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terça-feira, 7 de abril de 2026

Sozinho com todo mundo

a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

(Charles Bukowski)

domingo, 1 de março de 2026

Heike Monogatari - Poema de abertura

Poema que dá início ao romance épico japonês Heike Monogatari ("Conto de Heike")

Em Guiôn,o som dos sinos ressoa
 que nada permanece para sempre.
Na cor das folhas das árvores gêmeas,
a verdade: o que nasce, perece.
A arrogância não dura muito tempo,
é  sonho breve na noite vernal;
até os bravos um dia enfim tombam,
se tornam nada mais que poeira ao vento.

Tradução: Rafael Brunhara


Notas:

No original, Gion Shouja, é o templo situado em Gion, na Índia.

No original, as árvores gêmeas com folhas de Shala (sharashouju). Árvores com dois troncos crescendo em quatro direções. Diz a lenda que Buda morreu sob essas árvores, após ter alcançado o Nirvana. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

coração e mente

coração e mente

inexplicavelmente estamos sós
sós para sempre
e era pra ser
desse jeito,
não era pra ser
jamais de outro jeito -
e quando a luta com a morte
começar
a última coisa que quero ver
são
rostos de pessoas rodeando
sobre mim -
melhor apenas meus velho amigos,
as minhas próprias muralhas,
que apenas eles estejam lá.

eu fui só mas raramente
solitário.
saciei minha sede
na fonte
que há em mim mesmo
e este foi um bom vinho,
o melhor que já provei,
e essa noite
sentado
olhando pra escuridão
agora finalmente compreendo
a escuridão e a
luz e tudo que há
entre elas.

chega uma paz no coração
e na mente
quando aceitamos o que
há:
ao nascer
nessa
vida estranha
nós temos que aceitar
o desperdício de aposta que são nossos
dias
e obter alguma satisfação no
prazer de 
deixar isso tudo
para trás.

não chore por mim.

não sofra por mim.

leia
o que escrevi
depois
esqueça
tudo.

beba da fonte
que há em você
e comece
de novo.

(Charles Bukowski) 

"As relações humanas nunca funcionavam mesmo. Só as primeiras duas semanas tinham alguns tchans; a partir daí, os parceiros perdiam o interesse. Caíam as máscaras e as verdadeiras pessoas começavam a aflorar: maníacas, imbecis, dementes, vingativas, sádicas, assassinas. A sociedade moderna tinha criado seres à sua imagem e semelhança e eles se festejavam mutuamente num duelo com a morte, dentro de uma cloaca. Eu já tinha notado que a duração máxima de uma história entre duas pessoas era de dois anos e meio. O rei Mongut do Sião tinha nove mil esposas e concubinas; o rei Salomão, do Velho Testamento, tinha 700 esposas; Augusto, o Forte, da Saxônia, tinha 365 mulheres, uma pra cada dia do ano. Segurança em números."

(Charles Bukowski)

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

A Montanha da Verdade II


Transcrição da aula 442 do Seminário de Filosofia do Prof. Olavo de Carvalho. Leia a Parte I.

Se o céu e a terra cantavam a glória de Deus, isso não tinha mais valor que as fantasias de um bêbado. O impacto dessa mudança foi ainda mais profundo nos países de confissão protestante, onde o ascetismo cognitivo de Galileu se mesclava a dois outros fatores para gerar o ambiente seco e severo do mundo burguês. Em  primeiro lugar, o ascetismo visual que condenava como idolátrica a devoção as imagens, e de um só golpe deu um ponto final na experiência da arte sacra medieval. Se as igrejas católicas eram como livros que produzem formas visíveis de toda uma cosmologia, os templos protestantes eram apenas lugares de reunião, sem nenhum significado particular. Até hoje é assim e a coisa ainda ficou pior: esse mesmo estilo protestante invadiu também o meio católico. Hoje, qualquer edifício pode servir, porque ele não precisa obedecer a regras da simbólica cristã. Ele não precisa, em si mesmo, significar nada. Ele pode criar coisas como, por exemplo, aquela horrível Catedral de Brasília, que é um cacho de banana virado de cabeça pra baixo, e dizer que é uma catedral. Aprofundando esse assunto fica a indicação da leitura do livro do Michael Rose, "Ugly As Sin" que mostra o que fizeram com arquitetura sacra do mundo moderno. 

A confluência dessas duas linhas de força que são totalmente independentes, por um lado, a ciência galilaica com a sua redução das aparências sensíveis como produto da imaginação humana e, por outro, o ascetimso o visual protestante que suprime a as imagens, suprimindo portanto, toda a estética do templo Cristão. Qualquer catedral da idade média poderia ser lida durante meses e seu conteúdo nunca acabaria. Ela contém todo um sistema cosmológico, toda a complexidade de uma riqueza extraordinária. Tanto que se pode dizer que praticamente toda a doutrina cristã está ali gravada em pedra. E isso não era assim, só porque as pessoas queriam, mas por que o próprio templo deveria documentar na sua existência física, aquilo mesmo que ele estava veiculando. Essa unidade do sentido, da forma e da experiência religiosa, tudo isso se perdeu graças a essa confluência de fatores.

A simbólica não desapareceu só da imaginação popular, mas do próprio quadro terrestre. Em segundo lugar, o predestinacionismo, que separando antecipadamente os eleitos e os condenados. Mas sem que houvesse meios de distinqui-los na vida real, só deixava ao crente a alternativa de comportar-se em público como se fosse um dos eleitos para evitar escândalo. Tornava-se então uma obrigação. Se não temos como saber se estamos eleitos ou danados mas, se eu me comportar como um danado, eu estou dando mal exemplo, então, daí eu estou danado mesmo. Então, eu tenho que me comportar como se fosse um dos eleitos, ainda que eu seja um dos danados. 

A solidariedade dos santos, e dos pecadores, no sofrimento comuns do destino humano era substituída pela convivência ascética entre os eleitos que cultivavam um sacrossanto horror aos desviantes e dos réprobos. Toda a origem do moralismo é essa, ao passo que na Idade Média tinha-se toda uma mistura, uma mixórdia de santos e pecadores numa proximidade muito grande. As histórias de conversões de  ladrões, assassinos, as cenas de arrependimento público, tudo isso era muito comum na idade média. De repente, não, aqui estamos nós e lá os pecadores e não nos metemos com eles. 

A moral tornava-se, assim, indistinguível da decência, da austeridade no traje e na conduta, da polidez, das boas aparências. Instantaneamente a Europa se recobre de pessoas vestidas de preto. Um traje asltero sem todos aqueles adornos, aquela parafernália. Adornos que não eram só da nobreza medieval mas que marcavam toda uma estrutura de classe: pelo traje era possível saber qual era a origem social de um sujeito e até sua ocupação. Tudo isso daparece. Cria-se uma uniformidade do traje, pelo menos entre as pessoas desse certo nível social. Tudo aquilo que na era moderna, sobretudo nos meios germânicos, anglo-saxônicos, mesclando-se ao pretígio crescente da ciência da Medicina viria a formar a imagem da normalidade. Essa mesma ideia de normalidade se for buscada na Idade Média não existia, não era anormal um sujeito ser louco. Toda cidade tinha seu louco. 

E um dos sintomas visíveis disso foi a mudança na indumentária. Os trajes da antiga nobreza, com seus adornos, brasões e tecidos multicoloridos, eram uma árvore genealógica, onde o observador podia identificar imediatamente pelo signo hieráldico a posição social do indivíduo, seu dever de estado e até a história da sua família. De repente, tudo isso desaparecia, sendo substituído pela uniformidade asltera dos trajes negros. Um pastor só se distinguia de um comerciante ou de um funcionário civil por algum sinal discretíssimo, por trazer uma Bíblia debaixo do braço, enquanto o outro podia trazer um livro de contabilidade. 

A moderna psiquiatria assinala com um dos primeiros sinais da síndrome depressiva a desimaginação, o empobrecimento do imaginário. Como uma espécie de compensação, a imaginação se volta mais para o mundo das emoções individuais. Aí começa o gênero romântico, investigando mais as coisas da alma individual, da a intimidade, e começamos a entender de que estavam fugindo os primeiros autores e exilados alemães do Monte de Verità.

Mas a coisa não para por aí. Da antiguidade até o fim da Idade Média, os governantes, reis e imperadores, só eram reconhecidos quando sagrados pela igreja, em consonância com a noção tradicional de que Jesus dera a Pedro, e a mais ninguém, as chaves dos dois reinos: a autoridade espiritual e o poder temporal. Lutero e Calvino, que haviam rejeitado a autoridade da Igreja e não aceitavam nem mesmo a ideia de um clero, muito menos a sucessão apostólica, não tiveram remédio senão concluir e espalhar que a autoridade dos governantes civis vinha diretamente de Deus, sem intermediários. Ironicamente, mais tarde, seus discípulos inventaram, e até hoje a massa evangélica americana acredita piamente, que a Igreja Católica havia inventado o direito divino dos Reis do qual a humanidade sofredora foi liberta pela reforma. Acontece que foi a Reforma Protestante que inventou isso. Elevando assim ao sétimo céu o poder e a soberba dos governantes e, ao mesmo tempo, as igrejas protestantes, apregoando a livre interpretação pessoal da Bíblia, em vez da obediência ao Magistério e à Tradição, se esfarelava em mil seitas diversas, desarmando-se pela posterioridade contra o monstro que elas mesmas haviam criado. Colocando o governante como enviado de Deus, quando esse governante começa a oprimir o povo, já não se tem uma igreja unificada para reagir, e sim mil seitas separadas. 

Não espanta que, daí por diante, o Estado Nacional foi ampliando cada vez mais seu raio de ação e usurpando áreas que, antigamente, estavam submetidas ao sagrado, como a educação e a moral. A filosofia que, nos séculos subsequentes, passou a se desenvolver na Alemanha protestante, concorreu decisivamente para que esse resultado e decerto nem Lutero e nem Calvino não o previram, nem mesmo em sonho. Immanuel Kant, 1724-1804, cavou mais fundo o abismo que Galileu havia aberto entre o conhecimento humano e o mundo. Ele acreditou ter descoberto que tudo que conhecemos reflete apenas a estrutura do nosso modo de perceber e pensar, e não necessariamente as coisas mesmas. Ele não negava a existência dessas últimas, mas afirmava que só podemos conhecer aquilo que nos chega, seja pela experiência sensível, determinada pela forma dos nossos órgãos de percepção, seja pelo nosso pensamento, que não produz senão esquemas formais derivados da estrutura da nossa razão. Nos dois casos, as coisas em si, isso é, as coisas consideradas independentemente do observador humano, ficavam de fora. Resultado: não há mais um conhecimento objetivamente verdadeiro, ficando o conhecimento adequado às exigências da razão tomado no seu mais alto patamar de desenvolvimento na situação dada. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Montanha da Verdade I

Transcrição da aula 442 do Seminário de Filosofia do Prof. Olavo de Carvalho, com adaptações e comentários meus (em itálico).

As pessoas, em geral, não conseguem suportar situações que lhes pese a consciência por muito tempo. Ou se acostumam com ela ou lutam contra veementemente, não raras vezes, desenvolvendo neuroses no caminho. Não é difícil notar o ambiente opressivo em que vivemos, das mais diversas formas: a cada esquina alguém aparece com uma fórmula para salvar o mundo. Vivi isso muito recentemente quando, ao ir ao médico e ele apontar algumas deficiências no meu exame de sangue, as recomendações que recebi prontamente foram inúmeras: alguns disseram que eu deveria mudar minha dieta imediatamente e fazer exercício, outros disseram que o tratamento do médico, a reposição pontual daquilo que necessitava, era apenas um paliativo, e que eu devia buscar na medicina chinesa a alternativa natural para tratar todo meu ser. Comecei a tomar várias cápsulas de remédios naturais, na promessa de, equilibrar o organismo. Depois de algum tempo outra pessoa disse que isso não era natural o suficiente e que eu deveria preparar eu mesmo cada dose do que tomaria. E aí eu desisti ou, em pouco tempo, estaria numa fazendo cultuvando meu próprio alimento sem agrotóxicos e, ainda assim, com deficiência de vitaminas.

Bem, essa introdução é, na realidade, uma anotação. Meus estudos sempre foram baseados na minha memória, mas, recentemente, tenho visto um declínio da mesma, e como esse tema me é caro, quis condensar aqui alguns ensinamentos do Prof. Olavo, de modo que, uma vez registrados, possa voltar a eles mais tarde. Com exceção do próprio Professor, nunca ouvi ninguém falar sobre o Monte Veritá. 

Como introdução a esse tema ele indica no livro do Hermann Hesse, "Pequeno Mundo", em que há um conto chamando O Reformador do Mundo, contendo um resumo bastante esquemático da experiência que o próprio autor teve nesse lugar e que, de certo modo, revela também a experiência que muitos tiveram, revelando muito sobre o espírito da época. Não sendo um dos grandes escritos dele, é esquemático demais, dando a impressão de que ele anotou o assunto para retomar depois, servindo como documentação para esse estudo. 

O conto diz respeito de um jovem que se forma na faculdade de Belas Artes com o desejo de se tornar um crítico de arte, e acaba se decepcionando com a vulgaridade do meio que encontrou, sendo que ele desejava ter contato com a alta expressão de valores autênticos. Ao mesmo tempo então em que ele conhece uma moça muito culta e séria com quem tem longas conversas e por quem acaba se apaixonando, ele também toma conhecimento de uma série de comunidades que propõe um novo estilo de vida, estilo esse que se caracteriza pelo vegetarianismo, pela liberdade sexual, por alguns pendores anarquistas e socialistas, tudo junto, e que se distinguem do resto da sociedade por meio de sua indumentária: usam túnicas no estilo romano, sandálias feitas eles mesmos e que tentam voltar a uma espécie de simplicidade natural, ou que lhes parecia natural. 

Essa busca do retorno à natureza é uma coisa que sempre reaparece, como observou muito bem o historiador Martin Green, que todo fim de século retorna esse tema da volta à natureza. Então em 1790, 1890, em 1990 de novo. Por outro lado, a próprio preocupação com o espírito da época é um sinal do espírito da época, porque nós não temos sinal de nenhuma outra época, anterior ao século XVIII, que se preocupasse com o seu próprio espírito: qual é o sentido desta época, para onde nós estamos indo? E, sobretudo, esse hábito de falar em nome da humanidade, usando o, a primeira pessoa do plural: "Nós estamos indo. Nós estamos experimentando isto." "Nós" quer dizer, vagamente, a humanidade inteira, mas não temos o menor sinal de que as pessoas que falam dessa maneira, tenham pesquisado a opinião pública para saber se todos nós pensamos assim. Então, fica no ar a famosa pergunta: "a gente quem, cara pálida?" Uma coisa pode ser boa para você mas o outro pode estar sentindo outra completamente diferente. Portanto esse estilo de avaliar a nossa situação como o espírito da época se torna ele próprio um sinal da época. E isso se repete de tempos em tempos e tem se tornado uma constante cada vez mais intensa. O número de pessoas que falam a respeito do nosso destino, das nossas vidas é cada vez maior.

sábado, 5 de abril de 2025

Friedrich Nietzsche, em O Anticristo e Ditirambos de Dionisio

Existem pessoas que, perante o abismo, dão um sorriso; em seus olhos, a luz de quem viu na queda uma dança. São aqueles que mergulham sem hesitação no labirinto, que caminham sobre a linha da navalha sem o receio de se ferir, pois cada corte é um prêmio e cada cicatriz, um canto que só eles compreendem. Para esses indivíduos, o fardo do mundo é um passatempo, e a dor, um instrumento a carne se torna dura, a alma se afia. Eles procuram no desafio o prazer da vitória, não em relação aos demais, mas em relação a si mesmos, naquela constante e acirrada batalha de superação.

Eles reverenciam a ascese como se respirasse, não para negar a vida, mas para absorvê-la integralmente, em sua dor e sua beleza.

São aqueles que veem na autossuperação uma alegria sagrada, os mais leves sob as mais pesadas responsabilidades, e os mais felizes mesmo perante as sombras. O conhecimento é seu campo de batalha, e a conquista de si mesmo, sua dádiva.

"Os homens mais inteligentes, sendo os mais fortes, encontram sua felicidade onde outros encontrariam apenas desastre: no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, nas experiências, no esforço; seu prazer está na autossuperação. Sua alegria é a autoconquista: o ascetismo se torna natureza, necessidade e instinto. Tarefas difíceis são um privilégio para eles; brincar com cargas que esmagam os outros, uma recreação. Conhecimento: uma forma de ascetismo. Eles são o tipo de homem mais venerável: isso não os impede de serem os mais alegres e os mais bondosos."

Friedrich W. Nietzsche, In 'O Anticristo e Ditirambos de Dionísio'.


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Foi assim que Nietzsche enlouqueceu

LAUTIR

O filósofo estava ali, no meio da rua, vendo um cavalo ser espancado e algo dentro dele quebrou. Não foi o som de um chicote no ar, mas o estalo da sua própria mente cedendo. Ele correu, abraçou o animal e, naquele momento, todo o peso da sua filosofia colidiu com a realidade brutal. 

O homem que pregava o além do homem desmoronava diante da fragilidade de uma criatura indefesa. E aqui vem o ponto que Nietzsche nos deixou de legado: A vida é um caos e a mente mais ainda. Ele acreditava que o olhar ao abismo era inevitável, mas ninguém avisou que o abismo poderia olhar de volta.

Naquele abraço desesperado, Nietzsche não estava só salvando o cavalo, ele estava tentando salvar a própria humanidade da loucura que sempre espreita. Como alguém que passa anos pregando a superação, ele foi confrontado com a sua própria impotência. A mente que nos deu - assim falou Zaratustra, agora era apenas silêncio e delírio, e o que Nietzsche tanto tentou expor, o medo de se perder na própria busca por sentido, o engoliu. 

Ele mostrou até os mais fortes podem ruir quando confrontados com a realidade nua e crua. No fim, o que restou foi o eco daquilo que ele sempre sofreu, mas que talvez não quiser se admitir. Quando você luta contra os monstros, deve tomar cuidado para não se tornar um. 

E claro, às vezes, o maior monstro é o próprio peso dos nossos pensamentos. 

A sabedoria do homem é loucura para Deus!

Essa cena marcante da vida de Nietzsche, onde ele abraça o cavalo espancado nas ruas de Turim, é uma poderosa metáfora do colapso de uma mente que passou a vida desafiando os limites da existência humana. Nietzsche, que tanto falou sobre o Übermensch (além do homem) e sobre a necessidade de transcender as fraquezas humanas, encontrou-se, naquele momento, frente à brutalidade do mundo e à fragilidade da vida. O homem que escreveu sobre o "eterno retorno" e sobre o "niilismo" experimentou, ali, sua própria fraqueza — a fragilidade inerente a todo ser humano.

Esse episódio não foi apenas uma manifestação de empatia pelo cavalo; foi o clímax de um filósofo que olhou para o abismo e, em algum ponto, deixou o abismo consumi-lo.

(Irvin D. Yalom)

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Fastidio

Nada é mais fastidioso do que disputar com argumentos e explicações com alguém, empregar todo o esforço para convencê-la supondo lidar meramente com o seu entendimento, — para ao fim descobrir que ela não quer entender; portanto, lidávamos com a sua vontade, que se furtava à verdade e arbitrariamente lançava mão de mal-entendidos, chicanas, sofismas, entrincheirando a si mesma atrás do seu entendimento e sua pretensa falta de intelecção. Nada se conseguirá com tal indivíduo: pois argumentos e demonstrações empregados contra a vontade são como o impacto das imagens de um espelho côncavo projetadas contra um corpo sólido. Daí a expressão frequentemente repetida: Suo pro ratione voluntas. — A vida cotidiana fornece provas suficientes do que foi dito. Mas infelizmente elas também são encontradas no domínio das ciências. Em vão espera-se o reconhecimento das verdades mais importantes e das realizações mais raras daqueles que têm interesse em não deixá-las valer, seja porque contradizem aquilo que eles mesmos ensinam diariamente, seja porque não lhes é permitido utilizá-las e difundi-las, ou, se não for assim, porque a palavra de ordem dos medíocres sempre será: Si quelqu'un excelle parati naus, qu'il aille exceller ailleurs; que foi como Helvetius reproduziu maravilhosamente o provérbio dos efésios do Quinto Livro tusculano de Cícero (c. 36); ou, como no dito do abissínio Fit Arari: “O diamante está proscrito entre os quartzos”. Assim, quem espera uma justa apreciação das próprias realizações desse sempre numeroso bando, encontrar-se-á enganado, e talvez por instantes não possa absolutamente compreender o comportamento deles; até que por fim se dá conta de que, enquanto dirigia-se ao conhecimento, lidava com a vontade, portanto, encontrava-se por inteiro na situação acima descrita, sim, assemelhando-se àquele que apresenta seu caso diante do tribunal cujos membros foram todos corrompidos. Mas em situações particulares obterá a mais conclusiva prova de que era a vontade e não a intelecção deles o que se lhe opunha: a saber, quando um ou outro deles decide-se pelo plágio. Com o que então verá com assombro quão finos conhecedores são, com tato apurado para o mérito alheio, e quão habilmente descobrem o melhor; assemelhando-se aos pardais que jamais perdem as cerejas mais maduras.

(Arthur Schopenhauer – O Mundo como Vontade e como Representação Tomo II II 254-255)

sábado, 10 de junho de 2023

Eu, Flaubert e Caio

"(...) A melancolia é um prazer sensual deliberadamente provocado. Quantas pessoas se fecham para ficar mais tristes, ou para chorar à beira de um riacho, ou escolher um livro sentimental! Estamos constantemente construindo e desconstruindo a nós mesmos." (Gustave Flaubert)

X

Não sei dizer bem o que tem acontecido comigo nos últimos dias. Achei que após uma boa noite de sono eu acordaria me sentindo melhor mas isso não aconteceu. Tenho estado com a paciência curta, evitado contato e em silêncio, não contemplativo mas emburrado mesmo, tudo tem me irritado. Hoje não me animo com nenhuma música, nem com fotos e nem conversas. Não sei dizer o que poderia me animar. Ontem ainda pensei em tomar uma garrafa de vinho antes de dormir mas, no fim das contas, acabei deitado e adormecendo de qualquer jeito, sem nem coragem de levantar e a perspectiva do vinho, ou de conversar com alguém, tudo me causava desconforto. 

Talvez seja efeito da minha recente resolução, sobre a qual já falei algumas vezes aqui e que parece ter tomado grandes proporções no meu peito... Acho que eu só queria poder ficar mais deitado. A verdade é que hoje eu estou absurdamente chato, no sentido mais amplo do termo, insuportável até mesmo para mim. 

Hoje já não quero consolo, pois meu amor já não existe, nem beijos ou abraços, quero apenas o silêncio e o escuro. Queria dormir o dia todo, sem me importar com nenhuma mensagem ou com que roupa eu vou usar. Se bem que em casa também tem toda aquela bagunça, e a incompreensão da família em achar que eu tô no auge da vida enquanto eu acho que tô pouco acima do fundo do poço. Até meus colegas de trabalho dizem que, alguns dias, eu chego com "cara de morte" e, bem, é assim que eu me sinto mesmo, não acho que tenha problema em demonstrar isso. Carrego comigo o olhar indiferente e indolente de um idiota, enxergando o futuro com pessimismo e desesperança, uma profunda desesperança que, se a cidade inteira ruísse hoje mesmo, se eu caísse doente de morte, ainda seria um cenário mais bonito do que o que eu imagino e vislumbro. 

Talvez mais tarde aceite aquela garrafa de vinho ou um tiro na perna. Não sei mais diferenciar uma coisa da outra. Tem uma xícara bem grande café fumegante ao meu lado mas eu sei que não é o bastante. Pelo menos a estação já está um pouco mais fresca. 

X

"Reconheço, estou em desequilíbrio, estou me distanciando cada vez mais. Faço este esforço até quem sabe alcançar um ponto tão remoto que não saberei jamais encontrar o caminho de volta, se existe um, e penso que não. Ao pé da escada ele me espera, braços abertos, parado sobre o tapete. Tem o peito largo, sinto, ao afundar de encontro a ele essa parte minha sem forma a que acostumei chamar de face, seus braços podem dobrar-se apertando minhas costas enquanto sinto seu cheiro, esse cheiro espesso de sal, algas, corais, medusas, águas-marinhas. Quero perder-me nele, como o que nunca terei... fecho também meus braços em torno de suas costas, aproximando-o de mim para que nossos dois corpos se confundam, para que nossos cheiros se misturem, para que pelo menos por um segundo sejam, eu, ele, uma coisa única..." (Caio Fernando Abreu)

~

Imagem: Casey Childs

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

E agora, José?

 E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio — e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?


(Carlos Drummond de Adrande)

sábado, 20 de junho de 2020

Quando eu os seus cabelos afagava

O que isso significou? É complicadíssimo, tentar entender as razões por detrás das ações de algumas pessoas. E, além disso, quanto mais perto estamos de algo, mais difícil fica de vê-lo. Hoje é um desses dias, que me sinto confuso por estar tão próximo e, ao mesmo tempo, tão distante. 

Eu sempre tentei entender, o que significa cada gesto dele, cada palavra, cada sorriso, cada abraço apertado e demorado. Mas eu nunca entendi. Ou talvez eu entendesse e me recusasse a aceitar isso, medo do conhecimento por presença, fuga da realidade. 

Talvez porque eu sei que, no fundo, cada uma das ações dele são sim de carinho, mas apenas isso. Um abraço, para ele, é um abraço de carinho num amigo, em alguém com quem compartilhou momentos difíceis e também sorrisos. Mas não é como para mim que um abraço significa um encontro íntimo entre dois corações. Considero o abraço uma proximidade quase maior do que a do sexo em muitos aspectos, inclusive. 

Tentei não pensar muito nisso hoje, e apenas aproveitar o tempo em sua companhia. O abraço, que foi apertado e demorado como sempre, me aqueceu, mas não me fez perder o equilíbrio como antes, muito embora ele tenha me jogado na cama depois disso, mas acho que não vem ao caso. O sorriso e as brincadeiras, o carinho que fiz em sua cabeça enquanto estava no meu colo. Carinho, carinho entre amigos. É só isso e nada mais. E isso não é algo ruim! É isso que eu preciso entender. Compreender que é essa a forma que ele tem de me amar, e que eu preciso amá-lo da mesma forma. Se meu amor é verdadeiro, deve adaptar-se as necessidades do amado, e se ele precisa de um amigo, que seja eu o seu melhor amigo. 

Em meu peito florido
Que, inteiro,
Para ele só guardava.

Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da meia a brisa amena.
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena,
Em meu colo soprava.

E meus sentidos todos transportava.
Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado

Tudo cessou. Deixei-me.
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.*

Nos afastamos, para uma distância segura, de forma a não perder o contato, mas nunca com aquela intimidade de antes. Mas, mesmo que algo tenha se quebrado entre nós, algo que nunca poderá ser recuperado, ainda existe um laço que nos une, e eu pude ver isso com clareza hoje. Ainda há algo, e esse algo é a amizade, sempre o foi, e não pode ser outra coisa. Quanto tempo levei pra perceber... 

E no fim, a despedida. Outro abraço, sorrisos e promessas de novos encontros. Sem o peso do desejo, sem a dor do adeus, porque não foi um adeus, mas uma té logo. Mesmo que ainda existam pontos a serem acertados, dúvidas esclarecidas arraigadas no mais profundo dos nossos corações, num abismo tão profundo que sequer é tocado pela luz, mesmo eu ainda me sentindo confuso com isso, com o que pode ter sido tudo isso. Pode não ter sido nada, mas e se tiver mil motivos por trás que eu não consegui ver por estar perto demais?... Mesmo assim as coisas se mantiveram de pé. Mas deveria ser assim? Não deveria ser um recomeço? Ou estou certo em encarar as coisas como parecem ser?

Como as flores à deriva no céu azul, 
eu me lembro de nossa juventude destemida
Gusu alegra-se com a primavera mais uma vez
Montanhas fugazes além das nuvens
Fiapos brancos pavimentando um caminho para o meu desejo
Mesmo que você tenha ido embora, 
meu coração congelado ainda está para derreter

Sementes de lótus encharcadas na chuva
Postes de bambu passando livremente, quem pegou?
Em todos esses momentos agridoces, você os cumprimenta com um sorriso

Então é assim que é, você é o único que eu mantenho nas minhas memórias
Como esses sentimentos podem ser evitados?
Juntos podemos compartilhar nossa tristeza e felicidade?
Você manteve seu coração de cristal durante todas as tempestades

As pessoas dizem que você é desobediente e livre
Mas por trás de tudo isso, você estava mergulhado no caos
Um pequeno barco navegando em um rio enevoado
Quem assistiu como Yunmeng se afogou em chamas?
De repente, eu estou acordado quando as miragens desaparecem

Três mil regras deste mundo não poderiam ser comparadas 
a um pote meio vazio do sorriso do imperador
Quem ficou bêbado com isso?
A cítara está agora em silêncio, esses sentimentos podem ser notados?

Então é assim que é, os momentos que compartilhamos passaram como um piscar de olhos
Não há necessidade de manter a tristeza do passado em seu coração
Com você ao meu lado o vinho continua quente, morte e sofrimento são apenas momentaneamente
Dez anos se passaram enquanto nossos sonhos ainda estão em chamas

Então é assim que é, você é o único que eu mantenho nas minhas memórias
Esses sentimentos não podem mais ser evitados
Juntos vamos compartilhar nossas lágrimas e risos
Eu preservarei seu coração de cristal através de todas essas tempestades**

~

*Noite Escura, São João da Cruz.
** Tradução de WANGXIAN, de Mo Dao Zu Shi (The Untamed)

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Fórmula da minha composição ideológica

Olavo de Carvalho
23 de dezembro de 1998

"Alguns leitores cobram-me uma autodefinição ideológica. Outros, mais solícitos, apressam-se em fazê-la por mim, catalogando-me seja como neoliberal, seja como anarquista, seja como conservador, seja até como fascista e o diabo a quatro. Surdo às demandas dos primeiros, que me parecem artificiais e de puro capricho, não posso, no entanto, permanecer insensível ante os esforços dos segundos, que traduzem, a olhos vistos, um anseio genuíno e profundo de suas almas, e, mais que um anseio, uma necessidade vital absoluta, a qual, se não atendida, acaba por se atender a si mesma como um estômago de pobre que, desprovido de alimento, se auto digere mediante uma úlcera. Essas pessoas, com efeito, não sabendo o que fazer de suas vidas sem um catálogo ideológico de tudo, e não dispondo de informações cabais sobre a minha personalidade política, acabam por construí-la com pedaços de si mesmas, colhidos nos bas fonds dos seus respectivos subconscientes e constituídos substancialmente de temores, suspeitas, fantasias macabras e uma vasta coleção de demônios.

Não suportando mais ver tanto sofrimento inútil, nem me conformando com tamanho desperdício de criatividade que mais utilmente se empregaria no hobby literário, ao qual algumas dessas criaturas aliás se dedicam nas horas vagas de seu penoso mister catalogante, decido-me, pois, a fornecer enfim meu perfil ideológico, e não apenas meu perfil de ambos os lados mas também meu auto-retrato de frente e de costas. Direi, em suma, o que vocês querem saber, que não é necessariamente o que vocês querem ouvir.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

A morte de Inês

Que direi? que farei? Que clamarei?
Ó fortuna! Ó crueza! Ó mal tamanho!
Ó minha Dona Inês, ó alma minha,
Morta m’es tu? Morte houve tam ousada
Que contra ti podesse? Ouço-o, e vivo?
Eu vivo, e tu ês morta? Ó morte crua!
Morte cega, mataste minha vida,
E não me vejo morto? Abra-se a terra.
Sorva-me num momento: rompa-s’alma,
Aparte-se de um corpo tam pesado,
Que ma detém por força.
Ah minha Dona Inês, ah, ah minh’alma!
Amor meu, meu desejo, meu cuidado,
Minha esperança só, minh’alegria.
Mataram-te? mataram-te? tua alma
Inocente, fermosa, humilde, e santa
Deixou já seu lugar? ah de teu sangue
S’encheram as espadas? de teu sangue?
Que espadas tam crueis, que crueis mãos?
Ah como se moveram contra ti?
Como tiveram forças, como fios
Aqueles duros ferros contra ti?
Como tal consentiste, Rei cruel?
Imigo meu, não pai, imigo meu!
Porque assi me mataste? ó Liões bravos!
Ó Tigres! ó serpentes! que tal sêde
Tinheis deste meu sangue! porque causa
Vos não vinheis em mim fartas vossa ira?
Matáreis-me, e vivera. Homens crueis,
Porque não  me matastes? meu imigos,
Se mal vos merecia, em mim vingáreis
Esse mal todo. Aquela ovelha mansa
Inocente, fermosa, simples, casta
Que mal vos merecia? mas quisestes
Como imigos crueis buscar-me a morte
Não da vida, mas d’alma. Ó céus, que vistes
Tamanha crueldade, como logo
Não cahistes? Ó montes de Coimbra
Como não sovertestes tais Ministros?
Como não trema a terra, e s’abre tôda?
Como sustenta em si tam grã crueza?

(Antonio Ferreira)

quinta-feira, 5 de março de 2020

Role os dados

Se você vai tentar, vá até
o fim.
Senão, nem comece.

Se você vai tentar, vá até
o fim.
Pode ser o fim de namoros,
casamentos, relações familiares, empregos,
pode ser o fim da sua própria
sanidade.

Vá até o fim.
Pode ser que você passe fome por 3,
4 dias seguidos.
Pode ser que você passe frio deitado
no banco de um parque.
Pode ser que você seja preso.
Pode ser que você seja desprezado,
zombado,
isolado.
O isolamento é seu presente.
Todo o resto é um teste
de resistência,
pra ver o quanto você está disposto
a tentar.
E você vai fazer
apesar da rejeição e das menores chances.
E vai ser melhor que
qualquer outra coisa
que você possa imaginar.

Se você vai tentar, vá até o fim.
Até o fim.
Não há sensação como
essa.
Você vai estar sozinho com os deuses
e suas noites irão arder em
chamas.

Faça, faça.
Faça.

Até o fim,
até o fim.

Você vai cavalgar a vida direto para
o riso perfeito, essa é
a única Cruzada santa
que existe.

Charles Bukowski
V.E.C. Dias (tradução)

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Atualíssimo

''É preciso ser um cego, um idiota ou completo alienado da realidade para não notar que, na história dos últimos séculos, e sobretudo das últimas décadas, a expansão dos ideais sociais e da revolta contra a “sociedade injusta” vem junto com o rebaixamento do padrão moral dos indivíduos e com a consequente multiplicação do número de seus crimes. E é preciso ter uma mentalidade monstruosamente preconceituosa para recusar-se a ver o nexo causal que liga a demissão moral dos indivíduos a uma ética que os convida a aliviar-se de suas culpas lançando-as sobre as costas de um universal abstrato, “a sociedade”.

Olavo de Carvalho. Direto do inferno.
Jornal da Tarde, 13 de abril de 2000.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Do que mais importa

Por Olavo de Carvalho

“Mil vezes na vida eu passei pela situação onde eu perdia tudo, não sobrava nada, nada, nada. E sobrava somente uma coisa: sobrava Deus, sobrava esperança do perdão dos meus pecados e esperança na vida eterna. É só isso que eu tinha. E é só isso que eu tenho. Eu não tenho mais nada. Eu posso morrer agora mesmo e não estou nem ligando. Eu só quero uma coisa: eu quero que Deus me perdoe os meus pecados e me leve para perto d’Ele. É só isso que eu quero.

O resto não existe. O resto tudo vai passar, não é isso? Tem gente que nasce sabendo, que entende isso por sabedoria infusa. Tem outros que só aprendem na base do sofrimento, que foi o meu caso. Então, a gente vê as pessoas nesse erro, nesse caos e fica com dó. Não fico com raiva desses caras, eu fico com dó porque eu sei o que vai acontecer com eles. Eu sei que eles se vão desfazer em pó. E a gente não quer que isso aconteça para ninguém, nem pro pior inimigo.

Então é isso: a gente tem que agir sempre com o coração na mão. E só quem experimentou o sofrimento profundo, a perda de tudo, às vezes entende isso. A não ser que você nasça santo, o que não é o meu caso.

A minha vida foi uma sequência de erros medonhos. Mas eu fazia os erros e a resposta vinha, às vezes, triplicada, dez vezes pior. Então, nós não temos controle nenhum na nossa vida. A nossa vida só tem um sentido: nós estamos todos indo para a morte e para o confronto com Deus. Este é o ponto. É só isso que vai acontecer. O resto não vai acontecer. O resto é ilusão. Mas isto é fatal que aconteça. Então, quando chegar lá...o que eu quero é chegar lá e mostrar a minha santidade? – “olha Deus, como eu sou lindo”. Que nada! Eu estou chegando aqui todo sujo, todo arrebentado. Eu vi um filme, uma sequência de um filme maravilhoso. O cara pastor vai entrevistar, falar com um moribundo no hospital. Ele pergunta ao moribundo – “Você se arrepende de alguma coisa?”. Ele diz: “De tudo!” [gargalhadas do Olavo]

Essa é que é a verdade. Eu só tenho porcaria, miséria, vergonha, fracasso. É só isso que eu tenho. Agora, tenho uma coisa que os outros não têm: a gente tem Jesus. E Ele vai nos tirar do buraco. É isso que nós devemos transmitir.”

(Hangout Filosofia e Política: Olavo de Carvalho e Hermes Nery)

sábado, 19 de outubro de 2019

Uma lição que eu preciso aprender

“No Brasil há uma hostilidade ao espírito, à inteligência, à consciência. Veja, com quantos alunos eu já não tive essa experiência: o sujeito começava a estudar essas coisas e daqui a pouco ele sentia que estava ficando deslocado do seu ambiente entre os amigos, e começava a sofrer! E daí eu perguntava: “mas, escuta, por que é que você quer continuar amigo deles? Qual é o motivo? Quer dizer, você acha que um homem pode realmente seguir uma carreira de estudos, enfiar um monte de idéia na cabeça e continuar convivendo igualzinho com ignorante?! Que milagre você quer? Isso nunca aconteceu! Então, se você adquirir uma cultura, bom, você tem que procurar amigos mais cultos, ou então ficar sem ninguém – isso é a coisa mais óbvia. Agora, pro brasileiro não, ele quer continuar, 'ah, mas a garotada do bairro, a turma do time de futebol de salão, a turma do clube...'

Você imagina São Tomás de Aquino, ele saindo lá de Roccasecca, na puta que o pariu, e vai andando até a Universidade de Paris pra ser professor, e daí lá ele fica pensando ‘ah, mas o que é que a turma de Roccasecca vai pensar de mim...’ Não é possível um treco desses, porra! Esqueça o raio da Roccasecca, porra! Quer dizer, é esse atavismo, em que o sujeito tá grudado ali no bairro, na turminha, na namoradinha... O sujeito já nasce velho com saudade do seu próprio passado! Você tem uma vida pela frente pra fazer coisas, desbravar territórios, fazer coisas maravilhosas, e fica pensando nessa porcaria?! E ainda quer que eu o console?! Você sabe o que você faz com seus amigos? Manda tudo a puta que os pariu, pronto... esquece isso.

Os escolásticos já defendiam a amizade com a fórmula latina 'idem velle, idem nolle', que quer dizer: amigo é o sujeito que quer a mesma coisa que você e rejeita a mesma coisa que você. Esse é seu amigo e seu companheiro. Então você tem algo a fazer com ele, agora, se não tem nada, então é um conhecido, ao qual você pode dar toda simpatia, mas não pode esperar nada – você poder dar, não pode esperar! A gente deve ser bom com todo mundo: simpático, prestativo, com todo mundo, com um mendigo que te pára na rua, mas você não vai poder esperar manifestações afetivas dele, meu Deus do céu! Você não pode precisar dele. Agora, essa fraqueza, essa moleza afetiva brasileira, essa covardia, isso aí mata qualquer carreira intelectual. Querer conservar todos os amiguinhos de infância, a turminha do bairro, vai querer jogar bolinha de gude, brincar de carrinho de rolimã... qual é?!”

(Olavo de Carvalho)

domingo, 8 de setembro de 2019

Futuras reflexões

Alguns trechos de reflexões que encontrei por aí. Todas eles serviriam como ponto de partida para reflexões ainda mais profundas. Todas tem uma potência sugestiva muito grande, o que me faz entrar num estado de reflexão profunda que beira a loucura, mas ainda assim é algo bom. Quem sabe algum dia eu me sinta confortável em me aprofundar em cada um deles...

"Oscilando entre o cansaço mental e o desânimo existencial."


"Existe um vazio bem no âmago de nossas almas. Uma imperfeição fundamental que tem assombrado todos os seres desde o primeiro pensamento. Em um nível primitivo, o homem sempre esteve ciente da escuridão que mora no núcleo de sua mente. Temos procurado escapar desse vazio e do temor que ele provoca, e o homem procura preencher esse vazio." 

(Hideaki Anno)

"eu te amava tanto
que quando você me fazia mal,
quem pedia desculpa era eu..."

"Você nem faz ideia do quanto eu chorei pra chegar nessa versão de mim que consegue te olhar e seguir minha vida. Por mais dolorosos que sejam, amores caóticos, não duram pra sempre no peito. Eu me recompus."


"Meu erro é achar que tudo significa algo mais do que realmente é.
na verdade, nem sei direito o que tô sentindo
só sei que tem a ver com você."
[soulstripper]

sábado, 7 de setembro de 2019

Sobre gostar de ler

"[...] é óbvio que não se pode gostar de ler, é anormal gostar de ler. Você tem que ler aquilo que te interessa. A ideia de gostar de ler é um conceito errado. Ninguém gosta de ler. Tem coisas que você quer saber. Você está lendo a estória do Sherlock Holmes, está gostando de ler? Não, é porque você quer saber a estória, você está seguindo a estória, não está pensando na leitura em si. Gostar de ler não é natural, não é bom gostar de ler. É o desejo de saber. O ler é meramente instrumental. É que para um ler o outro tem que contar uma estória. Só um idiota pode gostar de ler. Se tiver um outro jeito de saber é melhor. Ler cansa os olhos, é um negócio chato para caramba. Mas o fato é que não existe outro jeito, e então você vai ler aquilo lá." 

Olavo de Carvalho

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A Invenção do Conhecimento

“Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, onde animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da ‘história universal’: mas também foi somente um minuto. Passados poucos fôlegos da natureza congelou-se o astro, e os animais inteligentes tiveram de morrer. – Assim poderia alguém inventar uma fábula e nem por isso teria ilustrado suficientemente quão lamentável, quão fantasmagórico e fugaz, quão sem finalidade e gratuito fica o intelecto humano dentro da natureza. Houve eternidades em que ele não estava; quando de novo ele tiver passado, nada terá acontecido. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta que conduzisse além da vida humana. Ao contrário, ele é humano, e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente, como se os gonzos do mundo girassem nele. Mas se pudéssemos entender-nos com a mosca, perceberíamos então que também ela boia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. Não há nada tão desprezível e mesquinho na natureza que, com um pequeno sopro daquela força do conhecimento, não transbordasse logo um odre; e como todo transportador de carga quer ter seu admirador, mesmo o mais orgulhoso dos homens, o filósofo, pensa ver por todos os lados os olhos do universo telescopicamente em mira sobre seu agir e pensar.”

Friedrich Nietzsche