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sexta-feira, 27 de março de 2026

O sequestro do Santíssimo Sacramento e a posse da Santa Ignorância

Ostentando os títulos de teólogo e cientista social, mestre em Doutrina Social da Igreja pela Universidade de Salamanca, Guillermo Jesús Kowalski publicou, no Religión Digital, em março de 2026, o artigo “O sequestro do Santíssimo Sacramento”. Tive contato com o mesmo por meio uma postagem recento do Pe. Zezinho, scj, a quem a fala muito se assemelha. No já conhecido discurso passivo-agressivo dos teólogos da libertação, o referido cientista social demonstra não apenas a incapacidade de distinguir dois eventos diametralmente opostos, mas também uma compreensão teológica bastante deficiente.

Começa por confundir dois fenômenos: o crescimento dos movimentos neocarismáticos, ou mesmo uma transmutação de Novas Comunidades que passaram a adotar uma linguagem mais atraente aos jovens da geração atual, com o movimento conservador que, diante dos desmantelos da fé causados por diversos fatores, encontra no retorno à Tradição um pilar que sustenta não apenas a fé, mas também oferece sólida formação humana.

Nos recorda o Concílio Vaticano II que “a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da Palavra de Deus confiado à Igreja” (DV, 10), não sendo, portanto, um elemento acidental ou meramente estético, mas estrutural à própria vida e identidade da Igreja.

Avalia corretamente que, em certos movimentos juvenis, como as comunidades Colo de Deus e Samaria, arrastam-se às centenas almas carentes por meio de uma espiritualidade marcadamente sentimental, levando os fiéis, ou vítimas, a confundirem o afago emocional com a fé, valendo-se, para isso, da roupagem cristã de momentos como a Adoração Eucarística. Afirma não negar a Presença Real de Cristo, mas o faz poucas linhas depois ao praticamente ignorá-la, em favor de uma leitura elementar e reduzida da Doutrina Social da Igreja.

Ora, o Magistério é inequívoco ao afirmar que “na Santíssima Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo”, ensina São João Paulo II. Reduzir sua centralidade a um entre vários ‘modos de presença’ equivale, na prática, a dissolver aquilo que é fonte e ápice de toda a vida cristã (LG, 11).

“Não porque a adoração eucarística seja questionada. Muito pelo contrário. Aqueles que creem na Presença Real de Cristo sabem que ela é um imenso tesouro da Igreja. Mas, precisamente por isso, dói — e muito — ver como, em muitos contextos, ela é usada indiscriminadamente, superficialmente e para servir a uma espiritualidade privatizada que pouco tem a ver com o Evangelho. E que manipula essa Presença para descartar as outras presenças reais de Cristo.”

É aqui que se inicia o giro de pensamento que, ao que parece, lhe passa despercebido, mas não a quem já conhece o modus operandi da bifurcação de pensamento da intelectualidade que impressiona nosso país. As chamadas “outras presenças” de Cristo, longe de excluírem os pobres e marginalizados, encontram neles precisamente a condição de vulnerabilidade que exige a orientação da Santa Mãe Igreja, para que possam, com o auxílio dos fiéis, superar ou, na impossibilidade disso, ao menos suportar e dignificar sua condição. O sofrimento existe. A caridade é imperativa e indissociável da vida cristã, assim como a conversão. 

Trata-se de ensinamento apostólico elementar, como ensina Pio XII, “o fim último da Igreja é a salvação das almas” , e toda a sua ação,  inclusive a social, deve ordenar-se a este fim sobrenatural. De modo convergente, Leão XIII recorda, em sua célebre Rerum Novarum, que, embora a Igreja se ocupe das questões temporais, “não é para nelas fixar o seu fim, mas para conduzir os homens à felicidade eterna”.

O fim da existência da Igreja é a salvação das almas, e não a mera transformação das condições sociais como um fim em si mesmo. Toda ação eclesial que não tenha por horizonte último a salvação corre o risco de se tornar um esvaziamento da própria fé.

Bento XVI sintetiza, na Deus Caristas Est, “não há dúvida de que a Igreja deve empenhar-se pela justiça, mas ela não pode nem deve tomar nas próprias mãos a batalha política para realizar a sociedade mais justa possível; a sua tarefa é de ordem diversa: abrir os homens a Deus”. É precisamente dessa abertura que brota, como consequência, e não como substituto, o autêntico compromisso social cristão.

“Há um número crescente de encontros em que a exposição do Santíssimo Sacramento se torna o foco absoluto e exclusivo. O Sacramento não só é usado para legitimar o grupo, como também o interesse pelos princípios fundamentais da fé cristã é excluído. Tudo parece encontrar sua justificativa ali.” Assim, mais adiante, o teólogo desloca o eixo da vida cristã para a atividade caritativa, tomada como critério último.

De acordo com Kowalski, o resultado é “uma fé intensa… mas sem encarnação (...) Muito se fala sobre fé, mas que tipo de fé está sendo gerada? Porque, em muitos casos, o que emerge não é uma fé mais madura, mais comprometida ou mais evangélica. É uma fé emocionalmente intensa, teologicamente fraca, socialmente irrelevante.” A afirmação seria correta, não fosse o sentido que ele atribui à chamada “relevância social”. Para o cristianismo, como já dito, toda ação visa à salvação; a relevância que daí decorre não se reduz à transformação econômica, mas consiste, antes, na conversão do mundo a Cristo, cujo Sacrifício se perpetua na fé que os Apóstolos receberam e transmitiram até os nossos dias.

Como ensina o Concílio de Trento, na Missa “está contido e é imolado de modo incruento o mesmo Cristo que uma vez se ofereceu de modo cruento no altar da Cruz” (DS 1743). Trata-se, portanto, de um ato de valor eterno, que transcende toda redução sociológica. Nessa mesma linha, São Pio V, ao promulgar o Missal Romano, não institui uma novidade, mas preserva e codifica uma tradição litúrgica recebida, reafirmando a continuidade orgânica do culto divino. E o próprio Vaticano II, longe de romper com essa herança, determina que “a Igreja não deseja impor uma forma rígida e única” e que “as formas legítimas devem ser conservadas e promovidas” (SC, 4), reiterando a identidade substancial do sacrifício eucarístico.

“Uma fé que sente profundamente… mas transforma pouco. Que adora intensamente… mas se compromete pouco.” Malgrado as incongruências das injustiças humanas, cujo fundamento último reside no pecado original, a transformação cristã convive até mesmo com a aceitação da pobreza, ao seguir o conselho de Cristo de não se apegar aos bens para a missão apostólica. Some-se a isso o testemunho de dezenas de santos, pilares luminosos ao longo dos séculos , que encontraram precisamente na pobreza o caminho de transformação, como no voto franciscano ou na reforma carmelita de Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Não se trata de exaltar a pobreza em si, mas de situá-la corretamente: a pobreza, ainda que injusta, não impede o abraço da fé. Sendo injusta, deve ser combatida, mas sempre sob o estandarte de Cristo.

Leão XIII, citando outra vez a Rerum Novarum, já advertia que “a desigualdade de condições é própria da natureza”, e que o remédio cristão não consiste na nivelização material absoluta, mas na ordenação moral da sociedade à luz da lei divina. De modo convergente, Bento XVI recorda que “o amor — caritas — será sempre necessário, mesmo na sociedade mais justa” precisamente porque a raiz última do mal não é apenas estrutural, mas moral e espiritual.

Acerta parcialmente ao dizer que “a adoração deixa de ser um encontro com o Cristo real e se torna uma experiência espiritual autorreferencial, nascida da imaginação de um grupo social privilegiado.” Como já avaliei em artigo anterior, o que se observa em certas comunidades é o aproveitamento da vulnerabilidade afetiva e intelectual da juventude, transformando-a em consumidora de experiências emocionais intensas, frequentemente mediadas por técnicas de sugestão. Não se trata aqui de um juízo temerário sobre intenções subjetivas, mas da constatação de um fenômeno objetivo: a substituição da ascese e da doutrina por uma emoção religiosa.

O autor se perde ainda mais ao tentar relacionar o movimento neopentecostal , que efetivamente e tragicamente penetrou ambientes católicos, com o movimento conservador que busca firmar-se na Tradição magisterial diante das incertezas contemporâneas. Para ele, a busca pela Missa tradicional, ou mesmo pela correta execução do rito ordinário, constituiria uma “tridentinização” da religião (sic!). A suposta “verdadeira” renovação litúrgica consistiria, então, na substituição das afirmações de fé por um amálgama de discurso social, invocando, de modo acrítico, o desenvolvimento teológico e o Concílio Vaticano II.

Tal leitura ignora um princípio elementar: o desenvolvimento homogêneo da doutrina. São Vicente de Lérins ensia que deve haver progresso “segundo o mesmo sentido e a mesma sentença” (eodem sensu eademque sententia). Bento XVI retoma esse princípio ao falar de uma “hermenêutica da continuidade”, contraposta à ruptura. Assim, o Vaticano II não inaugura, como o uma nova Igreja, mas reafirma, em linguagem renovada, a mesma fé perene, cujo centro permanece o Sacrifício redentor de Cristo tornado presente na liturgia.

Já não consegue ocultar sua posição quando afirma que se cria “uma religião que não questiona a realidade, não desafia estruturas injustas e não incomoda ninguém”, reduzindo, na prática, a Igreja a uma instância de militância sociopolítica. Ataca o conservadorismo sem perceber que este se ancora precisamente na noção clássica de justiça , dar a cada um o que lhe é devido, incluindo, antes de tudo, a primazia de Deus e da ordem da salvação.

Santo Tomás de Aquino define a justiça como “constante e perpétua vontade de dar a cada um o seu direito” (S.Th. II-II, q. 58, a. 1), o que inclui, em primeiro lugar, o culto devido a Deus (virtude da religião). Qualquer inversão dessa ordem implica desfiguração da própria justiça.

O ataque prossegue ao afirmar que os fiéis conservadores tenderiam a descartar a preocupação com justiça social como “comunismo” ou “teologia da libertação”, chegando ao ponto de sustentar que esta última nunca foi condenada. Trata-se de afirmação insustentável.

De fato, a Congregação para a Doutrina da Fé, sob a direção do então Cardeal Ratzinger, publicou instruções explícitas advertindo contra “desvios” da Teologia da Libertação que recorrem a categorias marxistas incompatíveis com a fé, como a Libertatis Nuntius, de 1984. São João Paulo II reiterou essas advertências, insistindo que a libertação autêntica é прежде de tudo libertação do pecado.

“É muito mais simples refugiar-se numa espiritualidade intensa...” afirma ele. Seria verdade, se estivesse falando de conversão real e não de um programa ideológico travestido de religião. Ao insinuar que a adesão à fé bimilenar transforma o culto em “passatempo refinado”, revela que seu verdadeiro alvo não é o desvio emocional, mas a própria Tradição.

O ataque atinge o ápice ao acusar setores da Igreja de desobediência ao Magistério, baseando-se em leituras parciais e distorcidas de intervenções recentes sobre temas sociais. Ora, o Magistério não pode ser fragmentado: ele forma um corpo orgânico. Como ensina o Catecismo, “o ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus foi confiado ao Magistério vivo da Igreja” (CIC, 85), o que exige leitura em continuidade, não em chave seletiva ou ideológica. O autor parece ignorar o mais elementar dos documentos, como ignora, por exemplo, todo o pontificado de Bento XVI.

Quando afirma que a fé corre o risco de se tornar uma “droga religiosa”, toca, de forma involuntária, um ponto real, mas o aplica de modo equivocado. O problema não está na intensidade da adoração, mas na sua desvinculação da verdade objetiva da fé.

Ignora, ademais, a imensa tradição caritativa da Igreja, sustentada ao longo dos séculos precisamente por aqueles que ele rotula como “conservadores” nos quais a vida sacramental e a ação social jamais estiveram dissociadas, mas ordenadas.

Após essa série de críticas, ele formula uma pergunta pertinente: “Qual Cristo estamos adorando?” A resposta, contudo, revela o limite de sua perspectiva: de um lado, jovens reduzidos à própria emotividade; de outro, uma concepção de Igreja inteiramente horizontal.

Entretanto, como recorda o Concílio Vaticano II, “a Igreja peregrina é necessária à salvação” (LG, 14), porque conduz os homens não apenas à melhoria temporal, mas à vida eterna.

Termina acenando a uma verdade evangélica, a de que a adoração deve conduzir a uma vida comprometida, mas a esvazia imediatamente ao restringi-la a um “Reino inclusivo” entendido em chave puramente sociológica. Seu discurso permanece fechado no horizonte terreno, sem qualquer abertura real ao fim último do homem, que é Deus. Em síntese, como ensina São Pio X, “a finalidade da Igreja é conduzir as almas ao Céu” (Vehementer Nos). Toda ação, litúrgica ou social, que se descole desse fim perde sua razão de ser. A caridade cristã, autêntica, não termina no homem: atravessa-o, ordenando-o a Deus.


*Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/663958-o-sequestro-do-santissimo-sacramento-artigo-de-guillermo-jesus-kowalski Acesso em 27/03/2026


Referências:

BENTO XVI, Papa. Deus Caritas Est. Vaticano, 2005. Discurso à Cúria Romana. Vaticano, 2005.

CONCÍLIO DE TRENTO. Decreto sobre o Sacrifício da Missa. 1562.

CONCÍLIO VATICANO II. Sacrosanctum Concilium. Vaticano, 1963. Lumen Gentium. Vaticano, 1964. Dei Verbum. Vaticano, 1965.

CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Libertatis Nuntius. Vaticano, 1984.

JOÃO PAULO II, Papa. Ecclesia de Eucharistia. Vaticano, 2003.

LEÃO XIII, Papa. Rerum Novarum. Vaticano, 1891.

PIO V, Papa. Quo Primum Tempore. Vaticano, 1570.

PIO X, Papa. Vehementer Nos. Vaticano, 1906.

PIO XII, Papa. Mystici Corporis Christi. Vaticano, 1943.

SÃO VICENTE DE LÉRINS. Commonitorium. séc. V.

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. II-II.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas III

Leia a parte II aqui

Do ponto de vista crítico, o desafio é discernir entre experiência espiritual autêntica e engenharia emocional. Não se trata de negar a possibilidade de ação do sagrado em ambientes intensos, mas de reconhecer que a emoção coletiva pode ser amplificada por técnicas conhecidas de condução de grupo e vem sido amplamente usada para atrair jovens sem nenhuma defesa, pois não possuem conhecimento e nem maturidade eclesial para tal. O que nos traz de volta ao ensinamento do Prof. Olavo, ao afirmar que a atual geração é, intelectualmente, atacada numa idade mais tenra, que a impede de ao menos saber que pode ser enganada.

O produto dessa monstruosidade são jovens que se tornam líderes, coordenadores e até pregadores sem conhecimentos mínimos de doutrina e com uma reduzida capacidade de articular a experiência e a catequese. Nos shows, grupos jovens e outros, aprendem a macaquear o jargão de uma ou várias formas de falar que, na falta de um domínio razoável da língua geral e literária, compreendem de maneira coisificada, quase fetichista, permanecendo quase sempre insensíveis às nuances de sentido e incapazes de apreender, na prática, a diferença entre um conceito e uma figura de linguagem. Em geral não têm sequer o senso da “forma”, seja no que leem, e muito menos no que falam. Doutrina? Nunca nem vi.

Aplicado em escala nacional como tem sido, as novas comunidades resultaram numa espetacular democratização da inépcia doutrinária, que hoje se distribui mais ou menos equitativamente entre muitos jovens católicos. Nunca se reuniu tantos jovens, e nunca se conheceu tão pouco o que é a Igreja. 

Ao adotar linguagens performáticas e imersivas, reabre essa tensão entre carisma e instituição, experiência e discernimento. Ainda mais além, o dano não fica limitado apenas aos jovens, mas já se enxerga em toda hierarquia eclesial brasileira. Não há um só evento, Missa ou encontro, com exceção dos praticamente insípidos movimentos tradicionais fechados em si mesmos, que não se escute uma de suas músicas ou que algum momento de exagero sentimental seja explorado e destacado como centro e ápice da vida cristã, malgrado até mesmo a celebração da Eucaristia. 

Nas adorações, a presença do Santíssimo Sacramento é puramente ornamental, retire-o e qualquer um desses momentos poderia facilmente se passar numa igreja protestante, sem qualquer embasamento ou aprofundamento teológico, mas com essa retórica sugestiva e pérfida. Nos Cercos de Jericó, Encontros de Adolescentes com Cristo (EAC), Jovens com Cristo (EJC), Casais com Cristo (ECC), os cursos promovidos pela Escola de Evangelização Santo André (EESA), qualquer grupo de jovens ou outras invencionices, porque além de brega e heréticas essas iniciativas também são dotadas de uma ferina criatividade, todos tem em comum esses elementos sugestionáveis para disfarçar a ausência de espiritualidade numa forma onde se apresenta, porca miséria, como a única espiritualidade possível.

A sociologia e a antropologia da religião interpretam esses estados não apenas como “indução”, mas como construção ritual. Victor Turner e Émile Durkheim, por exemplo, analisaram como rituais coletivos podem gerar aquilo que Durkheim chamou de “efervescência coletiva”: um estado de excitação emocional e sensação de transcendência que emerge da participação sincronizada em gestos, cantos e movimentos. Nesses contextos, o ambiente sensorial, música, luz, ritmo, não é mero acessório, mas parte constitutiva do rito. Ele organiza o tempo, marca transições e cria uma atmosfera na qual os participantes se percebem inseridos em algo maior que si mesmos. O transe, nesse sentido, não é apenas psicológico, mas socialmente mediado.

Um exemplo simples, porém claro e lamentável, é a música "Acaso não sabeis" da já referida Colo de Deus que, não só é cantada em todo e qualquer momento mariano como substituiu de uma só vez os belíssimos hinos dedicados à Imaculada Conceição, que já não são cantados nem mesmo nas paróquias que possuem tão honroso título. No entanto, como é de fácil execução (já que a mesma frase é repetida até a exaustão), o fato de uma participação maior da assembleia traz a ideia, falsa por sinal, daquela participação ativa dos fiéis que pediu o Concílio Vaticano II. No entanto, com o completo esvaziamento do significado do dogma da Imaculada Conceição, os fiéis não estão participando efetivamente simplesmente pelo fato de que não se trata mais de um ato piedoso e cristão, mas apenas de uma efusão coletiva, conforme o parágrafo anterior.

Talvez a pergunta mais profunda não seja se essas comunidades são legítimas, muitas o são canonicamente, mas que tipo de subjetividade religiosa estão formando. Uma fé capaz de subsistir no silêncio, na aridez e na rotina sacramental ordinária? Ou uma fé dependente de picos emocionais e ambientes cuidadosamente construídos para criar um público fiel e ignorante? A nós, resta clamar:

Piedade, ó Senhor, tende piedade! (Sl 50)


REFERÊNCIAS

DOCUMENTOS DO MAGISTÉRIO E ORGANISMOS DA SANTA SÉ

BENTO XVI. Exortação apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis. São Paulo: Paulinas, 2007.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Renovação Carismática Católica: estatutos do ICCRS. Vaticano, 1993.

CONSELHO PONTIFÍCIO PARA OS LEIGOS. Iuvenescit Ecclesia: carta aos bispos sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos. Vaticano, 2016.

JOÃO PAULO II. Christifideles Laici: exortação apostólica sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja. São Paulo: Paulinas, 1989.

JOÃO PAULO II. Discurso aos participantes do encontro internacional da Renovação Carismática Católica. Vaticano, 30 maio 1998.

PAULO VI. Discurso aos participantes da Conferência Internacional da Renovação Carismática. Vaticano, 19 maio 1975.

DOCUMENTOS DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB)

Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 53: Igreja e novos movimentos. Brasília: CNBB, 1994. 

Documento 62: Missão e ministérios dos leigos e leigas. Brasília: CNBB, 1999.

OBRAS SOBRE RCC, MOVIMENTOS E CATOLICISMO CONTEMPORÂNEO

BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1981.

CARRANZA, Brenda. Catolicismo midiático: a Renovação Carismática Católica e a comunicação no Brasil. Aparecida: Santuário, 2011.

MARIZ, Cecília Loreto. Catolicismo no Brasil contemporâneo: reavivamento e diversidade. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

PRANDI, Reginaldo. Religião e sociedade no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

SANCHIS, Pierre. Catolicismo: unidade religiosa e pluralismo cultural. São Paulo: Loyola, 1992.

RANAGHAN, Kevin; RANAGHAN, Dorothy. A renovação carismática católica. São Paulo: Loyola, 1972.

SUENENS, Léon Joseph. Uma nova efusão do Espírito. São Paulo: Loyola, 1975.

WAGNER, Peter. A igreja e os movimentos carismáticos. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA E ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO / EXPERIÊNCIA COLETIVA

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 2011.

HILGARD, Ernest R. Divided consciousness: multiple controls in human thought and action. New York: Wiley, 1977.

HULL, Clark L. Hypnosis and suggestibility. New York: Appleton-Century-Crofts, 1933.

LE BON, Gustave. Psicologia das multidões. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2008.

TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

WESSINGER, Catherine (org.). The Oxford handbook of millennialism. Oxford: Oxford University Press, 2011.

XENITIDIS, K.; CAMPBELL, J. (org.). Music and altered states of consciousness. London: Routledge, 2018.

OUTRAS OBRAS

CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas II

Parte I aqui

A utilização de ambientes controlados para favorecer estados de transe, música alta e repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e sincronização coletiva de gestos, é um fenômeno estudado há décadas por psicólogos, antropólogos e teóricos da religião. Em termos gerais, tais elementos não produzem automaticamente um “transe” no sentido clínico estrito, mas criam condições propícias para estados alterados de consciência, intensificação emocional e maior sugestionabilidade. O ambiente sensorial funciona como um campo de modulação: reduz estímulos externos concorrentes, aumenta a imersão e favorece a concentração em uma narrativa ou experiência compartilhada. O resultado é uma espécie de foco atencional coletivo que pode ser interpretado, pelos participantes, como experiência espiritual, catarse estética ou integração grupal.

Na psicologia experimental, a noção de sugestionabilidade é central. Desde os estudos clássicos de hipnose no século XIX e início do XX, observou-se que a repetição rítmica, a monotonia sonora e a condução verbal podem facilitar a entrada em estados de absorção profunda. Clark L. Hull, em seus estudos sobre hipnose, já indicava que o ambiente e a expectativa do participante desempenham papel tão importante quanto a técnica do condutor. Mais tarde, Ernest Hilgard desenvolveu a teoria da “dissociação neodissociativa”, sugerindo que, em certos estados de foco intenso, a consciência pode se organizar em camadas, permitindo que sugestões externas sejam experimentadas com menor resistência crítica. Em ambientes coletivos, essa dinâmica é amplificada: a percepção de que “todos estão vivendo algo” reforça a disposição individual de entrar no mesmo estado.

Nos eventos da RCC, e nos das novas Comunidades Eclesiais (sobre as quais falarei a frente) um padrão é facilmente observável: o Santíssimo Sacramento em evidência, pouca luz (geralmente semelhantes as usadas em casas de show), música intensa e repetitiva (a maioria das composições possuem poucas linhas mas são executadas até mesmo por horas inteiras juntamente com a "pregação").

A psicanálise e a psicologia das massas também oferecem ferramentas interpretativas relevantes. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), Freud argumenta que, em contextos grupais intensos, o indivíduo tende a suspender parte de sua autonomia crítica e a se identificar com a figura do líder ou com o grupo como um todo. Essa identificação produz um sentimento de coesão e pertencimento que pode ser vivido como êxtase ou elevação. Gustave Le Bon, ainda no final do século XIX, descrevia a multidão como propensa a estados emocionais contagiosos, nos quais a sugestão e a imitação se propagam rapidamente. Embora suas formulações sejam hoje consideradas simplificadoras, a ideia de contágio emocional permanece influente: em ambientes com música envolvente, iluminação específica e narração sugestiva, a resposta emocional de um indivíduo tende a reforçar a dos demais, criando um circuito de retroalimentação. 

Os fenônemos da "Oração em Línguas" ou do "Repouso no Espírito Santo" parecem encaixar-se diretamente nessa descrição, e não num fenômeno místico de fato pois, como dito por inúmeros santos místicos, como Santa Tereza D'Avila, Catarina de Sena, João da Cruz, Teresinha do Menino Jesus, esses são sempre iniciativas divinas, não podendo, por pessoa sem longa caminhada espiritual, serem provocados à revelia. 

Do ponto de vista clínico e fenomenológico, convém evitar reduções simplistas. Estados de transe ou absorção podem ser vividos como profundamente positivos: experiências estéticas intensas, sensação de comunhão, catarse emocional ou percepção de transcendência. A questão central não é a existência desses estados, mas o contexto em que ocorrem, o grau de autonomia dos participantes e a abertura à reflexão crítica. Ambientes com música envolvente, luz indireta e condução verbal podem facilitar a imersão e a sugestão, mas sua interpretação dependerá do enquadramento cultural, religioso ou artístico. Em alguns casos, serão vistos como práticas legítimas de espiritualidade ou expressão coletiva; em outros, como técnicas de persuasão intensiva, sendo esta a que se observa sem nenhuma dificuldade atualmente. 

Não fui o único a perceber isso, consciente ou incoscientemente e, aos poucos, me aproximar de uma espiritualidade mais fundamentada na Tradição milenar da Igreja, como a carmelita ou a franciscana. mas os números de adeptos da RCC como movimento vem diminuindo. No entanto, isso não significa que ela vem enfraquecendo, pelo contrário, ela apenas vem mudando de nome e se vascularizando.

Hoje, no Brasil, pode-se dizer que Renovação Carismática Católica, institucionalmente identificada como tal, ocupa um lugar ambíguo e decisivo. Por um lado, revitalizou paróquias, atraiu jovens, produziu uma cultura musical e devocional vibrante e ofereceu sentido a milhões de fiéis. Por outro, levanta questões sobre o equilíbrio entre emoção e formação, experiência e tradição, identidade católica e influência pentecostal. A RCC permanece como uma força que reconfigura o catolicismo brasileiro por dentro: ao mesmo tempo integrada e inquieta, institucional e efusiva, capaz de reacender a chama da fé e, igualmente, de expor as fraturas e disputas que atravessam a Igreja no Brasil. É nesse campo de tensões, entre carisma e estrutura, fervor e discernimento, que se desenrola sua história recente, ainda em aberto e longe de qualquer síntese pacífica.

Como dito, a RCC se mantém como força organizadora e formadora do pensamento católico, ainda que sob nomes que atraem uma geração mais nova. O que nos leva, novamente, ao Prof. Olavo. Embora ele esteja falando especificamente da educação, pode ser aplicado totalmente ao nosso âmbito católico.

Quando Olavo fala do Imbecil Coletivo, ele o define como “um grupo de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem com a finalidade de imbecilizar-se umas às outras” isto é: "indivíduos inteligentes, razoavelmente cultos, apenas corrompidos pela autointoxicação ideológica e por um corporativismo de partido que, alçando-os a posições muito superiores aos seus méritos, deformavam completamente sua visão do universo e de si mesmos."

Essa definição já não se aplica, nem aos intelectuais que se refere Olavo, nem aos carismáticos de nossa geraçao, especialmente pós 2010, mais ou menos. Até então, a RCC promvia encontro com tamanha frequência que, alguma formação era recebida, ainda que não nomeadamente mas, por vezes, por mimetização. Através da imitação, os membros aprendia a pregar, citar a Bíblia, conduzir grupos de oração, macaqueando os seus líderes.

Assim como a partir dos anos 1980, a elite esquerdista tomou posse da educação pública, aí introduzindo o sistema de alfabetização “socioconstrutivista”, concebido por pedagogos esquerdistas como Emilia Ferrero, Vigotsky e Paulo Freire para implantar na mente infantil as estruturas cognitivas aptas a preparar o desenvolvimento mais ou menos espontâneo de uma cosmovisão socialista, praticamente sem necessidade de “doutrinação” explícita. No campo religioso, hoje, multiplicam-se apenas a ação ritual, com brevíssimas palavras de um condutor. Não há a formação, senão no campo mais interno, enquanto o público externo recebe apenas o que internamente foi decidido em doses generosas de sugestão e fenômenos que facilmente poderiam ser classificados como histeria coletiva.

Quando comparamos as gerações, podemos observar o fundo comum e a diferênça estética adaptada ao público. Por isso nao quis usar a expressão "fiel", pois o fiel exerce sua fidelidade justamente ao ensinamento dos Apóstolos, transmitido pela Igreja por meio do Magistério autêntico e da Tradição, e não segue apenas essa ou aquela mudança visual ou musical desse ou daquele movimento.

Se lembrarmos que as Novas Comunidades surgem, em grande parte, como desdobramento da Renovação Carismática Católica a partir dos anos 1970–80. A Canção Nova (fundada por Pe. Jonas Abib, em 1978) e a Shalom (fundada por Moysés Azevedo, em 1982) são exemplos paradigmáticos: comunidades com estatuto reconhecido pela Santa Sé, forte vida comunitária, missão evangelizadora e ênfase na experiência pessoal com o Espírito Santo, ainda que questionáveis. 

Nessas comunidades de primeira geração, há um esforço de institucionalização relativamente sólido: formação doutrinária sistemática, inserção paroquial (ainda que com tensões), reconhecimento canônico e um discurso de fidelidade ao magistério. Mesmo assim, críticos apontam desde cedo um deslocamento do centro da vida católica, da liturgia sacramental e da vida paroquial ordinária, para experiências intensivas de oração, música, pregação e convivência comunitária. Em termos sociológicos, isso já representava uma mudança de eixo: a religião vivida como experiência afetiva e performática, não apenas como pertença sacramental e doutrinária. A devoção se tornou algo legado ao movimento e não à Igreja que ele fazia parte. o Grupo de Oração enchia igrejas tanto ou mais que as Missas.

Quando avançamos para comunidades mais recentes, Colo de Deus, Samaria, Arte Deus, Theotokos, entre outras, percebemos uma segunda geração marcada por forte influência estética, midiática e geracional. Essas comunidades dialogam com uma juventude formada no ambiente digital, em cultura de eventos, festivais e linguagem emocional direta. A diferença não é apenas cronológica, mas de intensidade sensorial e simbólica.

Se a Canção Nova e a Shalom se estruturam em torno de pregação, formação e vida comunitária relativamente estável, comunidades como a Colo de Deus enfatizam fortemente experiências de imersão: retiros de impacto, música contínua, iluminação cênica, narrativas testemunhais, momentos de forte descarga emocional. A espiritualidade não é ensinada; ela é encenada, performada e sentida corporalmente. O espaço litúrgico ou para-litúrgico se aproxima, não raramente, de um ambiente de espetáculo devocional cuidadosamente coreografado.

Comparações com shows de rock, festivais ou grandes eventos esportivos ajudam a ilustrar o fenômeno em chave secular. A música alta e repetitiva, a iluminação coreografada e a presença de um performer carismático criam um campo de intensa sincronização emocional. O público canta em uníssono, move-se em ritmo comum e experimenta uma sensação de unidade que muitos descrevem como “arrebatadora”. A psicologia social fala, nesses casos, em sincronização comportamental e ressonância emocional. Estudos contemporâneos em neurociência social indicam que a sincronia de movimentos e sons pode aumentar a liberação de neurotransmissores associados ao prazer e ao vínculo social, reforçando a coesão do grupo e a intensidade da experiência.

No entanto, a mesma lógica pode assumir contornos problemáticos quando associada a liderança autoritária ou a narrativas fechadas. O caso de Jonestown, em 1978, frequentemente citado em estudos sobre dinâmica de grupos e seitas, exemplifica como ambientes altamente controlados, como isolamento físico, rituais coletivos intensos, repetição de discursos e música, que podem reforçar a coesão interna e reduzir a capacidade crítica dos participantes. É importante notar que eventos extremos como esse resultam de múltiplos fatores: carisma autoritário, isolamento social, manipulação psicológica prolongada e contextos históricos específicos. Ainda assim, eles ilustram como a combinação de ambiente sensorial, liderança sugestiva e dinâmica de grupo pode intensificar a adesão emocional e cognitiva.

É aqui que o diálogo com a reflexão sobre sugestionismo e ambientes indutores de transe se torna relevante. A psicologia da religião e a sociologia dos movimentos carismáticos já observaram que ambientes com música repetitiva, iluminação indireta, condução verbal sugestiva e forte coesão grupal podem produzir estados alterados de consciência. Esses estados não são necessariamente patológicos mas podem ser interpretados, dentro do campo religioso, como experiências  de perigosas de êxtase, ou simulacros de consolação ou conversão. O problema surge quando a intensidade emocional se torna o principal critério de autenticidade espiritual. No caso da Colo, os seus membros e simpatizantes parecem incapazes de reconhecer que possa existir uma Igreja que não seja a comunidade. 

Em comunidades mais estruturadas e antigas, como os Arautos do Evagelho (embora a comparação seja brutalmente injusta) há mecanismos institucionais de regulação: direção espiritual, formação doutrinária longa, integração com a vida sacramental ordinária. Em comunidades mais recentes e menos institucionalizadas, a experiência pode tender a se tornar autojustificadora: a emoção intensa é tomada como sinal inequívoco da ação divina. Isso cria um terreno ambíguo, onde a experiência religiosa e a indução psicológica podem se confundir. É uma grande profecia autorealizável: a comunidade promete que o alvo vai se sentir bem e, quando ele participa de um culto projetado especificamente para isso, ele acredita ser uma ação divina, quando na verdade foi apenas o cumprimento de uma série de técnicas aplicadas com um objetivo específico, como nos detemos há pouco.

No caso específico da Colo de Deus, muitos observadores notam a centralidade da estética e da afetividade. A comunidade constrói um ambiente fortemente simbólico: linguagem de intimidade com Deus, música contínua, iluminação que favorece o recolhimento emocional, pregações com tom confessional e catártico. Há uma pedagogia da experiência: primeiro sentir, depois compreender. Esse modelo dialoga profundamente com a sensibilidade contemporânea, marcada pela busca de pertencimento e pela necessidade de experiências intensas num mundo percebido como árido e fragmentado. 

Por um lado, isso pode ser lido como autêntico espírito renovador: a Igreja encontrando novas linguagens para alcançar uma geração que já não responde à catequese tradicional. Por outro, levanta questões eclesiológicas e psicológicas. Quando a experiência religiosa se estrutura em torno de ambientes altamente controlados e emocionalmente carregados, surge o risco de dependência do evento e da comunidade como mediadores quase exclusivos da experiência de Deus. A fé pode se tornar inseparável do clima sensorial que a produz.

A comparação com a RCC é inevitável. A Renovação, em sua origem, também valorizava a experiência do “batismo no Espírito”, a oração espontânea e a música. Mas, ao longo das décadas, passou por processos de institucionalização e correção interna, muitas vezes incentivados pela própria hierarquia. Por isso foi "minguando" como tal mas, na realidade, foi se adaptando e migrando, transmutando nas comunidades mais atuais. As novas comunidades, sobretudo as mais recentes, ainda atravessam esse processo de maturação mas que dificilmente vão atingir pois nao possuem consigo nenhum subsídio doutrinário sólido o bastante para tal. Algumas caminham para maior integração eclesial; outras mantêm uma lógica mais autônoma, centrada na própria identidade carismática. Pode-se tecer várias críticas a Canção Nova e a Shalom, por exemplo, mas não se pode questionar a profunda espiritualidade do Mons. Jonas Abib e sua fidelidade a Igreja, lhe rendendo justamente o título de monsenhor.

Em vídeos vazados nas redes sociais, é possível ver um vocalista da Colo de Deus chamando Nosso Senhor Jesus Cristo de "gato de balada" (sic!) e expressões como "vou te pegar" além de expressões inapropriadas para a Bem-aventurada Virgem Maria e Santa Terezinha numa execrável alegoria ao chamado divino. O episódio dividiu opiniões, claro, mas a comunidade não pareceu se importar, ao contrário, o teor de suas açoes permanece o mesmo, sob desculpa de ser necessário usar de um linguagem jovem. Na verdade, o que parece, dada a quantidade de membros que se desligam dessas comunidades para fundarem outras, ao modo protestante de ser, percebemos o que realmente importa: o palco e os holofotes. 

Com efeito,  Hugo Santos, o fundador histórico da Comunidade Católica Colo de Deus, que iniciou seu o ministério por volta de 2006-2008, se desligou da comunidade em 2021 e atualmente segue à frente da Comunidade Samaria. Flávio, o protagonista desse episódio grotesco também já deixou a comunidade. Que tal ato tenha passado sem uma ação forte e, no mínimo, a exigência de uma retratação pública por parte do pregador, demonstra uma fraqueza do Arcebispo de Brasília, onde aconteceu o evento, e uma displicência do clero em permitir que os jovens continuem consumindo os produtos nefastos dessa comunidade. A ação esperada, senão de excomunhão por blasfêmia, deveria, no mínimo, a da extinção da comunidade e do silêncio obsequioso de todos os seus membros notórios, dado o alcance de sua pregação e proporcional estrago que ela pode causar.

A vulgarização da fé produz uma "evangelização" desse tipo. Mas onde vamos chegar? Em nome de uma errada compreensão sobre evangelização se vende a fé pelos centavos da cultura modernista, que cada vez mais se torna inimiga do Evangelho de Jesus Cristo, que não é gato coisa alguma! Devemos banir a transposição da linguagem vulgar da cultura para dentro do Evangelho, isso não nos incultura, mas nos faz negociadores irresponsáveis da fé cristã. A tradução bíblica não autoriza a amálgama de um Jesus adocicado e de mãos dadas com nossas neuroses perturbadoras. 

O que é evangelização? É fazer evento para distrair ao som de músicas do momento e de frases carregadas de clichês? Tornando-nos reféns da ditadura do sentimentalismo, amarrando-nos nos passos contrários aos passos do caminho de cruz. Hoje se bate qualquer lata em nossos eventos "católicos" com recheio da forma protestante de se falar de Jesus Cristo e se diz que é evangelização. Banalizar a Pessoa de Jesus, e não somente o seu Nome, nunca levou de ninguém ao lugar seguro da fé. Voltemos às fontes católicas e constataremos que o que mais fazemos são reproduções de devaneios fantasiosos e pomos o nome de evangelização.

Continua

Espetáculo e pertencimento: a construção do sensível nas comunidades carismáticas I

"Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança" (1Pd 3,1)

De tempos em tempos, alguns movimentos, por necessidades diversas, mudam seu nome e aparência, mantendo, no entanto, um estratégico objetivo, não raramente desconhecido da massa que compõe suas linhas mais superficiais, isto é, seus membros mais incultos e que funcionam como a multidão que marcha em direção ao inimigo, enquanto seus verdadeiros mandantes se escondem por trás de uma fachada de neutralidade, de superioridade intelectual (ou, no caso, espiritual) ou até mesmo se mantém desconhecidos.

Foi o Prof. Olavo de Carvalho quem me ensinou a observar essa constante. Ele frequentemente abordava organizações e movimentos que mudam de nome, sigla ou roupagem ideológica, argumentando que isso faz parte de uma estratégia de continuidade de poder e manipulação cultural, mantendo os objetivos estratégicos inalterados. Ele via esse fenômeno principalmente no contexto da esquerda e do comunismo, que, segundo ele, se adaptam para sobreviver e ocultar suas reais intenções de dominação política e cultural. Ao se referir ao comunismo, ele afirmava que o mesmo não deve ser definido por uma ideologia específica (que pode mudar), mas sim por sua identidade organizacional contínua. Assim, mesmo que o grupo mude o nome de "comunista" para "socialista", "progressista" ou outra denominação, o objetivo final: a busca pelo poder mundial e controle social, permanece o mesmo.

Ele ironizava a ideia de que o comunismo acabou com a queda da União Soviética, argumentando que apenas mudou de estratégia, focando mais na revolução cultural (ocupação de símbolos, narrativas e linguagem) do que apenas na força direta. No contexto brasileiro, Olavo apontava que partidos como PT e PSDB, apesar de parecerem opostos, compartilhavam da mesma base ideológica e objetivos de poder, funcionando como "duas faces da mesma moeda".

Olavo afirmava ainda, com precisão cirúrgica, a estratégia de imposição de novas normas de linguagem e a troca de nomes como instrumentos de controle social para remodelar a conduta e o pensamento das multidões sem que estas percebam a continuidade do objetivo. Por, exemplo, no caso da "Nova Esquerda": ele descrevia que essa, ao mudar a roupagem, muitas vezes alia-se a setores do grande capitalismo para manter sua influência, alterando o discurso contra o mercado para alianças com ele, sem abandonar o objetivo de controle, o que ele chamava de uma forma de "criminalidade" que se disfarça. 

Bem, mas essa introdução não é para aplicar numa realidade política, mas usar o método do Professor num outro fenômeno: o do neopentencostalismo na Igreja Católica no Brasil, nomeadamente por meio da Renovação Carismática Católica (RCC) e, atualmente, das novas Comunidades Eclesiais e movimentos simpatizantes.

Me recordo bem de ter sido esse movimento um dos primeiros com que tive contato na Igreja, ainda criança. Um contraponto interessante já que, ao mesmo tempo, me aproximei da Legião de Maria e seu carisma contemplativo do Santo Rosário. Mas já me surpreendia como qualquer evento produzido pela RCC virava um grande evento. Igrejas sempre cheias, estádios lotados e até "pequenas reuniões" em casa que mais pareciam com os mesmos grandes eventos que aconteciam nas igrejas.

Com o tempo fui me percebendo um pouco mais contemplativo, e com isso me afastando do movimento, ao mesmo tempo que, estudava mais, especialmente o Catecismo (isso por volta dos doze anos) e então fui notando uma certa discrepância entre o ensinamento oficial e aquele que ouvia nos Grupos de Oração. A primeira coisa que me disseram era que se tratava de uma mudança de linguagem, uma simplificação, para que assim a doutrina pudesse se converter em oração no coração das pessoas mais simples. 

Não me convenceu a permanecer no grupo, e desde então venho observado, como na realidade não se trata de uma tradução, mas sim de uma adulteração. Aliada não só da linguagem, mas de uma série de outros elementos especificamente utilizados para controlar o público. Logo mais vou explicar o motivo de usar a palavra "público" e não "fiel."

Começando pelo começo, a (RCC) no Brasil mistura história eclesial, cultura religiosa popular e transformações sociais bem amplas. Ela surge internacionalmente no contexto pós-Vaticano II. O marco simbólico costuma ser o chamado Duquesne Weekend (fevereiro de 1967), nos Estados Unidos, quando estudantes e professores católicos da Duquesne University (Pittsburgh) relataram experiências espirituais semelhantes ao “batismo no Espírito Santo” descrito em ambientes pentecostais. A partir daí, grupos de oração se multiplicaram em universidades e paróquias norte-americanas. Lembrando da fora protestante americana, e do crescimento pentecostal por lá, o que não passou nada despercebido da RCC.

O movimento se expandiu rapidamente para outros países entre o fim dos anos 1960 e início dos 1970. Desde cedo, procurou legitimação dentro da Igreja, no sentindo institucional. Na solenidade de Pentecostes de 1975, São Paulo VI, em um discurso no Congresso Internacional da RCC recebeu líderes do movimento em Roma e pronunciou a famosa frase: “A Igreja e o mundo precisam de vós!”

Esse gesto marcou a passagem da RCC de um fenômeno marginal para um movimento reconhecido, ainda que sempre acompanhado com cautela pastoral, tanto que Santa Sé não criou um documento magisterial exclusivo para a RCC nos primeiros anos, mas a reflexão sobre os carismas se ancora em textos conciliares e pós-conciliares, sobretudo:

Lumen Gentium (1964), especialmente o n°12, sobre os carismas concedidos pelo Espírito Santo a todos os fiéis. Apostolicam Actuositatem (1965), sobre o apostolado dos leigos e a Evangelii Nuntiandi (Paulo VI, 1975) que enfatiza o papel dos leigos e a renovação espiritual na evangelização.

Nos anos 1990 e 2000, a Santa Sé passou a se referir explicitamente ao movimento. O  Pontifício Conselho para os Leigos (hoje Dicastério para os Leigos) reconheceu a RCC como uma das “novas realidades eclesiais”. Em 2019, o Vaticano criou o CHARIS (Catholic Charismatic Renewal International Service), organismo oficial para articular a Renovação no mundo, por decisão do Papa Francisco que, aliás, tem vários discursos relevantes ao movimento (por exemplo, no encontro com a RCC italiana em 2014), nos quais insiste na integração eclesial e na dimensão missionária.

A chegada da Renovação Carismática Católica ao Brasil, no final dos anos 1960 e início dos 1970, não se deu como um projeto pastoral cuidadosamente planejado, mas como uma espécie de enxerto espiritual trazido por missionários estrangeiros e rapidamente apropriado por leigos urbanos em busca de experiência religiosa mais imediata. A atuação dos padres jesuítas Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty em Campinas e São Paulo costuma ser apontada como ponto de partida simbólico, mas o que se seguiu foi um crescimento orgânico, muitas vezes à margem das estruturas diocesanas. 

Em pouco tempo, grupos de oração se espalharam por paróquias e casas particulares, propondo uma espiritualidade centrada na experiência sensível do Espírito Santo, na música, no louvor e na vivência comunitária. O Brasil, atravessado por urbanização acelerada, deslocamentos sociais e pela ascensão vertiginosa do pentecostalismo evangélico, mostrou-se terreno fértil para um movimento que prometia revitalização espiritual sem exigir a ruptura com o catolicismo herdado.

Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1980, a RCC passou de fenômeno espontâneo a estrutura organizada. Coordenações nacionais e diocesanas foram criadas, encontros multitudinários se tornaram comuns e uma estética própria começou a se consolidar: música contemporânea de clara inspiração protestante (inclusive com uso aberto de composiões dessas seitas) oração efusiva, linguagem afetiva e forte protagonismo leigo. Nos anos 1990 e 2000, o movimento já se apresentava como uma das maiores forças de mobilização dentro do catolicismo brasileiro, com redes de grupos de oração, comunidades de vida e aliança, ministérios de música e presença crescente na mídia. A expansão de rádios, televisões e editoras ligadas a ambientes carismáticos deu à RCC uma capilaridade inédita, permitindo que sua espiritualidade alcançasse tanto centros urbanos quanto regiões periféricas. Não se tratava apenas de um movimento interno à Igreja, mas de uma cultura religiosa em formação, com linguagem própria e forte apelo emocional. 

A institucionalização, contudo, exigiu negociação com a hierarquia. A CNBB, ao longo dos anos, buscou reconhecer o valor evangelizador do movimento ao mesmo tempo em que procurava delimitá-lo. O Documento 53 (1994) é emblemático nesse sentido: acolhe a RCC como expressão legítima da vida no Espírito, mas insiste na comunhão com os bispos, na centralidade dos sacramentos e na necessidade de formação doutrinal sólida. Há ali um esforço de domesticação pastoral: reconhecer os frutos espirituais sem permitir que o entusiasmo carismático se converta em autonomia excessiva. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora e outros textos da CNBB reiteram essa postura. O movimento é aceito, mas sob vigilância. Sua vitalidade é vista como recurso missionário, mas também como possível foco de desequilíbrios litúrgicos, teológicos e comunitários.

No plano espiritual, a RCC construiu uma identidade fortemente marcada pela experiência: o chamado “batismo no Espírito Santo”, a oração em línguas, as práticas de cura e libertação, o louvor prolongado, a música como veículo de emoção e fé. Trata-se de uma religiosidade que privilegia o sentir, o testemunho pessoal, a transformação subjetiva. O protagonismo leigo, incentivado pelo Vaticano II, encontra aqui uma de suas expressões mais visíveis. Ao mesmo tempo, essa espiritualidade tende a enfatizar a interioridade e a conversão individual, por vezes em detrimento de leituras mais estruturais da realidade social. A liturgia oficial convive com momentos de espontaneidade; a disciplina eclesial, com manifestações carismáticas que nem sempre se deixam enquadrar facilmente.

É nesse ponto que emergem as tensões mais agudas. Desde sua expansão, a RCC se viu em diálogo, e em disputa simbólica, com outras correntes do catolicismo brasileiro, especialmente aquelas marcadas pela Teologia da Libertação e pelas pastorais sociais. Enquanto estas enfatizavam análise estrutural, engajamento político e leitura crítica da realidade, a Renovação oferecia consolo espiritual, experiência de Deus e transformação pessoal. Não se trata de oposição absoluta, mas de ênfases distintas que, em determinados contextos, se tornaram concorrentes. Em muitas dioceses, a vitalidade carismática atraiu fiéis e recursos, redesenhando o equilíbrio interno das paróquias. Em outras, gerou desconfiança por sua proximidade estética com o pentecostalismo evangélico e por sua tendência a privilegiar a emoção sobre a reflexão.

A tensão também se manifesta na própria lógica do movimento. A RCC nasce como impulso de liberdade espiritual, carismas (supostamente) distribuídos pelo Espírito a todos os fiéis, mas cresce dentro de uma instituição que valoriza ordem, hierarquia e continuidade. O resultado é um equilíbrio instável: entusiasmo e controle, espontaneidade e norma. Em alguns contextos, a ênfase na experiência pode gerar práticas pouco discernidas, lideranças carismáticas com grande influência e uma espiritualidade que oscila entre renovação genuína e certo anti-intelectualismo. Em outros, a institucionalização excessiva corre o risco de esvaziar o vigor original, transformando o carisma em método e a experiência em roteiro.

Um dos pontos que mais chamam atenção é que, nos eventos em que esses carismas se manisfestariam com maior força pela maior presença de servos e, portanto, de mais pessoas em oração, o ambiente é favorável a manifestação sugestionada por parte de seus organizadores. 

Continua

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

A Morte, o Juízo e a Esperança: uma leitura do Dies Irae II

Leia a primeira parte aqui

Em consonância com a Teologia Patrística, São João Paulo II afirma a iluminação da dor pela expectativa da Ressurreição: “O sofrimento humano foi assumido por Cristo e, na sua Páscoa, tornou-se caminho para a vida.” Enquanto o mundo silencia sobre a morte, por um desespero silencioso, a Igreja consola seus filhos na voz do Papa: “A morte não é a última palavra sobre o homem, porque o Filho de Deus penetrou na própria morte e dela fez o início da vida eterna.”

A comunhão dos santos é, para nós, de imenso valor, pois, sendo homens e mulheres como nós, também experimentaram nossas dores e nossos medos, mas encontraram em Cristo a força que lhes fizera confiar plenamente na esperança escatológica. São Gregório Magno, homem de grande sabedoria, confessa, em um de seus sermões, o que sente o homem diante da iminência de seu fim: “Temamos o Juízo futuro, irmãos, e purifiquemo-nos agora para não sermos condenados então. O que não corrigimos em nós na vida presente, o Juiz eterno o julgará com rigor.”. Mais tarde o pecador arrependido vai gemer, prostrado, como réu diante do Juiz. Mas, também como pai e pastor da Igreja, conforta o coração inquieto ensinando onde encontrar a luz: “Desejemos as alegrias eternas, onde não há temor de perder o que se possui, nem dor de procurar o que falta.” Unindo então as duas realidades, São Gregório como que nos mostra uma visão de fogo, mas o fogo do Juiz é o amor que purifica e a verdade que revela. O juízo de Deus é fogo que ilumina: queima a palha, mas revela o ouro. O rosto de Cristo é como uma chama amorosa que revela o que somos sem nos esmagar.” O Dies Irae não canta um fogo de destruição, mas o fogo de um Deus que deseja consumir em nós apenas o que não é amor.

A profundidade da teologia de Santo Tomás de Aquino não condiz com a frieza que normalmente apontam sua obra, nos meios não católicos. Pelo contrário, um coração frio jamais seria capaz de compor os mais belos hinos à Eucaristia, senão que só poderiam ser obra de uma alma ardente. Sem rodeios, ele apresente a morte como essa separação dolorosa e a recompensa perfeita que é a vida eterna transformada pela redenção em Cristo. “A morte, enquanto separação violenta da alma e do corpo, é a mais terrível das coisas naturais.” Mas não permanecemos nela, e podemos retomar a visão do rio, e a morte como passagem, dura, é verdade, mas certa do porto ao qual chegaremos: “A morte foi vencida pela morte de Cristo; assim, aquilo que era causa de temor tornou-se caminho para a vida.” 

Por fim, ao termo da viagem, encontramos algo tão perfeito que, mesmo tendo buscado a vida toda, não poderíamos imaginar tamanha beleza: “A felicidade perfeita consiste na visão da essência divina.” Essa essência é aquela sabedoria que nos criou e para qual desejamos voltar, já nos tendo esquecido de sua perfeição. Essa posição teológica tratada com seriedade e esperança foi recentemente retomada por Bento XVI: “o juízo de Deus não é um tribunal de horror, mas o lugar onde a verdade se torna amor e purificação.”

Com efeito, a visão de Santo Tomás que o fez optar por não mais escrever se dá porque ele reconhecia que, embora fosse genial escritor, ainda assim não conseguiria exprimir toda beleza que viu, condensando-a assim, como uma promessa. Optou pela contemplação amorosa.

Essa promessa é muito bem descrita pela poética teologia da tradição carmelita. São João da Cruz, o qual já me referia sobre a imagem da Noite Escura, enquanto Santa Teresa d’Ávila trata esse mundo como um nada diante de Deus. Reconhece a beleza que nele há, mas exalta que é uma beleza passageira. “Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança.” Esse mundo logo passará, findará, e então nascerá o dia sem fim, essa expectativa pelas núpcias é, a meu ver, o eixo da sua obra: “A vista do que Deus prepara para nós na outra vida faz com que as dores desta nos pareçam nada.” Teresa anseia pela visão do Amado mais do que qualquer coisa. 

Essa expectativa pelo Amado aponta a morte como momento decisivo e a misericórdia como esperança, sem perder aquela seriedade que lhe é própria, um temor. A complexidade desse pensamento foi melhor expressa com o auxílio da música. Verdi em seu Requiem como que condensa a teologia cristã do Juízo Final, como bem dito nos já citados, mas também em Santo Afonso em sua Preparação para a Morte: séria, decisiva e misericordiosa.

Introito do Requiem é como o murmúrio de um cemitério ao amanhecer. O coro entra em voz baixa, quase um sopro que se levanta do pó da terra, como se as almas, recém-despertas do silêncio da morte, ousassem pronunciar pela primeira vez a palavra descanso. Tudo ali é bruma, véu, cinza e, ainda assim, promessa. É o pedido humilde do coração humano: que a eternidade não seja pesadelo, mas repouso; não vazio, mas luz.

Três clamores se alternam como ondas que se quebram na praia da misericórdia divina. Kyrie Eleison, Christe Eleison, Kyrie Eleison, o nome de Cristo é o único som firme no mar de fragilidade humana. Verdi faz a alma ajoelhar: não diante de um juiz implacável, mas de um Deus que conhece os abismos do homem e os chama pelo nome. É súplica, mas também confiança, como o olhar de um filho que implora e espera ao mesmo tempo.

Desaba o céu e os trovões rasgam o firmamento. A orquestra explode como o terremoto do último dia, quando montanhas se movem e os mares se levantam como muralhas. O coro grita como multidão diante da verdade absoluta: o dia da ira não é capricho, mas revelação; não é destruição, mas desvelamento; não é horror, mas a justiça em sua pristina forma. É o estremecimento da criatura diante do Criador.

E entre esse caos, Verdi faz surgir um instante terrível e belo: um sopro quase silencioso do coro murmurando “Quantus tremor est futurus…” porque, no fundo, o medo humano não grita: se estreme.

Dies Irae de Verdi é um ícone sonoro do momento em que Deus desce com toda a Sua verdade, e o mundo inteiro se reconhece pequeno, frágil, pó. Mas também é súplica, porque cada explosão é seguida por um pedido: “Recordare…” Lembra-Te, Senhor.

A pergunta “Que poderei eu dizer?” sobe como uma brisa triste, mas também honesta. É o reconhecimento de que a salvação não nasce das mãos humanas. Cada voz treme como folha ao vento do juízo e Santo Afonso nos alerta com gravidade: “A morte é a porta da eternidade: feliz de quem a encontra em graça!”

O Offertorium e o Sanctus mudam o tom, assim como aquela severidade de Santo Afonso se convertem em reflexão sobre a Pátria Eterna: “No paraíso não se deseja nada, porque nada falta; ali se possui o Sumo Bem.” É tranquilidade depois do abismo, música que sobe como incenso. O movimento é vertical: ascensão da alma que se oferece a Deus. Oferendas e preces a Ti, Senhor, conduzidas por luzes que já não queimam, mas acolhem.

Um clarão de felicidade inesperada, como se, após toda a dor do juízo, os céus finalmente se abrissem. É dança, é sol, é glória. O coro canta como multidão de anjos, com brilho e velocidade jubilosos. O Requiem se encerra não com triunfo, mas com esperança humilde, como se dissesse: “A eternidade começa na entrega.” Não apresenta o Paraiso, chegamos até sua antessala. O restante devemos ver por nossa própria conta. Essa bela visão nos é sugerida por São Francisco de Sales: “A morte não deve ser temida pelos que amam a Deus, pois é a porta da verdadeira vida.” A posição cristã é a da serenidade, não desleixo e pecado, claro, mas esperança na misericórdia, Deus conhece nossas fraquezas mais que nós mesmos.

A eternidade deve ser vista como primavera sem inverno. Se, nesta vida, o coração experimenta invernos de dor, a eternidade é a primavera em que todas as flores brotam ao mesmo tempo. Ali, não existe mais noite, nem frio, nem lágrimas, apenas o calor do amor que tudo preenche. 

Como o Liber Scriptus, vemos a própria vida como um livro que Deus escreve e sela pela morte. Não contém apenas nossos pecados, como muitos o creem, achando que Deus deseja nossa condenação. Pelo contrário, ele deseja ardentemente nossa salvação. Nesse livro, cada dia é uma linha; cada dor, uma sílaba; cada graça, um adorno. Ele mesmo quer de nós a esperança de um dia vê-lo face a face, como nos ensina o Papa Francisco, sobre a esperança cristã diante da morte: “A morte é iluminada pela esperança da vida eterna; não é o fim, mas a porta pela qual passamos ao encontro com Deus.” A palavra final desse livro deve ser o nosso "amém", ressoando como trovão, ao Paraíso em que Nosso Senhor nos aguarda junto de seus anjos e de todos os seus santos.

Não poderia abreviar essa reflexão: é na repetição dessas palavras que a verdade se marca em nosso coração, e é preciso que a esperança da eternidade supere o medo da morte sem o verdadeiro arrependimento. Entre a sombra da morte e a luz da eternidade, a voz da Igreja canta: ‘Recordare, Iesu pie’ — lembra-Te, Senhor, que sou pó chamado à glória.

Referências 

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Preparação para a Morte, Considerações I e VI.

SANTO AGOSTINHO. Comentários sobre os Salmos, 60, 1. A Cidade de Deus, XIII, 2. XXII, 30.

BENTO XVI. Carta Encíclica Spe Salvi, sobre a esperança cristã, 47.

SÃO BOAVENTURA. Palestra sobre os seis dias da criação, XIX, 14. Itinerário da mente para Deus, I, 1.

FRANCISCO. Reflexão da Audiência Geral, 27/11/2013.

SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do Amor de Deus, XII, 13.

SÃO GREGÓRIO MAGNO. Homilias sobre os Evangelhos, II, 34. Comentários sobre a moral em Jó, XXVIII, 47.

SÃO JOÃO DA CRUZ. Carta 21. Dito atribuído, recolhido em Obras Completas, ed. crítica, p. 753.

SÃO JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Salvifici Doloris, sobre o sentido do sofrimento humano, 23. Homilia na Solenidade de Todos os Santos, 1999.

SÃO PAULO VI. Missal Romano, Prefácio dos Domingos do Tempo Comum IX. Credo do povo de Deus - Solene profissão de Fé, 28.

SANTA TERESA D'ÁVILA. Poesias, 9. Castelo Interior, VI, 2, 1.

SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica , I-II, q. 5. I-II, q. 3, a. 8. Exposição sobre o Credo, art. 5.

domingo, 16 de novembro de 2025

A Morte, o Juízo e a Esperança: uma leitura do Dies Irae I

“Tudo passa, Deus não muda." 

(S. Teresa D'Ávila)

O mês de novembro marca algumas celebrações de um tom bastante interessante e que, vejo, passa despercebido porque desconfortável: a realidade da morte. Seja nas celebrações de Todos os Santos, dos Fiéis Defuntos ou nas leituras dos últimos dias do Tempo Comum, é retomado o tema da passagem dessa vida para a eternidade.

A morte sempre acompanhou silenciosamente os passos do homem, como sombra que não se impõe, mas que o convida a erguer os olhos para além de si. Desde nosso primeiro pensamento há essa inquietação sobre o que acontece depois que fechamos os olhos, paramos de respirar e não mais estamos corporalmente ao lado dos nossos. No coração humano há um saber antigo — mais profundo que qualquer ciência — de que não fomos criados para terminar no pó, mas para ser abraçados pelo Deus que nos conhece desde o ventre. E, no entanto, este mesmo coração experimenta a dor, o temor e o estremece diante do juízo que nos aguarda quando cair o véu desta vida. A tradição cristã nunca fugiu dessa tensão: ao contrário, educou-se nela, porque sabia que a verdade sobre a morte revela a verdade sobre a vida.

É nesse horizonte que o Dies Irae se ergue como um farol. Não como um grito de desespero, mas como o clamor de uma alma consciente da santidade daquele que virá. Seus versos ecoam como o gemido profundo do espírito que, iluminado pela justiça divina, reconhece e se prostra diante da visão da própria miséria e, iluminado pela misericórdia, ousa suplicar: “Recordare, Iesu pie”. Este hino medieval não é apenas poesia litúrgica, mas doutrina cantada, capaz de restaurar no fiel o santo temor que conduz à conversão e a confiança filial que conduz à esperança. Grande perda que poucas pessoas o conheçam. 

Enquanto o mundo contemporâneo torna a morte um evento escondido, quase clandestino, e o juízo uma ideia incômoda, a sabedoria da Igreja ressurge com urgência. Os Padres e Doutores reconhecem que a morte é limite, purificação e passagem — realidade dura, mas transfigurada pela cruz daquele que assumiu a nossa condição até o extremo. E se a morte permanece amarga, já não é mais absurda: Cristo nela entrou, e onde Ele está, a noite não é completa, pois “o amor é mais forte que a morte.” (Ct 8,6).

Assim, refletir sobre a finitude humana não significa afundar-se na angústia, mas reencontrar a ordem espiritual que nos prepara para a eternidade. A dor tem sentido, a morte tem porta, o juízo tem rosto, e este rosto é o de Cristo. Entre o rigor da justiça e a doçura da misericórdia, a fé católica canta — com a serenidade de uma Teresa, com o ardor de Afonso, com a claridade de Tomás — que cada alma é chamada ao amor que não passa. 

A morte é representada nas diversas culturas de muitas maneiras, várias assimiladas pelo cristianismo, também nas Escrituras ela aparece de muitas formas. Também desde muito tempo o homem entendeu que coisas complicadas só podem se entendidas por meio de algumas imagens, que não explicam a realidade, mas nos coloca diante da verdade mesma que buscamos. Aqui encontrei na música, arte da expressão dos afetos da alma, para completar aquilo que eu mesmo não consigo dizer, mas que os santos entenderam profundamente, e me legaram, como herança espiritual.

Dentre essas imagens, o escurecer, o anoitecer, o fechar dos olhos para encontrar a escuridão. Com essa imagem, São João da Cruz nos traz a Noite Escura. Enquanto ele fala da purificação mística dos sentidos e da alma, essa purificação também pode ser entendida como a preparação para um novo amanhecer. Dormimos na certeza de um novo amanhã. É na noite que somos assombrados pelos fantasmas de nossos pecados, e por isso geralmente a escuridão é vista de modo ruim, mas essa escuridão é finita, nós o sabemos, e ela não é mera decadência, mas o momento em que todas as seguranças humanas são removidas para que a alma se entregue pura nos braços de Deus, entre os amplexos do Amado.

Muitos de nós já ficamos diante da dor da morte, seja o temor da nossa ou da dor pela perda de alguém que amamos. Essa dor é parte da purificação dolorosa como preparação para a glória. E é essa glória que nos consola nesse momento.

Sobre a alegria dessa perspectiva futura, cremos que "na glória, toda tristeza se converterá em alegria, e toda dor, em suavidade eterna" como nos disse São Boaventura. E é belo notar como os santos apresentam essas realidades nessa dualidade: no plano terrestre da dor, do pecado, e então da glória do mundo novo que há de vir. Bem fez a Igreja ao compor o belo prefácio afirmando que, nesses tempos, ela "recorda a ressurreição do Senhor, na esperança de ver o dia sem ocaso, quando a humanidade inteira repousará junto de vós. Então, contemplaremos vossa face e louvaremos sem fim vossa misericórdia." 

O Doutor Seráfico então condensa essa realidade afirmando a vida presente como vale de lágrimas e a esperança como caminho de ascensão, a condição de exílio nesta vida e alegria da glória futura. Sua visão é a da labuta dessa vida em contraposição ao repouso da próxima. A palavra repouso tem esse tom cândido, fresco, como aquele brisa que alivia um dia quente, pois “enquanto estivermos no caminho, permanecemos em lágrimas e gemidos, suspirando pelo repouso da pátria.” O tema do repouso é central na doutrina católica a medida que se mescla com o Domingo, Dia do Senhor, reservado ao descanso, em lugar do sábado, para os judeus. No entanto, não é um descanso sinônimo de ócio. Jesus curava no sábado, aos Domingos vamos à Igreja e celebramos a Paixão, Morte e Ressurreição. O descanso, portanto, é voltado a Deus: repousar é contemplar Deus ao invés das coisas.

Essa dualidade é, portanto, ligada por uma realidade que nos põe medo, é essa a parte que assusta o coração dos homens. Encontramos então certo consolo ao ver a morte não como fim, mas como travessia. São Paulo VI diz a nós, seus filhos: “Cristo deu à morte um sentido novo, transformando-a de fim em passagem.” A morte é um imenso rio espiritual: atravessamos suas águas tremendo, mas do outro lado está a Terra Prometida. É o último mergulho, em que a alma deixa para trás a poeira que o suja e então emerge para respirar a vida eterna. Mas, embora pareça atemorizante, não estamos sós, Cristo e sua Igreja caminham conosco, como o povo de Israel atravessou o Mar Vermelho a pé enxuto entre paredes de água, assim também a alma atravessa a morte protegida pelos braços do Crucificado. 

Ainda assim, também como Israel, foi preciso que passasse pela purificação do deserto antes de chegar na terra prometida. Nesse ponto, o mestre São João da Cruz nos traz sua já citada imagem da noite escura. “No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor.” Sua teologia, com aquela profundidamente esponsal dos carmelitas, gira ao redor do valor das dores presentes e da visão beatífica. Nele, a ressurreição aparece como aurora irrevogável. A eternidade é o desposório final entre a alma e Deus, já intuído na noite da fé. A morte do justo, e cada lágrima da vida mortal, é como uma gota do puro perfume de mirra a preparar alma para o encontro nupcial, ela é a entrada na sala do banquete, onde o Esposo esperou toda a vida. “As tristezas e trabalhos desta vida são pequenas diante da glória que nos está prometida; e quanto maiores forem, mais proporcionada será a recompensa.” 

Com isso, ao passar a noite escura, a purificação, esperamos a aurora. O sofrimento não é castigo arbitrário, mas trabalho de Deus na alma. A morte é a última sombra antes da aurora eterna, a ressurreição é o sol que Deus põe ao céu uma vez e nunca mais apaga. O Dies Irae canta a madrugada do juízo: terrível para quem rejeitou o amor, suave esperança para quem viveu a contemplar o rosto de Cristo.

Recuando na história, voltamos aos Padres da Igreja, onde Santo Agostinho vai tratar a condição humana, a morte e a esperança da pátria celeste como peregrinação, marcada por dores e a alegria da visão beatífica. “Esta vida, toda ela, se constitui numa tentação. […] Vivemos entre tentações e tribulações até que passemos para onde não existam mais dores, onde reine a verdade e a eternidade.”

Agostinho de Hipona foi aquele que, com coração e mente inquietos, sofreu as tribulações de uma vida sem sentido. Suas dores eram tão fortes que atingiam sua carne. Conheceu o pior dos sofrimentos: não aquele que somente fere o corpo, transitório, mas aquele que dói na alma. Concebe então, dentro da dualidade de que falei, a morte como "a punição comum do gênero humano; ninguém escapa ao decreto pronunciado sobre todos: ‘tu és pó e ao pó hás de voltar’." Mas não para por aí, pois por meio do perdão, que ele próprio encontrou em seu contato com Cristo nas Escrituras e na sua Igreja, também nas incansáveis orações de sua santa mãe, tem a certeza de que a vida não termina na morte, mas na visão de Deus em seu trono: “Ali veremos, amaremos, louvaremos. Eis o fim sem fim.”

Continuação

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Vox Ecclesiae: O Canto Gregoriano como Herança e Regra da Fé II

Durante séculos a igreja dedicou-se, por meio de alguns dos maiores nomes da música ocidental, a buscar a maior intimidade possível entre as diversas partes da ação litúrgica, comunitária por excelência. O canto gregoriano continua ocupando o primeiro posto daquilo que mais aproxima o povo do mistério celebrado. Com ele, as palavras proferidas, as orações e o canto entram em tal sintonia que verdadeiramente tornam-se um só: o canto se torna a oração do povo.

Aqui um pequeno excurso: o Concílio afirma que o canto na liturgia deve favorecer uma participação ativa da assembleia na celebração. A palavra "ativa" é aqui compreendida de modo ambíguo. O brasileiro, como característica do povo, a entende como fazer algo, externamente, visivelmente. De modo que, cantar algo que a assembleia não conheça e não consiga cantar exatamente como o coro, está errado. Essa concepção é equivocada por vários fatores: se podemos cantar apenas aquilo que é conhecido, em algum ponto do passado cantou-se algo desconhecido para que o povo aprendesse, então por qual razão não se pode inserir novas, ou melhor ainda, antigas composições que lamentavelmente caíram em desuso, de modo a torná-las novamente conhecidas? Quem disse que a única coisa ativa na liturgia é o exterior, aquilo expresso em voz alta? Aquele que escuta a música, como escuta a leitura e a proclamação do Evangelho, pode e deve, unir-se por meio da oração, seja vocalizada ou interior. 

Quem defende que apenas os gestos exteriores são válidos estaria invalidando a própria presença real de Cristo na Eucaristia, afinal, como canta Santo Tomás, "na cruz se escondia sua divindade, mas aqui também se esconde sua humanidade." Se formos crer apenas no que é visto, como acreditaremos no mistério da Eucaristia. 

Vox Ecclesiae: O Canto Gregoriano como Herança e Regra da Fé I

Com toda a agitação que nos rodeia, falar sobre beleza ou, de modo mais específico ainda, de uma música sagrada, talvez seja algo até mesmo absurdo para alguns. Entretanto, justamente por conta dessa absurdidade, que é símbolo de algo muito maior e mais importante que perdemos, é que se torna necessário falar. Ou melhor, silenciar e depois falar. 

De um lado podemos imaginar não um mosteiro, não sou um idealista, mas uma igreja em que as pessoas chegam em silêncio, ajoelham-se ou sentam em oração. Rezam um terço se chegam muito cedo ou algumas breves jaculatórias de modo a preparar o coração para o mistério celebrado. De outro, temos uma comunidade em que todos chegam às pressas, inclusive a própria equipe que prepara a missa. Os ministros correm com os vasos da credência, os acólitos se trombam e discutem sobre quem desempenhará qual função, os músicos ensaiam poucos minutos antes da celebração e, enquanto isso, toda a assembleia, se encontrando ali após uma semana, resolve colocar a conversa em dias. A segunda realidade é, na verdade, a regra que seguimos. Portanto, falar de música sacra é, antes de tudo, falar de ordem. 

São Bernardo de Claraval aponta a Beleza e a ordem como caminhos para Deus. Para ele “a alma é conduzida por meio da beleza sensível à beleza invisível.” Embora não trate diretamente de música litúrgica, oferece uma fundamentação estética que sustenta sua importância. Já tratei da ordem, bem como da estética, em outras ocasiões, querendo me deter aqui na música como um dos aspectos dessa beleza que deve conter a música na Liturgia.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

A Estética da Revelação: Fundamentos Patrísticos e Tomistas da Beleza na Liturgia

 “Tarde te amei, Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei.” (Santo Agostinho)

Se observamos as paróquias do nosso Brasil há um descolamento completo entre a doutrina e a arte. As construções são pavorosas: apelam ao grotesco externo e ao pauperismo interno. E Joinville, por exemplo, pela influência das fábricas, muitos acham que é interessante colocar esses traços nas igrejas. Em Brasília, o modernismo arquitetônico que dominou a Europa do pós-guerra transformou o que deveria ser uma cidade planejada num verdadeiro show de horrores a céu aberto, e ainda somos obrigados a dizer que aquilo é bonito. O resultado são verdadeiras aberrações. Ambientes que, em nada, favorecem a virtude. Internamente não há mais imagens. Aqui fulguram belos ícones, mas sem nenhum respeito às leis de proporcionalidade. As cruzes se reduziram à cruz processional, que desaparece no presbitério assim como os padres em meio aos ícones gigantes, não importando se usam uma casula vermelha com brocados de ouro. 

A regra não é difícil de se entender: se os ícones são visualmente maiores que um corpo humano médio, a presença das pessoas fica achatada. Seria preferível um número maior de ícones, mas num tamanho menor, ainda que mais coloridos. Mas essa falta de planejamento cria apenas um ambiente desconfortável ao extremo. A falta de conhecimento, ou simplesmente a desonestidade de fazer as coisas conforme a própria vontade, sem levar em consideração os muitos séculos e as tradições dos diversos estilos das igrejas católicas pelo mundo, ou até mesmo as regras mais básicas da composição, só evidenciam uma presença hegemônica de um antropocentrismo pavoroso. Mas, além da minha simples opinião de liturgista que se incomoda por não ser capaz de rezar na própria paróquia, quero esboçar alguns pontos mais teológicos com relação a isso.

Se não houvéssemos abandonado a simbólica medieval das igrejas, como exposto brilhantemente pelo Prof. Olavo de Carvalho, ainda seríamos capazes de compreender um poucos das admiráveis, e um tanto misteriosas, relações entre o que nos aparece pelos sentidos e os estados da nossa alma, de modo que o belo, no campo visual e audível, e o agradável, no campo dos sabores, dos perfumes, podem induzir as pessoas a adotarem determinados estados de espírito. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Da Ordem

"As águas, que estão debaixo do céu, juntem-se num só lugar, e apareça o elemento árido. E assim se fez. E Deus chamou ao árido terra, e ao conjunto das águas chamou mares. E Deus viu que isto era bom." (Gn 1, 7-8)

O homem moderno parece cada vez mais incapaz de ler símbolos, no entanto, estes continuam a exercer influência sobre a mente, muito embora de modo difuso. Não é incomum perceber que as pessoas apenas aceitaram a confusão do mundo em que vivem, ou não conformarem de modo algum, buscando compreender uma ordem oculta por métodos próprios: Marx faz isso com a luta de classes, Jung com os arquétipos, Kant com as estruturas da razão… E tantos outros que tentam encontrar alguma ordem no caos que nos rodeia.

Aparentemente esse é um problema antiquíssimo: o caos primordial assusta o homem desde seu primeiro pensamento. O Enuma Elish, o mita da criação babilônico, já tratava de uma explicação para a origem e ordem das coisas milhares de anos atrás. Deus e forças cósmicas lutando entre si e, como resultando, usando corpos dos inimigos para criarem o mundo em que vivemos. Também os filósofos gregos trataram disso, buscando nos elementos a origem de tudo. O caos assusta, e é natural e instintivo que o homem busque uma ordem ao seu redor.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Mãe do Povo Fiel

Recentemente o Dicastério para Doutrina da Fé, atualmente chefiado pelo Cardeal Victor Manuel Fernandez, publicou a "Mater Populis fidelis - Nota doutrinal sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria" na obra da Salvação, com a aprovação do Santo Padre, o Papa Leão XVI.

Bastaram alguns instantes após a publicação da mesma e a internet começou a pulular de opinadores, em sua maioria, bradando com veemência contra o referido dicastério e também contra o Papa, citando ferozmente alguns daqueles já conhecidos jargões do tipo "o Papa só é infalível numa declaração solene (ex cathedra) e uma nota do dicastério não se enquadra como tal."

Muito embora seja verdade, o documento ainda é um ato válido, autêntico, do Magistério e, ao contrário do que muitos parecem pensar, não é a opinião aleatoriamente escrita de um teólogo formado em meia dúzia de vídeos no YouTube que o ensinaram não as bases da teologia, mas, como dito, apenas alguns jargões. O Magistério autêntico da Igreja não é, pasmem, um grupo do WhatsApp.

O próprio, em sua introdução, já explica seu principal objetivo: "Não se trata de corrigir a piedade do Povo fiel de Deus que encontra em Maria refúgio, fortaleza, ternura e esperança, mas, sobretudo, de a valorizar, admirar e encorajar;"

Algo que percebi foi que o documento revelou uma porção de "católicos protestantes" que tem o seu magistério paralelo e acham — do alto da autoridade conferida por ninguém — que podem julgar e declarar como errado um texto do Dicastério para Doutrina da Fé com aval do Papa. Aí citam algumas coisas e pronto, acham que refutaram o Papa e alguns dos bispos mais inteligentes do mundo em matéria de Cristianismo que, nos últimos trinta anos, analisaram a questão.

Com zero rigor teológico, as pessoas se acham especialistas em coisas que não são. O fato de eu gostar de futebol, não me faz um especialista. O fato de eu ler o catecismo, não me faz um teólogo. As pessoas hoje não têm rigor para ler um texto (o que me preocupa). Os comentários vêm normalmente acompanhados de: uma citação de um santo do século XVII, que a gigantesca maioria das pessoas não possuem lastro filosófico e muito menos teológico para entender. Enquanto a nota vem recheada de citações e apoiada na Tradição e no Magistério. 

De repente então uma série de pessoas ladra, com espuma nos lábios: "Nossa Senhora, corredentora nossa e Medianeira de Todas as Graças, rogai por nós!" 

A primeira vez que ouvi esse termo fora uns dez ou doze anos atrás, ainda iniciante nos estudos teológicos, e desde então só ouvia isso quando conversava com pessoas profundamente envolvidas nesses estudos. E então surpreendentemente, surgiram especialistas de todo lado, e eu sinceramente duvido que todos tenham lido mais do que uma manchete tendenciosa escrita, como sempre, em forma de denúncia contra um modernismo tenebroso.

Não nego que a fumaça do modernismo já há muito esteja na Igreja. Nos últimos anos, no entanto, os documentos raras vezes vinham com tal clareza, senão quando eram para tratar algum assunto tradicional, como a supressão da Missa Tridentina que, em sua maioria, é quem recebe a maior parte do ódio destilado pelos progressistas. Talvez por isso, pela constante presença de uma linguagem bifurcada, que sempre permitia a leitura de cada afirmação de uma forma conservadora ou progressista, o contato com um ensinamento real, resultou num estranhamento por parte do povo de Deus mais desinformado, leia-se aqui o Brasil.

Trata-se aqui de uma questão onde vigora os diversos níveis de predicação. Funciona mais ou menos assim: 

Tenho um afilhado que estuda Química e trabalha num laboratório envolvido em algumas pesquisas iniciadas por doutores nessa mesma disciplina. De vez em quanto ele fala comigo sobre suas pesquisas, e há alguns dias ele participou de um congresso onde apresentou os primeiros resultados da mesma. 

Quando ele me explica sua pesquisa, não usa de termos técnicos, complexos para o meu entendimento, já que sou de fora da área em questão. Eis o primeiro nível, aquele que se usa de figuras de linguagem, isto é, no âmbito do discurso poético, embora possa parecer estranho falar disso sobre uma pesquisa laboratorial. No entanto, é ainda um discurso poético por se valer de todas as formas de analogias e metáforas para que eu entenda.

Num segundo nível, essas analogias não são necessárias. Quando ele apresenta os dados das experiências aos seus colegas, estes possuem o entendimento necessário para compreender do que se trata, com os termos técnicos mais apropriados perfeitamente compreendidos pelo falante e pelo ouvinte.

Quando apresentado o trabalho num congresso, o expectador pode não ter familiaridade exata com aquela pesquisa em particular, mas o conhecimento geral daquela área lhe é tão suficiente que, basta uma breve introdução, para que ele possa integrar aquela pesquisa no todo da disciplina, compreendendo não apenas as consequências imediatas da mesma mas também algumas possibilidades que vão adiante e que o próprio estudante não havia considerado.

Por fim, quando meu afilhado fala aos seus orientadores, doutores em Química com anos de experiência na área e diversos projetos bem sucedidos, inclusive financeiramente, ele é que se torna aquele que não compreende completamente o que lhe é dito, pois, embora domine as suas atribuições aqui, ainda não tem aquela visão ampla e profunda do assunto, que vai desde a captação dos dados básicos até a compreensão de onde aquela pesquisa se enquadra no todo da disciplina e das diversas variações de mercado que ela envolve.

Da mesma forma, ler um documento desse, de fato tendo por destinatário o povo de Deus, há diversos níveis de compreensão do mesmo. O leitor sem a devida formação pode, sim, compreender e aceitar em seu coração, como nos ensina Santa Catarina de Sena ao tratar da obediência devida ao Magistério. O mesmo não possui linguagem profundamente técnica, embora trate de assunto teológico profundo e complexo, dado que o próprio dicastério estudou o tema por trinta anos. Teólogos mais versados, e isso exclui completamente os teólogos das seitas protestantes, compreenderão um pouco mais no âmbito das discussões mesmas da Teologia. É aos bispos e presbíteros que cabe uma compreensão maior, no todo que forma o povo cristão, explicar de modo que todos possam, com mais dignidade, como diz a nota introdutória: "valorizar, admirar e encorajar" a devoção a Nossa Senhora.

Por fim, além da já dita enorme precaução do mesmo dicastério, que analisou a obra por décadas, penso que a mesma não tenha sido publicada anteriormente, pois o papado de Francisco não era exatamente polemista, e creio que ele anteviu as eufóricas manifestações. Por outro lado, Leão prezou pela clareza sem, de modo algum, diminuir a ação da Virgem Maria, aliás pelo contrário, a exaltação da mesma é presente e contém ainda, mesmo sendo uma nota mais teologal, do carinho que a devoção desperta em nós. 

Reiterando, não se trata de impor limites ao culto a Nossa Senhora, apenas de apontar certa imprecisão terminológica que justamente obscureciam esse mesmo culto. Não se trata ainda de um esforço para que os protestantes aceitem essa parte da Igreja, pelo contrário, todas as manifestações protestantes, a despeito de qualquer aprofundamento no documento para além dos três primeiros parágrafos, mostram a completa incompatibilidade da mesma devoção com as teologias difusas do protestantismo. Qualquer coisa além disso é analfabetismo funcional, isto é, incapacidade de compreender o texto em sua totalidade, incluindo as quase duzentas citações referenciadas, ou, desonestidade intelectual. 

Que nenhuma injustiça tenha sido cometida nestas palavras. Maria, Mãe do Povo Fiel, rogai por nós.