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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Nenhuma promessa

Realmente ontem foi dia de completa escuridão. Nos poucos momentos em que estive acordado, obviamente contra minha vontade, eu só sentia o peso de um animal raivoso no meu peito. Me imaginei jogando coisas no chão, em completo descontrole. Algo daquela potencialidade esquizofrênica habita meus pensamentos profundos.

Sabia que ia acordar hoje melhor, mas não quero ter que ficar perto das pessoas, pelo contrário, queria poder até mesmo cancelar os compromissos dos próprios dias e desaparecer. Não que eu esteja "aparecendo" muito. O único lugar que tenho ido é a igreja e, bem, basta olhar como se celebra por aqui para entender porque não tenho muita vontade de ir lá. Na verdade, não tenho vontade de nada. Queria só voltar pra cama e ficar lá, até enfim…  

Há lágrimas entaladas na minha gargante, e nada faz com que elas desapareçam. Penso que não vou segurar por muito mais tempo. Sinto que vou chorar numa cena, com uma música, enfim. 

Foi mais um dia em que me escondi, suportando o calor que já se anuncia com o início do verão nesse domingo. Eu odeio o verão, com todas aquelas pessoas suadas o tempo todo, e odeio porque tudo me deixa suado, o mínimo esforço já é demais. 

O mínimo esforço já demais. Vou precisar me esforçar pra conseguir ir à Missa amanhã, e mais ainda pra cantar, e ainda mais pra ver mais pessoas no ensaio da tarde. E ainda tem as missas de Natal, mais e mais pessoas. Eu não queria ver ninguém. 

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Queria ter ficado mais tempo e assistido. Mas meu corpo absorveu o energético como se não fosse nada e eu fui dormir. Ele também rejeitava a ideia de passar mais tempo acordado. Caminhei como um zumbi e, embora estivesse fresco à noite, quando acordei estava banhado em suor. 

Droga.

O corpo sempre vence. Ele não debate, não faz concessões, não respeita entusiasmo. Só executa a sentença. Quanto mais você tenta enganá-lo, mais ele se vinga depois.

Hoje tentei dormir, à base de remédios, e fiquei com muito sono, é verdade, mas o barulho não deixou. Portas batendo, gritos e choro de criança. Um inferno do outro lado da porta, e eu pingando suor no meu maldito quarto que pega sol durante toda a manhã.

O inferno não precisa de fogo. Ele funciona muito bem com paredes finas e gente convencida de que o mundo é uma extensão da própria sala. Não existe direito ao silêncio, só a obrigação de aguentar. Dormir virou um luxo. Descansar, um privilégio indevido.

É Réveillon, e meus únicos planos são assistir, à meia-noite fumar um cigarro, talvez fazer pipoca. Já vejo todos animados, com conjuntinhos de peças brancas e, ao festejar, um sentimento que eu desprezo: esperança! Todos idiotas cheios de esperança. Estou com uma bermuda e faz calor demais pra usar camisa.

A esperança é o último delírio coletivo antes da realidade cobrar de novo. Vestem branco como se isso lavasse alguma coisa além da própria consciência. Prometem mudança porque é mais fácil prometer do que admitir que não vão a lugar nenhum.

À meia-noite vão gritar, se abraçar, fingir que algo recomeça, amanhã acordam iguais, só um pouco mais velhos e com menos paciência. Eu realmente não queria ter chegado ao fim desse ano, e nem começar outro "ciclo" maldito. 

Eu fico com o cigarro. Ele não promete nada.

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Aforismos

"Arrancamos tanto de nós mesmos para nos curarmos mais rapidamente, que estamos esgotados aos 30 anos, e temos menos a oferecer sempre que começamos com alguém novo. Mas se obrigar a ser insensível só para não sentir nada? Que desperdício!" (Call Me By Your Name)

A cada vez que algo dava errado com alguém, uma parte de mim se ia, uma parte grande. Sempre me referia a isso como um derramamento, como Ganimedes derramando o néctar dos deuses, mas ao chão, num pires, e não nas taças divinas onde ele deveria ser depositado. Algumas pessoas levaram tanto de mim, e largaram na próxima esquina. E não consegui recuperar. E parece que agora não sobrou muito para oferecer a mais ninguém. Mas me forçar a ser insensível para não me machucar de novo parece desperdício, eu sei disso, mas ainda acho que é o certo a se fazer, ou melhor, que é a única coisa que eu posso fazer. Sei bem que derramei o meu amor, o meu néctar, no concreto frio.

Um desperdício. Concordo. Mas não farei nada. Sem mensagens, sem sorrisos, sem investimentos. Afinal, esgotado aos trinta, eu não tenho nada a oferecer, e constato isso com uma mente perturbada e um corpo em total desequilíbrio.

X

O dinheiro tem estado ainda mais escasso nos últimos dias, o que é um eufemismo para dizer que estamos contando trocados para comprar leite e fraldas. Sendo sincero isso nem me preocupa tanto, eu só não quero ficar sem meus remédios, mas até eles começaram a faltar, e estou adaptando para conseguir dormir, um pouco que seja.

Não sei como consegui assistir a essa série, pois fala das pessoas que, graças ao que tenho hoje, são as que mais desprezo: pessoas que colocam o lucro e o status social acima de qualquer outra coisa, incluindo o valor inalienável da vida do outro. São as pessoas mais baixas e vis, e talvez as que mais precisem da misericórdia divina, já que não a reconhecem. 

Me lembra aquela CEO de ThamePo, que também em si representa tudo eu mais desprezo: em nome dos lucros ela separou os amigos, fez o Thame ser odiado, sacrificou o Pepper porque o Thame era mais lucrativo, separou o grupo quando eles tinham finalmente voltado e, por fim, quando viu que não tinha mais saída, descartou até o nome. Pelo lucro tudo é válido. Nojo.

Posição. Por alguma razão é algo levado em demasiada importância. Observo aqui não resquícios, mas uma consequência direta do puritanismo protestante e da moral kantiana. Todos temos que encarnar uma nova mulher de César, porque parecer imoral é pior do que ser imoral. Antes ser imoral e parecer perfeitamente conforme as regras da sociedade do que ser abertamente aquilo que se é. Ser real. O homem fragmentou-se de tal que já nem ele mesmo se reconhece.

X

Durante a Quaresma o Frei Gilson, sacerdote do Instituto Hesed (que tanto admiro pela profunda espiritualidade de suas fundadoras), foi criticado por certo exagero penitencial ao propor uma jornada de quarenta dias rezando o Santo Rosário de madrugada, como, pasmem, sempre fizeram não apenas os santos, mas todos os fiéis razoavelmente devotos se preparando para a Páscoa. Ele apenas fez o que deveria ser absolutamente normal, mas o normal hoje é extremismo e o extremismo da lógica do absurdo é o normal. Mas se esse homem conseguiu colocar o Pe. Júlio Lancellotti (sic!) num hábito religioso e dizer algumas palavras sem conter aqueles jargões estúpidos de justiça social, fraternidade ecológica e tutti quanti, ele já tem meu apoio incondicional e, mais importante, minhas parcas orações. 

X

Dois amigos conversam. O primeiro, visitando a casa da família do outro. Rico, só fala com a mãe por telefone e tudo que ela tem a oferecer como amor são os funcionários que o servem. O outro, o recebe com os pais sorridentes. A mãe prepara uma sopa de algas, prato simples. Serve sorridente enquanto o pai faz piadas sobre o filho no colégio. Ao levar a primeira colherada a boca ele sente algo diferente. Em sua casa tem à sua disposição cozinheiros que já trabalharam nos mais renomados restaurantes do mundo, mas aquela simples sopa é melhor do que qualquer uma que ele já provara. 

- É uma simples sopa de algas, mas por que o sabor é tão bom?

- Como assim? Tem a sua disposição os melhores chefs do mundo, tem algo que eles não consigam fazer?

- Tem, algo como isso. Como posso dizer... Tem um sabor quentinho. 

- Então é só vir aqui em casa mais vezes. 

Realmente, era um sabor quentinho, que ele nunca experimentara antes. 

(Hierarchy)

X

“Depois de tudo, no vazio
da manhã inabitável,
ajuda-me a negar
este remorso:
eu só queria uma canção
que não morresse
e a hipótese de um poema
que não fosse
o lugar onde me encontro
uma vez mais,
sem desculpa, sem remédio,
diante de mim mesmo.”

(Rui Pires Cabral)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Aforismos

Que bom que tenha dado certo, que as armas não precisarão ser empunhadas, nem gritos de guerra pelas ruas da cidade cansada e chuvosa,sem esforço desmedido num objetivo inexistente. A sensação: liberdade, suspiro profundo de alívio, o ar que sai por entre lábios repletos de partículas que, antes, eram de preocupada apreensão. meu abraço, sem jeito, deve ter te deixado brevemente confuso, mas sei que a confusão que estava em sua mente era ainda maior, então tão logo meus braços o soltaram, as coisas devem ter voltado ao normal.

X

Me entristeci que permitiu que seu pecado o dominasse. Goethe já dizia que o que os demônios mais gostam é que aumentemos o seu poder, e é verdade. Diante da queda, a atitude cristã deve ser a da esperança do perdão e o propósito de emendar, não a culpa autoinfligida que pode ser vaidade. Era para ter aproveitado aqueles dias, independente do pecado, e não permitido que ele o dominasse. Isso porque ainda falta entender que, na realidade, devemos sempre manter alinhados nosso senso de proporções, isto é, saber o lugar de cada coisa, processo que leva uma vida, é claro, mas a conversão leva uma vida e, não raras, vem apenas ao cabo dela. 

Como já disse tantas vezes, esse senso das proporções é enriquecido com a formação do imaginário, aquilo que nos instala na realidade, que coloca nossos pés no chão, que nos faz diferenciar não o santo do pecador, mas aqueles muitos homens que possuem em si virtudes santas e pecados coexistindo. Observando os extremos temos a impressão que apenas eles existem, mas não é verdade. Há uma imensidão de homens e mulheres que, cometendo pecados horríveis, se redimem por uma ação heroica, há pessoas de vida medíocre, piedosa e maliciosa, e há pessoas que vivendo santamente, de súbito num rompante de ódio, morrem como os piores dos pecadores. E muita complexidade envolvendo todas essas relações, alegria e dor, sonhos, desejos velados, malícias... Assim então vamos entendendo o peso real de nossos pecados. Não deixamos de ter culpa, mas a colocamos no lugar onde a contrição verdadeira não será ofuscada pela vaidade.

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Foi uma oportunidade perdida: um dia inteiro reunindo as lideranças da igreja local e tudo que tivemos foram pregações sentimentais salpicadas de versículos bíblicos ao modo protestante. Falaram sobre aprofundar a vida de oração e superar as dificuldades dela, falaram sobre confiar no amor divino. Nenhuma citação ao Catecismo ou aos documentos da Igreja, ou ainda as obras dos santos. Era uma excelente chance de falar da Noite Escura de S. João da Cruz, ou a carta Deus Caritas Est de Bento XVI. E assim continuamos: líderes que não conhecem o que devem fazer ou anunciar, e que reclamam de não atingirem bons resultados. Enquanto isso, os Papas falam, os bispos falam, os santos falam, os teólogos falam. E ninguém escuta. 

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"Mas advirto que as coisas não são como ao teu desejo parecem." (Dante Alighieri)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Aforismos

"Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma." (João Guimarães Rosa)

Me preparei para dormir de novo, mas meu coração palpitava, queria dizer algo, e eu sabia que quando me sentasse para escrever isso sumiria, e assim foi. Apenas uma breve inquietude do amor, aquele sentimento de ida e volta, do querer e do fugir, a dicotomia de um coração ferido que não quer mais se machucar, mas que ainda lida com as ânsias inflamadas das noites escuras.

Estava cercado por algumas centenas de pessoas, e fazia um trabalho mais ou menos importante, que me rendeu várias ligações e mensagens nos últimos tempos. Mas, em dado momento, eu só conseguia olhar o nada, olhava pra frente sem pensar em nada. Não, não é verdade. Eu pensava que não queria voltar. Queria poder ficar mais uma semana afastado, quinze dias, um mês, ou que nem mesmo voltasse para aquele inferno comandado por demônios. 

Não deveria fazer compromissos aos quais eu não vou querer ir. Mas, eu acho que no atual estado, eu não iria querer nada, e nem ir a lugar algum. 

Senti faíscas? Não sei bem dizer. Mas eu queria um abraço, e atravessei o salão e todas aqueles bancos, e o abracei sem me importar que nos vissem. Não viram, não somos importantes. Mas, nos pequenos toques, no ombro, no braço, nas espáduas enquanto saíamos sozinhos, eu percebi uma pequena luz, amarela, viva, brilhando rapidamente depois de sumir por entre a sua pele rosada. Estava confortável, foi uma noite agradável, até mesmo o breve abraço de despedida, calor repentino. Mas não estou apaixonado. Talvez eu esteja descobrindo uma amizade, mais uma que provavelmente estragarei. 

Gosto de andar de modo que me sinta bem, apesar de não ter dinheiro o bastante para comprar tudo que que quero, mas ainda posso pintar as unhas ou usar os cabelos grandes, batom nos lábios. No entanto, para além da aparência, atualmente gordo e cansado, acho que gostar de mim, ou até me amar, é algo para se envergonhar. É, deve ser isso.

Um toque muitas vezes pode ser simples como a pétala de uma rosa-branca, delicada, bela, simples. 

E ainda me resguardo o direito de me irritar, ainda que seja com pouca coisa, pois essas coisas não são raramente os únicos momentos, nem digo de alegria mas, da menor distração nessa vida desgraçada enquanto os restante dos meus dias eu passo naquele inferno. E digo restantes porque sinto que a cada dia naquele Círculo da Colina de Fogo, é como se me restassem poucos dias sobre a terra. E com isso, nessa ira final eu só queria conseguir um médico que me afastasse por mais dias, que pudesse realmente mudar de ares, já que nos últimos meses eu vou dormir com uma única prece em mente: a de que não acorde no dia seguinte. 

Mas eu sempre acordo.

E lá estou eu, sem Virgílio a me conduzir, às nove da manhã, suportando o peso de um mundo ridículo.

Fico pensando no quanto eu já desisti depois de tudo, como na música "faça uma lista dos sonhos que tinha, quantos você desistiu de sonhar?"

Muitos, muitos sonhos, muitos amores. Hoje apenas vagueio por aí, sem rumo, paz, sem lar, sem morada.

X

"O indivíduo pode vislumbrar numerosos objetivos pessoais, finalidades, esperanças, perspectivas, que lhe deem impulso para grandes esforços e elevadas atividades; mas, quando o elemento impessoal que o rodeia, quando o próprio tempo, não obstante toda a agitação exterior, carece de esperanças e perspectivas fundamentais e se lhe revela como desesperador, desorientado e falto de saída, e quando responde com um silêncio vazio à pergunta que de qualquer modo se faz, consciente ou inconscientemente, acerca do sentido supremo, ultrapessoal e absoluto, acerca de toda atividade e de todo esforço — então se tornará inevitável, justamente entre as naturezas mais retas, o efeito paralisador desse estado de coisas, e esse efeito será capaz de ir além do domínio da alma e da moral, e de afetar a própria parte física e orgânica do indivíduo." (Thomas Mann)

sábado, 8 de fevereiro de 2025

Aforismos sobre solidão e... Amor

A coisa piora, já sinto dores pelo corpo todo, é aquela fase em que cada fibra do meu ser implora pelo não-ser. E tem sido assim, olhos baixos e cansados, disposição em frangalhos, o mundo que passa sem que o note. Ele que passa sem me notar. Eu me recusando a notar o outro. O outro cansa. O outro é um inferno, dizia o psicanalista. E eu, também inferno, preciso dormir, preciso esquecer, apagar, não me comunicar, não me cansar. E tudo me cansa. As pequenas intrigas, as grandes burrices, a política internacional, a louça suja e as garrafas vazias, o fato de que sem mim as pessoas não conseguem encontrar um maldito boleto ou enviar uma mensagem para o correspondente certo. Isso me deixa, faz eu pensar que estou aqui acorrentado, mas não estou, a vida de todos pode correr bem sem mim. Eu só queria que me deixassem ir. Eu só queria ser livre. 

Pouco a pouco fui vendo mais claramente o defeito mais difundido de nossa maneira de ensinar e de educar. Ninguém aprende, ninguém aspira, ninguém ensina — “a suportar a solidão”. (Friedrich W. Nietzsche)

Gostei daquelas imagens, de um amor ganhando seu espaço, não nas imagens toscas e superficiais da relação carnal e imediata, mas da gradual aproximação, do espaço modificado. Espaço de intimidade, que se desfez em espaço vazio, com as coisas do antigo amo ocupando espaço, no armário e no coração. As coisas, sozinhas e a dois, adquirem significado profundo. As roupas colocadas no armário, bem ao meio daquelas que estava ali antes, mostrando como, a partir daquele momento, eles estariam unidos, quase confundidos. Também pequenos detalhes, como as canecas com os nomes de ambos, para momentos de singela intimidade, um café antes do trabalho, uma bebida quente antes de dormir, acalmando corpo e mente. Skincare e banheiro, momentos compartilhados, também os sabores, agora eram os sabores deles, dali para frente, e assim o seu amor foi ganhando forma, contornos, mesmo nos encontros escondidos, nas noites a sós, no apoio mútuo. É assim que as coisas, essas coisas de amor, de amor de verdade, desses que deixam o rosto vermelho e o coração quentinho. 

"Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo."
(Alberto Caeiro)

Também aquelas outras, imagens da construção, ou melhor, da reconstrução da crença no amor. Algo difícil de se conseguir depois que foi quebrado, como um cristal em mil pedaços minúsculos. Mas aos poucos, o cuidado, a atenção, o carinho, rompem até as barreiras mais sólidas dos traumas que os amores partidos geraram. Destino ou livre arbítrio? Não importa, o amor pode operar onde quiser, até mesmo na linha tênue entre ambos, e então transformar, o ódio, a indiferença, o silêncio de anos de chuva intensa, em momentos de construção da vida de dois como um só. 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Aforismos

"Quem ama quer e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos." (Victor Hugo)

Espero conseguir descansar, ainda que brevemente, na noite de hoje. Acho que estou com vontade de comer algo doce, pode ser que vá dormir mais tarde, se bem que não decidi o que assistir, lembro que já faz um tempo que não bebo na sacada olhando o tempo lá fora, talvez isso. Tenho passado por outro episódio depressivo, na verdade, parece que não tenho vontade de nada. As noites não têm sido exatamente desagradáveis, e tenho conseguido aproveitar um pouco mais esses momentos. Mas sinto aquele indiferentismo querendo voltar. 

Assim como o amor quer voltar. 
Assim como a tendência suicida quer voltar. 
Assim como a desesperança quer voltar. 

Talvez eu desejasse que as noites fossem desagradáveis, ou que fossem qualquer coisa. Sei que seria demais desejar que fossem alegres. Talvez eu termine aquele vinho hoje, vendo uma série triste, mas aí eu não conseguiria acordar amanhã cedo, ou talvez eu compre um bolo e só assista um pouco antes de dormir, ou melhor, ficar acordado mesmo, ver algo triste e depois dormir o dia inteiro, ou algo mais alegre, com pitadas de melancolia. Talvez eu mereça um dia assim... Mas assim como? 

As perguntas que fazemos dizem muito sobre nós, revelam, como dizia S. Agostinho, pelo menos aquilo que não sabemos, e eu sempre penso naquilo que pergunto, e atualmente percebo o quanto minhas perguntas revelam um vazio, e uma imensa angústia partindo desse vazio. 

"Cada um de nós tem a sua própria morte, transporta-a consigo num lugar secreto desde que nasceu, ela pertence-te, tu pertence-lhe." (José Saramago)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

Aforismos

"Quantos amores jurados pra sempre, quantos você conseguiu preservar? (...) Quantas pessoas que você amava hoje acredita que amam você?" (Oswaldo Montenegro)

Por um instante, enquanto pensava em paixões antigas, que se foram sem olhar para trás, e também paixões confusas que, por silêncio, me deixam anos na escuridão, a espera da candeia que pudesse tirar do alqueire. E aí brilhou, não numa foto desses passados, mas num vislumbre futuro.

Não quero, não deveria. Mas eu posso voltar a me apaixonar, posso permitir que ao menos essa luz se reacenda dentro de mim. Mesmo sabendo quanta dor uma paixão pode causar, ao menos é uma dor que mostra que o homem vive, se é capaz de amar é porque está vivo. Talvez, mesmo não querendo por conta de toda a dor passada, eu devesse tentar abrir o coração ao amor... Talvez eu devesse tentar superar esse medo de amar. Como cantava o Pe. Zezinho, scj, explicando que as pessoas fogem do amor, e depois que se esvaziam, no vazio se angustiam, e aí duvidam de Você (Deus). E esse foi bem o caminho que tomei, fugi, me esvaziei e agora questiono esse mesmo amor que antes me era o motor para tudo o mais. Mas o que era o amor que sentia e que hoje se parece ter perdido, esmaecido, fugido para algo tão profundo dentro em mim que se entranhou do mesmo modo que as rochas se sedimentam com o passar das eras e se torna difícil até mesmo dizer onde começa uma e termina outra...

Porque numa ocasião em que este explicava com muitos pormenores o mecanismo do amor, interrompeu-o para perguntar: “O que é que se sente?”. José Arcadio deu-lhe uma resposta imediata: - É como um tremor de terra. (Gabriel García Márquez)

Eis que veio sobre mim aquele torpor, já desde a noite anterior. Ontem eu não conseguia reagir, como se uma pesada bola de ferro estivesse não em meu pescoço, mas em minha cabeça. E foi horrível, e o dia se passou como se não existisse, apenas como um borrão. E cada vez mais dias estão assim. E, não raramente, chego a pensar que a própria vida é assim. Percebo isso olhando meu quarto, não é preguiça, mas já há vários meses ele está uma grande bagunça, e eu sempre digo que quero organizar, e sempre acaba ficando pra depois. E depois, e depois. E então as coisas vão se acumulando. Os livros, os terços, as roupas da pilha "ainda dá pra usar." E assim vi seguindo, um dia após o outro, e eu chego, cansado, chateado, deito pra ouvir uma aula, levanto pra comer e assistir uma série, e deito na esperança de adormecer o mais profundamente possível. E as coisas continuam bagunçadas. Também me veio certa vontade de chorar. Acho que vou abrir um vinho.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Aforismos

Não é como se as ideias tivessem sumido no instante que vi o espaço branco em minha frente. Não, já estava tudo em branco antes, eu apenas me dei conta da vacuidade do meu pensamento. Ou seria do meu coração?

Me pergunto se pode ser o excesso de telas e conteúdo nas redes sociais. Ou a obrigatoriedade das conversas intermináveis com o intuito de não ficar completamente isolado de todos. Ou uma resposta depressiva ao meio intelectualmente hostil em que estou. 

Mais um dia começou, um dia preguiçoso, abafado, com avisos de chuvas intensas. Queria poder voltar pra casa, dormir o dia todo, e quem sabe acordar com um pouco mais de vontade para ver ThamePo logo mais à noite.

Talvez eu devesse pegar um café. Ontem e pedi pizza, e talvez os pedaços frios dela sejam a melhor coisa que vai me acontecer hoje. 

Ando um pouco irritado. Com a burrica, a estupidez, a mesquinharia... Minha e também dos outros. Me irrito de minhas escolhas, me irrito das ideias idiotas que sou obrigado a seguir. Mas que posso fazer? 

Acho que é mais do que um café pode dar conta. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Aforismos

A mente um pouco pesada, parece que estou de ressaca, mas não. É apenas o velho pessimismo tomando conta de mim outra vez, deixando tudo cinza, sem graça, meio assim, sei lá. 

Contraste entre mim e o mundo brilhante num dia de verão. A minha inspiração esses dias desapareceu completamente, como o sol faz sumir as poças de água das chuvas finas da noite. Não gosto disso. Sinto falta da minha profusão de pensamentos que me faziam escrever poesias. Sinto falta. Bem, convenhamos que passei tanto tempo sentindo tanto que, agora, quando já não sinto mais nada, parece que sinto falta de sentir, sinto falta de amar, mesmo que lembre o quanto amar é dolorido. Parece que, assim como a chuva, o sol, a inspiração, a alegria, o amor também passa... E o que fica?

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E eis que sinto que em breve nos separaremos. Minha verdade espantada é que eu sempre estive só de ti e não sabia. Agora sei: sou só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade da solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo a minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória íntima que na solidão pode se tornar dor. E a dor, silêncio. Guardo o seu nome em segredo. Preciso de segredos para viver.

Para cada um de nós - em algum momento perdido na vida - anuncia-se uma missão a cumprir? Recuso-me, porém a qualquer missão; Não cumpro nada: apenas vivo. (Clarice Lispector)

X

Espero que não torne a sentir nada, por isso virei o rosto, cortei a conversa, não queria olhar aquela franja, quando precisei fitá-lo, prestei atenção apenas nas marcas daquele rosto. Como se focar em seus defeitos fosse me impedir de tornar a me apaixonar. Não é isso que vai me impedir, mas a minha descrença no amor, é isso. É olhar para a beleza e sentir nada além de indiferença, nem desejo e nem repulsa, indiferença.  

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Aforismos

Albert Camus (Foto: Valeria Chaves/Ed. Record)

Minha cabeça parece que vai explodir, já tomei vários remédios e não adiantou. Parece que a qualquer momento realmente vai lançar miolos a esmo. 

Algo mais também dói, parece que vai explodir, mas não sei como é espalhar saudade a esmo. 

É que essas partes que meu ser se dividiriam, muitas delas são partes de você em mim. É assim aqui dentro. Me sinto frágil, vazio e sem contorno, e já não me vejo mais em mim, e o pouco que vejo, é mais você do que eu, e aos poucos vai desvanecendo. 

Odeio quando as ideias desaparecem assim, mas parece que terei de me acostumar. Talvez o meu normal de agora em diante seja viver a mercê de um eterna efemeridade, onde as coisas que encantam se vão rapidamente, num piscar de olhos.

E então penso no amor, pois já não consigo devanear como antes, até isso roubaram de mim. Vermes malditos! 

Alguns diriam que ainda é cedo, que não conheci direito a vida, e já estou anunciando a hora da partida. Que não essa partida a única capaz de mostrar a verdade profundamente escondida.

Senti sua falta nos últimos dias e, admito, foi a única coisa que senti desde muito tempo... 

Eu venho me sentando ao lado dele quase todos os dias desde o fim do ano passado. Um tempo atrás eu teria enlouquecido de alegria, mas, embora tenha até ficado meio animado com isso, hoje eu vim desejando até mesmo que ele não aparecesse. 

Porque não importa mais, nada importa. 

Tornei-me uma pessoa que anda pela cidade, quando ela está vazia, as casas e os prédios com luzes apagadas e ruas com vento frio gritando nos ouvidos. 

"Me recuperei daquele dia
mas eu nunca mais voltei a ser eu mesmo."

arman

sábado, 11 de janeiro de 2025

Aforismos

Esqueci completamente o que queria dizer, se foi, escondeu-se por entre as nuvens escuras e pesadas como o sol de um verão atipicamente nublado. Será que ainda há alguma luz por depois desta grande muralha? 

E então eis que nos tornamos frios, distantes, desanimados. E que a vida nos parece cada vez mais desanimada. E tudo parece tão distante. E eu tão sozinho. E o doce não tão doce. E o amor mais uma mentira contada pra nos ludibriar. E a felicidade também. E o desânimo e a dor parecem as únicas coisas reais por aqui.

X

Ele pediu que o outro ficasse parado um momento, e então se aproximou, olhou-o nos olhos fixamente, contemplando a ternura que havia naquela negritude. Aproximou-se mais ainda, pensou nas palavras de seu amigo, elas ecoaram: "se você quer saber se gosta dele, aproxime-se, toque-o e então, se sentir seu coração bater mais rápido, isso é o que chamamos de amor". E foi isso que aconteceu, quando ele o envolveu num abraço, quase assustado, porém, sincero. Confirmou-se aquilo que todos já sabiam, menos aquele que abraçara: 

era amor.

X

POEMA PERDIDO

Porque eu trazia rios de frescura
E claros horizontes de pureza
Mas tudo se perdeu ante a secura
De combater em vão

E as arestas finas e vivas do meu reino
São o claro brilhar da solidão


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Aforismos

"Tudo que amei,
amei sabendo que 
acabaria."

(Mukowski)

E acabou, acabou mesmo antes de começar. Acabou simplesmente porque não era amor, não era nada, como tudo o mais. 

Já não ouso mais amar. Não creio mais no amor. Não me permito mais. Apenas olhar para alguém é o suficiente para tudo se revirar dentro de mim e eu me afastar com asco de quem quer que seja.

"Que pena, meu bem. Meu coração 
era tudo que eu tinha de valor, mas 
agora está quebrado e eu não tenho
mais nada para te dar."

(Mukowski)

E é isso, não sobrou mesmo mais nada. Me tornei sala vazia, fonte lacrada, jardim fechado. Choraria se ainda tivesse lágrimas, e não digo essas palavras com orgulho ou afetação. Apenas digo, como quem olha o céu e diz "o sol se foi."

X

Vi uma pessoa dizer que as segundas são oportunidades de recomeço. Discordo. Segundas são uma recordação das obrigações que nos esmagam, que mais uma semana infernal de abusos e assédios vem por ai. Segundas são o pior que a humanidade tem a oferecer urrando por entre as vinhetas do Fantástico, ou um espírito baixo e atormentado sussurrando o quanto somos miseráveis. Segundas são insuportáveis porque as pessoas as fazem insuportáveis. São como um abraço num cacto cheio de malditos espinhos. E querem que você reapareça sorrindo, bem, feliz e saudável, concordando com cada ideia idiota de burgueses imbecis. Estamos cercados deles. E eles amam segundas. E eu já acho que elas revelam o que de pior há nessa nossa humanidade fracassada. Tudo que eu queria era tomar um grande porre, ou encher a cara de todos os remédios possíveis e passar direto pelas segundas. 

X

Queria conseguir definir com mais precisão o que venho sentindo. Não é uma indiferença, pois se fosse não me afetaria de modo algum. Mas, ao mesmo tempo, eu olho para as coisas com uma descrença imensa, com uma infelicidade total, um pessimismo máximo. É como se eu estivesse triste por ter perdido a fé na possibilidade de as coisas melhorarem. 

E então todos os dias transcorrem da mesma maneira, num tédio tremendo, numa lida constante com a imbecilidade burguesa, sem nem ter disposição para escrever. 

X

Você vai morrer, eu vou. Todo mundo vai. 
A vida não espera. 
Ela corre, devora, e você tem que correr atrás ou fica para trás. 
A verdadeira pergunta não é se você vai morrer, mas se vai viver antes que isso aconteça. 
Vai amar, vai se perder, vai falhar, vai lutar, vai se jogar de cabeça no que realmente importa? 
Porque, no fim, só sobra o que você foi corajoso o suficiente para viver.

(Charles Bukowski)

sábado, 4 de janeiro de 2025

Ser ou Estar

"Não sei dizer o que há em ti que fecha e abre; só uma parte de mim compreende que a voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas." (E. E. Cummings)

Num dia tão quente, poder sentir a brisa fresca do mar no meu rosto foi um alívio. O suor descia em linhas finas pelas minhas bochechas e pescoço. Foi diferente, tanto pelos vários meses que não voltava lá, quanto pela companhia. Me sentia inseguro com minha aparência, além de gordo, perguntava se estava afeminado demais por usar shorts e um quimono florido. Ele, como um homem simples. Não fui com nenhum interesse, e como venho dizendo há tempos, espero não ter mais esse tipo de interesse mais. Então tratei de sufocar toda e qualquer faísca que surgia na minha cabeça.

Mas, ainda assim, poder contemplar o mar cinza-escuro, as nuvens de chuva se formando e escondendo o sol que, timidamente, brilhava no fim de tarde, foi bom. Sentia falta desse espetáculo significando o infinito. Fechei os olhos, respirei fundo sentindo o cheiro da vida preencher meus pulmões. Ouvi a conversa apressada dos turistas de outros países e sorri, sorri simplesmente porque, embora infeliz e sem esperança, estava ali.

Ao mesmo tempo não estava. A mente divagava, longe, nem sei dizer em que paragem se perdia. Estava consciente da companhia ao meu lado, estava consciente do calor que fazia embaixo da batina no calor do início de janeiro na missa da manhã, estava consciente dos pássaros que passavam rápido e da movimentação num dos pontos turísticos da cidade. Mas, ao mesmo tempo estava distante, perdido em mil galáxias, em dezenas de histórias, mundos tão distintos que nem conseguiria descrever.

E isso mostra um pouco do quanto eu gostaria de não estar aqui. 

Queria poder romper a relação entre ato e potência no meu ser, e deixar de ser, retornar ao nada, desfazer o ato e deixar a potência no não-ser. 

Hoje foi mais um dia que dormi a maior parte do tempo. E não há nada que eu queira fazer. Retomei um curso de um assunto que me interessa, mas não foi o bastante pra ficar acordado o dia todo. A quantidade de remédios que tomei nos últimos dias é um absurdo, e isso vai ter um impacto terrível, como posso prever. Mas, que mais posso fazer? Ou melhor, o que mais há para se fazer nessa vida miserável? Já não vejo graça no beber, ou em procurar alguém nos aplicativos de encontro e pegação. Já não vejo graça em tentar fazer amigos... Já não vejo graça em nada. 

E, antes que percebesse, os dias passaram, 

vazios...

e eu nem gostaria de estar aqui.

"Eu estava morrendo e ninguém se importava, nem mesmo eu" (Charles Bukowski)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Clima de Festa

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
(Augusto dos Anjos)

O clima de festa domina, camisas brancas, o espocar dos fogos, as músicas, sorrisos e abraços. Mas eu não. Há dias que não faço outra coisa além de dormir, e só. Hoje não foi diferente. Dormi o dia todo, na esperança de que isso destrua meu fígado e tudo o mais por dentro por conta do grande número de remédios, acordei, fui para a missa e bem, danem-se as comemorações de Ano Novo, vou dormir de novo.

Poderia falar de como achei bonito ele abraçando os parentes na casa cheia de gente, enquanto voltava eu pra casa. Poderia falar de como fiz carinho naquele meu amigo, num momento delicado, sem segundas intenções. Poderia falar da saudade, de como queri revê-lo e abraçá-lo. Poderia, mas nada disso vale nada. Vou enforcar todos esses sentimentos dentro de mim, e iniciar o ano com todos eles mortos, 

como eu estou morto. 

como eu deveria me enforcar.

Numa noite onde todos estão em festa. 

E eu preparo meu próprio sepulcro.

Noite,
não estás sozinha.
há inúmeros outros eremitas. 

(Qassim Haddad)

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Aforismos

Detalhes e nuances quase imperceptíveis. Um pequeno sorriso, falso é verdade, mas com um olhar triste a compor o todo sem que quase ninguém o perceba. O silêncio diante de uma rotina que já não existe mais pois o casal já não existe mais, pois o amor já não existe mais. Sobraram apenas os fantasmas daquelas noites insones de trabalhos extenuantes, sonhando um sonho que já não existe mais também, porque aqueles dois já não existem mais. Sobraram apenas os sanduíches, o que comiam rápido, pois o trabalho era muito. Mas até esses dois sanduíches agora são uma lembrança amarga de um passado triste, nebuloso, arrogante, que se esqueceu de todo amor e de toda dedicação que recebeu.  

E essa lembrança tomará agora novo significado? Uma parceria para corrigir os erros de um passado bem intencionados, escondidos atrás de um personagem meticulosamente montado, poderá também dar lugar a um sentimento novo, um sentimento advindo da visão daquela verdade escondida atrás daquela máscara e que podia ver as lágrimas que ninguém mais via?

X

Eu disse que não iria dormir todos os dias, mas é o segundo dia das férias e já é o segundo dia que uso meu habitual coquetel para apagar o dia todo. Isso porque se paro, e penso, em algo pra fazer durante todo o dia, eu só consigo pensar nisso, eu só consigo pensar em voltar a dormir. 

Isso porque, diária e constantemente, o fato de existir me incomoda sem parar. Enquanto durmo é o único momento em que eu consigo esquecer isso. E eu sei que isso significa ir sempre mais fundo no abismo, olhar mais e mais para o abismo, até que ele olhe de volta, e responda, com seu silêncio mortal. 

Queria que algo me despertasse desse torpor, o qual eu mesmo me coloquei. Que fosse o sorriso fofo do Kongjiro ou o olhar sério e sexy do Thomas... Qualquer coisa... Mas, hoje, só desejo o sono, porque pelo menos ele se aproxima daquele sono abaixo da terra, do qual não mais se acorda.

Percebi que me tornei assim, alguém que só espera poder dormir, que não quer nada além disso, porque simplesmente não acredita em nada além disso. Amor não existe mais, esperança se foi, as lágrimas secaram, não há futuro e nem salvação. Nosso único destino é a morte, a qual encaramos de olhos frios e opacos enquanto se aproxima. Abracemos o vazio. 

"Que dizem aquelas letras que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser.” (Pe. Antonio Vieira)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Aforismos

Riona Buthello

Mais uma vez domingo, o pior e mais desgraçado dos dias da semana, que volta como parte de um ciclo infernal sem fim. E não há muito que eu queira ou possa fazer. 

Algumas coisas são tão belas e tão distantes da minha realidade que talvez nem possam dizer-se sonhos, mas quem sabe delírios de uma febre que nunca diminui. E então, nesse confronto de delírios e realidades, as palavras se vão, ficam apenas algumas imagens, esses relances românticos. Fogem-nas de mim como o amor sempre me fugiu também. Como uma lembrança turvada por décadas, como se houvesse um véu entre o eu e o objeto desejado.

Resta apenas isso, um sonho distante, um reflexo que não se vê direito numa janela coberta de gotas de chuva. Muitas delas escorrem, caem na terra e se perdem, se perdem... Se perdem como eu ao pensar nos amores que antes eu tinha, se perdem como eu ao ver todas aquelas histórias de amantes e enamorados. Se perdem como eu me perco, sentindo tanto e nada ao mesmo tempo que já nem sei que nome dar a isso. Perdido, sem amar e sem ser amado, mas amando as histórias de amor, que parecem ser a única coisa a trazer algum sentido a esse mundo. 

Como um homem tímido que vence suas próprias barreiras para ficar ao lado daquele que ama, ou o outro que, vendo o pretendente tão lindo e aparentemente inalcançável, nem sequer se atreve a pensar que ele o ama de modo incontestável. E aos poucos vão convivendo até que todas as camadas sejam transpostas, e reste apenas a sinceridade de estar junto ao outro. 

Eu não queria dormir de novo, não nesse dia incomodado pelo calor e o sol brilhante. Não queria mesmo. Mas o que mais eu poderia fazer, aliás, o que mais eu vou poder fazer nos próximos dias se o que era mais próximo de um plano se foi por água abaixo? Não haverá abraços de reencontro e nem lágrimas de emoção. Haverá o silêncio do meu sono por vários dias. E durante mais de meio ano eu esperei, esperei pelo momento que poderia dar um abraço forte, como foi aquele último, dois anos e meio atrás. Agora nem mesmo sei se chegarei vivo a um encontro depois disso. 

O que um homem sem perspectivas e dinheiro pode fazer numa cidade como essa em pleno verão? Aliás, que pode um homem como eu fazer, em qualquer época? Não preciso dizer da tristeza inerente a esses dias, aliviada talvez apenas pela ausência da raiva que normalmente me acompanha. 

Por não encontrar respostas para essas perguntas, eu vou dormir. Vou aos poucos me tornando uma lembrança turvada pela distância, como se houvesse um véu entre mim e a existência. 

É, não há muito mais que fazer. Parece que todos têm uma vida, que todos vão a bares, cafés, praias, cinemas e eu, apenas tenho essa vontade de simplesmente sumir, desaparecer. É essencialmente solitário ser eu, que sempre quis ir diante do outro. 

Como o sol que hoje brilha forte, amanhã poderá apenas uma lembrança distante pelas grossas nuvens de chuva. O amor que um dia me iluminou com clareza que a do meio-dia, agora não é nada mais, e permaneço em escuras trevas o tempo todo. Até que as trevas de um novo dia cheguem. 

"Depois que te amei, também por mim senti
Este esquisito amor de não andar comigo..."
 

(Belo Teixeira de Pascoaes)

sábado, 14 de dezembro de 2024

Aforismos

“O que realmente sinto falta é de ter clareza mental do que devo fazer o segredo é encontrar uma verdade que seja verdadeira para mim, encontrar a ideia segundo a qual eu possa viver e morrer” (Søren Kierkegaard)

Não venho conseguindo escrever, nos últimos dias adoeci de tal modo que tenho apenas ficado na cama, excessivamente consciente de cada dor. Uma infecção tomou conta das minhas vias respiratórias e logo atingiu a garganta, resultando em amigdalite. O resultado: dores por todo o corpo, febre, enjoos, calafrios. Faltei a semana inteira de trabalho, e não estou muito melhor agora. Desconfio de dengue desde o princípio, mas não vou contrariar os médicos. Só têm sido dias ruins, doloridos, cansados. 

Mas, de que adianta ficar em casa para me recuperar se aqui é tão ruim quanto a outra opção? É tudo inferno, aqui e lá. Pessoas me perturbando o tempo todo, choro de criança, entra e sai de gente, impossível descansar assim. Eu preciso logo dar um jeito de sair daqui. Não aguento mais ficar vivendo entre dois infernos nessa vida desgraçada.

Hoje foi o primeiro dia em que me vi com menos dores. Ainda estou com um pouco de incômodo na garganta e alguns pontos doloridos, mas nada comparado com os últimos dias. 

Estou feliz porque hoje tem a estreia de ThamePo na Netflix, e domingo episódio novo de Your Sky. Só me incomoda que tenha sido necessário ficar doente pra conseguir aproveitar isso. Mas, paciência... Espero poder mudar isso em breve. Ao menos tenho, nessa sexta, um breve lampejo de vontade.

Posso não ter dinheiro para pedir comida, ou amigos com quem possa partilhar esses momentos, mas ainda tenho esse brilho, os sorrisos de William e Est, de Thomas e Kong... Algo que ainda me faça querer viver, mais um único dia que seja...

Porque em todos os outros só o que vejo é uma sucessiva apresentação de desgraças, e mais uma vez a vida parece querer triturar todos os sonhos, reduzir as ilusões a pó. Não se deve sonhar, não se deve amar, não posso comer, sair ou me divertir, sempre cansado demais. E ainda dizem que a culpa é minha. Malditos!

Mas essas coisas são apenas coisas que interessam a mim. Eu fico querendo falar sobre eles, ou comentar como fazia, depois de cada episódio, mas não tenho mais disposição, e as pessoas com quem eu converso não querem ouvir sobre isso. Sinto, mais uma vez, que tudo que amei, amei sozinho. E então é melhor que eu venha aqui, e dizer que o Est está absurdamente lindo, e que eu achei que só o William ia sustentar o drama da série, mas com uma boa direção ele também conseguiu sustentar bem, e eu chorei no primeiro episódio. Fui dormir feliz.

Ao menos tenho as histórias... 
Ao menos os sorrisos, 
os tímidos
os safados
os intencionados

Uma nova história
um moço tímido e o outro de saco de cheio de tudo
mas com um sonho no peito
e então ambos vão atrás dos velhos conhecidos

Uma história de amor 
que começou na simplicidade de uma mentira
e que agora já ocupa boa parte dos corações daqueles novos amantes
que vão descobrir que o amor real é bem mais profundo que o fingimento.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Com o todo

Depois de noites insones eu tento mais uma vez. Tento. Mais uma vez. Mesmo não aguentando mais. Tudo que tenho feito é aguentar. Mas admito que não aguento mais.

Queria não acordar amanhã.

Mas eu acordei, claro. 

O dia ontem foi caótico, metade da cidade parada por conta do grande volume de chuvas. Mas a semana foi infernal. Hoje é a festa da Imaculada Conceição da Bem-aventurada Virgem Maria, e assisti uma pregação essa semana, falando sobre a importância da intercessão dela de um ponto de vista místico, excelente. Fui dormir chorando baixinho, pedindo a ela que não acordasse. 

Mas eu acordei, claro.

Fiquei um bom tempo sentado aqui na frente do computador. O céu parece de ressaca, e eu também. Mas logo vou dormir, não há necessidade de ficar acordado. Mais tarde tem alguns episódios de BL, eu acordo, vejo e depois durmo de novo. 

Se soubessem o que faço pra dormir tanto, com certeza me desaprovariam com afetação. Mas eles não entendem, que faço isso porque ficar acordado é insuportável, e que eu durmo pra não pensar nas pessoas idiotas, nas ideias idiotas, no inferno que é todo dia, nas desgraças que eu preciso suportar, porque é sempre assim, eu preciso aguentar firme, sempre mais, e mais, e mais. 

Mas eu não aguento mais. E tampouco vejo motivos para aguentar. 

Hoje um daqueles dias descritos por Adélia Prado, em que "Deus me tira a poesia, olho pedra e vejo pedra mesmo." 

Não há mais nada, posso cantar como em Turandot:

"Adeus amor, adeus raça, adeus estirpe divina!"

Não tenho conseguido pensar em nada, é como se a mente estivesse vazia, mas ainda não é um episódio depressivo, é apenas vazio, e sobre o vazio eu tenho profundidades. 

Nos últimos dias tenho ouvido mais Lykn, e continuo na febre de 10cm. Em ambos os casos, a voz forte do William, a beleza do corpo do Nut e a sensualidade do Lego, a beleza simples mais cativante do 10cm (meu Deus, eu desejando um homem casado), com a pele perfeita, cabelo perfeito, lábios perfeitos.

Não vou falar de como tudo isso se contrasta comigo de tal modo que eu me pergunto: "há necessidade de ainda tentar algo na vida se nunca chegarei lá?", e não, não há.

A vida real é feia, tem a pele macilenta, cabelos horríveis e, acima de tudo, vive uma desgraça após a outra. Como um abismo no qual caímos e que cada vez mais nos afastamos da superfície e da luz, sendo envolvidos apenas pelo frio e a escuridão. 

Mas hoje a escuridão será uma escolha minha. Vou dormir. Com a chuva que já cai há três dias eu pretendo me misturar e me derramar, sem ter onde terminar, quem sabe me impregnando tão fundo na terra que pare de existir e seja apenas um com o todo. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

Aforismos

O contato com algumas pessoas me tirou, temporariamente, da letargia, mas logo o sono voltou, logo retornei aquele estado quase apático, ao mesmo tempo que, interiormente, me encontro meio que em dies irae. Meus olhos estão opacos, mas se você olhar fixamente para mim, vai perceber que eles ardem de ódio. 

Respiro fundo, aprecio a essência de maçã e canela que colocaram no ambiente, e tento lembrar que logo mais vou poder assistir os dois episódios de hoje de Heart Killers e See Your Love. O primeiro, sendo uma produção que vem chamando bastante atenção pela ousadia dos temas abordados e inclusive mostrados. O segundo me cativando pela beleza e doçura do protagonista. 

Só assim pra conseguir sobreviver mais um dia, mesmo sendo um dia bonito, fresco e nublado. Mesmo assim ainda tenho sono, e mesmo assim me sinto irritado se penso em algumas pessoas, e mesmo assim quero ir embora e dormir, dormir profundamente por um, dois dias inteiros, dormir sem precisar acordar. No fim eu sempre volto a isso, parece que essa é a única solução possível. 

Começou a chover fininho lá fora, ao lado tem uma árvore com muitas flores amarelas, é uma bela vista. Já tem um bom tempo que olho por essa janela, mas essa é a primeira vez que as achei belas. Mas eu ainda queria dormir. 

Cheguei em casa, assisti, não com a dedicação merecida, mas ainda consegui me emocionar, e então finalmente pude dormir, quando exatamente o sono me fugiu e eu fiquei revirando na cama por horas até adormecer de madrugada ouvindo o Concerto para Piano No. 1 de Chopin. 

Fiz algumas contas hoje, enquanto pagava os boletos do mês, e percebi que, se continuar assim, boa parte do meu dinheiro vai pra pagar as contas de psiquiatria e psicologia. Quanto mais eu vou sacrificar assim?

Saudades daqueles momentos delicados entre Mick e Top, daquele toque singelo e delicado, mas tão profundo e tão cheio de significado. Tantos sentimentos naqueles dedos que se transmitiam como uma corrente elétrica, de um coração a outro, de um universo a outro num breve instante. 

Assim também, como aquele toque era tão ínfimo e continha tanto, eu sou tanto, mas tão vazio. 

No entanto, percebi uma coisa: ainda há alguma energia em mim, mas direcionada pro lugar errado. Eu não consigo viver, ela não é para mim. Parece que eu gasto tudo pro outro. E eu preciso concentrar também forças em me cuidar, em me curar, naquelas coisas que eu amava e que hoje não amo mais.

O sono voltou. Embora esteja relativamente eufórico, ainda quero deitar e dormir profundamente. É complicado sentir as duas coisas ao mesmo tempo.

Foram vários minutos olhando pra ele. Me encantei pela primeira vez em semanas. Lindo, fofo, de aparência delicada, olhos pequenos mas sem perder o charme masculino. Simplesmente um anjo em meio aos desastres dos últimos dias. Aproveitei o tempo para observar e guardar na memória, mas sua imagem começou a esvair assim que ele desceu. Era um horário diferente, talvez eu nunca mais o veja.

Um dia inteiro passou. A euforia aumentou, os tremores também. O pensamento acelerado também. Odeio isso, essa febre. E claro que, de novo, ninguém entende. Ninguém nunca entende. Mas ainda assim exigem. Sempre exigem. É preciso dar conta. 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Aforismos

Já sinto vontade de dormir de novo, como se isso fosse minha única forma de sobreviver. Eu sei que não é, e eu sei que preciso fazer outra coisa, sei que deveria conseguir aproveitar a brisa fresca desses dias, e quem sabe ouvir músicas, relaxar um pouco, respirar um pouco.

Respirar. 

Algo que eu venho precisando fazer, com urgência.

Só respirando, tomando controle dessas potências, dessas coisas que pululam dentro de mim e que me desestabilizam, essas coisas que me fazem querer dormir, dormir profundamente. Em verdade, no estado em que me encontro, eu nem mesmo queria acordar. 

Dormir tem sido um refúgio, porque dormindo eu não vejo nada, eu posso simplesmente passar direto pelos dias, dormindo não tem dor, não tem assédio, não tem opiniões idiotas, não tem amores não correspondidos...

E é isso, chegar em casa, não ter tempo direito pra ver nada, ou estudar, e já estar caindo de sono. Não importa o ângulo por onde olhe: a miséria dessa vida não tem limites...

Mas, de certo modo, vejo que algumas pessoas vivem... Acho que eu fui privado disso. Morrerei sem jamais saber o que é estar vivo. 

Já faz algum tempo que não consigo dizer "eu te amo" para ninguém. Acho que perdi essa capacidade também. Não sobrou em mim humanidade o bastante para amar.

Aproveitei o comércio aberto por mais uma hora para caminhar um pouco pelo centro. Embora seja primavera, estava fresco e tinha brisa gostosa. Foi bom, lembro de ter visto um garotinho muito parecido com um ator que conheci recentemente, um fofo. Comprei um quimono branco e agora me sinto um capitão da Gotei 13. 

As previsões para os próximos dias são terríveis, o calor será insuportável, mas não terá sol, ou seja, além de quente, ficará bem abafado. 

No ônibus hoje me aconteceu uma cena de dorama: aquele rapaz, que sempre observava à distância, com quem agora converso normalmente, se desequilibrou e se apoiou no meu peito. Nós sorrimos. Meses atrás eu teria ficado impactado e emocionado, mas só achei engraçado mesmo. 

Eu achei que hoje conseguiria dormir sem remédios, mas parece que me enganei. Duas horas deitado, com óleos essenciais e música agradável, e nada, apenas olhos pesados, e mais alguns gastos...

Finalmente consegui dormir antes do último movimento da 6° Sinfonia de Tchaikovsky, mas antes disso tentei todas as faixas de TARA e algumas de Cigarretes, mas o primeiro não foi o suficiente e não estava no clima pro segundo. Tenho algumas encomendas para chegar hoje, e mais um episódio da nova série de JoongDunk e FirstKhao. Mas isso é suficiente para me fazer levantar e viver esse dia? Vale realmente viver dez horas de um inferno por umas duas horas um pouco melhores?