sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Sem grilhões

Não me ponha amarras
Não me prenda a grilhões
Não acorrente-me a suas colunas na escuridão

Não me deixe longe da luz do sol e da harmonia das minhas cores
Não teça para mim uma camisa de força
Me me meça segundo os seus medos e apreensões

Que me impeça de dançar
De levantar os meus braços aos ceús
Que me impeça de simplesmente existir como sou

Não suporto ser comedido
Amarrado
Anuviado

Não aguento ser o que não sou
Não sei ser o que não sou
Minha existência se define pelo que sou

Não me ponha amarras
Não me prenda a grilhões
Não acorrente-me a suas colunas na escuridão

Uma noite difícil

Não consegui terminar o Epistolário Teresiano, demasiado enfadonho pra entender. Mas queria tê-lo em minha lista de feitos. Ao que parece não fui feito pra compreender a mística como gostaria. Não sou místico. 

São João se envergonha de mim. 

Não consegui começar a estudar o Denzinger, o tamanho da doutrina sem embasamento não me permite prosseguir. Preciso de uma faculdade de teologia. Mas preciso antes terminar a filosofia. Também quero retomar os estudos históricos, mas é muita coisa pra conseguir assimilar. Não dou conta de tudo....

Não consegui entender a teoria contratualista de Rousseau. 

Cansado demais pra prosseguir.

Não deveria ser assim.

Era pra ser mais fácil. 

Eu devia ser um intelectual. 

Um intelectual é a única coisa que quero ser, e nem isso sou capaz de fazer. 

Não sou intelectual, apenas pedante e decorativo. 

Não sou intelectual, nem tampouco consigo uma vida social decente. Meus amigos me esqueceram ou eu os esqueci. Meus amantes me largaram porque perceberam que podem encontrar coisa melhor que eu.

No fundo não passo de um fracassado, em todos os sentidos. Intelectual, social, emocional

Essa constatação me corta, me desespera, me faz querer gritar.

Eu vou chorar.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Portais

Fechei os olhos por alguns instantes, enquanto me concentrava nas palavras metálicas do sacerdote que, do ambão, proferia seu sermão no dia de Santa Luzia. Por alguns instantes vislumbrei alguns dos cristãos que foram brutalmente martirizados em nome de sua fé pelo império romano, e que incluíam a jovem Luzia, morta a época do Imperador Diocleciano. 

Talvez como que numa relação de magnetismo o meu centro de equilíbrio foi balançado, e senti que próximo a mim uma força se aproximara. Silenciosa, quase imperceptível, possivelmente invisível aos olhos de todos os outros, materializou-se um ser de luz. 

Okay, admito que nada se materializou de verdade, isso foi só a minha veia poética dizendo que alguém se aproximou de mim. Mas mesmo sentando há alguns poucos metros de distância eu podia sentir a sua presença, tão forte e esmagadora como se me pressionasse contra o chão com o peso de dezenas de toneladas.

Ao término da Divina Liturgia, fui interpolado pelo seu olhar divino, hipnotizado por aqueles portais para um paraíso azul, onde o frio e o calor de uma personalidade dúbia se mesclam numa dicotomia única nesse mundo. 

O demiurgo riu-se de mim naquele momento, em que sua criação mais perfeita foi posta ante sua mais deformada, e o disparate que cruzou meu pensamento num lampejo de esperança infundada lho deu um prazer doce como mel. 

Em mim, por outro lado, o sabor deixado foi o azedo, causado pela distância que no instante seguinte se instaurou entre nós. 

Divertiu-se com minha expressão lânguida e escura? Meu horror em constatar o óbvio lhe causou prazer, oh temível senhor da fortuna? Espero que minha carne em chamas tenha lhe dado a alegria que buscavas em plasmar tão grandioso teatro, apenas na intenção de me matar...

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O não querer

Não quero escrever sobre você. Isso porquê não quero pensar em você. 

Não quero fechar os olhos e ver sua imagem estampada em minha mente, como um fantasma de minha consciência. 

Não quero me deitar e ouvir sua voz a sorrir, ou a dizer-me coisas ruins, não quero te ouvir. 

Não quero adormecer e sonhar com você, seja andando a meu lado como antes ou me dizendo as coisas horríveis que me disse. 

Não quero imaginar o seu toque em minha pela, despertando em mim os sentimentos que sempre despertou. 

Não quero sonhar com você, pensar em você, recordar-me de você. 

Não quero chorar.

Por você. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Fragmentos

Muitas vezes já tratei da forma como, a medida em que passa o tempo, modificamos nossa forma de ver o mundo e encarar a vida e seus problemas. Surpreendo-me ao olhar no espelho e muitas vezes não reconhecer a figura que nele vejo refletida.

Como podemos mudar tanto em tão pouco tempo? Como algo que nos proporcionava tão doces e deleitosos sorrisos pode ser agora razão de asco e repulsa? O poeta tinha razão em afirmar que a mão que um dia nos afagou é a mesma que um dia há de nos apedrejar. 

O amigo que um dia jurou fidelidade e gratidão no momento de sua aflição foi o primeiro a dar as costas quando não mais precisava do outro. As vezes algo se quebra, e por mais que se tente consertar, dificilmente será como era antes. A amizade é como um cristal fino, não pode ser restaurada. Sinto como se tivesse sido partido em mil pedaços, mas não por um amante, mas por um amado em quem depositei a minha confiança, e que, quando não mais precisava de mim, apenas deu-me as costas e partiu para terras distantes. 

Como o poeta também lançarei pedras as mãos que me afagam, e não aguardarei pelo momento do escarro da boca que me beija. 

A solidão do homem não é senão um trágico destino, mas se encontra impressa desde a epigênese em seu âmago: o homem nasceu para viver só, e morrerá só, apenas desejando para si uma companhia real. E o último vislumbre dessa vida, em seu leito de morte, quando o manto negro se estender por sobre sua vista, será o do rosto do destino, contorcido de prazer, ao ver o resultado de toda uma vida de tortura. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

O que se esconde no olhar

A multidão é uma ilusão. Ilusão que nos leva a crer estarmos rodeados de pessoas, quando na verdade estamos todos, e cada um de nós, completa e absolutamente isolados numa realidade mental tão particular e tão pessoal que é praticamente impossível estar em companhia de outra pessoa, não importa quem seja.

O outro não é capaz de ver o que se passa em nosso coração, ainda que o digamos, e nós também não o somos. Vemos uma pessoa na rua, as vezes ganhamos dela um sorriso, um cumprimento, ou até mesmo um abraço atrapalhado. 

Podemos considerar essas ações das mais diversas formas possíveis. Como um simples gesto de educação, o que geralmente é, ou um ato de carinho e consideração, o que geralmente penso que é. Mas no momento daquele sorriso, daquele abraço, não podemos saber o que se passa nele naquele momento, nem podemos esperar que ele compreenda as explosões que no nosso íntimo se dão.

Assim foi um abraço que ganhei hoje. Que numa fração de segundo despertou em mim poderosas explosões, mas que no plano exterior não passou de um mero cumprimento formal. O mundo seguiu girando normalmente depois disso, embora o eixo de minha órbita tenha sido completamente deslocado. 

Gostaria de naquele momento ter compreendido o sentimento dele por mim, se é que havia algum. O que será que ele pensou, no breve momento em que meus braços o envolveram? Ou quando meus olhos fitaram seu doce olhar cor de esmeralda? O que se passava em sua mente? Um conhecido fugaz? Quem sabe uma paixão escondida por detrás daquele olhar?

Fio

O dia se encontrou imerso na mais absoluta escuridão. O Sol me machuca, e a negritude solitária se mostrou mais reconfortante e segura que a claridade mundana. 

A escuridão provocou em mim a impressão de que o tempo parara, e que ali poderia ficar eternamente. Mas não poderia. Logo a realidade irrompeu por entre os umbrais de minha introspecção, e com golpes poderosos derrubou as minhas barreiras, expondo ao mundo as minhas fraquezas. 

A exposição dessas fraquezas nos refletir quais os nossos limites. Até onde devemos, e podemos, ir? Como melhorar o nosso relacionamento com o outro, com Deus, se parece que já atingimos nosso limite, se parece que não podemos mais melhorar?

O silêncio é o fio condutor do grito de desespero que a falta de resposta provoca em nós. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Monstros e rodas: Retrospectiva 2017

Com o fim do ano se aproximando o pensamento retrospectivo é quase inevitável. Seja motivado pelas listas com propostas de mudanças e transformações ou pelas retrospectivas propriamente ditas, é inegável que dezembro traga consigo uma aura nostálgica, que tende a nos fazer refletir, e inteligir o que se passou, o que fizemos e deixamos de fazer.

Não pretendo olhar o post do ano passado que escrevi sobre isso para não me deprimir ao ver que não cumpri as metas que estabeleci, se é que o fiz, mas mais uma vez buscarei pensar no que seu durante esse ano, e no que está dentro da possibilidade de mudança.

Recordo que 2016 foi um ano de terríveis decepções, onde mergulhei na mais profunda angústia, e ainda em boa parte de 2017 foi assim. Mas esse ano aprendi a viver com a dor, e sorrir apesar da dor, o que considero ser um sinal de amadurecimento, ou desespero.

Esse ano eu compreendi, ou ao menos comecei a fazê-lo, que não é necessário nada que venha do outro para me fazer feliz, e que a expectativa é mãe da decepção, e sua única causa e razão. Aprendi que ajuda pode vir de onde menos esperamos, e que a traição pode vir da mesma mão que um dia nos ergueu do chão, do lamaçal, de nosso abismo interior.

Quanto a isso, me vi completamente entregue a uma nova amizade, não necessariamente nova mas cuja real aproximação só se deu esse ano, e que contribuiu para que eu encontrasse uma centelha de esperança na vida. Amizade essa que meses mais tarde se provou completamente desequilibrada e perigosa.

Talvez a minha maior, ou a única, conquista tenha sido a percepção. Percebi que nem todos querem, ou são capazes, de ajudar. Percebi que algumas coisas são passageiras, e que essa característica delas não diminui a sua importância, mas apenas não foram feitas para durarem eternamente. Aceitar isso é um passo rumo a felicidade, ou ao menos rumo a paz interior.

Ah... Paz interior! O quanto lutei para alcançá-la e, ainda que de modo imperfeito, penso já conseguir vislumbrar ao menos sua silhueta no horizonte do amadurecimento.

Percebi que o mais doce olhar de carinho e ternura pode se transformar em ódio e desprezo, e percebi que pessoas geralmente boas podem revelar-se tão cruéis quanto os assassinos das grandes histórias macabras que assustam o imaginário do povo. O monstro pode, e quase sempre o faz, se disfarçar de homem, e sendo homem doce nos leva a uma morte amarga. O mesmo monstro que nos mata pode habitar também em nós. E percebi que também sou capaz do mal.

Talvez o monstro seja a figura que melhor defina esse ano, ao lado da roda da fortuna, muito embora sobre essa última eu pouco tenha falado, mas ao mesmo tempo ela esteve presente e se fez em cada um dos dias que vivi.

O monstro simboliza o homem bom, que esconde dentro de si uma vontade maligna e um descontrole total. Descontrole que, admito, me possuiu por grande parte do tempo, resultado das muitas tentativas de me encontrar em meio ao caos. Mas o caos não pode ser organizado, e nós somos o caos.

Mais uma vez os benzodiazepínicos se mostraram a melhor companhia, e talvez a única a não decepcionar. Infelizmente não posso dar a eles o destaque que merecem, afinal, pra isso deveria andar com uma camiseta a todo tempo dizendo que só sobrevivi graças ao Rivotril e o Lexotan (sem esquecer o Diazepan).

Pois bem, o ano que se passou foi difícil, marcado pela superação. Foi um ano de monstros, altos e baixos, lágrimas e sorrisos. Foi um ano vivido, no sentido total da palavra!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A altivez em meio as chamas

A inspiração surge como uma doce melodia, que nas teclas de um piano é capaz de contar as intempéries sofridas por uma alma atormentada pelos fantasmas do próprio passado, que ao seu ouvido murmuram palavras macabras de desdém, e que como vermes a comerem a carne putrefata de um cadáver, devoram as entranhas de um coração que há muito busca na vida uma razão para continuar a existir, ou para finalmente dar cabo de sua existência miserável.

Na mente contrasta com o coração a bela imagem de um ser alado, quase seráfico, a orbitar por sobre as cabeças de um pobre miserável. A visão daquele anjo superior lhe perturba a alma tal qual um exército inimigo perturba uma nação dada sua supremacia beligerante. Um anjo alto lhe circunda a alcova, com uma luz divinal a lhe cobrir o corpo. Sua imagem alva contrasta com o azul nebuloso da noite adornada por uma miríade incontável de corpos celestes que, no entanto, não conseguem brilhar tanto como aquela figura que na noite escura se plasma.

O homem na noite escura busca aquele por quem sua alma clama, e ama sonhar com sua figura idílica. Na noite escura ele busca por quem sua alma alma, e o amando por ele a clama. 

Aquela figura se destaca não só pelo seu brilho, mas pela perfeição de sua forma. Nem mesmo as rosas possuem tão delicada beleza, e nem milhares de seus espinhos poderiam se comparar a altivez que sua presença transmitia. Tal como um trigal iluminado pelo sol radiante seu olhar aquecia o mundo, e parecia mergulhar a totalidade da existência num abismo de gelo caso se retirasse dali.

Em sua mão segurava uma espada que, embora coberta pela bainha, deixava desprender de si poderosas chamas, que abrasavam a terra e transformavam aquilo em que tocavam em cinzas. Poderia reduzir o universo às cinzas se quisesse, e como naquele dia de ira o mundo seria envolto em cinza fria. 

Mas aquela visão não era apenas uma mera visão, e aquelas chamas provavam isso, ao passo que não passava de uma visão, e da mesma forma como apareceu, desapareceu, deixando o coração do homem mergulhado no mais absoluto terror, e horror, pela perda de tão grande ser que um dia o visitou. 

Dor e prazer

Sabe, estou começando a me habituar com as idas e vindas da minha existência. Percebendo, aos poucos, que os dias que passam se assemelham mais com uma roda gigante, uma roda da fortuna, que as vezes se encontra no topo, e outras vezes desce violenta e abruptamente. 

A fortuna, como já disse várias vezes, é mutável, e essa é a sua essência. Ela é como a lua, usando o exemplo dos Carmina Burana, sempre mutável, as vezes crescente, as vezes diminuta. Não há como controlar a sorte, ela é uma força da natureza, e contra uma força da natureza não se luta, apenas se sobrevive!

Nos surpreendemos com a maldade que as mãos do destino podem plasmar em nossas vidas, nos desesperamos com a dor e o horror que ante nossos olhos se mostram. Mas também nos deleitamos com as doçuras que a vida nos dá, com as alegrias e prazeres que enebriam nossos sentidos. A dor e a luxúria se mostram então nos opostos da roda da fortuna. 

É a dicotomia entre dor e prazer que move o mundo. O homem busca fugir da dor e se deleitar no prazer, enquanto causa dor ao outro e lhe rouba seu prazer. Essa é a causa e a razão de todas as guerras e conflitos no mundo, desde a mais ínfima discussão entre parceiros até os mais devastadores conflitos bélicos. A dor e o prazer regem o mundo, são eles os deuses ao redor dos quais gravitam nossas vidas inúteis e ínfimas. A dor e o prazer dominam nossas vidas, e pensamos lutar por eles, e a eles conquistar, quando na verdade apenas damos voltas nas palmas das mãos do destino. 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Dor e alegria

Hoje, especialmente, compreendo as palavras de Santa Teresinha que um dia afirmou que alegria e dor viviam juntas em sua alma. 

Acredito que ela tenha se referido a essa mescla de sentidos que, sendo dolorosos, não tiram do outro sua força e beleza. A alegria não é ofuscada pela dor, e nem tampouco a dor diminui pela alegria. Ambas coexistem, coabitam, dividindo a alma em duas, mas ambas inseridas igualmente na totalidade do ser. 

Aquele que conseguisse expandir-se e abarcar a totalidade da existência com seu ser, abarcaria o mundo inteiro com sua dor e sua alegria. Ambas habitariam no mundo como na alma habitam. Mas ora, já é assim que as coisas são? Uma percepção básica da realidade já não é capaz de bem demonstrar a dicotomia entre dor e alegria, bem e mal, que existem no mundo? 

Isso não é, no entanto, uma afirmação maniqueísta da coisa. Não, isso não significa dizer que tudo se resume entre a dor e a alegria, o preto e o branco, mas dizer que ambas as cores se misturam em diversas formas, dando ao mundo um espectro cinza. O mundo não é dor ou alegria, mas dor e alegria, em diversas proporções. 

Como diz a música, após a dor vem a alegria, e depois mais dor, e mais alegria, e assim segue a sinfonia da vida, cantando vitórias e derrotas numa profusão melódica única, incomparável e poderosa demais para se escapar dela, e assim romper o ciclo. 

domingo, 3 de dezembro de 2017

Queda

Como descrever as horas que transcorreram no último dia? Como cantar ou poetizar o declínio  voraz que minha alegria experimentou, caindo do mais alto posto ao mais imundo dos lamaçais? Como dizer o quão grandiosa foi a derrota após uma pequena vitória, capaz de dar uma singela alegria a minha alma maldita?

Ó, como caíram os grandiosos, e como tornam a cair os que nem sequer são tão grandes assim. Como quisera poder descrever a doçura daquele olhar, e a paz que trouxe a minha alma naquele momento. Como quisera tornar aquele breve instante num infinito. Como quisera viver ali eternamente, sem precisar encarar os olhares de todos os outros. Habitando para sempre no âmago do seu ser, não  apenas nascido ser, mas tornado nós. 

A alegria daquele momento ínfimo foi tão fugaz quanto o próprio momento. Antes mesmo que pudesse me deleitar naquela idílica lembrança uma notícia me cobriu como ácido, e derreteu os meus circuitos responsáveis pela minha parca sanidade, tão dolorosamente construída nos últimos meses, mas de forma tão frágil que permitiu-se ser abalada. 

Talvez seja esta mais uma brincadeira do destino, que diverte-se vendo-me dançar em sua mão como um macaco. Talvez seja um sinal de que, de uma vez por todas, deva parar de crer que a felicidade é possível para todos. Talvez deva crer que algumas pessoas foram apenas criadas para sofrer, enquanto observam a felicidade dos outros, sob às custas de suas próprias lágrimas.

Percebo que são minhas lágrimas a regar a felicidade dos outros, e é as custas de meu sangue que seus sonhos são realizados.

A desesperança aos poucos toma conta do meu ser, em contrapartida as palavras do sacerdote cuja homilia ouvi enquanto contemplava a doce face de um anjo, o meu anjo, que nunca chegou a ser meu. 

Clamor

Ontem, enquanto cantava, subitamente me veio uma sensação de vazio em meus braços. Como era de se esperar era o vazio que seu corpo deixou em mim. Era ali, onde meus braços se acostumaram a serem pressionados, que ficava seu corpo, repousando delicado em meu colo. 

Meus braços doeram, pois o peso havia se esvaído. Se foi como fumaça por entre meus dedos, como uma música sumindo, diminuindo, até não estar mais ali. 

Minha voz se calou, e meu coração chorou. Algumas lágrimas teriam caído, mas não consegui sequer chorar de verdade, tamanha tristeza que aquela constatação me provocou. Naquela hora me tornei vulnerável, e meu mundo caiu, mais uma vez. 

Não há mais nada a se dizer. Não há uma conclusão, um aprendizado ou lição. Apenas a fria constatação de que, desde que você se foi, em mim restou apenas um grande vazio, e nesse vazio me angustio e clamo por você... 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Permissão

Me deixe cuidar de você
Segurar sua mão
Deixe guiar sua visão

Me deixe ser o seu homem
Seu amigo
Seu porto seguro

Me deixe ficar ao seu lado
Chore em meu ombro
Durma em meu colo

Me deixe afagar seu cabelo
Enquanto a meia brisa amena
Afaga nossos corações

Me deixe caminhar como você
Sem estar sempre um passo atrás
Sem me achar indigno de sua amizade ou seu amor

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Fração

Tu também não me vês como me vejo. Para você não sou mais do que um livro a ser consultado, seja quando precisa de uma referência ou quando deseja partilhar suas reflexões. Enxergas meu intelecto mas não a pessoa que por detrás dele se esconde. 

Você fala de máscaras, felicidade, liberdade, mas para me relacionar com você não enxergas mais do que uma pesada máscara que nunca ergui para ti. Não me enxergas como sou, mas como um ser distante e frio, que na verdade é uma projeção de si mesmo em mim. Pensas em mim como alguém sempre disposto a ensinar e a aprender mas nunca como alguém capaz de amar. De fato tua visão de mim destoa de tal forma de quem sou realmente que facilmente poderia dizer-se que trata-se de duas pessoas distintas...

Quem sou eu para você? Algum dia conseguirás me ver como o homem que quero ser para você? Algum dia me verás como quem sou e não apenas uma fração de mim?

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

(In)Percepção da (Tua) Realidade

Você não vê a si mesmo como eu vejo, não é? Não vê a si mesmo como eu vejo por não querer ou por ser incapaz de o fazê-lo? Acho que não é capaz de ver-se como o vejo ainda que quisesse, e não o quer. Não deseja ver-se como todos o veem. E isso é triste, uma triste verdade.

O que você vê quando se olha no espelho? Certamente não vês o mesmo que eu ao olhar a tua imagem, seja numa fotografia ou quando se apresenta pessoalmente a minha frente... É certo que tu não te enxergas como eu o enxergo por encontrar-se demasiado cego, por uma nuvem inumerável de fatores que deturpam o idílico quadro que és tu numa horrenda vista do inferno. 

É como se o mais infeliz dos homens, tendo diante de si o paraíso, só conseguisse enxergar o vermelho e o sangue do inferno, sendo incapaz de contemplar a maravilha da criação que diante de ti se desfralda como uma Avalon de deleites. 

Tu não te enxergas como o deus que és mas, ao contrário, como o demônio que não és, e mesmo que dentro de ti haja algo de demônio, não és demônio por completo, senão que não consegue separar a visão que deveria ter de ti, tua figura real, da figura pessimista que teu destino lhe fez crer ser a real. 

É de fato uma pena, e uma grande infelicidade, que tu, detentor de tão grande beleza, se veja de forma tão medíocre e que diminuas a sua infinita grandeza, numa medíocre e ínfima oposição da realeza... 

domingo, 26 de novembro de 2017

Paixão de verão

O que nos leva a dizer "Eu te amo" para outra pessoa? Como podemos saber se estamos amando? Como saber não ser algo passageiro como uma "paixão de estação"?

Amar é algo demasiado complexo para se definir em poucas palavras sem cair num pedantismo ou numa simples apreensão incorreta. Isso porque amar é mais do que pode ser definido numa meia dúzia de palavras, ou em livros inteiros, que mesmo descrevendo de forma bela ainda não é capaz de abarcar o que de fato significa amar. 

De qualquer forma, mesmo sem saber o que de fato é amar, continuamos dizendo "Eu te amo". Alguns com mais frequência que outros, claro, mas é quase certo que todos já pensaram amar e logo descobriram que se tratava de uma ilusão, uma deficiência de percepção. 

Infelizmente as definições esvaziaram o verdadeiro significado do amor, que precisa ser vivido para depois ser definido e compreendido. Isso já nos mostra um indício para responder a nossa primeira pergunta: O que nos leva a dizer "Eu te amo"?

Dizemos porque não conseguimos nos expressar de forma correta, e imprecisão de nossos sentimentos se une a imprecisão de nossa linguagem, resultando em "amores" vazios. Dizemos amar sem saber que na verdade admiramos, e é bom admirar, mas admirar não é amar. Então quando nos relacionamos com alguém que desperta em nós essa admiração, seja por suas qualidades ou virtudes, dizemos que a amamos, quando na verdade queremos, e deveríamos, dizer que admiramos. Amar implica admiração, mas não se resume a isso.

Dizemos amar sem saber que na verdade desejamos, e é bom desejar, mas desejar não é amar. Nossa carência nos faz desejar, o vazio no âmago de nossa existência nos faz desejar algo que constantemente preencha o vácuo que constantemente nos magoa, e então o desespero em preencher o vazio se torna para nós uma cegueira. É comum ver, geralmente após uma decepção, que esse pode ser um erro fatal. 

O desejo que vem do amor não busca apenas a saciedade dos próprios apetites, mas transcende o Eu e desemboca numa busca pelo outro, não por necessidade, mas por algo ainda maior. Amar implica desejar, mas não se resume a isso, nem tampouco significa desejar da forma como fazemos.

Dizemos amar sem saber que na verdade gostamos. Gostamos da companhia, dos risos, dos carinhos, da atenção, mas nem sempre amamos, ainda que a pessoa nos proporcione tudo isso. Obviamente amar implica gostar, mas também transcende este.

Isso porque amar é transcendental. Amar significa admirar, desejar, gostar e ao mesmo tempo é mais do que tudo isso! 

A cegueira de que falei anteriormente nos faz macular até mesmo as mais belas admirações. Nos faz desperdiçar os momentos de prazer de nossos desejos. E quando vemos amor onde não há, e nos decepcionamos, acabamos por acusá-lo de não existir.

A admiração pode cessar, o desejo ser saciado, podemos deixar de gostar, e assim se caracterizam os nossos amores de verão. Vem, nos encantam por uma estação, como o sol encanta com seu brilho, mas quando dá lugar ao verão, percebemos que não era aquilo que pensávamos ser. 

Mesmo depois do que foi dito ainda continua difícil definir o que é o amor. Bom, para aqueles que querem apenas uma definição, que se satisfaçam com a do dicionário.

Ainda continuamos a dizer "Eu te amo", mas infelizmente esvaziando o seu significado ao confundir com outras coisas. Isso porque o amor, ao invés de definido, precisa ser vivido. E sim, isso pode ser uma desculpa de alguém que não amou para não defini-lo, mas ainda creio que, quando vivido, e demonstrado, o amor se faz entender, e é dito de vários modos, como o ser.

Não dizemos a todo momento "Eu sou assim" ou "Eu sou daquele jeito" mas apenas somos, e o amor não se diz, muito embora possa e deva ser dito por quem ama, mas também não se resume e nem cabe apenas em palavras. Continuamos dizendo "Eu te amo" porque não sabemos expressar de outra forma o que é o amor. 

sábado, 25 de novembro de 2017

Conquistas

Dia de conquistas, embora cansativas... Mas sim, como há muito já não sentia eu me vi contente comigo mesmo e com meu desempenho. Sensação estranha, na verdade, que se opõe ao sentimento de fracasso extremo e absoluto que normalmente ocupa minha mente.

Pela manhã apresentei o TCC de minha última pós-graduação, em Filosofia e Ensino de Filosofia, com o tema "A Insuficiência da Linguagem na Transmissão do Conhecimento sob a ótica do De Magistro de Santo Agostinho" e meu desempenho foi nada menos do impecável, aprovado mais uma vez com nota máxima. 

Me senti satisfeito por conseguir terminar bem algo que gostei tanto de fazer, de fato a Filosofia me mostrou um mundo novo, e vem me ensinando uma nova forma de pensar, e a cada dia é como se me afastasse um pouco mais da escuridão da caverna de minha ignorância. 

O resto do dia foi dedicado a organização dos últimos preparativos para a Primeira Comunhão amanhã, na paróquia onde agora atuo, na Solenidade de Cristo Rei. Foram horas dedicadas a arranjos de flores, livretos para Missa e listas infindáveis de catequizandos. 

O resultado foi primoroso, a beleza da Igreja deve refletir a alegria das crianças que amanhã, pela primeira vez, receberão Jesus sacramentado. Sinto contente por ter contribuído com isso, ainda que tenha sido só um pouquinho.

No mais, agora aqui deitado, fazendo uma recapitulação deste dia, as minhas pernas doem, e sinto-me feliz por isso, sinal de que meu esforço foi empregado em algo que amo. Vale a pena, doar-se assim, dedicar-se assim, ao menos em razão daquilo que se acredita e ama...

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Para fazer história

Nós nascemos para fazer história
É o que dizem

Mas e se não quiser fazer história?
Se quiser justamente fugir e não fazer parte de nenhuma história?

Se todas as histórias apenas lhe ensinaram o quão vazias e más são as pessoas
E quão vazia e má pode ser sua própria essência

Se em si não há desejos nobres
Ou curiosidades intelectuais

Mas apenas a bestial vontade luxuriosa
De desfazer-se em um oceano de gemidos

Se sua vontade mais íntima é expandir o seu ser
E cobrir consigo a totalidade da existência

Preenchendo assim o vazio no âmago de seu pensamento
E deixando de existir para tornar-se pensamento

Não mais como um
Mas como todo

E sendo todo
Não mais sentiria como um

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Eu quero segurar sua mão...

Como lidar quando todos os problemas de um mundo que não é o meu caem por sobre os meus ombros? Como dizer "esse problema não é meu" e deixar aqueles que amo sentirem sobre si mais dor do que são capazes de suportar? Como me preocupar apenas com meus problemas, meus amores, meus dilemas, quando o outro enfrenta dores ainda maiores e que não foram causadas por eles mesmos?

Tenho dificuldade em lidar com a profusão de problemas que recaem de uma só vez sobre meu psicológico que, historicamente falando, não é lá dos mais equilibrados. É a reta final da faculdade se aproximando, com todas as implicações que isso posa trazer, seja a revisão da matéria complexa que certamente será cobrada ou a pressão na apresentação do TCC. Normalmente isso não seria suficiente para me incomodar, mas o problema é que não acaba aí.

Há ainda a pressão de ser o melhor que eu possa ser para os meus pais, que na atual situação complicada em que minha irmã nos colocou, praticamente se faz obrigatório ser o exemplo de maturidade e responsabilidade, ainda que minha vontade seja de apenas dormir e ouvir musica, sem ter de pensar em nada mais.

Outros ainda depositam confiança demais em mim, e sinto que o menor deslize pode decepcionar um grande número de pessoas. Não gosto de ser decepção. Gostaria que as pessoas compreendessem a minha vontade de ajudar, de fazer, de ser melhor... Mas quase nunca consigo ser melhor, antes, sou sempre um dos piores. 

Outros, por sua vez, nem sequer pediram minha ajuda, mas o simples fato de estarem mal e próximos a mim faz com que me sinta atingido. Como se seus problemas fossem contagiosos a menor proximidade. Como seu fosse uma esponja que sugasse para meu âmago as dificuldades daqueles me cercam, e sofresse em seu lugar. Mas é demais para mim, e as vezes, quase sempre, penso que não conseguirei suportar... 

Por fim há aquele que já não mais me deixa, a dor que eu mesmo busco causar em mim, como se constantemente cortasse com uma lâmina em chamas o meu próprio coração. Neste ponto eu apenas me torno carente, triste, e me ponho a pensar em alguém ao meu lado, com óbvias sugestões mentais que nem sequer por um momento escapam minha mente distorcida... Me ponho a desejar uma âncora, não que me levasse para baixo, mas que não permitisse que eu fosse levado para longe com os ventos frios que me atingem...

Oh, please, say to me
You'll let me be your man
And, please, say to me
You'll let me hold your hand
Now let me hold your hand
I wanna hold your hand... 

(I wanna hold your hand - The Beatles)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Anjo de luz

Hoje foi dia de pensar num tempo difícil, de recordar palavras não ditas e palavras malditas... 

De recordar um anjo dourado, que veio, me aqueceu com suas longas asas e depois voou para longe de mim, fazendo com meus olhos lacrimejassem ao fitarem o sol onde findou sua cerviz de luz. 

Sumindo na mesma luz que um dia me envolvera. 

Aquela luz não mais me aquecia, e parecia que ao longe se escondia, e mesmo ainda brilhando não mais brilhava. Aos poucos se apagava, se acinzentava, se esfriava. Até desaparecer totalmente após o horizonte, e um vento forte soprar o frio por sobre a minha pele. 

O calor que ainda restava em mim se foi. 

Restou apenas a frialdade, que combinava com a torrente que despencava sobre minha cabeça, maltratando-me o corpo e com a frialdade da terra, que pôs-se a clamar com os vermes imundos de seu interior pelos meus olhos, jurando deixar-me apenas os cabelos e a promessa de eternidade que se fora com o vento e o sol.

Minha carne putrefata se desfez em meio aquelas moradas, e dela vê-se apenas uma pequena medalha, marcada, ali deixada como sinal perpétuo de um pra sempre que se foi com o sol que se pôs. 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Impressionismo

O que dizer sobre os últimos dias? Aprendizado. Raiva. Algumas lições. Solidão. Companheirismo. Descobrimento. Redescobrimento. Alegria. Paz. Mais raiva. Impressões, muitas, muitas impressões.

Tentei pensar em como poderia dizer tudo o que senti. Um texto em prosa seria demasiado longo e cansativo, tanto para ser escrito quanto para ser lido; uma poesia careceria de profundidade e de um vocabulário que não domino. Não acredito, no entanto, que domine outra forma de escrita senão a minha já familiar tempestade cerebral, quase sempre sem sentido, mas profundamente libertadora...

Essas são então as palavras que resumem o que senti nos últimos dias. Descrever como senti cada uma delas seria custoso demais, e não creio eu estar num bom momento para tal empreitada. Apenas estou a escrever por sentir necessidade de dizer algo, ainda que não saiba o que dizer, nem tampouco como dizer. 

Creio que todas essas impressões tenham se mesclado dentro de mim, e o resultado seja um fluxo interminável de sentimentos brutos e delicados, que subindo e descendo em todas as direções tornam o meu eu numa cornucópia assustadora, numa tela espantosamente pincelada de modo a não só prender a atenção do espectador, mas de tornar inquieto seu coração. 

Senti coisas que não sentia há tempos. Que não sabia que podia sentir. Sensações novas, outras nem tanto. Senti coisas que tentei esquecer, que tentei apagar. Senti coisas que ainda me machucam. Senti coisas que me fizeram sentir uma doce alegria, que se tornou amarga com o passar dos dias. Senti coisas que não queria mas que precisava sentir. Senti demais, e continuo sentindo, e tudo isso tem me sufocado, me apertado...

Como saber o que devo ou não sentir? Como filtrar? Como parar de sentir? Como saber se o que estou fazendo é o certo? Como saber se tenho trilhado o caminho certo e não apenas outra ilusão que me levará a minha própria destruição? 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O sumiço da mal caráter

Dia cheio, complicado e excessivamente cansativo. Fui levado ao limite de meu equilíbrio emocional, bem como todos da minha família. 

Minha pequena e meiga irmãzinha decidiu que seria divertido cabular a aula e ir com uma amiguinha para qualquer lugar dar uma volta. Não avisou a ninguém e nem sequer atendia o celular, e quando o fazia, simplesmente desligava antes de dizer onde estava. 

A Escola onde ela estuda entrou em contato conosco e disse que elas não tinham aparecido por lá. Eu invadi seu perfil no facebook e descobri nas mensagens que ela e algumas amigas estavam combinando de irem para uma cidade aqui do entorno.

Entrei em contato com dezenas de amigos dela, e alguns me davam alguma informação. Fui aos poucos entendendo como funcionou o plano dela, até que um de seus amigos me procurou e disse que descobrira onde se encontravam, ao que meu pai foi com ele de carro, a encontrando numa cidade vizinha, a poucos quilômetros daqui. 

Claro que a essa altura a Assistência Social já fora acionada, a Escola em alerta, vários amigos nas ruas atrás delas e nada. Aqui em casa a apreensão e o desespero quase que dominaram a todos. 

Ela? Impassível. Ainda se acha na razão de ter cometido tal ato, preocupado a todos, apenas para ir a uma festa frequentada por pessoas bem mais velhas e que meus pais não permitiriam ir. Motivo torpe, ação mais torpe ainda, regada a irresponsabilidade e servida com falta de vergonha na cara fresca. 

O saldo é uma noite cansativa, estressada, com todos cansados demais para tomar qualquer atitude e ansiosos por uma xícara de chá de camomila e uma boa dose de Rivotril. Que Deus tenha misericórdia de nós...

Ao menos nem tudo foi uma tragédia. Acho que certas ocasiões despertam nas pessoas seus instintos primitivos, e isso por ser muito bom...

Quando publiquei no meu perfil pedindo informações sobre o paradeiro da mal caráter vários amigos se mostraram solidários a ajudar. Um em especial, que há muito já não me respondia se mostrou particularmente interessado. Me senti feliz, pois embora estivesse a frente das buscas tudo o que desejava era um forte abraço e, mesmo estando ele distante, sua preocupação foi como um afago no meu já abatido semblante... Obrigado por isso! 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Resenha - Lovesick 2

Mais uma vez tentando superar a famosa depressão pós-serie. Francamente acredito que minha vida deva ser de fato muito vazia para que eu dê tanta importância assim a uma série e me sinta tão mal depois de seu fim...

Dificilmente continuações, de qualquer tipo, me agradam. Sejam filmes, séries ou livros dificilmente eu consigo gostar da forma como as histórias são desenvolvidas e nem com rumos novos apresentados. Acho que ironicamente tenho dificuldade de aceitar o novo, mas muito embora tenha começado a ver essa série com as expectativas lá embaixo as surpresas foram todas tão positivas que mudei completamente essa concepção.

Lovesick - The Series Season 2, ou só Lovesick 2 é simplesmente fenomenal! Faz jus a fama de uma das primeiras séries BLs dessa nova geração tailandesa e mais, sendo a primeira consegue ser melhor do que muitas outras que vieram depois, tendo servido de inspiração clara para muitas delas.

Bom, não vou explicar o plot da série porque ela só dá continuação a primeira temporada, sobre a qual falei aqui. E continuando de onde a anterior parou ela mostra com muito mais calma o crescimento dos muitos personagens.

Se o principal problema da primeira temporada foi muita história pra pouco tempo essa segunda nos mostrou que eles aprenderam bem com o erro. Essa temporada tem 36 episódios, destoando dos tradicionais 12-13 que comumente tem as outras séries do gênero e mais, desenvolve muito bem os personagens em diversos contextos, mostrando um amadurecimento real, típico da adolescência conturbada que eles vivem.

A série tem de tudo, casais gays (que são o foco), héteros, problemas com amigos, traições, vingança. É quase uma Malhação tailandesa só que com problemas que nos interessam. 

A produção, que já era boa, ficou ainda melhor, e exceto pelo roteiro meio fraco em alguns (muitos) momentos os 36 episódios fluem com grande naturalidade. Tive receio de assistir justamente porque temia que a história se arrastasse lentamente demais, e mesmo não tendo muitos fechamentos que esperávamos, ainda consegue entregar uma história boa, bem coesa e cativante, sem a correria de uma temporada curta e com pouco tempo de tela para resolver grandes problemas.

Os muitos personagens são aqui explorados ao extremo e, pelo que me recordo, todos os arcos foram finalizados (obviamente nem todos com um final decente). Francamente senti meio desnecessário usar os créditos finais para mostrar como terminou a história de certos personagens, ainda mais o casal que praticamente dividiu a cena como principal... Mas quanto a isso falarei de cada um mais a fundo logo abaixo.

A minha maior surpresa com essa season foi a trilha sonora. Muitas musicas e melhor, muitas musicas muito boas! A playlist não para de repetir no meu player e já praticamente decorei todas as letras. Super recomendo a quem queira procurar no Youtube (Lovesick OST) e conferir, não vai se arrepender. Destaque para Pass do Gunsmile e para SHAKE do Boy Sompob, que retornou como tema principal. 

Pois bem, vamos ao que interessa: os casais (boys)!

Phun X Noh 
Phumphothingam Nawat (White) e Kongyingyong Chonlathorn (Captain)
O casal principal continua confuso com os seus sentimentos, ao passo que começam a perceber que não conseguirão fugir deles, ainda mais porque os dois vivem se cruzando e pelo fato de suas namoradas serem melhores amigas.

A temporada se debruça longamente então sobre o questionamento dos dois e sobre seu auto descobrimento. Vemos dois garotos incertos do que seja um romance gay perceberem que na verdade se amam e que estão dispostos a ficarem juntos não importando o que fique entre eles.

A química dos dois atores é muito boa e, ao meu ver, formam um dos casais mais fofos e até mais reais das séries. Achei o máximo ver que Noh não só terminou mais seguro de si e ainda capaz de demonstrar publicamente seus ciúmes. Phun na maior parte das vezes se mostrou bem mais resolvido que o outro, muito embora não seja lá muito maduro também. 

Por fim, creio que foram bem trabalhados, e mostraram de longe o maior amadurecimento entre os personagens. Claro, como a série é focada neles não seria de se esperar um protagonismo excessivo as vezes, como por exemplo o fato de metade dos personagens serem apaixonados ou tentarem algo com Noh, meio desnecessário. De qualquer forma ele se consolidaram como um dos casais mais fofos dos BLs, e acho que devem manter esse posto por um longo tempo ainda. 

Earn X Pete
Luangsodsai Anupart (Ngern) e Paisarnkulwong Vachiravit (August)
Primeira decepção, e talvez a (segunda) maior. Durante as divulgações e até mais da metade da temporada eles foram divulgados como possível casal/triângulo amoroso, que colocaria em cheque o relacionamento de Phun e Noh. Mas na verdade eles foram os personagens mais mal aproveitados da série, em especial Pete.

Earn nutria uma paixão por Noh, e era bem mais resolvido do que este, diga-se de passagem. Ele teve coragem de se declarar mais de uma vez e ainda fazia de tudo pelo carequinha, que não tava dando a mínima para ele (ao menos não de forma romântica); Gostei da interação Earn X Noh pois eles souberam mesclar bem o confronto Amor X Amizade. 

Já a interação de Pete com Earn foi um saco! Sério, os dois tinham uns chiliques um com o outro muito desnecessários e as vezes mais afetados do que o norma. Desvio grave de roteiro e desperdício de dois atores até melhores que os dois protagonistas. August, além de um tremendo gato, é também cantor, mas foi relegado ao 10° plano, mesmo sendo anunciado como possível protagonista...

Infelizmente Pete ficou sendo uma grande incógnita até os últimos segundos da série, muito provavelmente de forma proposital. Em alguns momentos ele parecia sentir fortes ciúmes da paixão de Earn por Noh e em outros ele parecia apenas incomodado em ver o amigo sofrer daquela forma, ou talvez sentisse os dois. Ele também mostrou interesse na Yuri, a ex de Noh, mas até o final não ficou 100% claro se ele decidiu ficar com Earn ou com Yuri. Eu, iludido como sou, prefiro acreditar que foi com Earn. Mas sinceramente, repetindo o que disse acima, se a série teve 36 episódios não era necessário esperar literalmente até os últimos 3 minutos para mostrar o final de um dos arcos mais importantes da série. 

Om X Mick
Napian Nanoob (Na) e Thitipat Min
Eles dividem o posto de meu casal favorito ao lados dos próximos. Gostei muito da forma como os dois foi trabalhada... Om, por ser veterano, se tornou o tutor de música do calouro Mick, e o pequeno logo caiu nas graças do mais velho por ser todo atrapalhado, o que despertou o lado paterno dele, fazendo com que ficasse em dúvidas sobre seus sentimentos. 

Fiquei completamente abalado com a fofura do Thitipat, e era quase impossível ver ele em cena sem suspirar profundamente de vontade de apertar aquele rostinho meigo. 

Mick, mesmo sendo bem novinho, conseguiu entender bem antes do veterano que estava apaixonado e ficou chateado quando o mais velho pareceu se importar mais com outro calouro, muito embora só estivesse sendo o bobo que era, já que Om só tinha olhos pra Mick, e fez de tudo para corrigir os erros que cometeu, quando foi mais grosso do que deveria com o pequeno. 

Me entristeci com o final pobre dos dois e, mesmo o tão esperado beijo acontecendo, para quem teve tanto tempo em tela durante a temporada toda ter um final mais bem amarradinho teria sido melhor. Mas tudo bem... Uma pena nenhum dos dois atores terem atuado em nenhum outro trabalho depois da séries, adoraria ver o Min em outro BL, dessa vez como protagonista!

Per X Win
Cheewagaroon Harit (Sing) e Phumphothingam Tharathon (Oat)
Esses dividem com Om X Mick o posto de meus couples favoritos! Per é amigo de Noh, Om e dos outros meninos da banda, e Win é seu vizinho, que tem problemas com o pai violento. Eles são melhores amigos já há bastante tempo e quando vê o amigo em apuros Per parte pra cima do pai de Win para ajudar, sem saber que assim só contribuía pra confusão, já que os pais deste descobriram que o filho é gay e nutre uma paixão pelo amigo.

Foi muito bonito ver a forma como ele defendia o amigo mas, sendo sincero, a forma escrota que Per teve de encarar quando descobriu que Win gostava dele foi bizarra demais. Ele teve a maldade de cantar uma musica super grosseira na frente de toda escola só para fazer o pobrezinho sair de perto dele. Ele abriu as portas pro concorrente e depois ficou se mordendo de ciúmes quando Win começou a namorar outro. E então quando ele finalmente se desculpou, disse que não correspondia os sentimentos românticos dele, embora continuasse agindo como se correspondesse.

Outro casal a sofrer com os problemas de roteiro e que foram finalizados nos créditos finais. O fim foi até engraçadinho, particularmente não achei de todo ruim, mas admito que preferiria que terminassem juntos e com mais tempo de tela.

Destaque absoluto pro carisma dos atores. Sing é sempre uma figura, mesmo muita gente não gostando dele, e aquele jeito maluco completamente afetado foi muito bom. Também mostrou ser bom ator quando precisou ser sério e até frio, ficava com calafrios cada vez que ele era grosso com o outro e comprei bem a atuação dele. 

Oat é simplesmente maravilhoso. Não tem lá muitas expressões, reconheço, mas sabe conquistar. Ele também aparece em Make it Right, mas não me recordo bem dele lá. Fiquei apaixonado pela carinha triste dele, e pelo sorriso tímido. Se algum dia eu for para a Tailândia com certeza vou sequestrar ele e o Min para mim e colocar os dois num potinho. 

Outros Personagens

Yuri (Charnmanoon Pannin)

Tadinha, a mais iludida da turma. Apaixonada por Noh, sabia que o namorado gostava de outra pessoa e ainda assim insistia no relacionamento fracassado. O cara sequer a beijava e deu bolo nela no dia que a pobrezinha tinha preparado para perder a virgindade com ele. Obviamente ela se assustou quando descobriu que o boy tinha terminado com ela pra ficar com outro cara, mas ainda assim eu a admirei muito por ter sido compreensiva e uma ótima amiga na maior parte do tempo. 

Jeed (Hanwutinanon Nungira)

Ao lado de Noh e Phun ela foi quem mais amadureceu na série. Foi traída pelo namorado e pelas amigas, não sabia lidar com os problemas financeiros do pai e ainda foi abandonada quando começou a se vingar de todo mundo da escola. Essa tomou uns bons tapas da vida antes de se emendar e voltar pro caminho da luz. Por sorte ainda terminou com o boy magia de que ela gostava mas se recusava a ficar por ser pobre. 

Pang (Nuchanart Veerakaarn)

Essa ta aqui só porque eu quero criticar: ELA FOI ABSOLUTAMENTE INCAPAZ DE FAZER A ÚNICA COISA A QUE SE COMPROMETEU NA PORCARIA DA SÉRIE QUE ERA CONTAR PRO PAI DO PHUN QUE ELE TINHA UM NAMORADO, e ainda acabou com o casal que era um dos mais fofos só pra pegar o boy de que ela gostava. Detestei!

Considerações Finais

Uma segunda temporada superior em todos os sentidos à primeira. Absolutamente obrigatória a todos os fãs de BL e uma boa pedida para quem ainda não conhece bem o gênero, afinal não tem nada de apelativo e tudo é conduzido com bastante naturalidade, sem perder a mão no humor que também é muito bom. 

Sem dúvidas uma série digna da fama que tem e mais, digna de reinar ainda por um bom tempo no pódio das melhores!

História íntima

As gotículas delicadas de água deslizam pelo seu corpo

Corpo alvo, 
de aparência frágil, 
porém firme

As gotículas delicadas de água deslizam pelo seu corpo

Corpo dourado, 
forte, imaculado

As gotículas delicadas de água deslizam pelo seu corpo

Corpo moreno, 
frio e ao mesmo tempo caloroso

O suor se mistura a água e o som da chuva se mistura ao som de seus gemidos

Gemido de prazer
De culpa
E de curiosa descoberta

O seu sorriso se desfaz numa expressão de medo, e volta a sorrir de luxúria

Graça da inexperiência
Medo da experiência 
Entregue-se a luxúria

A sua mão desliza sem confiança, porém sem escrúpulos

Como um animal devora sua presa
Como quem tem a necessidade de desvelar cada parte de um mundo novo
Como um amado no amante

O coração dispara como se corresse em fuga

As pernas tremem
Os olhares buscam em volta a segurança da relva
E se fecham ao contato dos lábios

O hálito quente entra em contato com a pele úmida

Os sentidos se aguçam
O tato se torna mais delicado
Ao passo que o toque se torna mais exasperado

O seu beijo tremula ante a recordação de quem e do que somos

Mas o desejo não permite o avanço do medo
O amanhã decidirá o que será de nós
Se mereceremos o paraíso nos braços do amante

Ou o fogo que queima incessante

O ato se consuma
O gemido de prazer se desprende
E como animais eles se entregam a própria bestialidade

No fim um contato delicado dos lábios

Sela o contrato
O segredo
O desejo

O silêncio impera como não se recordavam ser possível

A criação suspira 
E uma sinfonia dos amantes é tocada ao fundo
Sob o céu estrelado

O mundo presenteia com a mais bela visão

Por ter sido presenteado com tão bela paixão
O ardor no corpo será a recordação
E no peito o fogo que não se apagou ameça reacender-se

E mais uma vez aquela ave de fogo ressurge das cinzas

E retorna o desejo
O medo
O segredo

E mais uma vez se entregam a paixão

Aos braços do amante
Aos braços do amigo
Aos braços do amado.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Espelho

Sabe quando você se olha no espelho e já não reconhece mais a imagem que ali vê refletida? Como quando olhar um desconhecido a andar no sentido contrário ao seu na rua e, mesmo sendo um completo estranho, consegue perceber que sua expressão é de ódio e rancor? 

Não mais reconheço aquele que vejo no espelho, mas também não sinto saudades daquele que via. A imagem que antes ali se refletia era de um homem sorridente, cujo sorriso se apagou graças a própria ingenuidade em pensar que aquele sorriso poderia conquistar o próximo, em acreditar que suas palavras poderiam tocar o coração de quem quer que fosse. 

Não há mais um sorriso natural, inconsciente, de quem não compreende a própria vida, mas um sorriso de alguém que agora busca ser feliz compreendendo os próprios caminhos. A diferença interna torna a externa perceptível. O sorriso de antes acreditava ser feliz, e o de agora o deseja. 

Se o sorriso de antes foi apagado por lágrimas e caretas de dor o de agora tornou consciente de que essas expressões são todas passageiras, efêmeras demais, para serem permanentemente substituídas. Acontece que na vida os sorrisos, assim como quase tudo, passa, acaba, termina e se transforma em outra coisa. Alguns chamam a isso amadurecimento, eu apenas vejo como um fluxo natural, cujo ponto final não é a nós revelado, afinal não sabemos onde terminaremos e mais, nem sempre evoluímos. Com efeito as regressões são ainda mais frequentes que os aprendizados. 

De qualquer forma aquele velho sorriso, que depositava em todos a confiança e o carinho que a ninguém deveria ser entregue, desapareceu, e deu lugar a outro. Assim como o eu de antes deu lugar a um outro, que deverá dar lugar a outro ainda em pouco tempo...

Íntimas convicções

O aprendizado é um caminho longo, tortuoso e na maioria das vezes dolorido demais para que a gente consiga compreender o que o tempo tem a nos ensinar. 

Aprendemos com a dor, com o amor, com as quedas e também com as vitórias. No entanto, como grande mestra da verdade que é a vida tem sempre em mãos a pedagogia mais dolorosa, que não sendo nem de longe a mais agradável em se suportar é sem dúvidas a que melhor ensina. 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Com o tempo, após muitas dores, vamos compreendendo, no íntimo, que nem tudo é como queremos, quase nada na verdade, e que as decepções nos ensinam, uma após a outra, a não criarmos expectativa infundadas no outro, pois estas não tem como resultado outra coisa senão a dor. 

O homem lentamente começa a perceber que não deve viver dependendo dos outros, e que sozinhos vivemos todos e cada dia de nossas vidas. Por mais dura que pareçam essas palavras a verdade sentida na pele, ou no coração, dói ainda mais, e nos corta como aço frio. 

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Claro que essas são palavras ditas na frialdade de uma manhã calma, depois de, numa noite tortuosa, chorar por aquele que minha alma e meu coração clamam. Na noite escura é tudo pior, a vista se turva e a mente se distorce de tal maneira que não mais diferença entre o mais erudito dos homens e o mais bruto dos animais. Ambos passam a buscar, desejar e clamar apenas pela saciedade dos seus anseios mais profundos e primitivos. E é na noite escura que o homem abandona a sua casca fina para tornar-se um animal por completo. 

Acumula-se o ódio ao seu desejo e está terminada a receita do homem-besta, sem que nada nesse mundo tenha poder para parar a sua ganância visceral por almas e sangues corrompidos também pela mesma noite escura. 

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Não há por sobre a terra esperança das relações amigas e companheiras que lemos nos romances. Antes ainda há apenas conflitos de interesses que, coincidindo em dados momentos parece ser uma caminhada conjunta mas na verdade esconde a traição que se dará ao cruzar os terrenos frios do abismo dos mortos. Oh, atravessando juntos o vale parecem se tornarem amigos, mas apenas enquanto necessitam de tua proteção. Quando então cessa o perigo a lança arrebenta impiedosamente o coração do mais fraco, daquele que primeiro acreditou ter encontrado um companheiro.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Grandioso é o homem que não aguarda que lhe apunhalem pelas costas. Grande é o homem que não se deixa iludir e ludibriar-se pela palavras doces dos que o rodeiam. Sábio é aquele que entende logo que está sozinho por sobre a terra, e que não há nesse mundo esperança para os seus sonhos vazios. Sagaz o homem que trai antes de ser traído, que mata antes de ser morto, pois esse sobrevive a selva das paixões humanas, que diferenciando-se em forma em nada mais se diferencia da selva dos animais. 

No entanto só é feliz aquele que não deposita sua felicidade no outro, mas em si mesmo, e que não se deixa levar pela luxúria do toque, do beijo, do carinho do outro, mas antes percebe que até mesmo o mais íntimo de seu próximo apenas lhe serve ao próprio contentamento, a satisfação dos próprios apetites bestiais. 

~

Obs.: Linhas em itálico retiradas dos Versos íntimos de Augusto dos Anjos.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Um sonho totalmente novo

Eu continuo andando com o coração tremendo 
Eu não sei se quando essa estrada acabar
Haverá amor esperando por mim? Haverá?

Alguém que procure por amor como eu    
Que busque pelo significado do amor
Eu estou perdido num mundo desesperado
E as estrelas que eu via estão desaparecendo

Até eu perceber que você que está segurando minha mão
E me levando para um mundo totalmente novo
Me mostrando um sonho totalmente novo para mim, 
Que eu nunca pensei que pudesse sonhar...

Você me faz entender o que o verdadeiro amor significa
E porque meu coração bate forte desse jeito
Bem assim, sempre que estamos juntos

Você me faz sentir o calor gentil do seu abraço
Até quando o sol se vai
Até quando tudo desaparece, você me abraça forte
E se eu tenho você comigo, e eu não desejo nada mais

Eu tenho buscado por tanto tempo
E não encontrei ainda nada além das respostas erradas
E sempre que chegava perto não conseguia agarrá-las 

Tradução de "Shake" do Boy Sompob, OST de Lovesick - The Series

Distorção

Fiquei constrangido e desconcertado com um sonho que tive com você. Como se não bastasse evitar seu olhar durante as missas preciso fugir de você também nas imagens criadas pela minha própria mente. E para piorar as imagens criadas pela minha mente distorcida são ainda piores que as reais.

Sua personalidade foi impressa em mim com precisão, de fato em meu sonho pensava realmente estar ao teu lado, a diferença foi o rumo de suas decisões, estas não mais refletindo sua personalidade, mas a minha vontade. 

Acordei assustado, e constrangido, por ter sido capaz de imaginar tamanha bobagem, e pelo meu desvario ter se refletido até mesmo num sonho como aquele. Lamentavelmente não era verdade, nada ali tinha sido real. No fim você não tinha passado a noite comigo, não tinha em dito o que se passava em seu coração e mais, não tinha se declarado a mim. No fim tudo não passou de uma ilusão, algo um pouco pior do que os efeitos colaterais bizarros de uma anestesia mal aplicada. 

A mim restou as sombras do sonho, e a imagem mental do seu beijo, do seu toque, que mesmo não tendo sido reais se fixaram em minha mente de tal forma que levarei dias para esquecer a sensação que tive naquele momento. 

Naquela hora a alegria em mim pulsou, e entrei em êxtase, mas também em choque, por perceber que não se tratava da verdade, nem de uma distorção da verdade, mas de uma completa invenção fantasiosa e doentia. 

domingo, 12 de novembro de 2017

Artimanhas

Será que a experiência é realmente capaz de nos tornar mais resistentes aos desmandos e as intempéries do destino que recaem repentinamente sobre nossas vidas? Os mais velhos costumam valorizar a sabedoria advinda da experiência de longos anos e clamam para que os escutemos. Mas ora, não necessariamente suas vidas se tornaram mais simples com toda a sabedoria acumulada, pelo contrário, a cada novo ano as dificuldades parecem apenas aumentar, na mesma proporção que suas capacidades parecem diminuir vertiginosamente. 

A sabedoria é sim importante, mas não creio que seja capaz de tornar a vida de ninguém mais fácil, pois a mesma vida sempre nos supera em sabiamente nos lançar ao vórtice infinito de dor que é viver. As ocasiões de sofrer vem então nas mais diversas formas e tamanhos, e em sua maioria disfarçadas de pessoas ou situações inofensivas, aparentemente boas em sua superfície, mas altamente nocivas ao nosso coração e a nossa alma.

As armadilhas do destino podem vir como um sorriso meigo, colorido, daqueles capazes de cessar a fúria e acalmar os mares, dada sua beleza, ou ainda como um corpo escultural marmóreo e Apolínio,  coberto pelos mais belos fios louros, tal qual um trigal dinamarquês, luxuriante e inebriante. 

Iludir, conquistar, seduzir, são as armas mais poderosas com que o destino nos atinge. E até mesmo quando calejados pela dor e sapientes das muitas artimanhas por ele utilizadas não conseguimos delas fugir. Não somos macacos que aprendemos a fugir das arapucas, mas sempre seremos vítimas das vontades frias e ácidas de quem controla nossas vidas, não Deus, mas do pecado que habita o íntimo de nosso ser buscando nos pender sempre ao caminho que, aparentando ser bom e correto, na verdade é cruel e só pode nos levar a morte.  

Ao homem não lhe é dada a possibilidade de fugir, mas apenas de silenciar-se, calar-se ante a roda da tortura que lhe espera para trucidar-lhe o corpo e esmagar seu coração. Cabe a esta pobre e infeliz criatura viver apenas para ver-se a cada dia mais destruída e submeter aos desmandos de todas as loucuras do destino. Eis a nossa missão!