domingo, 30 de abril de 2017

Cinza melancólico

Resolvi tentar esclarecer a minha cabeça traçando uma espécie de panorama do meu estado emocional e afetivo. Sim, por há diferenças entre eles. O meu lado afetivo se refere ao meu apego, a minha carência, em resumo, se refere ao modo como eu me relaciono com os meninos. Já o meu lado emocional se refere a forma como eu reajo a tudo isso. Simplificando, o lado afetivo se refere ao que eu faço por sentir, e o emocional ao que eu sinto de verdade.

Acompanha-me nessa noite a Sinfonia N° 4 de Anton Bruckner, também chamanda de "Romântica" e também a Sinfonia N° 9 em Dm, como uma forma de buscar inspirações para as palavras que agora derramo sobre essas páginas. Escolhi a primeira pela em particular pelo título, pois já não me recordava de muitos detalhes sobre ela, e como romance remete a afetividade, achei que seria uma boa conexão.

Sem mais delongas, portanto, vamos ao que nos interessa: o meu atual estado emocional que se encontra em quadro de calamidade pública. Creio eu já estar quase sento interditado pela defesa civil como patrimônio histórico nacional. Já que ninguém me quis, talvez sirva pra ficar exposto num museu de arte contemporânea de péssimo gosto.

Há alguns dias resolvi sentar e organizar os meus sentimentos, e o fiz da forma mais didática possível, com papel e caneta. Coloquei nomes, sentimentos e impressões que me incomodam atualmente, com o objetivo de buscar, observando o panorama completo, uma possível saída para o labirinto emocional onde me perdi.

Vários nomes surgiam naturalmente de mim, e vários e vários sentimentos vinham com eles, tão distintos em formas, origens e forças que me mostraram o quão complexo e cheio de cores eu sou, ainda que infelizmente nos últimos dias apenas consiga observar o cinza melancólico da chuva que cai e agrida a minha pele com poderosas gotas de sinceridade.

Cada uma dessas gotas, ao tocar minha pele quente trazia consigo uma parcela da verdade que meu coração se recusa a aceitar. Tragicamente o meu coração foi se enrijecendo e congelando, mas não sem antes derramar-se em grossas e pesadas lágrimas que se uniam as da chuva a cair por sobre mim.

Como disse, anteriormente muitos nomes surgiram em minha mente, e me demorei em conseguir organizar cada um deles. Não por ordem cronológica ou de importância, mas apenas uma organização que me permitisse observar o problema de fora, para adquirir perspectiva.

I

O primeiro nome que me surgiu é com efeito o último que conheci, e talvez seja um dos que mais tenho lutado para evitar.

Tenho uma grande fragilidade para me apaixonar por rapazes mais novos, e esse eu conheci numa das muitas reuniões da igreja. Comecei a observá-lo de longe, com medo de me aproximar, já que meu jeito agressivo costuma assustar aqueles que pouco me conhecem.

Busquei primeiramente uma aproximação virtual, que se mostrou desastrosa. Temia pela aproximação pessoal, já que nada temos em comum. Ele gosta de futebol, eu nem sequer sei diferenciar um pênalti de um zagueiro, logo não teria como me aproximar sem parecer um tarado, ou um tremendo idiota.

Consegui então o mínimo de aproximação quando ele começou a participar mais ativamente de um os grupos da igreja que eu frequentava. Percebi então que havíamos julgado mau um ao outro. Ele se mostrou educado, prestativo e atencioso, coisas que admiro profundamente. E como ele é lindo... Olhos claros, cabelos dourados, pele clara e sorriso tímido... O retrato de um silfo perfeito.

Mas acontecimentos recentes cortaram nossa convivência, logo o que poderia vir a ser alguma coisa, não poderá se tornar mais nada. E eu lamento, pois toda vez que vejo uma foto sequer dele na internet, o meu coração bate mais aceleradamente e eu tenho estranhos impulsos de querer me aproximar  cada vez mais dele.

O amor por sua beleza encantadora, por seu charme particular, por sua presença doce e meiga, e pelo jeito tímido que ele tem de levar a vida.

II

Uma história antiga, cujo final deveras infeliz ainda queima nas cicatrizes de meu peito. Foi àquela amizade perdida, que por conta do meu pecado se foi para nunca mais voltar.

Quando penso nele ainda me recordo com clareza de ideias os momentos bons que passamos juntos. Os sorrisos, as brincadeiras, os passeios, as longas conversas sobre quaisquer assuntos... Bons tempos que não voltam mais.

Quando penso nele, me recordo ainda dos momentos difíceis que culminaram na nossa situação atual. Com muita dor e arrependimento me lembro das minhas investidas pesadas, de meus argumentos insistentes, que desgastaram o delicado cristal de nossa amizade, quebrando-o ao chão.

Ao chão.

Sempre que penso em tudo o que fiz, e em como fui ignorante em sacrificar minha amizade em troca de prazeres temporários eu me sinto como lançado na lama.

Toda ação gera uma reação.

Eu agi de forma egoísta, desejando meu amigo, e como reação eu o perdi. E ainda hoje eu vejo suas fotos e recordo de nossos momentos juntos com pesar, em luto por algo tão belo que morreu. Declarei-me mas não fui correspondido.

O amo pela forte amizade que construímos juntos, amizade esta de grandiosa importância para mim, e que abandonei por colocar meus instintos em primeiro lugar,

III

Os dois próximos têm em si histórias semelhantes. Com nenhum deles ouve uma aproximação real, apenas virtual, mas nem por isso o sentimento que por eles eu alimento é menor. Muito pelo contrário, me tiram o sono como qualquer outro.

Este eu conheci visitando uma capela próxima. Nunca tinha ido ate aquele lugar, mas fiquei encantado com a doce beleza de um jovem que ficou a minha frente. Logo consegui com um amigo o contato para que o conhecesse melhor.

Com o tempo começamos a conversar, e ele se mostrou extremamente carinhoso e atencioso, além de um apaixonado por História. Despertou rapidamente o meu lado carente, que na época se encontrava abalado por várias questões que não caberiam aqui.

Em poucas semanas eu me vi apaixonado por ele, e em poucas semanas me veio a confirmação de que tudo não passou de outro devaneio exagerado da minha mente distorcida. Fui dispensado após me declarar.

Ainda hoje, quando o vejo, me perco em seu olhar simples, e em seu sorriso fofo. É um retrato da mais perfeita beleza. Me estreme da cabeça aos pés e me perturba a alma de tal maneira que me tira o sono.

Sonho um dia poder sentar com ele, a sós, e conversar sobre qualquer aleatoriedade, apenas para poder ouvir sua voz e me divertir com seu senso de humor sagaz... Apenas para, por alguns instantes, conseguir olhar em seus olhos sem culpa...

O amor por sua atenção, pelo carinho e pelo jeito doce de ser, sem contar a beleza quase sobrenatural que emana de sua presença.

IV

Meu peixinho. Rapaz tímido, de sorriso sincero e personalidade doce. É um menino normal, e ao mesmo tempo não é. Gosta de futebol, filmes de carros e de mulheres bonitas, mas ao mesmo tempo tem em si uma característica que não sei precisar em palavras... Ele não é como os outros, não se comporta como um desesperado sexual, pronto a devorar toda e qualquer menina que lhe apareça. E olha que não são poucas.

Conhecemos-nos apresentados por um amigo, e eu logo comecei a me aproximar. Sua doçura, educação, atenção, e os constantes corações em emojis me levaram a confusão. Declarei-me mas não fui correspondido.

Uma semana foi suficiente para eu me entregar a ele completamente, E ainda hoje tento me livrar desse amor.

Afastei-me dele quase que completamente, para evitar possíveis ilusões, e hoje pouco conversamos, pois qualquer contato desperta em mim uma erupção de sentimentos inflamáveis.

Eu o amo, pois me encantei com seus trejeitos fofos, com sua personalidade meiga e por sua atenção, coisas raras nos dias de hoje, Seus belos olhos, sorriso encantador, Ainda que a maiorias das pessoas discorde, eu o vejo como um dos homens mais belos que conheço.

V

Este foi, e vem sendo, um dos meus maiores desafios a superar.

Não há necessidade de me alongar em descrições pois já escrevi várias e várias páginas sobre ele. Apenas um amigo por quem nutri um sentimento exagerado e que evoluiu para uma paixão doentia que beira os limites da sociopatia. Declarei-me mas não fui correspondido.

Ele foi pra longe, e penso que o incômodo de minha amizade tenha sido um dos fatores decisivos em sua decisão. Ele se foi, e nem o contato virtual temos mais.

Percebi depois de tudo isso que eu nunca fui importante para ele, e as palavras de amor que me dirigiu foram apenas para me consolar temporariamente. E são essas as palavras que hoje mais ferem o meu coração, como uma espada fria a em atravessar a alma.

O amor que sinto por ele é maior do que qualquer outra coisa que já tenha sentido. É de uma força avassaladora, destrutiva, e me põe em estado de calamidade apenas com o vislumbrar de uma foto, quanto mais de um encontro pessoal.

O afastamento físico aumentou o afetivo, e se ontem ele dizia me amar, hoje somos completamente estranhos.

E há ainda feridas que demoram a cicatrizar, como o fato de ele ter se esquecido de uma importante reunião, onde precisava de seu apoio, e que ele não apareceu, sendo que dias atrás ele compareceu ao batismo de sua peguete, para o qual tinha sido convidado muitos meses antes. Recordou-se dela, mas não de mim. Penso que nunca conseguirei perdoá-lo por isso, por cada vez que me recordo desse dia, meu coração sangra copiosamente.

Não sei dizer o motivo de amá-lo, mas o amo, com todas as minhas forças, e não há um só dia que eu não tente deixar de amá-lo.

VI

O último, mas porém não menos importante, tem sido meu desafio mais atual.

Conhecido de longa data, sempre pensei que nada tínhamos em comum, e por anos sequer conversávamos. No entanto, comecei a notar que tínhamos algumas coisas em comum: o amor pela Santa Igreja.

Decidi então me aproximar, afinal sempre gostei de conversar com pessoas que tem uma visão parecida com a minha.

Nesse aproximar, passava por um momento de dificuldade, e ele me ajudou sem nem perceber, inclusive me proveito próprio, mas já falei sobre isso em outra ocasião.

Comecei a notar uma crescente admiração, que logo se transformou em algo mais. E hoje eu o amo, com todas as letras.

Nosso relacionamento, no entanto é quase inexistente, excetuando os abraços esporádicos nas missas ou conversas aleatórias no WhatsApp. Sobre essas últimas, eu tenho evitado parecer exagerado, mas falhei miseravelmente em todas as tentativas. Se me demoro a chamar, ele me chama, mas logo desaparece, sendo uma pessoa bem ocupada, o que eu entendo, mas nem por isso deixa de me incomodar.

Incômodo.

Às vezes tenho a impressão de que para ele, sou apenas um incômodo, e me entristece pensar assim do amor que eu alimento por ele...

~

Toda essa confusão gerou em mim um grande conflito interno, onde, numa alegoria, percebi a existência de dois mundos no meu universo particular, o universo de minha mente.

Meu universo... Dividem-se em dois reinos. Meu primeiro mundo é branco e rosado, é pacifico e alegre. Nele o sol não abrasa a pele, mas apenas aquece delicadamente o coração. A brisa é fresca e as paisagens são belas e deslumbrantes. Nele nunca nos enjoamos de olhar para esse ou aquele lugar. nesse mundo as pessoas se entendem e se compreendem, e sabem se amar. Dividem umas com as outras suas alegrias e fadigas e nele não há leis, não são necessárias. O amor faz com que todos se amem e se respeitem mutuamente. Nele eu vivo feliz, a contemplar o céu ao lado do meu amado, em longas caminhadas pela orla dos mares, ao som de delicados violinos junto as ondas do mar.                                                                                                                                            

No outro reino impera o caos. Nele não há compreensão, e também não há regras, as pessoas vivem apenas para buscar a própria felicidade e usam dos sentimentos dos outros para se enriquecerem. É um lugar triste, frio, não há cor, nem calor, e nem sequer as estrelas brilham na escuridão eterna, tudo o que sente é frio e vazio, e uma angustia interminável...    
                                                            
Como senhor desse universo eu não tenho poder de criar e nem destruir, apenas vivo como um observador, vagando entre essas duas realidades por toda a eternidade... Sem destino, sem saída, sem amor.

Será que é amor?

O refrão do tema de abertura de uma de minhas séries favoritas diz o seguinte: "Pois acredito no amor verdadeiro, e acredito com todo meu coração!"

Eu queria acreditar, realmente. Queria voltar a amanhã de forma incondicional como antes... Mas não consigo. É muito sentimento, e é muito pra mim. eu não aguento sozinho, estou prestes a transbordar. 

Transbordar... 

Sou um homem transbordante de amor... Mas isso não significa nada se não tiver onde me derramar...

E ultimamente só tenho me derramado ao chão, sem nenhum recipiente a me emparar, sem nenhum coração a amparar o meu amor...

O meu amor...

O meu amor?

Onde está o meu amor?

Será que eu o amo verdadeiramente? Ou isso que sinto é apenas um conjunto se sentimentos que me tiram a tranquilidade?

Talvez o que eu sinta seja apenas uma admiração exagerada, um desejo, carinho, carência, muita coisa, mas será que é amor?

Não sei, mas sei que dói. Quando penso nele dói. Quando vejo sua imagem nas redes sociais sorrindo ao lado de outros dói. Quando nos cruzamos na igreja e ele me dá aquele abraço apertado mas logo vai embora, dói...

E essa dor me faz desejar duas coisas: primeiramente desejo que ele me ame, que me deseje tanto quanto eu o desejo, mas como isso não é possível, eu começo a desejar não sentir mais nada...

Mas isso não é possível, e volto então ao fato de que sinto demais, logo a única forma de não sentir mais nada seria... Mas não quero falar disso, as pessoas não gostam, e fomos condicionados a fazer apenas o que é considerado certo, normal, ainda que isso signifique morrer por dentro em nome do que os outros querem...

Mas e o que eu sinto? 

sábado, 29 de abril de 2017

Laços irreais

Minha alma em silêncio busco refúgio nos sons do mundo, para não ter de enfrentar o vazio do abismo de meu coração. É mais fácil fugir do que enfrentar o temível leão que espreita, procurando a quem devorar. 

Não há mais nessa pobre alma sinal de canto, ou de cor, ou de amor. Ela se reduziu ao pó, só há nela desesperança e medo, e logo ela retornará ao nada, a inexistência...

Dizem que somos formados pelos laços que criamos em nossas vidas. Mas e quando esses lados são tão frágeis que logo se partem? Ou quando os únicos laços existentes são os que tentamos amarrar uns nos outros para então conduzi-los a morte?

Laços são ilusões, nos cegam e nos desviam do verdadeiro sentido do viver. Eles não existem verdadeiramente senão para iludir os homens e levá-los a completa loucura. Os conduzem a lutas sem sentido, a objetivos inalcançáveis e por fim, a decepção que leva a morte certa. Laços são ilusões. Não moldam nosso ser, apenas nos oferecem uma gama interminável de desamores e decepções. Laços são ilusões. 

Pobre daqueles que acreditam que seus sentimentos pífios conseguiram alcançar o coração de alguém. Descobrirão estes da pior maneira que ninguém pode ser alcançado, ninguém sabe ser amado. Risíveis são seus esforços para tentar de alguma forma entrar numa sala lacrada, onde nunca conseguiram residir. 

Pobres... Acreditam que seu amor são como uma laço que os unem a seus amados, mas na verdade não passam de correntes, que aprisionam a alma e o coração e os impede de viver verdadeiramente sozinhos, como deve ser.

O homem nasceu para viver sozinho, por um capricho se organizou em sociedade, mas não sabe viver assim, pois insiste em destruir os seus semelhantes, e a ignorar o amor que estes lhe dão. 

Alguém que ama um homem que nem sequer pensa nele durante o dia não é digno de viver, desperdiça sua vida numa existência patética. O seu amor tornou-se uma corrente que irá aprisioná-lo nessa cela até sua morte, e não há mais escapatória, pois o próprio homem fechou o cadeado que o prende.

Não há escapatória.

Não há saída.

Não há (mais) vida.

Não há (mais) amor.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Silfo

A vida tem mania de surpreender as pessoas, e gosto de observar as mudanças na vida dos que me rodeiam. Acho bonito vem as pessoas encontrarem o amor, por exemplo, nos lugares e nas pessoas mais inesperadas, e acho ainda mais bonito ver os diferentes lutarem por esse amor, é belo ver a força que esse sentimento dá as pessoas...

O mundo está repleto portanto de incontáveis histórias de amor, amores impossíveis, improváveis... Algumas que nos ensinam a nunca desistir, a lutar, a persistir e acreditar... Algumas que nos mostram que nem a morte é capaz de vencer o amor, e outras nos ensinam ainda que apenas uma coisa é capaz desfazer o amor: a frieza do coração do homem.

Quando um homem se entrega de corpo e alma a alguém que não lhe ama, acaba por lançar ao vento as pétalas de uma rosa que nunca mais voltará a crescer, nunca mais tornará a desabrochar. A roseira pode até fazer nascer outras, mas nenhuma será como aquela, pois o que torna aquela rosa única é o amor que ela representa. 

Podemos amar outras pessoas? Certamente que sim, mas nunca será o mesmo amor que tivemos por um outro alguém. Por isso digo que cada amor é único, pode se esfriar, ou ficar mais forte, cristalizar, mas nunca se repetirá. 

É uma dor terrível notar então os amores dedicados e não correspondidos. Quantas pessoas jogam fora grandes oportunidades de serem felizes apenas porque não dão aqueles que a cercam a chance de as fazer felizes. E quando se tornam infelizes, amaldiçoam o amor, o mesmo que elas rejeitaram naquelas pessoas.

Posso dizer isso apenas pelo fato de nunca ter sido correspondido em nenhum amor, mesmo tendo esse amor como prioridade em minha vida. 

Mais uma vez recorro a alegoria do jarro para tentar exemplificar melhor o amor não correspondido dos nossos dias...

Num lugar de difícil acesso, fora de uma pequena cidadela, há uma belíssima fonte, donde jorra água fresca, de uma pureza e limpidez únicas no mundo. A água que dali flui sem parar tão cristalina quanto o olhar de uma criança a brincar na saia de sua mãe.

Perto dali, na cidadela, os cidadãos trabalham sob o sol quente a lhes queimar a cabeça diariamente, e apenas se deleitam em pensar na água fresca que lhes aguarda após o longo dia. As mulheres se aproximam da fonte, a fim de pegar a água numa jarra de prata e colocá-la em talhas para então levar a cidadela.

Como sabem que aquela é a melhor fonte que poderia haver, os cidadãos combinaram de usar apenas aquela jarra de prata para retirar a água da fonte, e esta seria depositada também apenas em recipientes de prata. O cuidado para com ela era tão grande que uma lenda logo se espalhou pela região, de que a fonte seria abençoada e que podia até mesmo recobrar a saúde dos inválidos. 

O silfo que era guardião daquela fonte se orgulhava de ter criado a mais bela de todas as fontes, e fazia com sua magia fluir dali uma água realmente maravilhosa, que tornava melhor a vida de todos quanto a bebiam. Muito orgulhoso, quanto mais devoção os habitantes demonstravam a fonte, mais ele fazia dali brotar água.

Um certo dia no entanto uma jovem nervosa se aproximou da fonte, mas não trazia consigo o recipiente de prata, mas apenas uma talha de barro, a qual ela logo pôs-se a encher com a água. O silfo ao ver sua fonte sendo tão destratada daquela maneira se entristeceu e começou a chorar, e tão logo suas lágrimas caíram na água ela se tornou escura, podre, e já não servia mais para beber, e muito menos curaria qualquer doença.

Morto de tristeza, o corpo do pequeno silfo se tornou poeira, e a fonte se tornou apenas um lamaçal malcheiroso. Sendo aquela a única fonte de água da região, logo todos os habitantes morreram de sede, ou foram para terras distantes. 

Assim é o amor daqueles que amam com intensidade. Não adianta derramar a mais pura água numa talha suja, pois ela irá corromper a água. 

Nosso amor não pode ser desperdiçado com todos dessa maneira, sem escrúpulos, pois corremos o risco de acabarmos destruindo a fonte desse mesmo amor...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Humanidade

O que nos torna humanos? Nossa raça, apenas uma definição biológica de sistemática filogenética? Traços de consanguinidade? Afeto e carinho para com o próximo? 

Não sei a resposta a essa pergunta, que me foi feita na faculdade hoje, mas fiquei muito pensativo com relação a isso.

Me recordo que falávamos sobre essência, e sei que não compreendi bem o que significa essência, segundo os filósofos que vimos, mas entendi  algo, que é a nossa essência "ser humano." Somos por essência homens, pessoas. E por essência diferentes uns dos outros, com realidades tão diversas quanto as pessoas que caminham por sobre a terra.

Perguntaram a nós como podemos fazer para criar um projeto educativo tendo em vista esse "humanismo" e pra isso sim eu consegui conceber algumas ideias. 

Como educador eu percebi a desafiadora missão que se colocou a nossa frente: a de mudar o mundo, transformar por meio da educação. 

Quando penso em transformação, penso em revolução, mas não no sentido conflituoso ao que é comum aplicar esse termo. Não penso em revoluções apenas como grandes manifestações populares, muito embora as vezes elas sejam necessárias, mas penso naquela transformação de cada dia, de cada homem ou mulher que transforma sua vida levantando cedo e indo trabalhar, pra garantir um futuro melhor pros filhos, e aos poucos, vai mudando o mundo em que vive. 

Mas somos homens, e nem sempre isso parece ser suficiente para resolver o problema. Como falar de filosofia quando as pessoas ao nosso redor nem sequer tem o que comer? Pois bem, a educação é a base dessa transformação também, mesmo que pareça ser apenas uma discussão sem sentido. 

O mundo precisa das pessoas, pessoas que acreditam na mudança, num mundo melhor. Somos tantos, se todos fizerem alguma coisa, o mundo muda... Costumamos transmitir a culpa pros ricos, pros políticos, mas todos tem essa responsabilidade, não podemos nos eximir disso, não quando nossos irmãos padecem de fome e frio. 

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Percepções e conclusões

Experiências captadas pelos sentidos e que se tornam parte de uma alma ferida e exposta. 
Respostas dadas, respostas não dadas, silêncios inquebrantáveis. 

Palavras ditas sem pensar. 
Palavras ditas sem pesar. 

Palavras não ditas. 
Palavras malditas. 

Pessoas distantes. 
Pessoas próximas. 

Mundos distantes, diferentes, irreconhecíveis, inconcebíveis, intocáveis. 

Pessoas tristes. 
Almas tristes. 
Corações tristes. 
Silêncios tristes. 

Uma busca interminável... Uma espera inacabável...

Nenhuma resposta, nenhuma mensagem. 
Uma resposta, uma mensagem: uma percepção tardia, uma conclusão demorada.

Uma alma atordoada. 
Um coração magoado. 
Uma mente silenciada.
Uma dor barulhenta. 
Uma recuperação demorada.

Recuperação?

Para a dor do coração não existe tal recuperação.
Não existe superação.
Apenas um amor pode curar um coração que sofre de desamor.
Mas não há muito amor pelo mundo.

Não existe recuperação.

Outra percepção.
Outra conclusão.

Onde iremos parar então?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Apenas queria um abraço

Queria um abraço, um daqueles fortes, de quebrar a costela, e que colocam todos os pedacinhos quebrados no lugar. Queria um abraço, um lugar fofinho onde eu pudesse me encostar e chorar, esquecer das minhas dificuldades e ali me largar, sem me preocupar em voltar pro chão frio, pois saberia que estaria amparado. Queria um abraço. 

Queria um abraço pois me sinto só, completamente só, com um peso demasiado grande demais para o meu frágil corpo e pra minha mente mais frágil ainda. Só um abraço forte sabe? Pois sinto que me larguei para me ocupar com os problemas dos outros, com as dificuldades do outro, e acabei acumulando pensamentos demais, e eles estão me sufocando, me matando, me esmagando. Mas mesmo sendo esmagado, gostaria de me sentir pressionado pelos fortes braços de um abraço. 

Queria um abraço e nada mais, pois este é um daqueles momentos em que palavras não podem ajudar. Apenas gostaria de poder tirar aquela pessoa da minha mente e de poder tê-la em meus braços. Apenas queria um abraço. 

Sol da noite

Aos poucos acredito que a poesia retorna para minha alma árida. 

Árida, seca, morta. 

Meu coração seco sente a umidade distante retornar lentamente a esta terra onde há meses já nada florescia. 

Sinto em minha mente o perfume doce das flores, e almejo aquela harmonia delicada. A natureza trabalha para manter sempre o seu equilíbrio, e o meu havia sido destruído pela aridez daquela alma dourada e branca, tornando a minha também árida. 

Mas não é pela chuva da alma dourada e branca que a vida retorna a mim, e também não sei precisar bem de onde vem essa garoa delicada, que massageia minha face com sua bruma suave. 

A imagem imponente daquele cavaleiro ainda se faz presente no meu ser, mas sua armadura abrasa minha alma, e me torna incapaz de viver ao lado dele, muito embora esse seja meu maior e íntimo desejo. Não consigo ver o seu rosto, pois o meu se encontra encostado ao chão, e o sol acima de nossas cabeças brilha de forma tórrida, me cegando. É o sol? Ou seria sua armadura brilhante? 

Esse sol brilha até mesmo a meia-noite, e até ao meio dia sua armadura brilha mais que o próprio sol.

Meu amor, quando você olha para o céu, você consegue ver o sol da meia-noite?

Detox

"Detox vem da ideia de desintoxicar, tirar do corpo tudo o que não lhe faz bem. Louvável, sem dúvida nenhuma. Mas o problema começa quando as pessoas resolvem achar que duas garrafas de suco verde são a milagrosa solução para melhorar suas vidas. 

Não adianta comer chia toda manhã se a gente odeia o emprego e já sai de casa com vontade de voltar. Não dá para achar que o corpo vai estar puro se você não acredita no que faz e passa mais de 40 horas da semana ruminando tarefas infelizes. Não adianta beber 3 litros de água por dia quando se está num relacionamento que afundou.

Não adianta colocar linhaça nas receitas quando só se reclama da vida, dos outros, do país, do calor, da chuva, do trânsito. É um círculo vicioso, quanto mais a gente fala das coisas ruins, menos atenção a gente dá às coisas boas e a vida vai ficando ruim, ruim, ruim.

É ilusão achar que a mudança vem de fora para dentro. Que a felicidade e a saúde cabem em embalagens plásticas com códigos de barra. Produtos podem ser ótimos coadjuvantes nessa busca, mas a verdadeira mudança é só o protagonista quem faz.

Detox de dias iguais. Detox de gente ruim. Detox de maus hábitos. Detox de inveja. Detox de relações doentes. Detox de obsessões. Detox de pessimistas. Detox de medo de mudar. Detox de dias desperdiçados. Detox de sentimentos pobres. Detox de superficialidade. Detox de vícios. Detox de viver por viver.

E pra fazer detox na vida é preciso coragem. Coragem para mudar, para arriscar, para romper, para fechar ciclos que há muito tempo deveriam ter terminado". 

Texto maravilhoso da professora universitária Ruth Manus

*Recebido num grupo do WhatsApp

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Amarras

Vazio, silêncio, dor, torpor.

Gostaria de novamente me derramar com histórias diferentes a contas, sentimentos novos, impressões desbravadas, mas não, meu coração se recusa a viver o novo, o diferente, insiste em não se desprender, em não se desapegar.

Normalmente as pessoas buscam fugir das ocasiões que lhes aprisionam. Penso que a maioria não goste de se sentir amordaçada. Mas o coração é a exceção dessa regra. Não só gosta de se sentir preso como ele mesmo se aprisiona em calabouços criados por minha própria mente. 

As vezes eu penso sobre isso e tento chegar a alguma conclusão, mas só consigo ver minha mente como uma espada de dois gumes, dois lados opostos, que nunca se encontram.

Há em mim momentos de lucidez, onde consigo dizer o que sinto, enxergar um problema e ver até mesmo uma solução, minha mente é capaz de ver tudo isso. Mas quando chega a hora de colocar em prática, é como se esse lado lúcido se perdesse em meio a uma névoa densa, e eu voltasse a estar cego. 

Com efeito, muito embora ainda seja eu, não me reconheço em minha totalidade em nenhum desses momentos distintos. 

Parece que tem sempre uma face dominante de mim, uma parte que se sobressai, mas nunca sou eu em tudo, nunca com controle absoluto, mas sempre prisioneiro de minhas próprias vontades... 

E essa prisão me suga as forças, me deixa frágil, vulnerável, e assim é como me sinto... Preso, mas incapaz de escapar das amarras que eu mesmo me impus... As amarras do meu próprio coração.

domingo, 23 de abril de 2017

Silêncio e solidão

O meu interior se transformou numa espécie de fortaleza da solidão. 

Há dentro de mim um monstro a gritar desesperadamente, isso eu posso sentir, mas não sei onde ele está e nem o que ele quer de mim. Não se parece com os monstros que antes fugiram do meu interior, esse é diferente. 

Não sei se este é um monstro ainda pior do que aqueles, ou se é mais poderoso, mas os seus dentes e suas garras não arranham as paredes do meu coração da mesma forma. Mesmo lutando para sair o seu grito é silencioso, e tudo o que eu escuto dentro de mim é isso: silêncio!

Não há mais dentro de mim uma música tocando, nem um sol se pondo. Também não há uma lua e estrelas brilhando. Não há nada, apenas vazio e frio, silêncio. E sua pata pesada a cair por sobre o meu peito, tirando-me a respiração.

Eu fecho os olhos, me desligo do mundo, tentando ouvir a fera que grita, mas nada, não consigo ouvir nada, e no entanto eu sinto ela lutando para se soltar. Mas é como se estivesse sozinho, só eu e o silêncio.

Só silêncio. Não há mais canção, nem brilho, nem amor, apenas o silêncio abrasador e assombroso, assustadoramente assombroso. O silêncio onde se esconde os gemidos do pecado. O silêncio frio.

Como pode o frio queimar tanto? 

Onde está o sol? 

Onde está a luz? 

Onde está a música?

Todos se foram, não vejo mais ninguém, não há ninguém. Morreram? Me abandonaram? Não sei, apenas sei que todos se foram, para nunca mais voltar... 

E com eles foi também o sol, e a luz, e a música que antes aquecia meu coração, agora só há silêncio, silêncio e mais silêncio, o mesmo daquela hora dulcíssima do sono, mas também não há sono, apenas medo e desperança, apenas silêncio.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Golpe letal

Já não imploro mais por seu calor, já não busco mais seu sorriso ou suas respostas, apenas quero te esquecer, pois cansei de ir atrás de um amor que não existe, que nunca existiu e que nunca existirá. 

Estou ciente que tudo não passou de um devaneio muito exagerado da minha pequena mente distorcida, e ainda dói pensar nisso, como dói, mas se eu quiser sobreviver preciso enterrar bem fundo os restos desse sentimento, enterrando também nossa amizade e, como não poderia deixar de ser, enterrar também uma grande parte de mim. 

Não existem palavras a serem multiplicadas, nem poesias a serem declamadas, hoje a verdade é apenas fria e simples como o corte de uma espada, e como esse corte, deixa profundas cicatrizes, mata. mas ainda precisa ser desferido com força e certeza, com o único objetivo de aniquilar o inimigo. Um único golpe, letal.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Triste doce sonho

Não queria pensar em você todas as vezes que fechar os olhos...

Posso estar em qualquer lugar, de frente a um livro, na fila do banco, basta eu piscar os olhos pra começar a pensar em você. 

Apenas um instante é suficiente para fazer o meu pensamento flutuar para o meu guerreiro branco e dourado. Pacífico e real, divino, inalcançável, distante, frio como o gelo e quente como o sol ao mesmo tempo. 

Não queria pensar nele, pois dói saber que nunca o terei comigo, mas ao mesmo tempo é doce sonhar com aquela beleza seráfica, santa, branca, pura...

Olho para ele e vejo um retrato pintado pelo próprio criador. Singelo, esguio, nobre, belo, delicado... 

Posso enumerar dezenas de suas qualidades, físicas e intelectuais, por certo eu sou um dos poucos que consegue notar tantas delas, mas isso não me faz melhor para ele, pelo contrário, mal sabe de minha existência, e quando sabe, por certo não a considera importante... 

E então eu me recolho novamente a esse triste doce sonho, meu refúgio em meio a frialdade do seu desamor...

terça-feira, 18 de abril de 2017

Brilho de foice

Algumas vezes precisamos dizer coisas que ficam entaladas em nós, como a feijoada de domingo que no calor do momento não caiu muito bem com aquela cerveja quente e barata comprada de última hora na esquina. E algumas vezes comer exageradamente é uma ideia ainda melhor do que investir em coisas que dariam resultados ainda mais desastrosos.

Estamos tomando decisões erradas em todos os momentos de nossa vida. Acredito veementemente que tomar decisões erradas esteja incluso no DNA humano, ou algo do tipo, mas as vezes eu me surpreendo com minha própria capacidade me autossabotar (palavra feia pra caramba de com dois "s" depois do acordo ortográfico dos países lusófonos, mas ok). 

Nos gloriamos em rir dos animais que caem nas mais óbvias armadilhas, mas eu sou pior do que todos eles, pois eu mesmo armo as minhas armadilhas. 

Ainda ontem falava com uma amiga a respeito da minha carência exagerada e na forma como expresso essa carência através de incontáveis paixões que me resultam num cansaço psicológico extremo, e as vezes eu me assusto com minha capacidade de criar situações que nunca, em hipótese alguma, poderiam acontecer. 

Me vi sonhando acordado, sem efeito de nenhum remédio ou álcool, com um cenário imaginário, onde seria possível andar ao lado daquele guerreiro dourado. Mas nesse cenário ele não era mais um guerreiro, e sim um prícipe, vestido de dourado e branco, mais brilhante que o sol, o sorriso mais resplandecente que a neve e o olhar mais cintilante que o azul do mar. Caminhava ao meu lado, sorria comigo e para mim. Estava comigo. 

Estava comigo. 

Estava comigo?

Não, não estava comigo. 

Não estava ali.

Estava a faculdade, ou no caminho para casa, não importa, mas não estava ali, não estava comigo. No meu sonho acordado aquele era um cenário ideal, mas não passou de um devaneio inocente, nada mais...

Foi bom imaginar que ele poderia me querer por perto, como namorado, e apresentar para os meus pais e amigos, e ali ficarmos sorrindo juntos, sendo felizes juntos...

Juntos...

Felizes...

Feliz.

Feliz.

Feliz?

Mas isso não poderia ser verdade. Pois não aconteceu, e nem vai. Ele mal pensa em mim como amigo, no máximo um conhecido grudento e muito chato, quem dirá como namorado... 

Então isso não foi apenas um devaneio inocente, foi sim um devaneio, mas muito, muito perigoso.

Esse tipo de sonho é traiçoeiro, pois nos leva aos braços de uma miragem, de uma ilusão covarde, que nos ilude para nos matar. Como o doce nectar da morte que atrai suas vítimas para o abatedouro. 

Minha mente é minha maior inimiga. Me faz voar pelos altos céus apenas para me atirar uma lança, perfurando-me as asas e me atirando ao chão frio, para ali morrer aos seus pés.

A beleza do guerreiro dourado então é na verdade o brilho da foice da morte, que logo recairá sobre o meu pescoço seco.

Contradições íntimas

A cabeça vai, se liberta, viaja e o corpo, fica. Ou o inverso. 

Um deseja o mundo, o outro deseja a morte. Um deseja a vida, o outro o sono. 

Pela manhã queria dormir, a tarde queria construir casas para os pobres, a noite quero morrer. 

Ontem queria amar. Hoje quero ser amado. Amanhã desejarei ser possuído.

Nunca constante, nunca o mesmo, nunca permanente. Sempre fluído, sempre mutante.

Num momento quer o azul, no outro o amarelo, volta ao azul, detesta o amarelo. 

Num momento quer o amor, no outro o torpor, volta ao amor, tenta fugir do torpor.

Mas o torpor não é como o azul, não se pode escolher o torpor, ou escolher o não torpor, pode-se apenas tentar não morrer, sufocado pelor torpor de não saber o que quer. 

As vezes com o corpo presente, a cabeça no príncipe dourado, ou no príncipe de olhos negros. 

A cabeça presente, no castelo do amado, e o corpo destruído, no chão, destroçado.

O corpo vai, se liberta, vive e a cabeça, fica. Ou o inverso.

Ansioso panorama

A ansiedade é uma companheira traiçoeira, faz-nos imaginar as mais belas paisagens, esperar pelos mais idílicos cantos e nos inebria com os mais doces aromas, apenas para nos entregar a frialdade da realidade crua e sem sabor que é a vida real.

Espero pelo sorriso que não é motivado por mim, pela mensagem que não é enviada para o meu smartphone, pelo "olá, como vai você" que não se preocupa comigo.

Sou apenas um sonhador, enfeitiçado pelos tentáculos gelados da ansiedade que me fazer esperar por um mundo que nunca há de existir, por uma realidade que nunca há de se concretizar, por um amor que nunca há de me amar.

Doce areia

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.

Ninguém sabia me dizer,
Eu já queria até morrer
Quando um velhinho
Com uma flor assim falou:

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
É a vida quando
Chega sangrando aberta 
em pétalas de amor. 

(Vinicius de Moraes)

Sua mensagem foi uma resposta simples, nada demais, nada poético, não era um soneto, nem uma canção de amor. Mas o sorriso que abri quando a vi, foi maior que o dos viajantes ao contemplarem o pôr do sol na mais bela montanha...

Nem a aurora boreal brilhou tanto quanto meus olhos ao ver que tinha te feito sorrir, e nem o azul do mar poderia ser mais cintilante do que seus olhos no doce paraíso da minha imaginação. 

Gosto de apreciar a bela vista da natureza, os mares, as flores, os céus, tudo é belo, tudo é bom, mas a maior inspiração de Deus ele teve ao plasmar a sua forma, e ele certamente também se apaixonou ao contemplar o seu olhar...

A dicotomia desse sentimento é contraditória. Pensar em você é doce como um cubo de açúcar, me faz rir e sorrir pro mundo como uma criança contente em ver a mãe. Me sinto calmo, estranhamente calmo, com uma pequena chama a crescer dentro de mim...

Pensar em você é sentir a brisa leve do fim de tarde, é como sentar ouvindo uma sinfonia de Beethoven numa noite fria tomando chocolate quente.

Ao mesmo tempo pensar em você é sentir um prenúncio do Apocalipse iminente que há de destruir o mundo. É como o soar dos alarmes das costa que anunciam a chegada do desastre. Não há o que fazer, nada pode evitar a grande onda de destruir tudo o que existe em sua frente...

Assim como nada pode evitar que eu me entregue totalmente a você, de corpo e alma, e depois me machuque por isso. Sou como a areia da praia que massageia os seus pés enquanto pisa em mim, e assim eu vou vivendo, sentindo o gosto doce do seu olhar, esperando o meu fim chegar... 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Dúvidas e pessoas

Uma pergunta que sempre me incomoda, e pelo que pude perceber, também incomoda muitos ao meu redor: se no mundo existem tantas pessoas, qual razão para apenas algumas despertarem em nós sentimentos especiais?

De todas as pessoas do mundo são poucas as que amamos, seriam elas especiais? O que torna essas pessoas tão diferentes de todas as outras iguais a elas? 

Nesse momento, meu coração se inquieta em pensar em três pessoas. Há no meu íntimo uma terrível batalha, onde três exércitos disputam pelo domínio total de meu amor.

Um amigo que se foi, um amigo que me odeia, e um estranho por quem estou apaixonado. 

Três pessoas diferentes, três sentimentos diferentes. 

Perda, saudade, desejo.

Apenas uma coisa eles tem em comum: partilham no meu coração um sentimento único, que ninguém mais no mundo tem em gênero e grau semelhantes... Esses amores consomem não apenas meu sentimento, mas também tempo, bem como o meu vigor físico. Fazem de mim um homem fraco, sempre prestes a desmoronar por onde quer que passe e cruze com algum deles. 

E justamente por ser tão intenso é que pergunto: Qual a razão para me sentir assim por conta deles, e não por outras dezenas de garotos que eu conheço? 

Será que por outro eu poderia sentir o mesmo? Será que o que torna esse sentimento único é o fato de eu o sentir, ou por quem eu o sinto? Pois no meu íntimo eu me pergunto se serei capaz de sentir o mesmo por outro alguém um dia... 

Gostaria de compreender melhor o que é o amor, pois as definições que costumeiramente encontro não traduzem corretamente o que sinto. O dicionário por exemplo, o define como afeto e/ou atração sexual. Isso é pouco, é pouco demais para tentar abarcar algo tão grande quanto o amor.

O que eu tenho não se pode resumir em afeto. Eu tenho afeto por muitas outras pessoas. Tenho afeto por alguns conhecidos, algumas pessoas que encontro as vezes apenas, outras que nunca mais vi, mas por quem ainda guardo certo carinho. Tenho afeto por elas, mas não as amo. Tenho também afeto por esses, mas é mais do que isso.

O que eu tenho não pode se resumir em atração. Eu sinto atração por eles, mas também por outras pessoas. Sinto por alguns estranhos que vejo na rua, ou nas fotos, e nem por isso pode-se dizer que eu os amo. 

O que eu tenho tampouco pode se resumir em afeto e atração. Eu sinto essas duas coisas também por muitas pessoas, mas nem por isso pode-se dizer que eu as amo. 

Quando penso neles, por outro lado, é como se algo dentro de mim se destravasse, e ficasse flutuando perigosamente por sobre um penhasco. Como uma delicada taça de cristal, onde me derramo em lágrimas cada vez que penso neles. Essa taça é o meu coração, frágil e delicado, onde derramo por eles o meu amor. O único destino dela é cair se destroçar, mas cada vez que ela cai ao chão, se dividindo em centenas de pedaços, virando poeira, ela torna a reaparecer acima do penhasco, para lançar-se novamente com mais força ao chão. 

Mas eu não sei se isso é amor. Temo que seja apenas um apego a dor, uma veia masoquista que tem me dominado de tal maneira que tem ditado por anos a forma como vivo e existo. 

Tudo o que eu sei, se é que posso afirmar saber de alguma coisa, é que preciso deles para viver. Preciso e não preciso ao mesmo tempo. Não os tenho comigo, e estou a viver, logo não preciso deles pra existir, mas eu quero precisar, e é ai que ta o problema, eu desejo precisar, eu desejo sofrer! 

domingo, 16 de abril de 2017

Obstáculos

O homem veio da natureza... No princípio foi a sopa primordial da vida presente no barro que lhe deu origem a existência, e esse útero primitivo continua a chamar o homem para que este retorne a ele. 

Do pó viemos e ao pó voltaremos. Pode parecer uma reflexão um tanto quanto pessimista para o dia da Páscoa de Nosso Senhor, mas acredito que seja sim um período propício para se pensar na totalidade das coisas que existem no mundo em que vivemos. 

Dizer que fazemos parte de um todo chamado terra pode parecer deveras herético de minha parte, exagerado, mas não estamos separados da criação. Muito embora sejamos imagem e semelhança do criador, é no mundo que vivemos e que devemos buscar a ressurreição. 

Pensava sobre isso enquanto caminhava por um espelho d'água no dia de hoje. Um contato um tanto quanto raro na minha vida, diga-se de passagem. Mas foi uma boa experiência, bem enriquecedora. Entrar em contato com a natureza é entrar em contato com uma harmonia que desconheço. 

Observando o ciclo natural das coisas eu me pergunto por que me preocupa tanto o curso da minha vida. As águas do riacho correm naturalmente. Aqui e ali alguns de nós colocava algum obstáculo, para represar a água, e ali ela se amontoava, mas logo se enchia de tal modo que passava por cima do obstáculo. Se ele fosse deixado ali por vários dias, logo a força do riacho iria se sobrepor a ele de tal forma que seria como se nem sequer estivesse ali. 

Isso me deu uma certa ideia da capacidade que a natureza tem de se adaptar. Mesmo quando algo exterior interfere em seu fluxo natural (no caso o nosso obstáculo) ela age como se nada tive tentando quebrar o seu ciclo perfeito, e sendo perfeita ela continua existindo. 

Talvez aprender com a natureza a se adaptar aos problemas que a vida coloca seja a lição de hoje. Ou seja a lição de uma vida. Não sei ao certo, mas quero acreditar que tenha sim uma lição aqui,

Significa que não preciso me desesperar por ter passado o dia longe das redes sociais, mas mesmo quando olhei o celular não tinha recebido nenhuma mensagem daquele alguém especial. Fiquei triste, bem chateado na verdade, e isso foi como um obstáculo bloqueando meu rio. Preciso então transbordar, superar, passar por cima, como se ele (o obstáculo, não o menino) não existisse. 

Pode parecer simplório da minha parte usar uma alegoria tão rebuscada quanto a do fluxo do rio para tratar dos meus relacionamentos fracassados, mas fazer o que não é mesmo? Minha vida é simplesmente um vórtice infinito de fracassos, fracassar na figura de linguagem é só mais um charme que eu mesmo acrescentei a minha quase infindável lista. Vida que segue. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Outro nada, outro lixo

Já percebeu como estamos sozinhos no mundo? 

Essa constatação me veio como um insight mais cedo e ainda avança por sobre meu pensamento como uma névoa densa a cobrir os meus calcanhares, bloqueando a visão do chão e escondendo em seu mistério algum terrível precipício por onde cai minh'alma numa descida vertiginosa ao inferno.

Não digo isso com o pesar que deveria, mas com sangue e ardor nos lábios, da raiva por ter acreditado inocentemente por alguns instantes que existiam pessoas minimamente decentes no mundo.

Não existem.

Somos todos imundos, desprezíveis, dignos apenas de pena e rancor. Vivemos num mundo rodeado por medo, fome e caos, semeados generosamente pelo mesmo homem que sente medo, passa fome e padece no caos. 

Estamos sozinhos, muito embora cercados uns pelos outros, mas vivemos como se o outro não existisse, como se fôssemos os únicos. Mas não somos, e justamente por isso fazemos o outro sofrer, a todo instante, com cada pequena palavra mal dita... Palavras malditas...

Por mais que usemos da empatia, um conceito que considero deveras abstrato e quase impossível de ser vivenciado, acredito que na verdade ela não passe de um embuste, para tentar enganar nosso próprio coração e convencer o mundo de que somos boas pessoas. 

Não somos.

Na verdade somos todos ruins, péssimos, nojentos. 

Fazemos o bem apenas para tirar do outro algum proveito, ou para agradar nossa própria consciência, fruto de nossa pequena mente distorcida, de que somos altruístas, quando na verdade apenas externamos nosso egoísmo por meio de uma prática mais ou menos altruísta.

Mais ou menos...

Pois sempre damos ao outro o mínimo, aquilo que não nos faltará, aquilo que sobra. Pouquíssimos são aqueles que, por amor, não sabem calcular. Salvam-se por alguns instantes, mas nem estes estão livres da condenação que é viver sozinho num mundo cheio de gente.

O fato é que não entendemos o outro. As vezes por incompetência, por incapacidade, mas também por falta de vontade.

Não entendemos o outro, nem sequer alguns aspectos do outro. Me atrevo a perguntar se conseguimos ao menos conceber a existência do outro. 

Não entendemos a alegria do outro, mas a invejamos, como se a alegria do outro pudesse se tornar a minha alegria, mesmo quando já somos felizes.

Não entendemos a dor do outro, mas sempre a diminuímos, afinal o outro nunca sofre tanto quanto nós não é mesmo?

Não entendemos o amor do outro, nem mesmo quando esse amor tem a nós como objeto amado.

O outro é sempre menos. Não sabe amar direito, nem demonstrar direito, nem lutar direito. Idealizamos um eu superior para projetar no outro o meu fracasso.

E afinal, não somos todos fracassados? A humanidade fracassou, completa e irrefutavelmente. Há nela apenas alguns resquícios de egoísmo disfarçado de bondade e pacificidade, mas em toda parte já conseguimos notar o egocentrismo declarado. Ao menos o homem não esconde a imundície que se tornou, já que nos transformamos praticamente num grande lixeiro a céu aberto.

Lixos que produzem mais lixo.

Tudo o que fazemos é lixo, apenas balbuciamos, nos matamos aos poucos e voamos por aí como se fôssemos pluma, e não fazemos de fato nada. 

Meu único consolo é que um dia tudo isto terá fim. Um dia morrerei, todos morreremos, e deixaremos de lado essa existência patética. Quem sabe quando formos todos devorados pelos vermes da terra aprendamos a cooperar, coexistir, uns com os outros.

Meu único consolo é que um dia tudo isto terá fim. Já não mais chorarei pelo homem que não me ama, já não mais terei ódio dos que não me compreendei, e já não mais sentirei raiva de mim mesmo por não compreender o outro. Meu único consolo é que um dia tudo isto terá fim.

domingo, 9 de abril de 2017

Olhar x Prisão

Ei, posso te dizer uma coisa estranha e bem inusitada? 

Hoje, por uns breves segundos, eu me perdi em meio aos seus olhos. Durante brevíssimos instantes eu achei que estava preso, mas não de uma forma ruim, muito pelo contrário, acho que seria até mesmo capaz de matar para voltar aquela prisão.

Foi num simples cruzar de olhares, naquele momento tudo mudou. Você deve ter percebido, olhei bem fundo nos seus olhos, pois foi neles que me perdi, e foi neles que me prendi, e me sinto ainda preso aquele olhar.

Olhar frio, mas não de uma forma ruim, sóbrio, porém ao mesmo tempo amoroso, compassivo. Olhei para eles e me vi frente um grandioso oceano de águas gélidas, mas de uma beleza idílica impossível de descrever com palavras. Me senti rodeado por aquelas águas de um azul mágico, quase sobrenatural, plasmático, algo que não acredito ser possível de encontrar na natureza com beleza semelhante. 

Apenas aquele breve instante, foi suficiente pra me arrebatar, já não estava mais onde meu corpo se encontrava, mas rodopiava nas águas daquele mar impetuoso, e mesmo sentindo que as águas daquele mar iriam me matar... Mas nesse mar eu gostaria de me jogar, tamanha era sua beleza hipnotizante. 

Disse que seu olhar era como uma prisão, pois quando me fitou, me deixou sem forças, preso a ele, preso aquela beleza arrebatadora e gélida, azul como o céu e fria como uma grande geleira. 

Em contrapartida, mesmo sendo de uma beleza profusa e gélida, também era uma beleza que me enchia de calor, de torpor e de amor... Me aprisionou com o olhar... 

Me deixe ver de novo aquele olhar... 

Me deixe habitar em seu olhar... 

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Silêncios e flores

Ao contrário do que pensam os leigos no assunto, uma música não é feita apenas de uma combinação de sons, mas é uma complexa combinação entre o som e o silêncio que nos dá o resultado final que tanto nos maravilha a alma.

Já dizia Platão que toda arte é ensinada pelo corpo, menos a música que é ensinada pela alma. Quem nunca ouviu uma música e sentiu que ela nos elevava o pensamento? Nos fazia viajar para longe, contemplar paisagens que nunca havíamos visto antes? Essa é a característica da arte mais elevada... Conduz a alma. 

Muitas são as imagens que me veem a mente durante uma apreciação. Por exemplo, Mahler me leva a contemplar grandiosas visões de realidades etéreas, elevadas, de mundos que não existem, ou que existem, mas que só consigo ver naqueles momentos. Não poderia escrever jamais as idílicas visões que tive ao ouvir suas sinfonias... Tchaikovsky é outro com o poder me levar, no entanto nunca viajei por campos etéreos em sua companhia, mas sim caminhei ao lado de heróis verdadeiros, por terras verdadeiras, que ele mesmo deve ter vivido, e que conseguiu suas dores e glórias em sua música.

Em todas essas composições o silêncio tem papel importante, embora seja a ele relegado um papel secundário, que não raramente passa despercebido pelo público geral. Ironicamente não foi uma composição erudita que me trouxe essa compreensão, que dormia no meu subconsciente desde as aulas de violino anos atrás, mas uma música do K.Will, calma, delicada, repleta de pausas, que me fez diminuir o ritmo frenético dos estudos da pós para contemplar um campo de belas flores onde começava a chover.

Nesse campo as flores tinham diferentes tons de rosas. Eram rosas, tulipas e orquídeas, de diferentes matizes. Uns mais delicados, pareciam que iriam se desmanchar ao menor toque do vento. Outros eram mais fortes, imponentes e brilhantes, e me fez comparar o rosa ao vermelho sangue das rosas que tanto amo. 

Me deti um bom tempo olhando aquela bela visão. O vento soprava delicadamente por sobre as flores e algumas pétalas voavam em direção ao desconhecido. Essa singela ação me recordou da brevidade da beleza da criação. Naquele momento me veio a compreensão que não poderia contemplar aquelas rosas para sempre. 

Levantei meus olhos para o céu, que estava completamente cinza, frio e triste, imponentemente frio. Em poucos instantes começou a chover, e as pesadas gotas de água caiam por sobre as flores, pressionando aquele doce jardim como mãos de gelo. Choveu pesadamente por muito tempo, até que a força implacável dos céus começou a cessar. 

Ao longe uma faísca de luz começou a cintilar e eu percebi que a chuva começava a passar. Pensei que poderia assim contemplar aquela beleza novamente. 

Esperei de olhos fechados que a água parasse de cair, ainda sentindo os ossos frios e enrijecidos, acreditando que aquela visão iria me aquecer novamente. 

Quando finalmente parou, e pude sentir o calor do sol novamente sob o meu rosto, eu abri os olhos.

E qual não foi a minha surpresa quando vi que o belo jardim não mais existia. Suas pétalas estavam destroçadas pelo chão, destruídas pela força da chuva que caiu impiedosamente sobre elas, e foi ali, vendo aquela beleza destruída que eu comecei a chover.

As minhas lágrimas caiam de forma tão pesada e desesperada quanto as da chuva, mas não importava quanto tempo eu chorasse, elas não voltavam a crescer. Dias inteiros se passaram, minhas lágrimas continuavam caindo, mas o jardim cor de rosa não reaparecia. 

Num dia, quando passava como de costume pelo lugar que um dia fora o mais belo que eu já pude contemplar, notei um ponto amarelo, em meio a massa verde, a única que sobrevivera após a tempestade. 

Me aproximei e vi que era uma pequena flor amarela. Me perguntei como poderia ser, uma flor amarela no meu jardim cor de rosa.

E então olhei ao redor, e notei que haviam pequenos botões crescendo aqui e ali, de várias cores, as rosas retornaram, mas ao lado de flores amarelas, vermelhas, brancas, de todas as cores. 

Percebi que o jardim nunca fora meu, e o fato de eu amar as flores rosas não poderiam fazer com que elas existissem para sempre, nem que fosse para sempre iguais. E foi assim, tendo essa concepção recém adquirida pelo silêncio que elas fizeram em sua ausência, que eu pude ver o jardim crescer novamente e se tornar um mar de cores.

Se fosse sempre rosa, não saberia eu o quanto a variedade de cores poderia ser tão bela. E eu me sentei ali, de frente para elas, a me deslumbrar com cada pequeno e único detalhe das pétalas, a contemplar novamente uma beleza desconhecida e efêmera da vida.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Ímpeto

De repente me veio um súbito impulso de falar com você, de ouvir sua voz, seu riso, de ver seus olhos brilharem... Mas ai eu lembrei que não posso fazer isso, e então vim escrever aqui... Pois, o que eu precisava te dizer, não pode voltar para dentro de mim sem que me mate, alguém precisa me ouvir... Mais fácil partilhar então com desconhecidos, do que arriscar quebrar nosso frágil equilíbrio.

Precisava ouvir de novo o timbre doce da sua voz, que ainda flutua entre o metálico e o aveludado, fruto das mudanças da sua idade, e que me divertem tanto... Timbre que me eleva em êxtase, que me acalma e que me aquece a alma. 

Precisava ver seus lindos olhos, e me deixar navegar novamente por suas águas frias e belas, deixar que me levem para águas inexploradas, terras longínquas. Dizem que os olhos são como janelas para a alma... Se isso for verdade, gostaria de mais uma vez poder observar sua alma através de seus olhos, aliás, olhos tão lindos apenas poderiam refletir uma alma ainda mais linda, que eu sei que passa também por tempestades. O mar, o belo mar, que vejo em suas cores, é as vezes revolto, mas ainda assim belo. 

Queria falar com você, como antes, mas não posso fazer isso, tudo o que posso fazer é externar aqui esse ímpeto, que com muito esforço tive de lutar para controlar.

Uma amiga disse-me que, as vezes, não devemos evitar dizer "eu te amo" para alguém, mas infelizmente essa situação exige que eu evite, afinal, você mesmo me disse que eu posso sentir, mas não preciso dizer. 

Enfim, acredito que já consiga me controlar, e voltar a andar pelas ruas... Já passou, por hora, aquela incrível vontade de te chamar. 

Pessoas esquecidas

Com frequência nos esquecemos de muitas coisas durante nosso dia. Caminhando na calçada passamos ao lado de uma pessoa de aparência engraçada, antes de virarmos a esquina já nos esquecemos dela. Quando muito, nos recordamos até chegar ao nosso destino. 

Nos esquecemos com essa facilidade das pessoas pois não são importantes para nós, nem sequer as conhecemos... As memórias sobre elas vem e logo passam. Tudo passa. Nessa vida tudo é passageiro. 

As montanhas são desgastadas pelas águas das chuvas e mudam de forma, ainda que essa mudança demore milhares de anos. As folhas caem, os frutos apodrecem, os animais morrem e as pessoas se esquecem.

Nos esquecemos da moça de aparência sofrida por quem passamos na rodoviária a nos pedir esmolas. Nos esquecemos do senhor impaciente que ficou reclamando da vida na fila do banco. Nos esquecemos desses estranhos que brevemente nos cruzam o caminho, mas e quando nos esquecemos daqueles que habitaram em nosso coração? 

Não só dos estranhos nos esquecemos, mas também dos que já nos fizeram felizes, dos que nos fizeram sorrir. Nos esquecemos de quem nos amou, e de quem amamos...

Há quem discorde dessa afirmação, pois dirá que o amor não é passageiro, e sinceramente não sei se essa afirmação é correte ou não. Mas de uma coisa eu sei: amei pessoas e hoje não me lembro mais delas.

Pode não ter sido amor, pode ter sido qualquer coisa, mas eu me esqueci delas.

E elas se esqueceram de mim.

Como uma multidão desconhecida voltamos a nos desconhecer. Almas e corpos que um dia se tocaram, e que, por alguns minutos ou noites se amaram, hoje não se conhecem mais. 

Eu me esqueci de muitas pessoas, que foram um dia importantes para mim, e muitos se esqueceram de mim também... 

De alguns não sinto falta, pois me esqueci deles, mas alguns, gostaria que se lembrassem de mim... Mas para esses não passo de uma sombra de lembranças, um vazio, um salto no esquecimento. Não mais existo em suas vidas, nem em suas lembranças, para eles estou morto...

E afinal, não estamos todos?