Transcrição da aula 442 do Seminário de Filosofia do Prof. Olavo de Carvalho. Leia a Parte I.
Se o céu e a terra cantavam a glória de Deus, isso não tinha mais valor que as fantasias de um bêbado. O impacto dessa mudança foi ainda mais profundo nos países de confissão protestante, onde o ascetismo cognitivo de Galileu se mesclava a dois outros fatores para gerar o ambiente seco e severo do mundo burguês. Em primeiro lugar, o ascetismo visual que condenava como idolátrica a devoção as imagens, e de um só golpe deu um ponto final na experiência da arte sacra medieval. Se as igrejas católicas eram como livros que produzem formas visíveis de toda uma cosmologia, os templos protestantes eram apenas lugares de reunião, sem nenhum significado particular. Até hoje é assim e a coisa ainda ficou pior: esse mesmo estilo protestante invadiu também o meio católico. Hoje, qualquer edifício pode servir, porque ele não precisa obedecer a regras da simbólica cristã. Ele não precisa, em si mesmo, significar nada. Ele pode criar coisas como, por exemplo, aquela horrível Catedral de Brasília, que é um cacho de banana virado de cabeça pra baixo, e dizer que é uma catedral. Aprofundando esse assunto fica a indicação da leitura do livro do Michael Rose, "Ugly As Sin" que mostra o que fizeram com arquitetura sacra do mundo moderno.
A confluência dessas duas linhas de força que são totalmente independentes, por um lado, a ciência galilaica com a sua redução das aparências sensíveis como produto da imaginação humana e, por outro, o ascetimso o visual protestante que suprime a as imagens, suprimindo portanto, toda a estética do templo Cristão. Qualquer catedral da idade média poderia ser lida durante meses e seu conteúdo nunca acabaria. Ela contém todo um sistema cosmológico, toda a complexidade de uma riqueza extraordinária. Tanto que se pode dizer que praticamente toda a doutrina cristã está ali gravada em pedra. E isso não era assim, só porque as pessoas queriam, mas por que o próprio templo deveria documentar na sua existência física, aquilo mesmo que ele estava veiculando. Essa unidade do sentido, da forma e da experiência religiosa, tudo isso se perdeu graças a essa confluência de fatores.
A simbólica não desapareceu só da imaginação popular, mas do próprio quadro terrestre. Em segundo lugar, o predestinacionismo, que separando antecipadamente os eleitos e os condenados. Mas sem que houvesse meios de distinqui-los na vida real, só deixava ao crente a alternativa de comportar-se em público como se fosse um dos eleitos para evitar escândalo. Tornava-se então uma obrigação. Se não temos como saber se estamos eleitos ou danados mas, se eu me comportar como um danado, eu estou dando mal exemplo, então, daí eu estou danado mesmo. Então, eu tenho que me comportar como se fosse um dos eleitos, ainda que eu seja um dos danados.
A solidariedade dos santos, e dos pecadores, no sofrimento comuns do destino humano era substituída pela convivência ascética entre os eleitos que cultivavam um sacrossanto horror aos desviantes e dos réprobos. Toda a origem do moralismo é essa, ao passo que na Idade Média tinha-se toda uma mistura, uma mixórdia de santos e pecadores numa proximidade muito grande. As histórias de conversões de ladrões, assassinos, as cenas de arrependimento público, tudo isso era muito comum na idade média. De repente, não, aqui estamos nós e lá os pecadores e não nos metemos com eles.
A moral tornava-se, assim, indistinguível da decência, da austeridade no traje e na conduta, da polidez, das boas aparências. Instantaneamente a Europa se recobre de pessoas vestidas de preto. Um traje asltero sem todos aqueles adornos, aquela parafernália. Adornos que não eram só da nobreza medieval mas que marcavam toda uma estrutura de classe: pelo traje era possível saber qual era a origem social de um sujeito e até sua ocupação. Tudo isso daparece. Cria-se uma uniformidade do traje, pelo menos entre as pessoas desse certo nível social. Tudo aquilo que na era moderna, sobretudo nos meios germânicos, anglo-saxônicos, mesclando-se ao pretígio crescente da ciência da Medicina viria a formar a imagem da normalidade. Essa mesma ideia de normalidade se for buscada na Idade Média não existia, não era anormal um sujeito ser louco. Toda cidade tinha seu louco.
E um dos sintomas visíveis disso foi a mudança na indumentária. Os trajes da antiga nobreza, com seus adornos, brasões e tecidos multicoloridos, eram uma árvore genealógica, onde o observador podia identificar imediatamente pelo signo hieráldico a posição social do indivíduo, seu dever de estado e até a história da sua família. De repente, tudo isso desaparecia, sendo substituído pela uniformidade asltera dos trajes negros. Um pastor só se distinguia de um comerciante ou de um funcionário civil por algum sinal discretíssimo, por trazer uma Bíblia debaixo do braço, enquanto o outro podia trazer um livro de contabilidade.
A moderna psiquiatria assinala com um dos primeiros sinais da síndrome depressiva a desimaginação, o empobrecimento do imaginário. Como uma espécie de compensação, a imaginação se volta mais para o mundo das emoções individuais. Aí começa o gênero romântico, investigando mais as coisas da alma individual, da a intimidade, e começamos a entender de que estavam fugindo os primeiros autores e exilados alemães do Monte de Verità.
Mas a coisa não para por aí. Da antiguidade até o fim da Idade Média, os governantes, reis e imperadores, só eram reconhecidos quando sagrados pela igreja, em consonância com a noção tradicional de que Jesus dera a Pedro, e a mais ninguém, as chaves dos dois reinos: a autoridade espiritual e o poder temporal. Lutero e Calvino, que haviam rejeitado a autoridade da Igreja e não aceitavam nem mesmo a ideia de um clero, muito menos a sucessão apostólica, não tiveram remédio senão concluir e espalhar que a autoridade dos governantes civis vinha diretamente de Deus, sem intermediários. Ironicamente, mais tarde, seus discípulos inventaram, e até hoje a massa evangélica americana acredita piamente, que a Igreja Católica havia inventado o direito divino dos Reis do qual a humanidade sofredora foi liberta pela reforma. Acontece que foi a Reforma Protestante que inventou isso. Elevando assim ao sétimo céu o poder e a soberba dos governantes e, ao mesmo tempo, as igrejas protestantes, apregoando a livre interpretação pessoal da Bíblia, em vez da obediência ao Magistério e à Tradição, se esfarelava em mil seitas diversas, desarmando-se pela posterioridade contra o monstro que elas mesmas haviam criado. Colocando o governante como enviado de Deus, quando esse governante começa a oprimir o povo, já não se tem uma igreja unificada para reagir, e sim mil seitas separadas.
Não espanta que, daí por diante, o Estado Nacional foi ampliando cada vez mais seu raio de ação e usurpando áreas que, antigamente, estavam submetidas ao sagrado, como a educação e a moral. A filosofia que, nos séculos subsequentes, passou a se desenvolver na Alemanha protestante, concorreu decisivamente para que esse resultado e decerto nem Lutero e nem Calvino não o previram, nem mesmo em sonho. Immanuel Kant, 1724-1804, cavou mais fundo o abismo que Galileu havia aberto entre o conhecimento humano e o mundo. Ele acreditou ter descoberto que tudo que conhecemos reflete apenas a estrutura do nosso modo de perceber e pensar, e não necessariamente as coisas mesmas. Ele não negava a existência dessas últimas, mas afirmava que só podemos conhecer aquilo que nos chega, seja pela experiência sensível, determinada pela forma dos nossos órgãos de percepção, seja pelo nosso pensamento, que não produz senão esquemas formais derivados da estrutura da nossa razão. Nos dois casos, as coisas em si, isso é, as coisas consideradas independentemente do observador humano, ficavam de fora. Resultado: não há mais um conhecimento objetivamente verdadeiro, ficando o conhecimento adequado às exigências da razão tomado no seu mais alto patamar de desenvolvimento na situação dada.