quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Anulação sem drama

“Perguntado a um grande filósofo, qual era a melhor terra do mundo, respondeu: a mais deserta, porque tinha os homens mais longe.” (Pe. Antônio Vieira)

hoje eu só quero desaparecer direito,
sem drama, sem bilhete, sem ninguém batendo à porta.
não é que algo tenha explodido,
é esse cansaço idiota de existir sem ter feito nada.
dias que te esmagam mesmo quando você fica parado.
dormir seria bom.
acordar quando o mundo já desistiu de mim,
ligar a TV, ver alguma série ruim,
esperar a noite porque a noite não pergunta nada.

Desejo a anulação do gesto e do nome,
o exílio da consciência em trevas brandas;
sou matéria exausta em rotação sem fome,
um nervo que apodrece enquanto anda.
O tempo me corrói sem violência,
e o nada, com paciência, me governa:
sou célula cansada da existência,
buscando no sono a trégua eterna.

não quero que você acabe assim.
esfarelado.
vivendo de migalhas de dia em dia,
sem livro, sem propósito, sem coragem pra se olhar no espelho.
não é vida, é um ensaio mal feito de sobrevivência.
um sujeito que respira por hábito,
que se arrasta como um cão cheio de feridas
farejando lixo só pra continuar.
não desejo isso nem pro pior inimigo.

Não quero legar-te o espólio da ruína,
meu espírito em frangalhos e ferrugem,
essa alma e uma carcaça clandestina
que vive menos que uma sombra 
ou uma fuligem.
Ser homem é mais que persistir no chão;
é não reduzir-se a um resto orgânico.
Que o teu destino escape à podridão
do existir apenas, trágico e mecânico.

no fim, é só isso:
um corpo insistindo em continuar
enquanto a alma calcula o prejuízo.
a vida não explode, ela se desfaz devagar,
célula por célula, gole por gole, noite após noite.
mas ainda assim seguimos,
não por esperança, nem por fé,
mas por essa teimosia estranha da matéria
que, mesmo sabendo do fim,
respira.

e queria parar de respirar

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