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terça-feira, 28 de abril de 2026

Qualquer coisa

Aquela conversa era uma troca de provocações. Mesmo que ele, talvez não desse conta disso completamente. Dois homens com tesão falando sobre isso o dia todo. O pau torando nas calças e a gente fingindo que não está pensando em sexo o dia todo. 

Acho que os homens são assim. Ao menos a maioria deles. Alguns devem se concentrar em ganhar dinheiro, ser ou parecer bem sucedido mas, no fim do dia, parece que tudo é feito com o objetivo de comer alguém. E talvez seja mesmo.

Ele queria enfiar os dedos em alguma garota, descontar o acumulado, enquanto chupa com ferocidade os peitos dela. Eu queria colocá-lo no meu colo, bater uma pra ele até ver aquele rostinho claro ficar vermelho, e cuspir porra por toda parte. 

Ele não tem ideia, ou finge, do quanto seria bom se me deixasse fazer isso.

Talvez tenha passado o dia olhando pra uma planilha estúpida no computador, com mente no tesão que passava como eletricidade percorrendo seu corpo. Eu passei o dia me retorcendo na cama, enlouquecido com cada coisa que ele me dizia, como quando disse que ficara completamente pelado ao chegar do trabalho, ou como ia bater punheta em todos os cantos da casa pra aliviar a coisa. 

Os momentos de luxúria ensandecida se dividem com a apatia de cada dia. Ao mesmo tempo que sentia o calor do quarto aumentar por minha causa, se abria os olhos, ainda vi tudo coberto por uma fina camada de poeira, um véu me separando de tudo o mais.

Que droga! 

É um desperdício que toda aquela porra seja jogada fora. Eu engoliria tudo, e o beijaria, e isso o deixaria louco, e então faríamos como animais, meus dedos em seu rabo, seu pau na minha boca, até cairmos para o lado, exaustos. 

Talvez ele pense nisso hoje à noite, antes de bater mais uma pensando naquela garota sem graça. Eu não sei se vou me forçar a assistir outra noite triste e, em vão, tentar dormir amanhã. Os dias têm sido um saco. Muito barulho, insuportável. 

E às vezes, na maior parte das vezes, nem consigo ouvir muita coisa. É como se tudo, mesmo que ao meu lado, estivesse distante. Ouço como se fosse ao longe, minha anuviada, e ainda assim muitas vezes me encho de fúria.

Por isso eu prefiro voltar a pensar em como seria se estivesse lá com ele. Talvez também ficasse distante de tudo o mais, apenas ciente e consciente de sua presença.

No banho, fitaria seu corpo branco cheio de marcas dos meus lábios. Passaria sabão pelo seu corpo, com uma mão, e a outra já no meu pau. Não tem problema, homens não ficam satisfeitos facilmente. Nunca é demais. Daria a ele mais uma punheta gostosa, antes de me virar de costas para ele empinar a bunda, o rabo pronto pra receber seu cacete, que já estava duro. Ele mete devagar, não é tão grande mas é bem grosso, e parece me rasgar, me fazendo gemer e sorrir. Porra, que moleque gostoso! E ele começa a bombar mais rápido, gozou dentro de mim, encostando a cabeça nas minhas costas. Me viro e gozo no seu pau, olhando mais uma vez as marcas. 

Ficariam ali por semanas: 

lembrança de que eu estive ali e fiz meu aquele corpo, daquele cara que, como eu, pensa em sexo o tempo todo. 

Depois cada um vai pra um lugar, faculdade, caminhar pela rua e pensar no vazio. Aula de estatística e energético. Eu sentaria pra ouvir música e tomar uma cerveja. 

Qualquer coisa assim. 

O chá que fiz ficou fraco, e esfriou logo. Acho que perdi o jeito. O de ontem tinha gosto de terra. Os remédios pra dormir já não ajudam mais. Não tenho bebido, pois com os remédios a ressaca é sempre horrível. Não sei o que fazer. Cada dia me sinto mais perdido, até mesmo ao conversar com um cara assim e falar bobagens. 

Será que eu só quero sexo? Quando penso em alguém, só consigo pensar nisso. Conhecer uma pessoa, me aproximar, tudo isso é muito chato, me cansa só de imaginar. Acho que, depois da última vez, quando ouvi algumas das piores palavras da minha vida, não sou mais capaz de amar. Finalmente. Amar é uma droga ou, como disse o velho Buck: o amor é um cão dos diabos.

Não vou tomar banho com ninguém. A única interação será com desconhecidos dos vídeos na internet. Um pouco de vento nessa noite, mais ou menos fresca, em que vou dormir sem saber se quero dormir, assistir, ou simplesmente desaparecer. 

Passei mais um chá, preto, e dessa vez não ficou tão ruim. Mas nunca mais senti o sabor como antes. Começou a chover um pouquinho. O calor podia finalmente dar uma trégua de alguns meses, mas no jornal disse que volta a ficar quente ainda essa semana. Droga!

"talvez o amor seja sexo. talvez o amor seja uma tigela de mingau. talvez o amor seja um rádio desligado." (Charles Bukowski)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Sentindo falta

Tenho sentido falta dos amigos.

De vez em quando, de quando em vez, me surge algo que chama a atenção, em meio a apatia de alguns episódios depressivos. São raros. Lampejos de luz.

Isso porque, nesses dias, é tudo escuridão. Silêncio e escuridão. Não é exatamente tristeza, porque isso já seria alguma coisa. É mais como se nada tivesse graça. Aos poucos tudo vai ficando assim, sem graça, vazio, sem contorno.

Por fora, parece desinteresse, ou ingratidão. E uma vez mais eu vejo as pessoas se afastando. Porque eu não consigo ser como elas. Eu não consigo sair quando elas querem. Não fico feliz com as mesmas coisas. Outros pensam que eu estou com preguiça, ou irritado. 

Tento assistir algo... 
E não me prende. Os homens bonitos parecem não ser tão bonitos assim. 

Tento descansar... 
E não descanso.

Tento ouvir música... 
E só percebo que ela não me tocou mais, quando ela acabou. 

Tento puxar assunto... 
E as coisas não fluem, e isso é uma das que mais machucam. 

É como se a vida, de todos, continuasse, mas eu não consigo alcançar. 

Me lembro das coisas que aprendi com a terapia no último ano, em tratamento no CAPS. No transtorno bipolar, especialmente em fases depressivas, isso pode acontecer porque o cérebro reduz a resposta ao prazer, à motivação e ao interesse. Ou seja: Não é que nada presta, é que naquele momento, o sistema emocional não está conseguindo registrar as coisas do mesmo jeito. E esse detalhe muda tudo porque quando você entende isso, você para de se atacar por “não aproveitar a vida”… e começa a agir com estratégia. O que costuma ajudar nesses momentos: Reduzir a meta do dia; Criar pequenos momentos; Manter algum contato com o mundo; Não esperar vontade para começar; Proteger sono e rotina; Repetir pequenas ações até o prazer reaparecer. 

Na depressão bipolar, a vontade nem sempre vem antes. Muitas vezes ela volta depois da ação consistente. E então eu insisto naquela série que lembro que me fez bem quando vi. Naquele sorriso, naquela história. 

Mas, isso foi o que aprendi. Ou talvez não tenha aprendido, porque ainda não consigo fazer assim. A vida parece continuar, mas não pra mim. As coisas perdem a cor, tudo que resta é a sensação do suor na minha cama. Sei que devia tomar um banho. Mandar alguma mensagem. Abrir a janela e deixar o ar do outono renovar um pouco aquele peso úmido do verão. 

Eu sinto saudades das pessoas, dos amigos, é verdade. Não é que elas parecem sem graça, eu é que não consigo acompanhar. E então o silêncio delas, machuca. Mas eu não consigo responder, não consigo... Me conectar. Nada parece valer o esforço. Mas eu sinto falta dos amigos. Sair dá trabalho. Me arrumar dá trabalho. Qualquer coisa se torna difícil demais. Mas eu sinto falta dos amigos. 

Quanto mais esses episódios duram, mais eu me afasto de tudo e todos. Os dias em casa se multiplicam. Um fim de semana. Uma semana. Duas. Um mês. E então já faz um ano que saí do emprego. De repente não tem mais pizza depois da missa, e depois nem mais aquela conversa depois da missa. As mensagens diminuem. Os grupos se calam. Mas só pra mim. 

E eu sigo sentindo falta dos amigos. 

E, ainda assim, maybe they just don't give a damn...

“Você acha que sua dor e seu coração partido não têm precedentes na história do mundo, mas então você lê. Foram os livros que me ensinaram que as coisas que mais me atormentavam eram as mesmas coisas que me conectavam com todas as pessoas que estavam vivas, que já tinham estado vivas.” (James Baldwin)

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Apenas pessoas


“eles não são totalmente bons nem totalmente maus,
são apenas pessoas — e pessoas são um desastre.”  (Charles Bukowski)

Não é nada sério, apenas aquele cansaço depois de ouvir as vozes de muitas pessoas. E então eu me tranco no quarto, não só fingindo que não existem, mas me refugiando num lugar tão escuro e profundo que, em verdade, eles já não conseguem me encontrar.

Cansaço, de pedidos e mais pedidos. De crenças idiotas. De onde tiraram que a Colo de Deus pode salvar a Igreja se eles só podem perder e confundir? A crença permanente de que algo vai mudar. Não vai. Isso é só um expediente falsário usado para tranquilizar a mente que se apavora diante da realidade, crua como ela se aparece.

Choro de criança, mas os adultos são ainda piores.

"Sai daí!"

"Não mexa aí!"

"Volta aqui!"

"Desce daí"

E o som insuportável das musiquinhas que usam para acalmar a criança quando não querem elas por perto.

A guerra declarada contra a beleza. Bauhaus. Também me cansa. Não percebem que mergulham cada vez mais na depressão.

Ou talvez seja apenas eu que acredito que o Belo é sim uma das coisas mais importantes de uma vida.

De todo modo, sejam essas, ou aquelas que só me tratam como enciclopédia, eu estou com preguiça. Me perguntaram se estou bem, mas não era preocupação real, apenas uma convenção boba porque eu não respondi o dia todo. Minha capacidade de responder perguntas é a única coisa que importa aos outros. 

O bolo que tentei fazer não deu certo, deixei cair um ovo no chão, derramei o açúcar, e ainda fico sem gosto. O hamburguer que pedi também não tinha gosto. Ou talvez seja só eu. 

Não quero ver e nem falar com ninguém. Quero a escuridão e o silêncio do meu quarto. 

Apenas. 

“eu estava começando a entender que as pessoas não são algo a ser consertado.
são algo a ser suportado.” (Charles Bukowski) 

sábado, 11 de abril de 2026

A visão que resta

Eis que acreditava, ainda que superficialmente, que havia de ter feito alguma evolução, mas não. Aqueles número indicavam que eu ainds estava, que eu estou, piorando. E com aqueles números vieram à tona algumas verdades muito doloridas: 

não há mais volta, 
não há mais tempo, 
não há mais salvção. 

Ao menos não para mim. 

Aqueles sonhos, que já se mostravam distantes antes, agora se tornaram completamente inimagináveis. Ocupando não mais o lugar de objetivos complexos, mas o de entidades quase divinas, gozando da onipotência de sua distância da realidade, da minha realidade. Meus bonecos feitos com as areias secas do deserto se desfizeram entre meus dedos como fumaça.

Agora penso que o único caminho seja o de mudar completamente a perspectiva. As coisas não vão mais mudar. Todos aqueles sonhos, se foram. O que era pra ser temporário, efeito colateral de um tratamento, se prolongou e vem aumentando. 

Um, 
dois, 
três, 
quatro anos. 

Dez, 
vinte, 
trinta, 
quarenta, 
cinquenta quilos a mais. 

E eu já não reconheço esse monstro que me olha no espelho. Esse monstro imenso, de aparência animalesca, grotesca, vil. 

Eu já não reconheço meu próprio reflexo. 
Já não sei quem sou, 
nem exatamente o que sou, 
mas sei que deverei ser outra pessoa, 
outra coisa. 

Uma coisa que sabe que não terá jamais a beleza de um corpo desejável. Uma pessoa que ficará ainda mais à margem de todos, que incomoda simplesmente pelo fato de estar ali. 

Mas eu não quero estar ali. 
Ou aqui. 
Ou em qualquer lugar. 

O que resta é a visão de um deserto vazio, sem vida, uma verdade brutal. Isso porque eu sei das limitaões do meu estado. Eu deveria me exercitar, comer melhor, e ao menos me aproximar de algo melhor do que essa besta que agora me encara. Mas como fazer isso se até levantar da cama me custa o esforço de um dia inteiro? Quando descer a escada me faz querer voltar a dormir por três dias? Quando ir à missa e encontrar aqueles idiotas modernistas me faz querer voltar nem ter acordado.

terça-feira, 7 de abril de 2026

A parte


Dizem que foi Bukowski que disse isso, mas não tenho certeza:

“E quando ninguém te acorda de manhã, e quando ninguém te espera na noite, e quando você pode fazer o que quiser. Como se chama isso? Liberdade ou solidão?”

Algumas horas atrás eu escrevi um monte coisa sem nexo algum, porque não sabia o que escrever. Mas me perguntava se ainda poderia haver amor em mim para, quem sabe, voltar a falar disso. Também escrevi, ou deixei nas entrelinhas, que desejava algo. 

Talvez não seja uma resposta, mas um aceno: o que desejo não é amor, porque não creio mais nele. Não sei se sou capaz de amar. Mas desejo a companhia, o calor de um abraço. E cada vez que me olho no espelho, me vejo mais distante disso. 

Parece-me cada vez mais que a solidão é a minha condenação, 

e não terei uma segunda chance sobre a terra. 

Era só isso, alguem para abraçar. Nas imagens em minha mente ele nem sequer tem rosto, mas tem costas largas em que posso me encostar, e calor. 

Não tenho pensado em sexo, mas apenas nesse abraço.

Mas essa pessoa não existe. Quem abraçaria um Quasimodo como eu?

Por isso vou assistir um pouco mais hoje, algo em que os personagens se abraçam, se apoiam... 

Não é tesão, mas talvez se expresse assim, ou entendam assim porque só conseguem conceber esse tipo de vazio como tesão ou carência, 

fisiológico ou afetivo. 

Mas não é isso. 

Não é tão simples assim.

É um vazio, um buraco no peito, 
como de um Arrancar que luta num deserto selvagem para sobreviver, 
enquanto devora uns aos outros.

É terrível.

E então, numa noite como essa, quase fresca, em que o vento sopra e alguns relâmpagos clareiam por brevíssimo instante, uma sensação, uma certeza, uma condenação, se marca no meu peito, cortando carne e músculos até o tutano como aço frio:

a completa totalidade do vazio,

olhando para a noite e sabendo que, 

nesse imenso mundo, maior do que qualquer mente pode abarcar ou conceber, 

não por ser homem ou mulher,

mas por ser eu, 

única e tão somente eu,
amargamente eu,
infeliz eu,

sem beleza ou atrativos para que me olhem,
desprezado como o último dos mortais.
Atormentado pela angústia profunda.

Não há sequer alguém que dividiria a cama comigo,

fria alcova,

fria cova, 

rasa,

a parte que me cabe deste latifúndio,
a parte que falta em mim.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

O pior amigo

Há algo que eu queria dizer, mas parece que se foi. Se desvaneceu. Não consigo me lembrar o que era, para reconstruir imaginativamente e assim registrar. Não, tudo se foi.

Será que queria falar de algo que desejaria sentir, já que não sinto mais? Acho que não, falei disso da última vez. Pode ser que fosse sobre alguma sensação sobre as imagens de sombra e luz que vejo, as diversas formas de amor, que acompanho pelo simples motivo de que já não sinto nada.

Então sobre o que eu queria escrever? O que naquele instante havia na minha alma que eu queria eternizar em palavras e que se foram, e eu tentei agarrar como fumaça. 

Bem, já que não me lembro, vou falar sobre qualquer coisa. Quero dormir tarde hoje, definitivamente não consigo assistir, ou existir, durante o dia. Prefiro a calma da noite. Mas sei que isso prejudica uma rotina, indispensável no tratamento do Transtorno Bipolar. Mas eu não tenho rotina nenhuma. Acordo, existo, depois assisto, e esses são os único momentos que fazem algum sentido, e depois durmo, e o ciclo começa outra vez. Essa é minha prisão do eterno retorno.

Pelo menos tem chocolate na geladeira.

Meu estoque de chá tem diminuído, assim como alguns produtos de skincare. Não me sinto bem pra um compromisso como um trabalho diário, mas preciso disso se quiser voltar a comprar alguma coisa. E sinto falta disso. De pedir pizza quando quiser, ou comprar os remédios tarja preta que o maldito governo regula e que me custam uma fortuna pra comprar sem receita. Não posso beber, ou isso me enlouquece. 

Enfim. 

Eu sou bipolar. Sou desde os dezenove anos. Há períodos em que eu fico incrivelmente deprimido, em que eu mal consigo me mexer. Aí fica difícil conviver comigo. Eu mal consigo atender o telefone. Eu não sou confiável como amigo. Na verdade, sou o pior amigo que você poderia ter. Não atendo nenhum requisito para isso.

No momento estou saindo de um episódio misto. Acabei de enlouquer por quase uma semana.

Mas ninguém quer saber disso. Tem dias que eu uso isso pra me desculpar pelas coisas que faço, mas eu percebo, que depois disso as pessoas começam a me evitar. Quando eu cancelo um compromisso, por isso os odeio, quando fico irritado, quando fico falante demais e depois desapareço. 

domingo, 5 de abril de 2026

Escrever sobre o amor

Aconteceu uma coisa ontem depois da celebração. Estávamos cansados, os músicos desmontavam os aparelhos ligados aos instrumentos, outros desejavam votos, Feliz Páscoa, ecoava pela igreja na noite do Fogo Novo.

Um amigo se aproximou e, com efeito, eu só esperava cumprimenta-lo e ir embora. Não só não gosto muito da repetição e dos sorrisos dessas datas, como queria evitar a alegria de algumas pessoas que fingem não ter feito um inferno na minha vida nos últimos dias. Mas não é disso que quero falar.

Ele se aproximou, sorrindo, cumprira bem sua função. Eu o elogiei, realmente fizera bem. Nos abraçamos, quase como uma dupla consolação: estávamos bem cansados. Eu levantei o rosto e beijei seu pescoço, como faço algumas vezes. Ele endireitou o rosto em minha direção e me beijou nos lábios, ali na frente de todas aquelas pessoas. E saiu para terminar seus afazeres.

Logo voltaríamos, para celebrar o dia que o Senhor fez para nós, quando o sol nascente despontar.

Poderia ser o início de uma história interessante, se fosse real. Mas não é. Eu inventei a única parte interessante dela. Então poderia ser uma história, criada, inventada, sonhada, sim. 

Mas poderia um coração, que já não acredita mais no amor, que já não sente mais o amor, que já não enxerga nesse mundo mais o amor, 

escrever algo sobre o amor?

Será que o sonho acordado que tive depois daquela missa signifique que, em algum lugar, lá naquele profundo quase intangível, imperceptível, ainda tenha amor dentro de mim?

terça-feira, 3 de março de 2026

Notas sobre cuidado e vulnerabilidade

Cuidado. Esse sempre foi um tema querido, bem como temido, por mim. Não é nenhuma novidade que eu sou um cara preocupado com quem amo, e gosto que as pessoas se sintam bem perto de mim. Mas também não é novidade que tenho grande facilidade para afastar as pessoas, justamente porque elas não se sentem assim. Tão logo isso acontece, eu me decepciono, com o outro e comigo, e acabo por me tornar realmente desagradável. Mas demorei muito para entender isso.

Do ponto de vista psicológico, o cuidado ocupa um lugar ambíguo na constituição do sujeito: ele é simultaneamente vínculo e ameaça. Essa teoria do apego demonstra que quanto maior a necessidade de proximidade emocional, maior a sensibilidade à percepção de afastamento. O que se interpreta como indiferença externa, muitas vezes, é amplificado por sistemas internos de alerta que reagem à mínima oscilação no comportamento do outro.

No momento, escuto pela décima vez essa semana, Inmo Yang tocar o Concerto para Violino do Sibelius. Assim como o virtuoso faz o arco se tornar um borrão no instrumento, as coisas mudam rápido dentro de mim, como um movimento no fundo do oceano, que só depois de muito tempo agita a superfície. Só após perder as pessoas que mais amava, repetidas vezes, é que fui entender que o problema estava em mim.

As flutuações de humor no Transtorno Afetivo Bipolar não se limitam a alternâncias visíveis entre euforia e tristeza; tratam-se de variações na intensidade da energia psíquica, na velocidade do pensamento, na percepção de si e do outro. Estudos clínicos descrevem que essas oscilações podem comprometer a estabilidade relacional, pois modificam a previsibilidade do comportamento, elemento central para a manutenção de vínculos seguros.

Descobrir o Transtorno Afetivo Bipolar foi algo libertador. Eu sabia finalmente de quem estava apanhando, muito embora ainda não tenha aprendido a bater de volta. O diagnóstico, em muitos casos, funciona como reorganizador narrativo da própria história. Ele não elimina o sofrimento, mas oferece linguagem para descrevê-lo. Ainda hoje venho descobrindo novos comportamentos que, percebo, são reflexos dessas variações de humor. Como observa Kay Redfield Jamison, ao escrever sobre a própria bipolaridade, nomear a condição não reduz a dor, mas impede que ela seja confundida com falha moral. Era exatamente como me sentia, e ia adiante: achava se tratar de uma falha intrinsecamente existencial.

Foi só quando comecei a estudar sobre que entendi o que acontecia: o Transtorno Bipolar cansa as pessoas. E isso dói pra caramba! Não é só oscilação, não é como TPM. É perceber olhares diferentes, paciência diminuindo e distâncias surgindo e crescendo.

Pesquisas apontam que familiares e amigos de pessoas com transtornos de humor frequentemente relatam exaustão emocional. A imprevisibilidade gera desgaste. O problema não reside em falta de afeto, mas na dificuldade de sustentar constância diante de variações intensas. A literatura clínica é clara: o transtorno não é apenas individual, ele é relacional, aliás, é por isso que transtorna.

No Transtorno Bipolar há alterações na regulação emocional e na intensidade das respostas afetivas, o que pode gerar, dentre outras coisas: reatividade elevada, variações abruptas de energias e maior sensibilidade à rejeição. Não é exagero, mas um cérebro desregulado.

Neurobiologicamente, há disfunções na modulação de circuitos ligados à dopamina, serotonina e norepinefrina, impactando tanto o humor quanto a motivação. Essa desregulação pode fazer com que pequenas frustrações sejam experimentadas como grandes ameaças, ampliando a percepção de abandono. 

Tem dias que eu sou intenso demais. Hoje mandava mensagens sobre quatro assuntos ao mesmo tempo para um amigo. Em outros dias, eu demoro oito horas para dizer uma única palavra, e isso confunde as pessoas. Eu não tenho medo só dos episódios, principalmente quando vou sentindo que eles vão piorar. Eu tenho um medo constante de ser abandonado por causa deles.

Na literatura sobre transtornos do humor, essa alternância entre hipersociabilidade e retraimento é frequentemente descrita como fator de tensão interpessoal. O outro nunca sabe qual versão encontrará. E previsibilidade é um dos pilares da confiança.

Houve um tempo em que eu conseguia me obrigar a sustentar as relações. Eu queria meus amigos por perto, mas os afastava mesmo assim. Porque após algumas horas, eu estava exausto, eu só queria desaparecer, mas ainda precisava sorrir, cantar e, no dia seguinte, tinha que trabalhar. E então as minhas reações exageradas, especialmente as que escrevia, acabaram por afastar todos eles.

O esforço de mascaramento, conceito estudado em psicologia social, consiste em suprimir estados internos para corresponder às expectativas externas. Esse processo, quando prolongado, conduz ao esgotamento psíquico. Sustentar uma performance constante exige energia que nem sempre está disponível.

Era um esforço silencioso: me controlar, me calar, me diminuir. Para não perder ninguém. Mas ainda assim os vínculos iam se desgastando. E eu só queria estabilidade, o suficiente para que eu pudesse cuidar, e ser cuidado, ou ao menos compreendido. Em alguns momentos aceitava ser apenas tolerado.

Aristóteles definia a amizade como uma reciprocidade de benevolência reconhecida. C. S. Lewis, séculos depois, diria que a amizade nasce quando alguém diz: “O quê? Você também?”. Ambas as formulações apontam para um elemento comum: reconhecimento. Cuidar e ser cuidado exige que o outro permaneça, mesmo quando o humor oscila.

Alguns dias atrás, eu não saí com alguns amigos da igreja, como tínhamos combinado quase um mês antes, para comemorar o aniversário de um amigo e o meu. Não gosto de combinar as coisas com antecedência assim, porque nunca sei como vou estar quando chegar o dia, e o pior cenário aconteceu. E de novo ver aquelas fotos deles, sorrindo, sem nenhuma mensagem (além do meu amigo, justiça seja feita), como se minha ausência sequer tivesse sido notada, doeu pra caramba. Como doeu anos atrás, quando vi os mesmos amigos que enchiam minha casa saírem sem mim, até que hoje nenhum deles fala comigo. Sem brigas, sem conversa sobre nada, apenas o afastamento silencioso.

O sentimento de exclusão ativa áreas cerebrais semelhantes às da dor física. A experiência de ser deixado de fora não é mero capricho emocional; ela é registrada como ameaça à sobrevivência social, elemento fundamental para a espécie humana.

Decidi rever See Your Love, série taiwanesa de 2024, sobre o jovem cuidador, exímio no que faz, mas que, no entanto, não consegue emprego por conta de sua deficiência auditiva. Acaba se tornando cuidador de um cara rico que vive fugindo do trabalho e da família, e ambos mudam a vida um do outro ao aceitarem uma coisa: deficiente ou não, todos temos limitações e não podemos viver sozinhos. 

Acho belo sempre que a presença do outro provoca essa mudança. Jiang Shao Peng (o belíssimo Jin Yun) não é só um cuidador, ele é o melhor, o mais dedicado, o mais determinado, e ainda assim não é contratado por ninguém. Inclusive debocham pois, como alguém como ele se comunicaria com os pacientes? Bem, ao conhecer o herdeiro "mimado" Yang Zi Xiang, ele aceita a dureza de uma verdade contra a qual ele lutou a vida toda: ele tem suas limitações por causa da sua deficiência, mas precisar do outro não o torna inferior, porque Zi Xiang também precisa, assim como seus pais precisam. Zi Xiang, por sua vez, percebe que apenas fingir ser um mimado não resolve os problemas, e então mostra que é mais do que capaz e preparado para assumir o legado de sua família, e é justamente por isso que ele também deve ter o direito de viver como quiser. 

Ambos caminham juntos até entenderem isso, por meio de gestos de cuidado. O primeiro, literalmente, mostrando ser o primeiro que realmente olhou pro jovem mimado como alguém que precisa de cuidado, fazendo-o se sentir diferente de quando sua família simplesmente decidiu seu futuro. E então esse jovem decide aprender linguagem de sinais para se comunicar com alguém que, supostamente, só ficaria com ele por algumas semanas, o que toca o outro, já que todos sempre consideram a dificuldade na comunidade o ponto chave para afastá-lo. E então é dessa forma que eles se aproximam.

Na cultura contemporânea, a figura do cuidador ganhou relevo não apenas como função prática, mas como metáfora ética da interdependência humana. Em sociedades marcadas pela valorização da autonomia radical e da performance individual, o cuidador encarna uma contranarrativa: ele lembra que a vulnerabilidade não é exceção, mas condição estrutural da existência. Autores como Joan Tronto e Nel Noddings, ao desenvolverem a chamada “ética do cuidado”, sustentam que toda organização social se funda, ainda que invisivelmente, em redes de dependência mútua. Cuidar não é gesto acessório, mas infraestrutura da vida. Na literatura e no cinema recentes, o cuidador aparece frequentemente como aquele que, ao assistir o outro, revela também a própria limitação. A interdependência deixa de ser sinal de fraqueza e passa a ser reconhecimento da finitude compartilhada. Nesse sentido, a narrativa do jovem cuidador que precisa aceitar a própria limitação antes de sustentar a do outro ecoa uma tese antropológica fundamental: ninguém é plenamente autossuficiente, e a recusa dessa verdade tende a produzir isolamento e sofrimento.

Não por acaso, a própria narrativa faz referência à política taiwanesa de cuidados de longo prazo, conhecida como Long-Term Care Plan 2.0,  implementada em 2017, como ampliação do plano anterior (2015), em resposta ao rápido envelhecimento populacional e à queda da taxa de natalidade. Taiwan tornou-se oficialmente uma “aged society” em 2018 (mais de 14% da população com 65+), e a projeção demográfica indicava rápida transição para “super-aged society” (20% ou mais). 

Ao reconhecer que a estrutura familiar tradicional já não é suficiente para sustentar o cuidado dos idosos e pessoas dependentes, o Estado assume institucionalmente aquilo que a ética do cuidado já sustentava teoricamente: a autonomia absoluta é uma ficção. O LTC 2.0 ampliou serviços domiciliares, centros comunitários e apoio financeiro, transformando o cuidado em política pública estruturante. Trata-se de uma mudança paradigmática: o cuidado deixa de ser gesto privado e passa a ser responsabilidade coletiva. Nesse sentido, a série dialoga com um fenômeno social real: o cuidado como infraestrutura demográfica de sociedades envelhecidas. A vulnerabilidade, antes percebida como exceção individual, revela-se condição populacional: todos estamos vulneráveis, precisamos de cuidado.

Cuidar. Ser cuidado. Como isso funcionaria comigo quando eu sempre acabo por afastar o outro, por me tornar um peso, fardo desagradável? E vejo isso notavelmente. Atualmente, num episódio depressivo, fiquei semanas sem conseguir sair de casa. O mesmo amigo de que falei antes me perguntou várias vezes como eu estava, me perguntou se estava bem hoje para ir à Missa, se preocupou, mas quando cheguei lá, alguém sequer foi falar comigo quando me viu? Ninguém. Mais uma vez, distâncias surgindo e crescendo. Mas, nas mensagens, continuo recebendo dezenas (sem exagero) de pedidos de favores.

O paradoxo do cuidado é que ele exige presença de ambas as partes. A filosofia do cuidado, desenvolvida por autores como Nel Noddings, sustenta que a ética nasce do encontro concreto, do “estar-com”. Sem esse gesto, resta apenas a intenção abstrata.

E ainda ousei olhar para aquele cara na assembleia, o que também se chama Gabriel. Bonito, sério, de óculos. Como se um cara magro como ele fosse olhar para um gordo desequilibrado como eu. Nem sabe que eu existo, a menos que tenha notado a bola gigante de camiseta rosa ao lado do presbitério. Essa é uma distância que nem precisou surgir.

O desejo também participa desse campo relacional. Amar implica expor-se ao risco da não reciprocidade. Como nos Cânticos, o amado é sempre figura de projeção e esperança, mas a projeção revela mais sobre quem ama do que sobre quem é amado.

Se políticas públicas tentam organizar redes de amparo para populações inteiras, é porque a solidão não é apenas falha individual, mas questão estrutural. A sociedade envelhece, os vínculos se rarefazem, as famílias se tornam menores e o cuidado precisa ser redesenhado como linguagem comum. No plano coletivo, criam-se sistemas; no plano íntimo, resta aprender a sustentar o próprio silêncio entre as notas. 

Não me sinto um violino num concerto de Brahms ou Sibelius, tampouco numa sinfonia de Mahler ou Beethoven. Me sinto tocando uma partita desacompanhada do Bach.


"Jovem, eu exigia das pessoas mais do que elas podiam me dar: uma amizade contínua, uma emoção permanente. Agora eu sei pedir a elas menos do que podem me dar: uma companhia sem frases." (Albert Camus)


REFERÊNCIAS

JAMISON, Kay Redfield. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

GOODWIN, Frederick K.; JAMISON, Kay Redfield. Manic-Depressive Illness: Bipolar Disorders and Recurrent Depression. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2007.

BOWLBY, John. Apego: a natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

NODDINGS, Nel. Caring: A Relational Approach to Ethics and Moral Education. Berkeley: University of California Press, 1984.

TRONTO, Joan. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge, 1993.

LEWIS, C. S. Os quatro amores. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. Antonio de Castro Caeiro. São Paulo: Atlas, 2009.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Minha esperança

Acordei com ódio do mundo,
um daqueles dias em que parece que o diabo 
é quem governa,
e tudo irrita.

Meus remédios para dormir estão acabando
e essa é uma das piores coisas 
que poderiam acontecer nessa
vida maldita.

Não quero sair do quarto, 
viro de um lado pro outro,
sem olhar as mensagens, 
ignorando a fome.

Só não quero ver ninguém.
Porque a cara deles me irrita.

Queria dormir e acordar daqui a três dias,
ou nem acordar, seria ainda melhor

Aos poucos, as coisas vão se desfazendo.
Sem dinheiro pros remédios, ou pro café,
a TV estragando e ameaçando as séries

o único maldito divertimento
nessa vida desgraçada

ameaçado por riscos de uma tela que,
como a vida, anuncia que em pouco tempo
deixará de funcionar,

como as pessoas.

A maioria delas não serve pra nada.

Eu não sirvo pra nada.
Imenso de gordo, depressivo, reclamão. 
Enquanto isso, os jovens estúpidos vivem sorrindo
e chorando, com seus sentimentos à flor da pele,
escondendo a ridicularidade de suas existências patéticas.

Eu não sirvo pra nada.
Mas eles servem menos ainda.

E essa vida maldita continua. 

Querem que eu ria,
que eu continue,
enfrente.

Ridículos.

O há que que vale a pena enfrentar? 
Continuar a viver? 
Como aqueles moribundos nos hospitais
se agarrando ao último fiapo de vida?

Não vejo nisso beleza ou heroísmo.

Abraçaria a morte como uma velha amiga.
Mas essa desgraçada parece rir da minha cara.

Gosto daqueles filmes de monstros gigantes,
como o Godzilla que salva o mundo destruindo duas cidades.
Não é que eu queira aquela destruição desesperadora
das enchentes, furacões e terremotos.

Eu sei que seria crueldade demais 
pra uma humanidade que não suporta a dor.

Mas me alegro com a ideia da destruição total,
como se aqueles idiotas líderes mundiais 
pudessem destruir o mundo com dois botões. 

Isso seria o que eu chamo de esperança.

Não quero saber de exames, 
de crianças chorando,
de irmãs inúteis.

Gosto de olhar para as fotos dos meus ídolos.
Mas ninguém liga pra eles.
Enquanto eu fico feliz, 
maybe they just don't give a damn.

Mas continuo algo feliz, 
porque a beleza atenua, 
ainda que só um pouco,
o ódio que acordou comigo,
amaldiçoando o mundo.

Começou outro movimento 
de uma das sinfonias selvagens do Mahler.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A hora inútil da vigília

I

As coisas não saíram como o plano,
não por destino ou força superior;
foi só meu cérebro em torpor,
traindo o gosto antigo, quase humano.

Faltou-lhe a química do entusiasmo,
substância mínima do querer ser;
negou-se o corpo ao próprio prazer
e a mente ao reconhecimento espasmo.

Sabotei-me em silêncio consentido,
um eu contra outro eu dividido;
relatório existencial sob luz fraca.

E assim fiquei, inerte sobre o chão,
ouvindo o pulso frouxo da intenção
que nasce e morre antes que se destaque.

II

Lembranças retornaram em surdina:
violão, álcool e riso juvenil;
vozes que amei — e o gesto hostil
de quem feriu com mão quase divina.

Sentavam-se em redor da velha mesa,
fantasmas de um afeto já distante;
hoje são pó disperso e errante
em lados opostos da mesma tristeza.

Se conto os grandes nomes da amizade,
quantos resistem à atualidade?
Quantos ainda vejo todo dia?

E a noite envolve o quarto em lento fio,
como se o tempo fosse um desafio
que à própria ausência me conduzia.

III

Então me deito, exausto de insistir
naquilo que já foi contentamento;
meu próprio ser se esvai no pensamento
que não consegue mais se decidir.

Sobe no ar o óleo perfumado,
fumaça tênue em espiral sombria;
a chuva tange a telha rubra e fria,
de barro e musgo antigo saturado.

O som ressoa opaco sobre o teto,
como um tambor monótono e secreto
marcando a hora inútil da vigília.

No quarto ao lado um choro principia;
a vida insiste — e em mim não principia.

nenhum sentido.

IV

Se algum dia já tive um sonho,
assim como quem acorda
apressado, atrasado pro trabalho,
eu não consigo me lembrar.

Penso nisso no quarto escuro 
depois que a casa inteira já dormiu

Uma das poucas obrigações de um homem 
é ter vontade
para realizar alguma coisa,
e um pau decente,
eu falhei em ambos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Requiem em Sete Dias

No meu aniversário de trinta e um anos

I

Nasceu numa segunda,
sem ânsia de romper as sombras do começo,
quedou-se à beira escura do primeiro excesso;
negou-se ao grito inaugural da vida imunda.

Recusou-se a rasgar o ventre que o gerara,
e alheio ao sangue cálido do alvorecer,
deixou que mãos de aço o viessem colher
num gesto atroz que a própria carne dilacera.

Vieram com o bisturi, lâmina severa,
impor-lhe a claridade abrupta e fria;
trouxeram-no à luz que jamais pedira.

Talvez chovesse já sobre a terra inteira,
talvez o mundo o recebesse em fria teia,
forte como hoje.

II

Foi batizado numa terça,
imerso em águas de sentido estranho,
marcado por um nome que lhe era tamanho,
lançado a um mundo cuja pressa o dispersa.

Não compreendia a febre das avenidas,
nem o motivo oculto de tanta corrida;
via nos outros uma ânsia incontida,
um querer que feria suas medidas.

Buscava entender o que ninguém dizia,
e quanto mais buscava, menos via;
crescia-lhe a distância e a estranheza.

E sobre a fronte ungida e silenciosa
pairava uma pergunta dolorosa,
forte como hoje.

III

Se casou numa quarta,
não com amado outrora prometido;
fora por Antonio esquecido,
e por Valentim deixado à parte.

Unira-se à fiel desesperança,
única esposa que lhe fora constante;
no peito a carregava, vigilante,
como quem vela a própria lembrança.

Não houve cântico, júbilo ou aliança,
apenas um pacto íntimo e sombrio;
um leito frio, sem promessa ou brio.

E desse enlace estéril e tardio
brotava a chuva sobre o vazio,
forte como hoje.

IV

Adoeceu numa quinta,
ao ver que nunca fora parte inteira;
toda aproximação era fronteira
que cedo ou tarde em decepção se finda.

Cada gesto trazia sua ruína,
cada afeto ocultava uma ferida;
recaía sobre a alma combalida
a antiga dor que sempre o domina.

Num jovem já cansado coração
crescia a febre da desilusão;
chovia dentro mais que fora.

E a noite, espessa como véu tardio,
lavava-lhe o peito em calafrio,
forte como hoje.

V

Piorou na sexta,
chegando aos trinta e um já enfastiado;
sentia-se de há muito exilado
de um mundo que jamais lhe fora festa.

Levava cada dia como peso antigo,
com a mesma recusa do primeiro instante;
esperara, outrora, hesitante,
que o rasgassem ao ventre sem abrigo.

Não quisera sequer metade disso:
nem do viver o áspero compromisso,
nem da esperança a chama breve.

Firmou-se, então, numa convicção severa,
como sentença fria que o espera,
forte como hoje.

VI

Morreu no sábado,
cansado de tudo e de todos;
sem arrependimentos ou modos,
jazendo só, num quarto abafado.

Não houve parentes à beira do leito,
nem amigos a velar-lhe o sono;
apenas o suor, febril abandono,
manchando a cama em silêncio estreito.

Depois de noites longas de delírio,
entre febre, chuva e lento martírio,
cessou-lhe o fôlego exausto.

E o mundo, alheio ao seu cansaço,
seguiu sem notar-lhe o passo,
forte como hoje.

VII

E foi enterrado no domingo,
finalmente entregue ao grande silêncio;
cobriram-no com terra e esquecimento denso,
como quem sela um gesto antigo.

Pás de chão caíam-lhe sobre o peito
como respostas mudas e tardias
às perguntas que fizera em seus dias
vividos sem vontade ou jeito.

Mas já não ouvia o som do mundo,
nem via o céu turvo e profundo;
partira sem testemunha ou alarde.

Ninguém notou-lhe a última viagem,
nem a chuva sobre a paisagem,
forte como hoje.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Ternura em câmera lenta

A cena dura um pouco mais de dez minutos, após uma conversa desagradável o Chef pensa em usar a cozinha do restaurante, já vazio, para preparar algo, mas logo perde a paciência. Os cortes se tornam mais e mais violentos até que ele começa a lançar tudo ao chão, não só os ingredientes como os pratos e tudo mais que há por perto. Por fim, se senta, completamente exausto, completamente frustrado, com a cabeça entre as mãos trêmulas. 

Surge então aquela jovem figura que o encantara nos últimos dias. O jovem de paladar único e refinado, uma diamante que ele encontrara, estava ali de pé, diante dele. O Chef se levantou, rapidamente, com os olhos marejados, e o outro pareceu não se importar. Com o olhar terno e em silêncio ele se abaixa e começar a recolher os cacos dos pratos que foram quebrados. Não há nele sinal de condenação, pelo contrário, há uma ternura acolhedora que faz o outro se sentir abraçado. 

É só depois disso, que há um diálogo. O jovem diz que parece haver ratos por ali, e o Chef concorda, tornando o ambiente mais calmo. E então, o resto do episódio segue.

Essa cena do terceiro episódio de Bite Me, um BL de 2021 que passou bem despercebido pelo público justamente por conta da presença de cenas como a que descrevi. Já naquela época as pessoas não conseguiam conseguir um ritmo diferente do frenético. Em séries americanas a coisa é quase imperceptível, os personagens se conhecem num instante e, noutro, já estão transando. Todo e qualquer rastro de conexão foi perdido. Isso se contrasta muito quando vemos a literatura no geral e acompanhamos histórias em que as pessoas levam meses, até anos, para se aproximarem. 

Do mesmo modo, uma séria ambientada num restaurante em que a conexão humana se dá na velocidade do preparo de um prato, se tornou entediante ao grande público. 

As músicas têm menos de três minutos, as séries agora são divididas em mil partes para caberem em vídeos de dois minutos. Ouvir algo como uma Paixão segundo S. Mateus do Bach ou uma ópera de Wagner com mais de três horas? Isso nunca existiu, é lenda!

As pessoas não têm mais tempo, embora vendam seu tempo o tempo todo. O trabalho precisa ser em um prazo mínimo. A rotina precisa ser milimetricamente cronometrada, ou então falta tempo. Falta tempo para sentar e, em silêncio, observar o belo Mark Siwat se abaixar e catar os pedaços de louça quebrada no chão, enquanto o Chef o observa com os olhos marejados e, naquele momento, eles se conectem pouco e pouco, sem nem mesmo entender o motivo. Mas estão ali, o jovem está ali. E poderia estar em outro lugar. 

Mas está ali. 

Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

(Mário Quintana)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Anulação sem drama

“Perguntado a um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu: a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.” (Pe. Antônio Vieira)

hoje eu só quero desaparecer direito,
sem drama, sem bilhete, sem ninguém batendo à porta.
não é que algo tenha explodido,
é esse cansaço idiota de existir sem ter feito nada.
dias que te esmagam mesmo quando você fica parado.
dormir seria bom.
acordar quando o mundo já desistiu de mim,
ligar a TV, ver alguma série ruim,
esperar a noite porque a noite não pergunta nada.

Desejo a anulação do gesto e do nome,
o exílio da consciência em trevas brandas;
sou matéria exausta em rotação sem fome,
um nervo que apodrece enquanto anda.
O tempo me corrói sem violência,
e o nada, com paciência, me governa:
sou célula cansada da existência,
buscando no sono a trégua eterna.

não quero que você acabe assim.
esfarelado.
vivendo de migalhas de dia em dia,
sem livro, sem propósito, sem coragem pra se olhar no espelho.
não é vida, é um ensaio mal feito de sobrevivência.
um sujeito que respira por hábito,
que se arrasta como um cão cheio de feridas
farejando lixo só pra continuar.
não desejo isso nem pro pior inimigo.

Não quero legar-te o espólio da ruína,
meu espírito em frangalhos e ferrugem,
essa alma e uma carcaça clandestina
que vive menos que uma sombra 
ou uma fuligem.
Ser homem é mais que persistir no chão;
é não reduzir-se a um resto orgânico.
Que o teu destino escape à podridão
do existir apenas, trágico e mecânico.

no fim, é só isso:
um corpo insistindo em continuar
enquanto a alma calcula o prejuízo.
a vida não explode, ela se desfaz devagar,
célula por célula, gole por gole, noite após noite.
mas ainda assim seguimos,
não por esperança, nem por fé,
mas por essa teimosia estranha da matéria
que, mesmo sabendo do fim,
respira.

e queria parar de respirar

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Notas de um afeto silencioso

Há algo de paradoxal e, por isso mesmo, profundamente humano, no fato de que, quando o sujeito já não investe mais em si mesmo, nem em seu próprio futuro, ele ainda seja capaz de comover-se com a felicidade alheia. É como se o eu, esvaziado de projetos, sobrevivesse apenas como superfície de ressonância, reflexos do outro e fragmentos de memória batendo na janela. Fernando Pessoa escreveu, pelo semi-heterônimo Bernardo Soares, que “viver é ser outro”; talvez reste a mim apenas isso: viver como eco da vida que acontece nos outros. Não me alegro por mim, mas me permito alegrar-me neles. Freud via na identificação uma forma primária de vínculo: eu sofro com a luta que não é minha, choro pela vitória que não me pertence. Já Camus, em O Mito de Sísifo, descreve o absurdo como a fratura entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo; mas aqui ocorre algo inverso: mesmo quando o sentido pessoal se cala, a emoção ainda responde ao sentido que os outros constroem. É uma ética involuntária da empatia: não creio mais no meu amanhã, mas reconheço, com uma ternura quase dolorida, a legitimidade do amanhã do outro.

Talvez eu exista apenas nesse movimento de passagem: um corpo que não se deseja, mas que ainda sabe acolher a luz que vem de fora. Como se eu fosse uma casa sem morador, mas com janelas abertas. Não espero mais por mim, e, ainda assim, espero por eles. Sou espectador de um milagre mínimo: o fato de que, mesmo quando a vontade se extingue em mim, ela continua acesa no outro. E isso me basta para não desaparecer por completo.

E então houve aquela noite: Khemjira recebendo doze prêmios como quem recolhe constelações com as mãos. Cada um deles era uma estrela brilhante. Sorrisos que não cabiam no rosto, olhos vívidos como se o palco fosse uma galáxia breve, bem ali. Quando se reuniam, era como olhar para a beleza da nebulosa de Andrômeda, e calar-se diante daquela grandeza. Jimmy Karn, afastado pela própria dor, voltando aos poucos, e eu acompanhando cada passo como quem teme que uma chama se apague com um sopro. Sea Tawinan no palco, dizendo que aceitou porque Jimmy Jittaraphol acreditou por ele antes que ele próprio pudesse. Dois nomes, duas vozes, um laço que parecia maior do que o auditório inteiro. 

Chorei com eles, como se cada episódio, cada aparição, cada hesitação fosse uma estrela que finalmente encontrasse órbita. Não era apenas um prêmio ou um retorno: era a confirmação de que algumas histórias escolhem continuar, apesar de tudo. E eu, que já não acredito na continuidade da minha, assisto à deles como quem observa um céu noturno: não posso tocar nenhuma estrela, mas sei que sua existência ilumina a noite escura, e pode guiar aqueles que andam nas trevas. Cada vitória alheia é um ponto de luz que me permite respirar. Eu me torno constelação do que não sou. Vivo por reflexo, por cintilação emprestada.

Mas o que é isso, afinal? Idolatria? Projeção? Ou uma forma deslocada de sobrevivência psíquica? A psicologia chamaria de transferência de afeto: quando o sujeito, incapaz de investir libido em si mesmo, a deposita em figuras externas. A literatura romântica conheceu bem esse movimento: o herói que ama o ideal porque já não suporta a própria contingência. Novalis dizia que “o mundo deve ser romantizado” para que reencontre sentido; e talvez eu romantize vidas alheias porque a minha me parece, por ora, irredutível ao encanto. Não se trata de fetiche da fama, mas de uma ética íntima da contemplação: sofro na solidão do meu peito, num lugar onde ninguém mais se interessa, onde tudo pareceria “não fazer meu estilo”. E, ainda assim, escolho permanecer fiel a esse gosto, como quem protege uma chama mínima num quarto escuro. A idealização, aqui, não é fuga: é uma tentativa de salvar algo da experiência quando o próprio eu se torna terreno inóspito.

Talvez por isso eu insista: volto sempre aos mesmos rostos, às mesmas histórias, às mesmas imagens, como quem retorna a uma fonte no deserto. Não para escapar do mundo, mas para reaprender a habitá-lo. Se me torno excessivo, se me repito, é porque a repetição é a única forma que encontrei de manter algo vivo. 

Amar à distância, 

idealizar sem posse, 

contemplar sem exigir: 

eis minha forma de permanência.

Hoje chorei de novo por algo que, de fora, talvez soe pequeno: os novos rosto da Domundi escolhendo seus parceiros. Copper querendo Pung desde o início; Pung sentindo-se pequeno demais para alguém tão experiente. Copper chorando, e eu com ele. Depois, Fifa: delicado, quase etéreo, aceito como quem encontra um destino alternativo que também pode ser belo. North e Pupha escolhendo Otto, e Otto escolhendo North: combinações que parecem coreografadas por alguma bailarina invisível. Patji e Ryujin, que o tempo já havia unido antes mesmo da escolha formal. Ali, entre nomes e gestos, eu vi algo maior do que casting: vi afinidades se reconhecendo, como se o acaso fosse apenas a máscara de uma ordem mais suave. Era como se cada escolha dissesse: “não estou só”. Como se o mundo, por um instante, aceitasse ser tecido por encontros e não por ruídos. Eu via ali não apenas pares, mas pequenas promessas de sentido: corpos que se reconhecem como quem reconhece uma casa depois de longa travessia. E eu, de fora, recolhia essas cenas como quem guarda relíquias, não porque sejam raras, mas porque são frágeis. Cada dupla, um pequeno universo que nasce. E eu, que já não espero o nascimento de nada em mim, terra que ressecou e morreu, torno-me testemunha de mundos alheios. Meu afeto não cria, mas acompanha. Não inaugura, mas sustenta. Talvez seja essa minha forma de amor: existir como margem, como céu ao redor do que outros constroem.

E também me alegrei, de um modo quase infantil, ao descobrir que ainda existia, nos arquivos da empresa, a caneca de ThamePo que havia se quebrado. Como se um objeto pudesse ser resgatado do esquecimento e, com ele, uma parte da memória. Infelizmente não há ninguém para assistir comigo, e ver sozinho já não seria mais do a dor da constatação do silêncio como símbolo da solidão. Tenho me deixado encantar pela beleza do Phuwin e do Santa em Me and Thee, pela arquitetura sensível de Melody of Secrets, sobre a qual escrevi dias atrás como quem desenha um mapa de emoções. São ilhas de luz: pequenos refúgios onde o mundo parece mais habitável, onde o cotidiano se deixa tocar por algo que não é só forma, mas promessa. Nessas horas, tudo em mim se aquieta, e eu acredito, por um instante, que o real pode ser mais do que peso: pode ser também claridade. 

É pouco, eu sei. Uma caneca que retorna, um rosto belo na tela, uma narrativa bem construída. Mas talvez a vida seja feita exatamente disso: de fragmentos que não salvam o mundo, mas o tornam respirável. Não é esperança no sentido grandioso, é delicadeza. Uma metafísica mínima: se ainda posso me comover, então algo em mim ainda vive, mesmo que não saiba mais para onde ir.

Agora preciso me levantar, tomar um banho, e cantar numa vida que é minha. Mas que eu queria que não fosse.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Noite doce de verão

O espírito parte em busca de inspiração, algo como uma centelha ou fagulha dourada capaz de romper o grosso véu de nuvens que deixa o corpo e a mente embotados.

É um gesto antigo, quase arcaico: a alma tateando no escuro à procura de algo que ainda pulse. Como escreveu Rilke, “viver as perguntas” talvez seja isso, aceitar a espera pela luz sem exigir que ela se revele de imediato.

Existem algumas obras que combinam com esse humor justamente por combinarem com essa atmosfera, outras, no entanto, se destacam justamente pelo contraste que oferecem. Elas não dissipam a névoa, mas a atravessam com delicadeza, como quem acende uma vela num quarto fechado.

Ainda me lembro de quando assisti o lançamento de Only Boo (2024) em tardes de domingo que se tornaram meu momento de respiração em dias complicados, assim como seria com Your Sky em 2025. Foram pequenas suspensões do tempo, instantes em que a vida parecia permitir descanso sem culpa. Uma pausa, momentos em que podia esquecer as cobranças e pesos e então me contentar com a luz delicada que me beijava as faces durante aqueles cinquenta minutos de cada episódio.

Essa luz não ilumina tudo: ela consola. Como diria Tagore, “a fé é o pássaro que sente a luz quando a aurora ainda está escura”. Rever essas obras não é diferente, mas agora posso fazer isso sem intervalos e, penso que o momento seja propício. Há algo de profundamente humano em retornar ao que nos protegeu quando ainda não sabíamos nomear o cansaço. Eu demorei a fazer isso, e pago um preço caro.

Keen Suvijak surgiu em Only Boo como um rosto novo para mim, embora já seja quase um veterano na indústria. Não só apresentando uma atuação bastante madura como também uma trilha sonora completa quase toda cantada por ele, com uma baita habilidade vocal só vista em cantores mais velhos e experientes. Há na sua voz uma espécie de tempo lento, uma recusa à pressa do mundo.

Percebi ali que não seria uma série comum. Algumas obras não se anunciam pelo impacto, mas pela permanência, ficam em nós como um eco baixo, difícil de ignorar. Essa ficou no meu coração. Muito embora eu esteja cinza, mais pelo pessimismo de um coração que já não sabe ser capaz de amar do que pelos cigarros que venho fumando, ela permanece como uma pequena fogueira na praia inexplorada onde posso, depois de um naufrágio, aquecer as mãos.

Como já tratei em outros momentos, e pretendo fazê-lo mais vezes, gosto de diferentes narrativas, e essa tem um arco de desenvolvimento que me agrada bastante. Algumas obras são fortes pelo seu peso dramático desde o começo, como é o caso de 180 Degree Longitude Passes Through Us, outras equilibram em cada episódio um tema dramático numa moldura cômica, não pesando nem para um lado outro, tornando agradável também, e sempre me vem à mente Fish Upon The Sky quando me refiro a esse equilíbrio.

Talvez porque, como sugere Paul Ricoeur, narrar é sempre um modo de organizar a experiência, não para explicá-la, mas para torná-la habitável. Como tornar uma atmosfera tóxica respirável, exatamente o que vivia na época. Only Boo, por sua vez, permanece quase sempre na área daquela descoberta, é sensível, inocente, brilhante.

Há nela algo do que Manoel de Barros chamaria de “desimportância essencial”: aquilo que parece pequeno, mas sustenta o mundo.

Possui sim seu arco dramático desenvolvido em dados momentos, como no segundo episódio quando somos apresentados ao mote emocional de Kang (Sea Dechchart), que abandona os estudos após a morte do pai e apenas desenha como hobby, não mais pensando nisso como um sonho a ser realizado como profissional. O desenho deixa de ser promessa e vira refúgio, um gesto íntimo contra o excesso da realidade que, ao que parece, nem ele nota ser assim.

Enquanto isso, Moo (meu amado Keen), é o completo oposto, pois tudo que lhe importa é o sonho, mesmo que tenha que sobreviver a uma cidade distante de tudo para isso. Essa contraposição de vontades, Kang com o peso de ajudar a mãe e assumir o máximo de responsabilidades após a morte do pai o faz um adulto prematuro. Seu corpo ainda é jovem, mas seus gestos já carregam cansaço.

Esse estranhamento que causa num Moo que sabe o que quer, mesmo parecendo apenas teimoso, mas que de fato se esforça para conseguir dar passos rumo ao sonho, os fazem ser a fagulha que acende uma chama dentro de ambos.

Clarice Lispector escreveu que “é preciso coragem para suportar a própria delicadeza”. Talvez seja isso que Moo ensine a Kang sem saber. O sonho de Moo precisa passar por mais uma provação, para isso ele busca em Kang a inspiração de um ídolo por sua gentileza. Não o ídolo distante, mas aquele que permanece ali, num altar que podemos tocar, ainda que às vezes seja preciso tirar a poeira acumulada com o tempo.

A centelha de calor que ele precisava num lugar desconhecido, Kang, conformado e de postura firme em sua responsabilidade, encontra num garoto sorridente e decidido uma vontade que ele mesmo perdera.  O menino faz de tudo para realizar seus sonhos, e não larga de seu pé, pois precisa de apoio. Kang assume a responsabilidade de cuidar dele e descobre, lentamente, que está sendo cuidado também.

Ter um sonho é ter um caminho, algo que faça valer a caminhada. Kang perdera isso na morte do pai, nunca sequer abrira o iPad que ganhara. Quando o sonho se fecha, a rotina se torna cinza. Levanta cedo e dorme tarde, assume o peso de um homem. E já nem sorri. Por isso se surpreende quando Moo lhe diz que ele fica fofo ao sorrir: há verdades que só a inocência pode dizer sem violência.

Pouco a pouco Kang se abre, sorri, faz piadas, aceita carinho e, finalmente, o amor. Moo é elétrico, mas possui uma percepção delicada. Ele vê onde dói, mas não acusa, insiste. sorri com carinho e estende a mão. É realmente uma coragem louvável.

Tudo isso tem, como plano de fundo, uma musicalidade jovial, fresca, ao mesmo tempo, cativante e madura. Talvez porque a música, como diria Winnicott, funcione aqui como espaço transicional: um lugar entre o mundo duro e o mundo possível.

O recente debut de Keen no grupo Clo'ver mostra sua habilidade, enquanto Head2Head amplia ainda mais o território emocional de SeaKeen. Há um cuidado raro em permitir que os atores amadureçam junto com as histórias.

O resultado é que encontro um momento de pausa, posso fechar as cortinas e fazer um chá quentinho, sentar e simplesmente sorrir enquanto Moo invade a rádio da escola para cantar a música que fez para se declarar pro moço que vende Kai Palo e arroz com curry na cantina.

E penso, quase sem perceber, que talvez seja isso que a arte faz quando cumpre sua tarefa mais humilde e mais alta: não me salva, mas me sustenta.

É, me parece que vai ser uma doce noite de verão.

“Talvez todos os dragões de nossas vidas sejam princesas que esperam apenas nos ver agir, uma única vez, com beleza e coragem.” (Rainer Maria Rilke)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Nenhuma promessa

Realmente ontem foi dia de completa escuridão. Nos poucos momentos em que estive acordado, obviamente contra minha vontade, eu só sentia o peso de um animal raivoso no meu peito. Me imaginei jogando coisas no chão, em completo descontrole. Algo daquela potencialidade esquizofrênica habita meus pensamentos profundos.

Sabia que ia acordar hoje melhor, mas não quero ter que ficar perto das pessoas, pelo contrário, queria poder até mesmo cancelar os compromissos dos próprios dias e desaparecer. Não que eu esteja "aparecendo" muito. O único lugar que tenho ido é a igreja e, bem, basta olhar como se celebra por aqui para entender porque não tenho muita vontade de ir lá. Na verdade, não tenho vontade de nada. Queria só voltar pra cama e ficar lá, até enfim…  

Há lágrimas entaladas na minha gargante, e nada faz com que elas desapareçam. Penso que não vou segurar por muito mais tempo. Sinto que vou chorar numa cena, com uma música, enfim. 

Foi mais um dia em que me escondi, suportando o calor que já se anuncia com o início do verão nesse domingo. Eu odeio o verão, com todas aquelas pessoas suadas o tempo todo, e odeio porque tudo me deixa suado, o mínimo esforço já é demais. 

O mínimo esforço já demais. Vou precisar me esforçar pra conseguir ir à Missa amanhã, e mais ainda pra cantar, e ainda mais pra ver mais pessoas no ensaio da tarde. E ainda tem as missas de Natal, mais e mais pessoas. Eu não queria ver ninguém. 

x

Queria ter ficado mais tempo e assistido. Mas meu corpo absorveu o energético como se não fosse nada e eu fui dormir. Ele também rejeitava a ideia de passar mais tempo acordado. Caminhei como um zumbi e, embora estivesse fresco à noite, quando acordei estava banhado em suor. 

Droga.

O corpo sempre vence. Ele não debate, não faz concessões, não respeita entusiasmo. Só executa a sentença. Quanto mais você tenta enganá-lo, mais ele se vinga depois.

Hoje tentei dormir, à base de remédios, e fiquei com muito sono, é verdade, mas o barulho não deixou. Portas batendo, gritos e choro de criança. Um inferno do outro lado da porta, e eu pingando suor no meu maldito quarto que pega sol durante toda a manhã.

O inferno não precisa de fogo. Ele funciona muito bem com paredes finas e gente convencida de que o mundo é uma extensão da própria sala. Não existe direito ao silêncio, só a obrigação de aguentar. Dormir virou um luxo. Descansar, um privilégio indevido.

É Réveillon, e meus únicos planos são assistir, à meia-noite fumar um cigarro, talvez fazer pipoca. Já vejo todos animados, com conjuntinhos de peças brancas e, ao festejar, um sentimento que eu desprezo: esperança! Todos idiotas cheios de esperança. Estou com uma bermuda e faz calor demais pra usar camisa.

A esperança é o último delírio coletivo antes da realidade cobrar de novo. Vestem branco como se isso lavasse alguma coisa além da própria consciência. Prometem mudança porque é mais fácil prometer do que admitir que não vão a lugar nenhum.

À meia-noite vão gritar, se abraçar, fingir que algo recomeça, amanhã acordam iguais, só um pouco mais velhos e com menos paciência. Eu realmente não queria ter chegado ao fim desse ano, e nem começar outro "ciclo" maldito. 

Eu fico com o cigarro. Ele não promete nada.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A luz sem pertença

Os últimos dias foram de um contraste muito intenso no meu coração. Assisti silenciosamente a um embate, ao mesmo tempo, interno e profundamente e particular, e aparente, brilhante. O clima de Natal, já conhecido por sua ambiguidade sociológica, sendo celebrado com a profundidade espiritual de um São Francisco de Assis ao tratar da grandeza do gesto de profunda humildade do Deus se fazer homem, pequenino, pobrezinho. Ao mesmo tempo, uma sociedade de consumo onde a mesma data se tornou, em si mesma, um produto. Mais do que vender produtos, hoje vende-se até mesmo a si. 

Aqueles que eu admiro não estão alheios a isso. E foram justamente eles que me impressionaram. As diversas manifestações, as fotos em ensaios de Natal, com os cenários decorados, cenas montadas imitando momentos de intimidade, alegria e carinho, valores reais, mas aqui apresentados de modo artificial. Meus atores favoritos me encantando em imagens de uma beleza que eu sequer consigo descrever. Covers de músicas tradicionais de Natal. Cada uma daquelas fotos poderia ser exposta nas paredes de uma galeria de arte, numa grande ode à beleza. No entanto...

Há algo de inevitavelmente ambíguo na experiência do belo. Platão já havia intuído que o desejo nasce da falta, que ninguém deseja aquilo que já possui, e talvez seja por isso que certas imagens nos alcançam com tanta força: elas não prometem apenas prazer, mas revelam um abismo. É isso que eu sinto ao ver aquela imagem quase onírica de Ford Alan como se ele próprio fosse um floco de neve, Thomas e Kong cantando num cenário que parece ter sido montado pelos próprios ajudantes de Papai Noel, Net e JJ num momento de intimidade na cozinha, em meio a biscoitos de gengibre e bolo com chantilly. O corpo idealizado do ídolo não é só objeto de admiração, ele aponta silenciosamente para aquilo que me falta, para a distância entre o que somos e o que imaginamos poder ser. O desejo, então, deixa de ser leve e passa a ter peso. 

O Belo é o Ideal do Eu e, como tal, não apenas atrai mas também fere, e profundamente. Rilke escreve que o belo é apenas o início do terrível, algo que suportamos porque ainda não nos destrói. Essa frase parece ecoar sempre que olho para essas imagens perfeitas: a pele sem falhas, a magreza, a delicadeza, a luz cuidadosamente calculada. Há nelas um encanto quase sagrado, mas também uma violência sutil. O belo não consola; ele fere com delicadeza. Ele não acusa, apenas se apresenta e, justamente por isso, nos obriga a medir a nós mesmos diante dele. Como finíssimas agulhas de aço frio penetram a pele. Vejo, admiro, sorrio, me encanto e sei que meus olhos brilham, e então, quando a tela se apaga e eu me vejo no reflexo, percebo o abismo que há entre nós. Mais do que geográfico, mas um abismo existencial, ontológico. 

Não somos iguais, de modo algum. Em nada. Freud ajuda a compreender por que essa admiração dói tanto. Ao falar do Ideal do Eu, ele descreve uma instância interna que observa, julga e pune. Os ídolos contemporâneos parecem encarnar esse ideal: não exigem nada explicitamente, mas sua simples existência já nos coloca em julgamento. Admiramos, desejamos, e ao mesmo tempo nos sentimos insuficientes. O amor que sentimos por essas figuras vem misturado à culpa de não corresponder, de não alcançar, de não caber naquela forma.

Essa insuficiência, no entanto, não é apenas psíquica; ela atravessa o corpo, mais ou menos naquele sentido apontado por Foucault, ao lembrar que o corpo é investido por relações de poder, marcado, treinado, corrigido. O padrão de beleza que nos oprime não surge do nada: ele é produzido, repetido, reforçado por imagens, filtros, rotinas e expectativas. O corpo que não se ajusta, mais pesado, mais opaco, mais cansado, passa a carregar não só sua matéria, mas um juízo moral silencioso. Eu não posso fazer os procedimentos estéticos que eles fazem, não consigo malhar e cultivar o corpo perfeito quando até levantar da cama me dói cada fibra do corpo. 

Essa constatação, que ultrapassa a mera, porém completa, diferença estética mas, como disse, até mesmo ontológica, me deixa em estado de crise: entro no ponto do desespero, doença até a morte onde percebo que quero me tornar algo que jamais serei. Schopenhauer dizia que quase todas as nossas dores nascem da comparação, e talvez seja aqui que o sofrimento se torne mais evidente. Não é o belo em si que machuca, mas o gesto quase automático de nos colocarmos ao lado dele. A imagem perfeita não diz “seja assim”, mas nós ouvimos do mesmo jeito. O olhar se transforma em balança, e o corpo próprio nunca parece suficiente. 

É como se todos eles, os que mais amo, estivessem ao meu redor, apontando cada um de meus defeitos, mesmo sabendo que não, eles apenas estão fazendo seu trabalho, que consiste em perpetuar a imagem da perfeição. Ainda assim, causa uma ferida, aprofundada por Lacan ao afirmar que o Eu nasce numa alienação fundamental. O espelho não nos devolve quem somos, mas quem gostaríamos de ser. Os ídolos funcionam como espelhos idealizados: olhamos para eles buscando algo de nós, e encontramos apenas uma imagem impossível. Ainda assim, continuamos olhando, porque há nisso uma promessa,  mesmo que nunca se cumpra, como aqueles pedidos da infância que fazíamos para estrelas cadentes. 

Reconheço que meu amor carrega um estranho tom. O sujeito amoroso, é aquele que espera. Amar um ídolo é habitar essa espera infinita, sem posse, sem reciprocidade concreta. É um amor feito de contemplação, de distância, de silêncio. Não é menor por isso; é apenas mais frágil, mais exposto, mais próximo da ferida. Algo como conceber inconscientemente o amor platônico como resistência silenciosa à posse, uma relação dúbia, pois quero exatamente por saber que não posso ter, ou ser.

Um nome que vem ganhando popularidade ultimamente, talvez por descrever um mundo no qual nos identificamos, e o digo com um gosto amargo na boca, é o de Byung-Chul Han. Ele observa que vivemos numa sociedade que exige transparência total, exibição constante. Tudo deve ser mostrado, iluminado, polido. Em especial ao tratar do cansaço ele aprofunda na exigência da demonstração constante de eficiência. Nesse excesso de imagem, o eros se empobrece, porque não há mais mistério. As fotos de Natal, tão perfeitas, tão limpas, não deixam espaço para o peso, para a sombra, para o corpo que falha. Elas não mentem, mas também não dizem tudo. As minhas fotos, de um ensaio do ano passado, escondem. São apenas as luzes enquanto meu corpo aparece como contraste, quase como se mostrasse que eu sou o total oposto do brilhante, do belo.

A graça só entra onde há vazio. O corpo que sofre, que pesa, que não corresponde ao ideal, pode ser também o lugar de uma verdade mais profunda. O corpo escuro no meio das luzes. Onde a imagem falha, algo humano insiste. Onde a perfeição se quebra, talvez exista espaço para respirar. Eu só não o encontrei ainda. Tudo que faço no momento é sentir a dor em sua intensidade, porém silenciosamente. É como olhar para o reflexo na água e, de repente, passar o dedo sobre ela, e o reflexo tornar-se cada vez mais difuso, ou jogar uma pedra pesada, até que não tenha mais reflexo nenhum.

Assim, a relação com os ídolos não é apenas alienação nem apenas consolo. Ela é um campo de tensão: entre desejo e dor, admiração e inadequação, leveza e peso. Amar o belo, às vezes, é carregar essa contradição sem resolvê-la, e escrever a partir dela é uma forma de não deixar que o silêncio se transforme apenas em culpa.