras passam a ser repetidas sem discriminação por qualquer um; Colocamos sobre o outro o peso de nossa língua e lhes roubamos o direito a uma vontade própria. Como é triste ver uma pessoa cuja palavra se calou e cuja língua não é outra senão a língua daquele que a domina. 

Desespero grandioso é o sentido por aqueles que precisam viver sob o peso das palavras de aço dos que o cercam. Essas lhe cortam mais do que o ferro que foi levado ao fogo, e certamente ardem mais do que o próprio fogo... Ah, o homem não compreende o poder que tem, e ainda o usa sem temor, dobrando o outro a si e envenenando sem perceber os que diz amar, mas que apenas deseja a si curvar. 

Bestialmente

Os dias passam, as horas correm... Vem o dia, vem a noite, e eu prometo a mim mesmo que amanhã será diferente, que vou levantar disposto a mudar, a lutar, mas todo dia é a mesma coisa.

Sair da cama já exige um esforço enorme, e sair por algumas poucas horas me deixa completamente exausto. Passei horas dormindo depois de ter ido a missa ontem cedo. Meu corpo não tem conseguido se curar, não tem conseguido viver.

Acreditava que seria uma questão psicológica, e que a força de querer levantar poderia me bastar, mas não bastou. Mesmo depois de dormir mais de 5 horas direto e eu ainda não conseguia levantar sequer para tomar água. O sol queimava minha pele mas eu nem ligava, só queria ficar deitado ali, pra sempre. E quando chegou a noite, esperava que o sono não viesse, mas logo ele apareceu, forte e pesado como uma barra de chumbo. Não dormi por 8 horas, como sugerem, mas por 12, e esse tempo é ainda maior em alguns dias, já cheguei a passar 16 horas direto sem conseguir sequer trocar de posição. 

A disposição para escrever tem sido outro problema. Quando finalmente consigo superar a dificuldade de ficar desperto o suficiente para escrever qualquer coisa que seja, as ideias simplesmente somem da minha mente como fumaça entre os dedos. Nada permanece, nada fica.

E essa tem sido a manifestação pessoal que tem se dado em todos os aspectos da minha vida: a permanente transitoriedade de tudo. Dizem que a única constância do universo é a inconstância, mas aceitar isso é mais difícil do que repetir as palavras. A inconstância tem me dilacerado por dentro, e tem feito eu desejar mais do que nunca a eternidade, o perfeito; Quisera eu me tornar a existência perfeita, e cobrir com minha consciência a totalidade da existência, mas quanto mais desejo isso, mais percebo o quanto isso é um sonho tolo, infantil. Ora, não é isso que desejam as crianças, um mundo onde ninguém os contrarie? 

Tudo o que tenho feito então é desejar como uma criança que meus desejos sejam atendidos, sem no entanto perceber o quão ridículos eles são. Por isso a dor, o sono, a letargia, pois meu corpo percebeu o perigo que é para mim e para os outros ficar acordado, sonhando e pensando. Por isso o meu corpo se encarrega ele mesmo de proteger o mundo de minha bestial mente...

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Silêncio e veneno

As últimas noites tem sido difíceis. Percebi que tenho esperado que o tempo resolva, que o tempo me acalme, que o tempo me console. Mas tudo o que tem acontecido é que o tempo tem me deixado ainda mais apreensivo, ainda mais magoado.

Tudo o que o silêncio sepulcral da noite faz é me lançar num abismo de pensamentos sórdidos, e embora os dias estejam quentes tudo o que minha alma encontra é a frialdade inquieta do aço de uma espada a me transpassar o coração. O aço é frio, e as palavras também são frias, não há no mundo para o meu coração abrigo, condenado a viver em eterno exílio. 

O meu silêncio é resposta de mais silêncio, mas já não sei mais quem responde a quem. O meu silêncio é reflexo do medo que meu coração tem de mais uma vez ser abandonado sobre as palavras frias de adeus. 

É com um sorriso macabro no rosto que eu me recordo que todas as minhas ações foram e continuam sendo movidas pelo medo de ficar só. E foram elas que me deixaram como estou: só! A cruel ironia do destino como um dardo inflamado foi lançada no meu coração, e a paralisia que se segue ao contato do veneno com meu sangue me deixou ao chão. 

Não há uma conclusão, um insight, uma compreensão. Há apenas silêncio, dentro e fora de mim, enquanto espero o veneno terminar de fazer efeito e finalmente ceifar a vida miserável que ainda insiste em existir. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Sentença

Meu lamento tem sido a dor da perda. Minhas lágrimas mais uma vez correm pelas costas que foram viradas para mim. Minha voz grita pelo olhar que se fechou...

As pessoas dizem que precisamos superar a partida dos amigos. Dizem que amigos vem e vão o tempo todo, que ninguém fica para sempre na vida de outra pessoa, e isso é bem verdade. Mas como conseguem superar as perdas? Como conseguem esquecer alguém que te tocou tão profundamente a ponto de deixar uma assinatura na sua alma e uma marca no seu coração? 

No último sábado eu ganhei um abraço, como há muito não ganhava... Foi uma despedida? Foi aquele abraço o último gesto de carinho daquela pessoa em minha vida? 

Minha condenação é a despedida. E eu não sei dizer adeus... É só mais uma das coisas que não sei dizer. Assim como não consigo dizer "me perdoe" ou "eu te amo", isso porque pronunciar as palavras mesmo que seja difícil ainda é mais fácil que perdoar ou amar de verdade. E viver uma despedida é mais difícil que dizer adeus. Por isso eu fico apenas olhando as pessoas que amo, uma a uma, me darem as costas e irem em frente, seguindo com suas vidas, seus caminhos, seus amores, e me esquecendo... 

Como uma sinfonia que cresceu e numa apoteose encantou a todos o som dos que me amam vai diminuindo lentamente até sumir, e tornar-se apenas uma recordação distante, uma sombra, do que um dia já foi. 

Somo hoje mais um, a longa lista dos que me deram as costas, dos que eu amei e que acreditei que iriam me amar eternamente. Cumpro mais um dia de minha sentença!

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Sobre a Não Compreensão

A linguagem é incapaz de transmitir a totalidade do pensamento. O que dizemos ou escrevemos é apenas uma fração insignificante do que sentimos. Mesmo assim temos ainda a necessidade de ouvir coisas de forma que estas saciem nosso apetite por aqueles sentimentos que faltam dentro de nós.

"Eu te amo"

"Perdoe-me"

Será que estas palavras tão simples conseguem transmitir a densa realidade que se esconde por trás das intenções que temos ao dizê-las? Quem afirmar amar afirma mais do que possuir um sentimento por alguém, afirma que dentro de si nasceu uma consideração especial, que cresceu e se tornou um carinho também especial, e que por fim mudou-se num bem querer tão forte que a felicidade do outro se tornou a sua felicidade. O mesmo se diz do perdão, que traz consigo o peso da ofensa e do arrependimento, e também o propósito de mudança daquele que ofendeu.

Mas continuo certo da insuficiência da linguagem na transmissão dos conceitos de sentimentos. Isso porque somos INCAPAZES DE FAZER O OUTRO COMPREENDER O QUE SENTIMOS. E todas as nossas tentativas, por mais belas que sejam, de um ponto de vista artístico, é ainda insuficiente. 

Temos belas canções de amor, poesias que falam da alma e do coração, e simples textos onde autores enamorados debruçam-se sobre palavras, mas nenhuma dessas manifestações é capaz de abarcar a totalidade da existência de um sentimento. O que sentimos é tão infinitamente maior do que a palavra que transcende a comunicação de forma que nos tornamos como que crianças, balbuciando, mas que não conseguem ser compreendidas. 

Podemos cantar, poetizar, pintar e até mesmo gritar, mas o outro nunca poderá compreender o que de fato se passa no nosso interior. Isso porque dois universos distintos não se misturam, pode colidir-se, como o fazem por meio de um abraço por exemplo, mas nunca misturar-se e entender-se completamente. Podemos deitar-nos um ao lado do outro, e por horas contemplar o meu céu povoado por miríades de estrelas, mas nunca veremos de fato o mesmo céu...

Você conseguiu compreender, o sentimento que havia em mim naquele abraço? Naquele breve segundo em seus braços me envolveram a minha alma se expandiu, e senti como se fosse capaz de abarcar mais do que apenas a mim, claro, não poderia abarcar a totalidade da existência, mas se pudesse abarcar a nós dois já ficaria bastante grato. 

Mas você não compreendeu, que naquele instante eu desejava poder ficar ali pela eternidade. Assim como eu não compreendi o que queria me dizer com aquele abraço. Queria que eu ficasse? Ou estava a se despedir de mim? Mais uma vez tive vontade de perguntar mas o medo da resposta me calou e eu apenas sorri, e com o coração tentei tocar-te e convencer-te a ficar...

Ah, se você pudesse me compreender, veria que tudo o que fiz foi por amor. E eu queria só te dizer, que me fizesse entender, como você se tornou minha vida. Mas pelo visto Santa Terezinha tinha razão em dizer que "viver é amar e que amar é sofrer". Não lamento pelo sofrer, mas apenas choro lágrimas de tristeza por não me compreender. 

domingo, 8 de outubro de 2017

Paralisia

O Sol forte me incomodou. Minha pele sentiu-se atacada pela violenta onda de calor que do mundo se desprendeu contra ela. No entanto não foi o que me machucou, antes fosse, mas pelo contrário, se pudesse escolher sofreria o calor de dez sóis, ao invés da frialdade que agora corta meu coração. 

Tal frialdade paralisou a minha alma, e já não há mais como o calor do sol me aquecer. Isso porque o aço que agora se encontra dentro de meu coração está ligado a corrente do destino, aquele corrente inquebrável que conduz a alma humana a um ciclo de condenação eterna...

Qual a minha condenação eterna? A traição ininterrupta por parte daqueles que amo, e que me abandonam por conta de suas próprias paixões. É a condenação de amar mas nunca ser amado da mesma forma, e ainda ser enxotado por aqueles a quem entreguei meu coração.

Por vezes reclamamos dos espinhos que a vida dá mas esquecemos que ele sempre vem com as flores. Não digo isso para amar as flores apesar dos espinho, mas para que eu mesmo perceba que a vida apenas nos dá os espinhos, disfarçados pelas rosas. Quando as soltamos no chão, machucados pelos espinhos, resta-nos apenas a lembrança da beleza que tínhamos em mãos...

Algumas lembranças doem, algumas promessas quebradas mais ainda. Alguns aprendizados deixam em nós uma marca tão profunda que certamente não desaparecerá durante toda a vida, uma cicatriz. O que fazer com ela senão apenas recordar do a causou e não tornar a cair na mesma armadilha? 

sábado, 7 de outubro de 2017

O que me restou

Agora o tempo se cumpriu, minha sentença começou! As folhas das grandes arvores estão ao chão, em seus corpos apenas a tristeza da desnuda verdade imutável. O bater dos sinos dos grandes templos já não se ouvem mais. Calaram suas preces e não mais anunciam as vozes de seus deuses, evocam apenas a triste aurora dos mortos.

O que eles nos ensinam? Que toda glória é passageira! 

Toda glória nesse mundo é tão fugaz quando a vida de uma fincuda. E a minha vida agora repousa vergonhosamente nos versos de um díptico, ceifada pelo inimigo que me obrigou a enrolar em meu próprio pescoço a corda que me prenderia a guilhotina da lamina fria do destino. O aço frio que me decepou a vida foram as palavras cruéis que, mesmo sabendo que um dia as ouviria, acreditava que nunca chegariam...

Mas chegaram.

Dizem que o guerreiro mais astuto é o que faz com que se inimigo se derrote, sem que para isso tenha de sujar suas mãos. O inimigo mais inteligente é o que derrota o seu rival sem derramar seu sangue, mas o torna incapaz de voltar a batalha. Durante essa vida há inimigos astutos o suficiente para disfarçarem como coelhos delicados, quando escondem uma fera mortal em suas entranhas.

Meu inimigo tornou meus aliados contra mim. Fez de meu amor e de minha preocupação as foices que cortariam minha jugular espalhando o sangue envergonhado de meu afeto pelo chão imundo de seu palácio. 

A mim restou a sobra. 

O resto. 

Aquela parcela dispensável da vida que os homens desdenham num gesto displicente. 

A mim restou o segundo lugar. 

A sombra. 

A mim sobrou a lembrança do que era.

Mas que nunca retornará a ser.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Palavras sobre a morte

O que a morte deveria despertar nas pessoas? Há quem fique triste e chore com a morte, e embora seja o sentimento mais comum, o luto não é o único sentimento que a morte desperta em nós. 

Talvez seja algum tipo de pressão social, que nos obriga a nos sentir entristecidos quando um ente morre. É o mesmo sentimento que nos obriga a sentir uma dada tranquilidade quando alguém mal se vai. Sabe aquela comoção nacional que se deu quando Bin Laden se foi? É a isso que me refiro... Mas será que apenas as personalidades mundialmente temidas e odiadas despertam em nós o furor da tranquilidade mortuária? 

Acredito que não. Na verdade penso que essa sensação, de se deleitar com a partida de alguém, é mais comum do que se pode imaginar, nós apenas estamos condicionados a não dizer, mas sentir é automático. 

Pode ser que seja só eu, mas não consigo chorar por aqueles que em vida não me eram próximos. Me são estranhos, e talvez o sofrimento dos que os amavam seja para mim mais comovente que sua própria partida. Para ser sincero a maior parte das pessoas que se foram e que conhecia não me despertou mais do que agradecimento por não ser mais obrigado a tolerar suas incômodas existências. 

Sei que pode soar demasiado duro, mas penso que uma sinceridade sóbria seja preferível a uma falsidade inebriante e cega. De fato as lágrimas que não derramei são mais verdadeiras que aquelas motivadas pela culpa ou pelo arrependimento do que não fora feito em vida, ou das palavras ditas.

Não quer dizer que não tenha chorado. Ainda choro por algumas pessoas, mas a morte ainda não cravou em mim suas gélidas garras. Não me senti por ela violado, nem tampouco a amaldiçoei por ter cumprido sua missão. A morte nunca me levou nada. 

Talvez o dia em que ela cubra com seu manto o rosto dos poucos que amo eu vocifere contra sua existência. Mas sempre tive a certeza que não se justifica lutar contra a morte, pelo contrário, sendo ela a força da natureza por excelência não se pode combatê-la. 

As pessoas ao meu redor tendem a ver a morte como algo ruim, sempre vinculada a dor da perda e ao sofrimento, mas eu sempre vi a morte como um ato de caridade, de Deus, que permite que seus filhos parem de espalhar seus pecados por sobre a terra. Nunca vi a morte como uma vilã, muito embora sempre a representem de preto a vejo mais como alguém de branco, que apenas faz o seu trabalho, que mesmo trazendo realmente dor e sofrimento para alguns, também leva a outros o alívio do fim de uma existência torpe e maligna... 

Sonhando acordado

Em alguns dias o sol brilha alegre, e as cores do mundo enchem a alma de um furor incontestável. Em alguns dias ainda que o céu esteja cinza a tranquilidade do frio acalma o coração. Em alguns dias levantamos a cabeça e nos sentimos inundar pela delicadeza de uma gota de orvalho numa pétala de rosa, e em outros dias o calor de nosso interior é maior que o do astro rei.

Mas em alguns dias a natureza não nos influencia com sua beleza. Em alguns dias não importa a cor do céu, o formato das nuvens ou a profusão de estrelas, apenas não estamos a sentir a alegria. Não significa que não a sentiremos novamente, mas que estamos por um tempo dormentes, sem conseguir sentir aquilo...

Sento-me de frente a janela, e vejo os pardais voando nos fios da companhia elétrica e não sinto a poesia do seu cantar. O farfalhar das folhas esmeraldas da casa vizinha não desperta o furor da esperança que o verde costuma em nós despertar.

Apenas fico aqui, sentado, com o olhar fixado no horizonte, mas a mente a viajar. Mas ela não sonha com paisagens diversas e mais belas do que as que se estendem além da minha janela, não... Minha mente sonha com olhares e toques, e aspira outros perfumes a me inebriar... Ah, que sonhar acordado capaz de me arrebatar!

Mas se nem mesmo a beleza que existe ante os meus olhos pode me encantar, como posso ter certeza de que a que inexiste o fará? É uma ditosa incerteza a encarar, e a sonhar acordado enquanto os pássaros lá fora estão a voar... 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Imitando aquele que imitou a Cristo

Hoje é a memória litúrgica de São Francisco de Assis, um dos maiores e mais conhecidos da Igreja, admirado por tantos até mesmo de fora da mesma Igreja. Sinal de que a santidade transcende o tempo e o espaço, e exemplo vivo que o Evangelho permanece presente como estava na Igreja primitiva.

São Francisco levou até os 24 anos uma vida desregrada, não era uma pessoa devassa, mas levava uma vida de futilidades. Como muitos de nós ele não fazia o mal propriamente dito, mas pecava pela omissão de apenas enxergar as próprias vontades. Como muitos de nós também não se recordava de Deus, não pensava no céu, nem tampouco no pecado. Apesar de não ser dado aos extremos da carne nunca fora um piedoso devoto, como sua mãe. 

Seu exemplo está justamente na vivência do Evangelho ao extremo. Após uma experiência mística que o conduziu a sua conversão se tornou um Outro Cristo na Terra, como fora chamado por tantos veículos de comunicação quando no século passado fora nomeado o Homem do Século, por cristãos e não cristãos. 

Como bem dizia, não devemos no entanto falar sobre a vida dos santos, mas imitá-los. De fato nossa vida seria muito mais frutífera se imitássemos os santos. E a isso é mais valioso do que apenas se deter em enumerar suas qualidades que os distinguem de outros cristãos.

São Francisco viveu buscando ser um outro Cristo... Ah o quão distante disso estamos... Estamos distantes sequer de aspirar a isso. Sequer pensamos em viver como ele, e vemos o exemplo dos Santos apenas como pessoas distantes, que viveram de forma inalcançável. Esquecemos que o santos foram pessoas comuns, dadas aos prazeres como São Francisco, mas que se decidiram pela radicalidade do Evangelho. Não viveram de forma inalcançável, mas antes, viveram como todos deveríamos viver. 

Muitos são os aspectos de sua vida que poderíamos destacar, mas todos mutilariam a totalidade da grandeza desse pequeno homem. São Francisco fora um homem simples, que buscava na simplicidade imitar a Cristo e por isso se tornou grande, amante da Eucaristia, filho predileto de Nossa Senhora, dava especial importância ao mistério da Encarnação de Cristo, enfim, buscou viver a vida cristã em sua totalidade. 

Triste ver o quanto somos cristãos superficiais. Não só negamos nossa vida a Cristo e sua Igreja como longe disso, negamos até mesmo o pouco que nos pede, algumas poucas horas de doação em sua messe. 

Distantes de amar a Eucaristia, a Virgem Maria, amamos aos nossos desejos, amamos as nossas vontades. Quando algo destoa disso nos revoltamos. Vivemos no século do Eu, ignorando portanto com veemência os Conselhos Evangélicos de Pobreza, Castidade e Obediência. O Eu se tornou o centro, enquanto São Francisco colocou Cristo em seu centro.

Quanto mais meditamos sobre sua vida, mais percebemos que tal trabalho é em vão, pois nos distanciamos cada vez mais do mesmo. Antes então de falar sobre sua vida, busquemos imitar aquele que tanto imitou a Cristo.

Celebremos com piedade
Os sinais de santidade,
Que em profusa quantidade, 
São Francisco revelou.

 Quem seguir a nova grei
 Goza os bens da Nova Lei
 E revive o amor do Rei,
 Que Francisco nos legou.

Nova ordem, nova vida,
Para o mundo incompreendida,
Restaurou a Lei querida
Do Evangelho do Senhor.

 A Justiça se reforma, 
 Do Evangelho aceita a forma,
 E revive a nova norma,
 Tempos apostólicos.

Um burel e corda dura,
No vestir-se não se apura;
Para a fome o pão procura;
Do calçado se desfaz.

 A riqueza é desprezada,
 Nem dinheiro, nem morada;
 São Francisco não quer nada;
 A pobreza é seu amor.

Busca o ermo e, comovido,
Chora amargo, até o gemido,
Todo o tempo já perdido, 
Quanto ao mundo consagrou.

 Na montanha, retirado,
 Chora, reza, ao chão prostrado,
 Quando enfim, já serenado,
 Vai a um antro repousar.

Por rochedos protegidos,
Do divino é possuído;
Todo o mundo é preterido
Pelo céu que ele escolheu.

 Freia a carne, quando impura; 
penitência o desfigura;
 Toma alento da Escritura,
 E do mundo se desfaz.

Eis do céu, Varão Hierarca,
Surge o Divinal Monarca!
Treme o Santo Patriarca,
Com pavor, ante a visão!

 Com as chagas adornado,
 As transfere ao Santo amado,
 Que medida consternado,
 Chaga viva se tornou

Num colóquio misterioso,
Vê o futuro radioso,
Desfrutando divo gozo
De celeste inspiração.

 Maravilha! Surgem cravos,
 Fora, negros, dentro flavos.
 Com sinais profundos, cavos,
 Sofre dura, ingente dor.

Não foi arte da natura
Dos seus membros a abertura;
Nem de ferros a tortura,
Que implacável o feriu.

 Pelas chagas que portaste
 E do mundo triunfaste,
 E da carne te livraste,
 Em vitória sem igual:

São Francisco, te imploramos,
Nos perigos te invocamos;
Que no céu, gozar possamos
A celeste glória.

 Ó Pai Santo, Pai bondoso,
 Que teu povo, fiel, piedoso,
 Com teus frades, pleno gozo,
 Tenham juntos lá no céu!

Tenha o céu, eterna sorte,
Quem te segue até à morte.
Dos Menores a coorte,
Possa a glória contemplar!

 Amém.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Busca por algo

Tenho buscado a paz
Uma paz
Uma tranquilidade
Uma razão


Mas não tenho encontrado mais do que apenas um vazio
Um oco
Um buraco escuro
Sem significado

Tenho buscado entender
Compreender
Aprender
Não me iludir

Mas quando fecho os olhos e busco em minha mente
As respostas para as perguntas
Só encontro o silêncio
E uma triste constatação

De estar sozinho
De ser sozinho
De não ter um objetivo
E nem um caminho

E isso me corta a alma
Pois ao menos quando lutava
Ainda que fosse uma batalha perdida
Sentia que tinha um motivo

Uma razão
Um caminho
Ainda que meu objetivo fosse ser morto
Pelo fio da espada do inimigo que eu mesmo criara

Mas não era como se sentir sozinho
Perdido
Não, isto está errado
Era exatamente igual

O inimigo sempre foi o mesmo
Apenas se vestia com uma capa diferente
Antes como uma capa branca e pura
Agora como uma capa escura e vazia

Eu nunca deixei de lutar
De viver na noite escura
Apenas caí
E sonhei com a confusão

Apenas percebi que não sabia o que buscar
Não sabia pelo que lutava
ou com o que sonhava
Ou que caminho trilhava...

domingo, 1 de outubro de 2017

Nossa vontade

Podemos começar a refletir sobre a liturgia deste 26° Domingo do Tempo Comum com a exortação que São Paulo faz em sua carta aos Filipenses:

"Tornai então completa a minha alegria: aspirai à mesma coisa, unidos no mesmo amor; vivei em harmonia, procurando a unidade. Nada façais por competição ou vanglória, mas, com humildade, cada um julgue que o outro é mais importante, e não cuide somente do que é seu, mas também do que é do outro. Tende entre vós o mesmo sentimento que existe em Cristo Jesus." (Fl 2, 2-5)

Temos hoje a infelicidade de viver numa Igreja dividida, partidária. Cada qual vivendo conforme suas próprias opiniões. A Igreja de hoje não é menos cismática que a de seiscentos ou mil anos. Continuamos a mercê de falsas doutrinas e continuamos vivendo conformo aquilo que queremos e não como Jesus nos pede.

A Igreja de hoje ainda não segue o conselho do Apóstolo, mas antes, continua competindo entre si e vangloriando-se daquilo que (mal) faz. Não percebemos que muitas das vezes já abandonamos o Evangelho de Cristo e a Igreja de Cristo para viver apenas conforme nossa própria Igreja. Em nossos corações formulamos nossos próprios ensinamentos e preceitos e seguindo aquilo que queremos e nada mais, acreditamos viver aquilo que Cristo nos ordenou. Nem de longe temos em nós o mesmo sentimento que existe em Cristo. 

Basta um olhar superficial para perceber o quanto estamos divididos, o quanto competimos para descobrir quem está certo, e exigimos ainda o direito de dobrar o outro sob a força de nossa vontade. Vejo hoje a briga horrenda entre progressistas e conservadores; liberais e moderados; tradicionalistas e pentecostais, todos e cada um defendendo com unhas e dentes aquilo que acredita ser a Igreja de Deus, mas ao mesmo tempo em que cada um tem consigo algo de bom perde o essencial: a comunhão com Deus e os irmãos. 

Os tradicionais acusam os pentecostais de serem protestantes, mas ora, se estes discordam de toda e qualquer palavra que não seja exatamente a que eles esperam que seja dita por um papa, padre ou bispo, são tão ou mais protestantes que aqueles que eles acusam. 

Isso porque não querem viver sob a comunhão de uma mesma Igreja, e por isso não lutam pela aceitação, mas lutam pelo puro prazer de verem o sangue daqueles que deles discordam ser derramados. Não desejam a conversão daqueles que não compreendem como eles a beleza da tradição, mas antes desejam que sejam expurgados. Com efeito, a Igreja deixaria de existir no exato momento em que todas as suas vontades fossem atingidas. 

Essa divisão nos entristece, nos mostra o quanto fracos somos e o quanto somos pequenos diante do mundo. É por isso que nós cristãos ainda não dominamos o mundo, pois estamos dispersos, e divididos somos conquistados, ao invés de dividir. 

Vemos a desunião nos levar ao desespero, que por sua vez nos conduz ao abandono da Fé.

“Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vos precedem no Reino de Deus. Porque João veio até vós, num caminho de justiça, e vós não acreditastes nele. Ao contrário, os cobradores de impostos e as prostitutas creram nele. Vós, porém, mesmo vendo isso, não vos arrependestes para crer nele”. (Mt 21 31-32)

Será que de fato cremos no Senhor? Nos arrependemos de nossos pecados verdadeiramente? Ou será que estamos acreditando no deus que criamos, nossa vontade, e nos arrependendo apenas daquelas coisas que queremos? 

A verdadeira conversão exige abandono de si, da própria vontade, é ir trabalhar na vinha do Senhor mesmo quando não queremos, isso é abandonar a si mesmo, arrepender-se verdadeiramente. 

Embora tenha sua celebração precedida pelo Dia do Senhor, hoje ainda é dia de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, virgem e doutora da Igreja, uma dentre os muitos santos que dedicaram suas vidas a esvaziarem-se a si mesmos e conformarem sua vontade a vontade do pai. Exemplo de grandiosa santidade, alcançada por meio da penitência que é abandonar as próprias vontades e curvar-se a vontade do Pai. 

Como são belas aos nossos olhos as vidas daqueles que souberam amar Cristo e aos seus irmãos. O brilho de suas vida aquecem e fazem vibrar nossos corações, e fazem também nos prostrarmos de vergonha, ante tamanha grandiosidade. Nós queremos as flores mas não os espinhos, eles desejam amar os espinhos para não se incomodarem com eles quando vierem as flores... Por isso deveríamos compreender que estes sim são os verdadeiros exemplos a serem seguidos, e a garantia de uma vida espiritual segura, e não a nossa própria consciência, tão curvada pelo peso do pecado. 

Que inspirados por seu testemunho possamos também nós confiar nossas vidas a misericórdia de Deus e cada dia mais buscar o esvaziamento de nós, e viver não conforme dita nossas vontades, de forma dividida e imperfeita, mas antes, buscando a união e a perfeição primeira que é Deus!

Para tanto, unamos-nos ao salmista, que busca fazer a vontade de Deus e digamos:

"Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos, e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus da minha salvação; em vós espero, ó Senhor, todos os dias!" (Sl 24)

sábado, 30 de setembro de 2017

Conclusões de um dia frio

Fim frio do mês de setembro. Não saio de casa há dois dias, e quando saio, é apenas para levar um amigo na parada de ônibus ou dar uma palestra que havia me comprometido há tempos. Não há motivos para sair, não há vontade de sair.

A temperatura caiu nas últimas duas semanas, e os dias tem sido mais agradáveis desde então. Mas ainda assim não tenho vontade de sair. Na verdade quanto mais busco motivos para sair, mais quero ficar aqui, onde tenho o controle, sobre o mundo e sobre mim.

Mas há uma coisa que não há aqui. Um sorriso. Um sorriso especial e aquele sorriso, ah, esse eu nunca verei aqui. Não no meu mar de escuridão, não no meu mundo fechado. Mas não quero sair em busca desse sorriso, afinal sempre que me apaixono por um sorriso ele acaba se tornando uma lembrança, um ruído. 

A temperatura caiu lá fora nas últimas semanas, e a do meu coração também. Não busquei abrigo em quem me ama, mas apenas minha própria alma consolei. O meu próprio coração acariciei. E enquanto todos os outros trombam entre si no mundo, em busca de um não sei quê que tanto buscam, eu busco a paz e o conforto da minha tenra solidão. 

Já não é mais pesada, e nem dolorida, se tornou a minha amiga, e a ela tenho feito companhia. Companhia... Cansei de buscar por companhia, e essa palavra se tornou estranha para. Talvez tenha sido causa de tanta dor e horror ao meu coração que minha mente tenha decidido-se por esquecer-se dela. E que bem o fez... Já não busco por dor, apenas quero bem a mim mesmo, e pelo que vejo, na solidão que o terei...

Abro a janela e deixo o cheiro da terra molhada entrar. Uma brisa fria me acaricia a face e faz o meu cabelo balançar. Não tenho vontade de sair, apenas quero aqui ficar. 

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A brisa a soprar

Hoje eu gostaria de ver-te
E sentir-te em torno a mim
E pôr os meus braços em torno de ti

Ouvir tua voz em meu ouvido
Enquanto sorrio por te ter ali
Com os meus braços em torno de ti

Sentados embaixo de uma árvore, 
O céu a observar
E a leve brisa a soprar

Seu cabelo afagar
Sua mão segurar
E leve brisa a soprar

Adormecer em meus braços
Sonhar em meu colo
E sorrir com meu beijo

Hoje eu gostaria de ver-te
E sentir-te em torno a mim
E pôr os meus braços em torno de ti

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Musica para pessoas com problemas

Decidi ouvir, nessa tarde fria de quarta, um álbum indicado pelo meu ex-namorado, de uma cantora que ele mesmo havia me apresentado tempos atrás, e que gostei bastante. Susanne Sundfør é uma artista norueguesa que eu nunca havia ouvido falar, pois de fato não é muito conhecida no cenário mais óbvio da música, por assim dizer, o que nos mostra duas coisas: Primeiramente que quantidade de vendas e mídias internacionais não é sinônimo de qualidade e que o desconhecido e enevoado é quase sempre mais interessante do aquilo que se revela a luz do sol, justamente por sua beleza misteriosa. 

Seu último álbum, Music For People In Trouble, foi lançado ainda esse ano e nos leva a uma viagem fantástica, completamente diferente das que estamos habituados a fazer com as musicas mais populares... 

Mantra abre o álbum, e começa de forma tão delicada... De fato me recordou aqueles momentos de concentração onde, conduzidos por uma mão somos levados a contemplar uma realidade superior. O instrumental simples fez essa condução enquanto a voz era a realidade. Uma combinação q me recordou as vocalises medievais por conta da combinação voz e instrumento. Também tem uma pitadinha da musica autenticamente italiana, daquelas que se ouve nas sacadas de restaurantes nas manhãs frias do inverno.

Reincarnation se iniciou com um vocal forte, me deu uma sensação de segurança, como alguém q diz 'escute o que te digo', e logo depois se misturou com o instrumental formando uma cornucópia de cores. Nada brilhante, nada forte, mas como se um véu cobrisse algo q estando bem a nossa vista ficasse anuviado. Gosto dessa sensação, é bem propícia a contemplação e poucos são os artistas que conseguem esse efeito. 

Good Luck, Bad Luck é aberta com o próprio título e parece fazer como uma viagem ao passado. Enquanto ouvia, me sentia alguém preso pela fina corda do destino, que mesmo invisível é forte o suficiente para nos prender. A exploração do melisma no fim de algumas frases salientou o sofrimento que é não conseguir romper o ciclo da samsara, do sofrimento. E por fim, na última metade somos levados pelo instrumental a essa realidade meio etérea, em que o claro e o escuro se contrastam.

Estranho o fato de uma faixa chamada The Sound Of War começar com o som da natureza, águas e aves, mas é isso que é a guerra para alguns, algo tão poderoso quanto a própria natureza, que pode ser delicada como uma fonte cristalina que sacia a sede ou letal quanto uma enchente que destrói tudo por onde passa. A guerra é também o fim da alegria, representada pelo canto das aves, e que deixa lugar apenas ao sentimentos de incapacidade, que é o que sentimos na combinação entre os acordes simples e com uma voz profunda em sentimento, sem excessos, comedida, que nos dá a sensação de ainda estar presa pelo medo dos inimigos. A terça parte da faixa é tomada por um crescente suspense, que me recordou a apreensão que diziam sentir os soldados entre uma batalha e outra. Também é como se ouvíssemos aviões a lançarem-se impiedosamente contra seus alvos, culminando num grito de horror. Ela termina resiliente, contemplativa, como dizem que nos sentimos face a face com a morte. É a faixa mais longa do album e a mais complexa até aqui.

A faixa que dá título ao álbum, Music For People In Trouble, se explica sozinha. Seus sons estranhos, tem uma forte influencia daquela criação experimental, que combina sons aparentemente aleatórios, amarrando-os de tal forma que adquiram um significado, este que penso ser pessoal a cada ouvinte. Essa combinação estranha que domina a primeira metade da faixa mostra justamente como nos sentimos quando mergulhados num vórtice de dor e horror. A segunda metade nos entrega aos braços da resiliência, e mostra que os problemas tem um fim, mas não é otimista ou positivista, apenas realista em mostrar que de alguma forma as dificuldades nos tornam mais fortes.

Continuando nossa jornada, Bedtime Story é como se levasse a cama, depois de noites mal dormidas e dores incessantes, e nos dá aquela sensação de alguém que está a "lamber as próprias feridas", em estado de convalescença, ainda não completa, mas iniciando-se. Algumas interferências ao longo da faixa, que parecem destoar do instrumental bem demarcado, principalmente pelo som do clarinete, nos mostra as reminiscências da dor, que não pode ser esquecida completamente, mas amenizada. 

Undercover nos lança numa realidade escura, como se a vida tivesse se tornado cinza e aos poucos fôssemos descobrindo a cor, mas sem nos desprender do cinza. De fato todo o álbum até aqui se mostrou cinza, um tanto quanto sóbrio, mas com uma pitada de carmesim e ébano aqui e ali. Enquanto ouvia a atmosfera se abria a outros matizes, eu vi o ocre, o marfim, o mogno, e fui lançado de volta ao cinza, que por fim se findou e renasceu na faixa seguinte.

No One Believes In Love Anymore nos retoma o cinza etéreo e monocromático. A combinação voz e piano é nostálgica, mas não como quem quer reviver os tempos dourados, mas como alguém que se decidiu a não mais buscar esperanças no amor, de alguém que não mais acredita no amor, como bem diz o próprio título. Outros instrumentos substituem a voz no fim da faixa, mas a atmosfera se mantém, com uma nostalgia crescente, bem característica dos instrumentos de sopro...

A penúltima faixa, The Golden Age, começa com uma narração e depois nos entrega aos braços de um sentimento clássico, como o próprio nome diz, dourado! Há aqui um contraste entre a prata oxidada do instrumental, que me remeteu ao período mais clássico de Mozart ou o mais sério de Haydn, e a voz, que tem uma pitada de romance. Romance esse que é tomado pelo piano, minimalista mas um tanto quanto emotivo, tal qual um Chopin comedido, que flutua entre a sobriedade e a embriaguez. 

Mountaineers conta com a participação de um vocal masculino, que até então apenas tinha aparecido narrando e não cantando em faixas anteriores, e nos leva justamente a uma aura montanhesca, quase monástica. Distante e firme, porém sem desconhecer as desgraças da realidade. Parecemos ouvir um cantor gregoriano que se revoltou e resolveu cantar as misérias da existências, ao invés de declarar as maravilhas da criação. Aos poucos a voz da cantora surge no horizonte, apenas para nos entregar a uma atmosfera ainda mais superior que a da montanha. Como se dissesse "já chegamos até aqui, não paremos, sigamos em frente!" A combinação do vocal coral ao órgão nos leva exatamente ao céu, mais alto do que a montanha, e termina como o mesmo, sem que possamos ver ou entender o seu final. É como um retrato da vida, cujos ensinamentos não nos ofertam uma visão segura do que há de vir, mas apenas nos lança a céus desconhecidos, futuros... 

Chegamos ao fim do álbum com a impressão de uma profunda reflexão sobre a própria existência, mas não com uma conclusão. Afinal a existência, a vida, não nos oferta nada de certo ou definido, mas apenas nos lança sobre uma miríade de possibilidades que, mesmo sendo cinzas, e as vezes nos reduzindo às cinzas, nos ensinam mais do que as cores... 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Sobre sentir

Constatações são sempre um choque. 

Se são percepções boas nos enchemos de júbilo e começamos a desejar que elas permaneçam para sempre. Mas e quando são percepções ruins? Quando percebemos que não somos importantes àqueles que amamos, o que sentimos?

Não sei se sinto tristeza, por ter desejado estar presente naquele coração. Não sei se sinto raiva, por ter me dedicado tanto a alguém que não se importava se ficaria com ela ou não.Não sei se sinto arrependimento, por ter deixado a tantas outras pessoas por conta de apenas uma.

Não sei se sinto. 

Não sei o que sinto.

Sei que quando vejo aqueles olhos brilhantes, e aquele sorriso aberto, eu sinto amor, e meu coração bate mais forte, meu corpo estremece...

Não sei se sinto amor, pois não é como se aquele sentimento fosse construído sobre algo vivido entre nós. Não sei se sinto apenas admiração, pois os outros não despertam em mim as reações que ele desperta. Não sei se sinto apenas um desejo, pois seu corpo não é uma rosa que quero desfolhar, mas um cálice do qual quero beber.

Não sei se sinto.

Não sei o que sinto.  

Apenas sinto.

domingo, 24 de setembro de 2017

Aprendendo aos poucos

Tenho buscado momentos sozinho, desde que comecei a perceber o quanto ficar próximo aos outros é perigoso. Ao menos pra mim...

Sempre que me aproximo demais de alguém me vejo preso a essa pessoa depois de um tempo, um tempo breve. E quando isso acontece meu desapego não vem senão depois de muitas lágrimas e decepções, quando meu coração já não aguenta mais sofrer, e derrotado e vulnerável se vê aos pés de um outro alguém. 

É um ciclo vicioso, permanente, que até hoje não consegui quebrar. É como uma maldição, eternamente preso por grossas e pesadas correntes invisíveis que me ligam a pessoas completamente estranhas. Pessoas que se aproximaram sem querer, que não tinham a intenção de ficar, mas que em minha mente acreditei que ficariam, que seriam eternas. 

Tem algo em mim que me faz querer sempre acreditar que vai durar, que tal pessoa será diferente... Mas começo a ver que o problema não está nos outros, mas em mim, que cobro demais, que busco demais, que procuro demais, e que me fiz crer que não há como viver sem alguém ao meu lado. 

Mas todo esse tempo eu tenho vivido sozinho, então há sim como viver dessa forma, restando a mim buscar uma forma de ser feliz assim. 

Por isso tenho buscado esses momentos sozinho, para aprender a apreciar a solidão, esta que durante tanto tempo tem sido minha única companheira inseparável, e que assistiu ao enterro de todas as minhas quimeras, de todos os monstros que eu próprio criei para que me caçassem e me matassem, aos poucos, devorando-me a vontade de viver. 

Desde então tenho passado por dias tranquilos, alguns em que abracei o calor do sol, mas outro tem sido terríveis, e chorei ao ver a lua, pensando nos mil motivos que fizeram aquelas pessoas partirem. Espero que de agora em diante seja mais fácil, e que esses dias se tornam mais parcos... Espero não pensar demais em quem se foi, e isso significa de fato abandonar algumas pessoas, que ainda me fazem sofrer, pois só assim conseguirei viver sozinho, sem depender de que alguém fique, contra sua vontade...